Senhora Presidente
Por ocasião da 51ª sessão da Comissão sobre a condição das mulheres, a minha
Delegação quer elogiar o progresso alcançado em favor das mulheres ao longo dos
anos, enquanto formula votos a fim de que as realizações positivas neste campo
possam continuar, em vista de lançar um fundamento sadio e sólido para o futuro.
Não obstante, parece incongruente o facto de que, numa época em que a
sensibilidade diante das problemáticas das mulheres parece mais vigorosa do que
nunca, o mundo seja agora obrigado a confrontar-se com novas formas de violência
e de escravidão, que visam especialmente as mulheres.
Portanto, é apropriado que a Comissão tenha escolhido no corrente ano, como
seu tema prioritário, "A eliminação de todas as formas de discriminação e de
violência contra as jovens". Todos os dias são cometidas e até toleradas, em
muitos sectores, violações dos direitos das mulheres, das adolescentes e das
jovens. As mulheres carregam o peso mundial da prostituição infantil, da
exploração sexual, dos abusos, da violência doméstica, do trabalho infantil e do
tráfico humano. O comércio sexual internacional tornou-se uma indústria
importante, tão degradadora como qualquer uma das sevícias que antigamente se
cometiam contra as mulheres. Este comércio é muitas vezes silenciado, porque
considerado como uma parte das liberdades presumivelmente democráticas e porque
se encontra arraigado de maneira demasiado profunda em certos lugares ou muito
lucrativo para ser questionado; por isso, a minha Delegação aprecia o esforço
dos Estados e das Organizações que, ultimamente, progrediram na luta contra este
flagelo, chamando a atenção para o mesmo.
Os maus-tratos das mulheres constitui uma antiga realidade em muitos lugares,
enquanto o desrespeito pela faixa etária e pela vulnerabilidade de modo especial
das jovens, é particularmente repugnante. Se quisermos comprometer-nos num
processo sustentável em vista de impedir e inverter este fenómeno, os povos e as
culturas deverão encontrar uma base comum que possa servir de fundamento seguro
para os relacionamentos em toda a parte, em virtude da nossa humanidade
conjunta. Ainda existe a profunda necessidade de lutar a fim de promover a
dignidade e o valor inerentes a cada ser humano, prestando atenção especial aos
indivíduos mais vulneráveis da sociedade, que são as nossas crianças e, entre
elas, todas as jovens.
Seria bom também se examinássemos o motivo pelo qual as mulheres,
especialmente as mais jovens, são tão vulneráveis. Parece que isto se deve à
condição de inferioridade atribuída às mulheres em determinados lugares, e de
modo particular às jovens. Nalgumas tradições locais, elas são consideradas como
um peso financeiro e, deste modo, eliminadas mesmo antes de nascer.
Desta maneira o aborto, muitas vezes considerado como uma forma de
libertação, é ironicamente empregado pelas mulheres e contra as mulheres. Mesmo
aquelas às quais é concedido viver, são consideradas como se fossem uma parte da
propriedade da qual dispor quanto antes possível. Isto verifica-se em muitas
regiões do mundo, devido a tradições preconceituosas, em contraste com um
ambiente seguro e encorajador, que se deveria oferecer universalmente às jovens.
Para além dos canais de tráfico de pessoas, geralmente prósperos, também a
instituição do matrimónio é por vezes utilizada de maneira imprópria, para
atribuir uma fachada segura à exploração sexual e ao trabalho escravo, mediante
um subterfúgio conhecido como "esposas por correspondência" e "esposas
temporárias".
O comércio que deriva da exploração lucrativa das mulheres constitui um
motivo-chave nesta equação. Ninguém obtém lucros dele, a não ser os próprios
traficantes e os seus clientes. Para pôr fim à violação dos direitos humanos das
mulheres e jovens vítimas deste tráfico, não é suficiente sensacionalizar o seu
trágico flagelo; pelo contrário, é necessário fazer remontar esta problemática
ao mercado que existe em função da procura que torna tal tráfico possível e
lucrativo. Deste modo, se a razão por detrás da violência perpetrada contra as
mulheres e as jovens é sobretudo o preconceito cultural, a exploração e o lucro,
então que organismo deveria intervir para resolver esta situação?
É uma clara questão relativa aos direitos humanos, uma vez que as mulheres
vítimas do tráfico têm direito à vida e à dignidade violadas. Tanto a saúde,
como a liberdade e a segurança estão comprometidas em tais circunstâncias, sem
mencionar os direitos universais relativos à tortura, à violência, à crueldade e
às sevícias. Para as mulheres mais jovens, pode tratar-se inclusive de uma
questão de casamento forçado, de violação do direito à educação, de direito ao
trabalho e de direito à autodeterminação. Também não deveríamos limitar as
complexidades do tráfico a umas poucas convenções sociais ou hábitos, à
construção de um refúgio aqui e ali, e à reinserção social das mulheres
interessadas. É necessário encontrar formas para permitir que elas regressem aos
seus lares com segurança e sem qualquer vergonha, e não limitar a acção à sua
repatriação; e se as mulheres decidirem viajar rumo a terras estrangeiras em
busca de trabalho, devem poder fazê-lo com segurança.
A consciência crescente constitui um instrumento simples e eficaz para
combater este fenómeno a nível local. Os povoados rurais, onde a busca de um
emprego impele as adolescentes a procurarem trabalho noutras regiões, devem
descobrir como comunidade uma maneira de analisar abertamente os riscos que os
seus jovens correm. Já existem organizações de comprovada experiência, que
poderiam ajudar as comunidades neste sentido. Inclusive os políticos locais e
nacionais têm necessidade de assumir a responsabilidade que lhes compete no que
se refere às suas políticas acerca desta problemática.
A promoção das mulheres só se alcançará através da legítima reivindicação dos
seus direitos. Além disso, é preciso restabelecer no seio das nossas sociedades,
também um renovado apreço pelos valores que são autenticamente femininos.
Obrigado, Senhora Presidente!