|
SECRETARIA DE
ESTADO
DISCURSO DE D.
SILVANO TOMASI NO DEPARTAMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS POR OCASIÃO DA XIV
SESSÃO DO GRUPO DE PERITOS DOS ESTADOS-MEMBRO DA CCW
Genebra, 19 de Junho de 2006
Senhor Presidente designado
A Delegação da Santa Sé deseja expressar-lhe quanto aprecia a energia e a
competência que Vossa Excelência investe ao serviço dos objectivos da CCW, cuja
primeira e última finalidade é o respeito pela dignidade da pessoa humana antes,
durante e após os conflitos armados.
A CCW chega em 2006 a uma encruzilhada decisiva para a sua credibilidade,
evolução e eficiência. Importantes datas provarão o sentido de responsabilidade,
o pragmatismo e a criatividade dos Estados-Membro para tomar as decisões
apropriadas para um certo número de temas.
A Conferência de exame de 2006 constituirá uma etapa e um teste importantes.
A entrada em vigor do Protocolo V sobre os resíduos explosivos de guerra, cuja
realização é um desafio a ser enfrentado, é um encontro decisivo. As negociações
sobre as minas diferentes das antipessoal que passam por uma fase crítica
necessitam de abertura qualitativa. Os debates sobre as submunições correm o
risco de se tornarem eternos e é urgente dedicar um olhar renovado e colectivo a
este tema.
O sucesso de qualquer instrumento, como a CCW nesta circunstância, deveria
ser medido em relação à sua capacidade de fazer a diferença na vida das pessoas
e das comunidades classificadas para serem protegidas e promovidas. A tendência
crescente a esvaziar da sua substância os instrumentos em fase de negociação
antes de os adoptar é uma astúcia. É do interesse de todos adoptar instrumentos
exigentes, incisivos e adequados.
Senhor Presidente designado, permita que eu dedique alguns momentos à questão
das submunições que me parece prioritária. O impacto humanitário desastroso das
submunições não deve ser demonstrado. Após cerca de sessenta anos que estas
armas são usadas, as consequências são evidentes. As vítimas contam-se em
milhares, as regiões atingidas permanecem por longos anos depois do fim dos
conflitos proibidas aos deslocados e inutilizáveis para os habitantes. Em vez de
debater a evidência, seria necessário ao contrário preocupar-se com a resposta
adequada que a comunidade internacional deveria dar. Enquanto não houver esta
resposta, é anormal continuar como se o problema não existisse. Se um
consentimento demora para chegar, as vítimas actuais e potenciais não podem
esperar. Eis por que a delegação da Santa Sé reitera o seu urgente apelo para
uma moratória sobre o uso das submunições até à conclusão de um acordo sobre a
questão.
Mas isto pressupõe que entretanto seja realizado um trabalho de fundo e
debates estruturados preferivelmente no âmbito da CCW. O actual mandato é
verdadeiramente mínimo e não pode de forma alguma reflectir a urgência das
consequências humanitárias que subsistem para milhares de pessoas em numerosas
regiões do mundo. Uma atitude de responsabilidade exige que os Estados-Membro da
CCW considerem este problema, na Conferência de exame, de modo específico e
urgente. Neste contexto, a Santa Sé está disposta a trabalhar com outras
delegações, com as agências das Nações Unidas e com as ONGs, sobretudo a
Cluster Munition Coalition, para fazer progredir a causa das vítimas das
submunições e impedir que outras sofram o mesmo destino. Parece-nos
indispensável um mandato específico para tratar este tema. O objectivo último
deveria ser a adopção de um instrumento juridicamente vinculante que ponha termo
a uma situação que é humanamente insustentável.
Senhor Presidente designado! As lições aprendidas com a concretização da
Convenção de Otava podem ser muito úteis no âmbito da CCW. Seria necessária uma
abordagem pragmática, menos formal, orientada para resultados, inclusiva e
cooperativa na qual os Estados, as Nações Unidas, as Organizações internacionais
e as ONGs se encontrem para trabalhar juntos. A segurança e a estabilidade
ultrapassam amplamente o campo militar. O famoso equilíbrio entre as
necessidades militares e a urgência humanitária não deveriam tornar-se uma
desculpa para conservar o status quo. Mais respeito pela dignidade e pelo
direito humanitário internacional, mais justiça, mais desenvolvimento são, a
curto e a longo prazos, a melhor garantia para a segurança dos Estados.
Muito obrigado, Senhor Presidente designado!
|