INTERVENÇÃO DA SANTA SÉ
NA COMISSÃO PERMANENTE
DO COMITÉ EXECUTIVO DO PROGRAMA DO ALTO COMISSARIADO
DAS NAÇÕES UNIDAS PARA OS REFUGIADOS (ACNUR-UNHCR)
DISCURSO
DE D. SILVANO M. TOMASI
Genebra, 25 de
Junho de 2007
Senhor Presidente
Em primeiro lugar, a Delegação da Santa Sé congratula-se com o novo vice-Alto
Comissário e apresenta-lhe as boas-vindas, enquanto manifesta o seu apoio à
atenção constante que tem sido reservada ao tema da protecção.
O número mundial de refugiados começou a aumentar de novo, e actualmente a
população que interessa ao Departamento do ACNUR-UNHCR é superior a 32 milhões
de pessoas. Os indivíduos que são obrigados a deslocar-se constituem uma forte
lembrança dos persistentes conflitos e violações dos direitos humanos. A
Delegação da Santa Sé aprecia enormemente o serviço intrépido levado a cabo pelo
ACNUR, bem como a sua abertura a respostas criativas ao flagelo representado por
todas as pessoas que são forçadas a deslocar-se. Nesta crescente crise que
atinge as pessoas obrigadas a abandonar os próprios lares e as informações a
este propósito são concretas a complexidade das problemáticas e talvez uma certa
insuficiência de boa vontade diminuem a possibilidade de encontrar soluções.
Parecem aumentar as áreas de solicitude não bem delineadas, onde não se
conseguem utilizar os instrumentos de protecção já existentes, ou onde falta a
transparência de um mandato. Faz-se referência ao fenómeno que continua há
vários anos: a terrível perda da própria vida, na tentativa de chegar a um
porto seguro por parte de milhares de pessoas forçadas por circunstâncias
desesperadoras a procurar a sua sobrevivência fora da própria pátria.
Este fenómeno não é apenas regional. De facto, está presente na região do
Mediterrâneo, onde as pessoas procuram atravessar da África para a Europa; no
Atlântico onde, provenientes da África Ocidental, tentam chegar às Ilhas
Canárias. Outras ainda perdem a própria vida ao passarem da África Oriental para
a Península Arábica; das Ilhas do Caribe para o continente americano; do México,
através do deserto, rumo aos Estados Unidos da América; bem como em determinadas
regiões do continente asiático.
Apresentam-se questões relativas ao modo como a obrigação de salvaguardar a
comunidade internacional pode ser exercida em tais situações; se existe um vazio
normativo, no que diz respeito à protecção destas vítimas, que vão ao encontro
da morte quando procuram evadir-se de outras formas de morrer física ou
psicologicamente. O ACNUR-UNHCR deveria preocupar-se com a questão da
coordenação das forças policiais, a nível da Organização das Nações Unidas,
ressaltando esta problemática transregional, tendo em consideração novos
desenvolvimentos e empreendendo a um estudo sistemático sobre a maneira de
oferecer a salvaguarda e mesmo desenvolver um bloco de protecção específico.
Naturalmente, a longo prazo uma abordagem positiva e preventiva exigiria a
mudança das condições nos lugares de origem, mediante uma maior segurança, o
respeito pelos direitos humanos, a participação política efectiva, a criação de
postos de trabalho e um clima de paz.
Contudo, esta transformação a nível local não pode realizar-se sem a
participação da comunidade internacional, em vista de obter canais jurídicos
mais bem organizados e mais abrangentes para o movimento das pessoas, e sem
políticas agrícolas, financeiras e comerciais justas, que não tenham um impacto
negativo sobre os países mais pobres, provocando desta forma o deslocamento
forçado das pessoas.
O segundo ponto que a minha Delegação quer considerar diz respeito aos
refugiados do Médio Oriente e ao agravamento da situação representada pela
purificação das minorias étnicas e religiosas. Tem-se a impressão de que não
existe um caminho para a frente, por causa da aceitação inadequada dos casos de
necessidade relativos ao repovoamento, e também não existe um caminho para trás,
devido à impossibilidade de regressar por causa da insegurança persistente e da
rejeição da coexistência entre as diversificadas comunidades religiosas.
Particularmente os cristãos devem enfrentar uma renovada época de martírio. Além
disso, o fundo necessário para oferecer uma resposta adequada aos sofrimentos
dos refugiados iraquianos ainda não é suficientemente disponível.
Ao fazer ouvir a sua voz na recente celebração do Dia Mundial do Refugiado,
o Papa Bento XVI fez a seguinte afirmação: "Receber os refugiados e
oferecer-lhes hospitalidade constitui um dever de solidariedade humana, para que
deste modo eles não se sintam isolados por causa da intolerância e da falta de
interesse". O Papa dirigiu um apelo a fim de que o asilo e os direitos dos
refugiados sejam garantidos, e que os líderes das nações ofereçam a tutela a
todas as pessoas em necessidade. A entreajuda, tanto em termos de fundos como de
promoção do repovoamento, continua a representar um dos principais desafios, do
mesmo modo como a protecção nessa região.
Senhor Presidente
Situações críticas que dizem respeito aos refugiados e às pessoas
internamente deslocadas exigem no mundo inteiro um compromisso concreto da parte
da comunidade internacional. Trata-se de uma óbvia forma de solidariedade no
seio da família humana. Os desenvolvimentos hodiernos no vasto mundo dos
deslocamentos forçados e as consequências futuras das mudanças climáticas, que
obrigam as pessoas a migrar, requerem criatividade intelectual e programas de
acção pragmáticos, que possam oferecer uma resposta às novas exigências de
protecção.
Obrigado, Senhor Presidente!