Senhor Presidente
Para começar, a Santa Sé sente-se feliz por confirmar o seu apreço constante
pelo delicado trabalho do Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas
para os Refugiados (ACNUR-UNHCR) e de Sua Ex.cia o Senhor Guterres, na
perspectiva de proteger os diversificados grupos de pessoas que se encontram sob
o patrocínio do Alto Comissariado.
Ao longo dos anos, tem-se desenvolvido um sistema legal, adaptado às maiores
exigências de uma realidade mutável e complexa, em vista de oferecer a
salvaguarda às pessoas que dela têm necessidade. Os exemplos mais recentes são a
adopção da Conclusão sobre as mulheres e as meninas em perigo e da Conclusão
sobre a identificação, a prevenção e a redução da expatriação e do número de
pessoas expatriadas. O ACNUR-UNHCR está cada vez mais comprometido na tutela das
pessoas deslocadas no interior de uma região ou país (IDPs) e, numa perspectiva
conjunta, assume a responsabilidade de liderança para a protecção, a coordenação
e a administração dos campos de refugiados de emergência. Trata-se de mais uma
iniciativa positiva em vista de ir ao encontro das pessoas deslocadas no
interior de uma região ou país, um processo que teve início com o
desenvolvimento inovativo dos chamados princípios-guia sobre as pessoas
deslocadas no interior de uma região ou país, tendo sido motivado por uma
crescente compreensão, por parte da comunidade internacional, da sua
responsabilidade na salvaguarda dos indivíduos que se encontram em necessidade.
A realidade concreta exige uma ulterior evolução desta responsabilidade e a sua
extensão às pessoas deslocadas no interior de uma região ou país, contudo sem
perder de vista as características particulares dos refugiados, nem a sua
protecção.
A tutela exige bem mais do que uma justa estrutura legal: a cooperação e a
vontade política também são necessárias para fazer com que esta estrutura possa
funcionar de maneira conveniente. Infelizmente, parece que está a ocorrer uma
certa deterioração do conceito legal de asilo, uma vez que alguns Estados dão
preferência mais à legislação nacional ou a acordos bilaterais do que às leis
internacionais sobre os refugiados. Além disso, o acesso ao asilo tornou-se
também mais complicado, em virtude do fenómeno de fluxos mistos; e determinados
países não reconhecem nem tutelam nas suas próprias legislações os direitos
internacionalmente estabelecidos, como a liberdade de movimento, o direito ao
trabalho e o reconhecimento das respectivas qualificações.
De resto, os programas continuam a ser amplamente subestimados, dando ensejo
a uma lacuna mais profunda na assistência e na gestão dos problemas relativos
aos refugiados. As rações alimentares não correspondem aos padrões
internacionais e são com frequência reduzidas ou fornecidas de maneira
irregular, dado que nem sempre se conseguem assegurar os critérios mínimos já
aprovados de assistência à saúde, à educação, à agricultura, à promoção da renda
e aos serviços gerais.
Felizmente, alguns conflitos estão a terminar, e isto permite que as pessoas
voltem para as respectivas pátrias; quando isto acontece, é necessária uma
vigorosa cooperação conjunta entre as agências comprometidas na assistência
lenitiva e na recuperação pós-conflitual, a fim de que se possa garantir um
retorno sustentável com segurança e dignidade, juntamente com a reconstrução de
uma infra-estrutura social e económica a nível local.
Cada pessoa deveria poder exercer o direito à protecção garantido ou
restabelecido como já consta em numerosos acordos internacionais. Uma solução
duradoura para a problemática dos refugiados e para as pessoas deslocadas no
interior de uma região ou país influenciará não apenas elas mesmas mas, por
analogia, terá impacto também sobre toda a família humana. Estas normas para a
tutela dos mais necessitados deveriam ser aplicadas, segundo as circunstâncias,
nos planos nacional, regional e internacional. Os direitos e a dignidade dos
nossos irmãos sofredores em humanidade estão em perigo e, como tais, merecem a
nossa mais elevada consideração e os nossos melhores esforços, envidados na
perspectiva da sua salvaguarda.
Obrigado, Senhor Presidente!