INTERVENÇÃO DO NÚNCIO APOSTÓLICO CELESTINO MIGLIORE NA SEDE DAS
NAÇÕES UNIDAS SOBRE O RELATÓRIO DO CONSELHO DOS DIREITOS DO HOMEM
Nova Iorque, 5 de Novembro de 2007
Senhor Presidente
Transcorreu mais de um ano da criação do Conselho dos
direitos do homem. A minha delegação aprecia os esforços feitos para
consolidar a nova instituição e, ao mesmo tempo, observa que os desafios para
salvaguardar estes direitos se tornam cada vez mais exigentes.
No direito e na consciência moral da comunidade internacional de
hoje, a dignidade do homem apresenta-se como fonte da qual nascem todos os
direitos e deveria logicamente substituir-se à vontade soberana e autónoma dos
Estados como fundamento último de qualquer sistema jurídico, nele incluído o
sistema jurídico internacional. Trata-se portanto de um progresso irreversível,
mas contudo podemos facilmente constatar que em numerosos países, a realização
deste princípio não é acompanhada por um respeito evidente dos direitos do
homem.
Uma visão panorâmica do mundo mostra-nos que a situação dos
direitos do homem é preocupante. Se se considera o conjunto dos direitos
enunciados na Declaração universal dos direitos do homem e nos Pactos
internacionais relativos aos direitos económicos, sociais e culturais, e aos
direitos civis e políticos assim como aos demais instrumentos jurídicos
internacionais, todos eles são gravemente violados ou negligenciados em
numerosos países, infelizmente também em determinados países-membros do novo
Conselho.
Muitas vezes isto é originado pela convicção ainda muito
enraizada de que é o poder que determina, em última análise, o conteúdo dos
direitos do homem. Tal visão permite recorrer muito facilmente a práticas
irreconciliáveis com a dignidade do homem. Negar, em certas circunstâncias, o
direito à vida, pretender controlar a consciência dos cidadãos e o acesso à
informação, restringir o direito de associação, negar o acesso a um processo
judiciário público e ao direito de garantir a sua defesa, reprimir os
dissidentes políticos, impor uma política dos nascimentos que não considera a
decisão dos pais, limitar indistintamente a imigração, permitir o trabalho em
condições degradantes, aceitar a discriminação da mulher, sufocar a liberdade
religiosa; estes são apenas alguns exemplos dos direitos mais espezinhados.
O Conselho dos direitos do homem está chamado a preencher o
vazio entre o conjunto dos instrumentos jurídicos internacionais dos direitos do
homem e a realidade da sua aplicação nas diferentes partes do mundo. Todos os
Estados deveriam assumir individual e colectivamente esta grave
responsabilidade. Todos os que dele fazem parte têm em particular a
responsabilidade de honrar esta posição especial e testemunhar a sua dedicação
ao Conselho através da sua aplicação mais fiel possível dos instrumentos
jurídicos dos direitos do homem.
Senhor Presidente
O relatório do Conselho dos direitos do homem, objecto do nosso
debate, prova que as normas internacionais que protegem estes direitos são cada
vez mais explicitadas de modo a garantir o seu usufruto efectivo. A Santa Sé
aprova de bom grado o andamento de quanto é feito neste sentido e está disposta
a oferecer a sua total colaboração.
Por outro lado, actualmente um grande número de religiões
tornaram-se vítimas de troça e ultrajes: tanto contra os seus fiéis, como
contra os seus símbolos espirituais e morais. Isto constitui um fenómeno
preocupante que ameaça a paz e a estabilidade social, e causa um atentado
directo contra a dignidade do homem, sobretudo ao seu direito à liberdade
religiosa.
É desejável que o Conselho dos direitos do homem prepare e
adopte uma nova resolução que conduza ao respeito do direito à liberdade
religiosa dos fiéis de todas as religiões, sem excepção. Esta resolução deveria
também recomendar o diálogo e o debate entre os crentes das diversas religiões,
sem contudo esquecer os que não pertencem a nenhuma, como um meio concreto para
encontrar e consolidar a harmonia na paz e na cooperação. Isto fortaleceria a
credibilidade que é necessária ao Conselho sobre este tema.
Senhor Presidente
A resposta que o Conselho dos direitos do homem dará aos
desafios da liberdade em numerosos países do mundo põe em questão a
credibilidade das Nações Unidas e a de qualquer sistema jurídico internacional.
Que as suas resoluções e decisões promovam um compromisso político e social
concreto da parte de cada Estado que torna efectivo o respeito da dignidade e da
liberdade de todos os homens e mulheres.
Muito obrigado, Senhor Presidente.
|