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SECRETARIA DE ESTADO
INTERVENÇÃO DA DELEGAÇÃO DA SANTA SÉ NA 50ª SESSÃO DA COMISSÃO SOBRE
A CONDIÇÃO DAS MULHERES
DISCURSO DA PROFESSORA MARYLIN MARTONE
Nova Iorque,
2 de Março de 2006
Senhora Presidente
Por ocasião da 50ª sessão da Comissão sobre a Condição das
Mulheres, a minha Delegação aproveita o ensejo para reconhecer o progresso
alcançado em benefício das mulheres durante estes importantes debates e
deliberações, assim como para recordar alguns atrasos em determinadas áreas.
Considerando por um momento o passado, a Comissão pode sentir-se
grata pela crescente importância que as questões relativas às mulheres estão a
ter no cenário da política mundial. Isto foi explicado de maneira eloquente no
contexto do recente Documento resultante do Encontro Mundial, em que os líderes
manifestaram a sua convicção de que "o progresso das mulheres significa a
prosperidade de todos". Entre outras coisas, o Encontro Mundial justamente
ressaltou a interdependência do desenvolvimento, da paz, da segurança e dos
direitos humanos. Além disso frisou que, para terem um impacto
positivo em particular sobre as mulheres mais pobres e mais vulneráveis, tais
elementos ainda devem ser abordados através de uma sábia acção política, em
vantagem de todos os povos do mundo.
Não devemos perder de vista a proposta desta Comissão, que
consiste em preparar as recomendações e os relatórios do Conselho Económico e
Social (ECOSOC) sobre a promoção dos direitos das mulheres nos campos político,
económico, civil, social e educativo, em vista de alcançar a igualdade dos
direitos dos homens e das mulheres e de promover o progresso social e melhores
os padrões de vida com maior liberdade. A Carta da Organização das Nações Unidas
compromete-se, justamente, em fomentar o respeito universal e a observância dos
direitos humanos e das liberdades fundamentais, e em empregar os mecanismos
internacionais na promoção do progresso económico e social de todos os povos.
Por conseguinte, as tentativas de superar as presentes
desigualdades devem realizar-se de maneira oportuna e intrépida, mas também com
grande cuidado. Seria ideal que se definissem políticas destinadas a restituir o
equilíbrio e a equidade às estruturas políticas, de tal maneira que o seu
próprio bom êxito convencesse todas as pessoas a trabalhar em prol da
prosperidade autêntica das mulheres. Todas as pessoas que quiserem favorecer o
progresso das mulheres deverão comprometer-se com a força moral das próprias
argumentações. Mas elas nunca conseguirão fazê-lo, se continuarem a insistir em
vincular a liberdade, a dignidade e a igualdade das mulheres a políticas
volúveis, que ultimamente têm impedido o progresso genuíno das mulheres.
No que diz respeito aos temas do desenvolvimento e da paz, que
estão a ser debatidos na presente Sessão, ainda subsistem desafios evidentes
para as mulheres e as adolescentes, de maneira especial nos países dilacerados
pelos conflitos armados, pela pobreza, ou por ambos.
Neste contexto, a minha Delegação observa que o Ano do
Microcrédito, terminado recentemente, chamou a atenção para o notável bom êxito
das microfinanças, que tem tido um impacto particularmente positivo, em boa
parte graças às mulheres empresárias dos países em vias de desenvolvimento.
Trata-se de um fenómeno que recebeu o apoio das Igrejas católicas locais durante
muitos anos, através de esquemas paralelos e de pequenos empréstimos informais
aos pobres, cujas necessidades não tinham sido satisfeitas pelas instituições
financeiras.
É realmente encorajador observar que a paciência, a honestidade
e a dura fadiga das mulheres pobres estão a ser recompensadas desta maneira em
muitos lugares, e isto deve ser estimulado, prestando atenção à reforma das
estruturas que, por sua vez, possam contribuir para a difusão e o contínuo bom
êxito de novas iniciativas neste campo.
Com muita probabilidade, no ano de 2050 teremos testemunhado o
envelhecimento da população mundial, a um nível que até então será desconhecido
nos arquivos da história humana. De forma geral, as mulheres vivem mais do que
os homens, mas as mulheres idosas são por vezes vergonhosamente
subestimadas pelos políticos e pelas agências políticas, criada de maneira
especial para resolver os problemas de tais mulheres. Portanto, seria necessário
rever as políticas destinadas às mulheres idosas, que muitas vezes cuidaram de
outras pessoas na terceira idade, e que agora justamente, por sua vez,
deveriam receber a ajuda que lhes é devida.
No que diz respeito aos migrantes, de modo geral, eles
representam 2,9% da população mundial, cerca de 185-192 milhões de pessoas, das
quais quase metade é de sexo feminino. Acontece com muita frequência que as
mulheres migrantes se tornem a principal fonte de renda para as próprias
famílias. As oportunidades de trabalho mais normalmente reservadas às mulheres,
além das ocupações domésticas, consistem em ajudar os idosos, cuidar dos doentes
e desempenhar actividades no sector hoteleiro. Também nestas áreas é necessário
garantir um tratamento justo às mulheres imigrantes, no respeito da sua
feminilidade e inclusive no reconhecimento da igualdade dos seus direitos.
De maneira semelhante, o tráfico de seres humanos tem um impacto
particularmente negativo sobre as mulheres. Há casos em que as mulheres e as
adolescentes são exploradas no seu trabalho, praticamente como se fossem
escravas e, não raro, também na indústria do sexo. A cultura que encoraja a
exploração sistemática da sexualidade é tanto penetrante quanto prejudicial para
a sociedade e, por isso, deve ser abordada com algo mais do que apenas bonitas
palavras.
Talvez seja necessário recordar aqui o facto de que, nos
conflitos armados, as mulheres e as adolescentes são também vítimas de estupros
sistemáticos por motivos políticos. Quem permite, encoraja ou arquitecta tais
actos merece o justo castigo, juntamente com os autores directos destes crimes;
ao mesmo tempo, a salvaguarda das mulheres deve ser honrada em conformidade com
o Artigo 27 da IV Convenção de Genebra e também com os Protocolos Adicionais I e
II.
A Santa Sé volta a condenar com determinação a violência sexual
frequentemente perpetrada contra as mulheres e as adolescentes, enquanto
estimula a promulgação de leis que as defendam de maneira concreta contra esta
violência. Também não podemos deixar de condenar, em nome do respeito devido à
pessoa humana, a difundida cultura que encoraja a exploração sistemática da
sexualidade e convence até meninas de terna idade a permitirem que os seus
corpos sejam utilizados para a obtenção do lucro, no âmbito de uma indústria
mundial de três biliões de dólares norte-americanos.
O movimento feminino chegou a ser descrito como "o grande
processo de libertação das mulheres". Trata-se de um itinerário difícil,
complicado e, por vezes, não isento de determinados equívocos. No entanto, ele
tem sido substancialmente positivo, embora ainda seja necessário levá-lo a cabo;
mas todas as pessoas de boa vontade hão-de envidar esforços a fim de que as
mulheres sejam reconhecidas, respeitadas e estimadas na sua dignidade especial.
Obrigada, Senhora Presidente!
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