Nova York, 13 de Outubro de
2005
Senhor Presidente
A Delegação da Santa Sé continua a prestar atenção ao processo
definido pela Declaração e pela Plataforma de Acção de Pequim, assim como os
subsequentes Documentos finais. Não obstante alguns desenvolvimentos positivos
na condição das mulheres no mundo contemporâneo, a vulnerabilidade permanece uma
constante na vida das mesmas mulheres.
A violência contra as mulheres, em todas as suas formas,
inclusive a violência doméstica e as práticas tradicionais prejudiciais,
constitui uma grave violação da dignidade das mulheres e dos seus direitos
humanos. Em determinados países, a provocação da morte dos fetos femininos e o
infanticídio ainda continuam a realizar-se. Frequentemente, a violência contra
as mulheres é um resultado da consideração da mulher não como ser humano com
direitos iguais aos outros, mas como um objecto a ser explorado.
Neste contexto, um flagelo crescente é representado pelo tráfico
de mulheres e de meninas, assim como várias formas de prostituição. Todas as
formas de violência contra as mulheres devem ser justamente condenadas, e a
Santa Sé, por sua vez, procura trabalhar em colaboração com todas as pessoas de
boa vontade, para dar prioridade às políticas sociais destinadas à eliminação
das causas de tal violência. Por exemplo, no mês de Junho do corrente ano, o
Pontifício Conselho para os Migrantes e os Itinerantes organizou um encontro
internacional para o cuidado da pastoral para a libertação das mulheres de rua.
Qualquer estratégia que vise melhorar a vida das mulheres deve
incluir uma especial consideração pelas próprias mulheres e pelas meninas que
sofrem desta maneira. Embora este processo não seja fácil, para levar as
mulheres a recuperar a sua auto-estima é essencial reconstruir relacionamentos
de confiança e tornar-se consciente, uma vez mais, do seu valor, dignidade e
importância.
Em conformidade com as estatísticas da OIT (Organização
Internacional do Trabalho), as mulheres representam 60% dos 550 milhões de
trabalhadores pobres do mundo inteiro. Estas mulheres não ganham suficientemente
para se elevarem elas mesmas e as suas famílias acima da pobreza ou do salário
de um dólar por dia. A pobreza impede que as mulheres satisfaçam as suas
necessidades mais elementares, tais como a alimentação, as condições de higiene,
a assistência médica e a educação básicas, enquanto continua a privar as
sociedades da contribuição enriquecedora e insubstituível que só pode ser
oferecida pelas mulheres.
Em vista de inverter o processo da feminização da pobreza, a
minha delegação julga necessário prestar atenção a um maior acesso das mulheres
aos recursos e capital produtivos, bem como ao controle dos mesmos. Diversas
Organizações católicas estão comprometidas em programas de microcrédito para as
mulheres, destinados a valorizá-las mediante a promoção de projectos de
microcrédito geridos localmente, em lugares como: Camboja, Bósnia e
Herzegovina, América Latina e Caribe.
Se forem assim valorizadas, as mulheres hão-de desempenhar um
papel-chave no desenvolvimento e bem-estar da sua família, comunidade e
sociedade. Todos os membros da socidade têm uma função a desempenhar na promoção
de tal valorização.
O analfabetismo, presente de maneira especial no meio das
mulheres nas áreas rurais, constitui um evidente obstáculo para o
desenvolvimento e para a consecução dos direitos básicos por parte das mulheres.
Com a ajuda dos outros, cada mulher tem o direito de fazer frutificar ao máximo
nível a sua potencialidade, os seus talentos e as suas capacidades porque, como
podemos ler na Declaração Universal dos Direitos do Homem, "todos têm direito à
educação". Tornamo-nos cada vez mais persuadidos do facto de que o investimento
no campo da educação das crianças de sexo feminino constitui um elemento
fundamental para o pleno progresso das mulheres.
A Delegação da Santa Sé reconhece a necessidade de considerar
urgentemente as carências de assistência médica específica das mulheres. Estamos
conscientes de que, hoje em dia, ainda existem muitas mulheres que não têm
acesso nem sequer à assistência mais elementar. A Santa Sé continua a defender
uma abordagem completa da saúde das mulheres, que não se concentre
exclusivamente num simples aspecto da mulher, mas sim na sua necessidade
integral e total de assistência médica.
Uma das questões que suscita uma séria preocupação é o facto de
que as mulheres são particularmente vulneráveis diante das trágicas
consequências dos problemas mundiais de saúde e das epidemias como o HIV/Sida e
a malária, assim como da escassez de água potável e de condições
aceitáveis de higiene. Além disso, as mulheres têm direito ao mais
elevado padrão de assistência médica, durante o período da gravidez, a dar à luz
aos seus filhos num ambiente limpo e seguro, e a contar com uma adequada
assistência profissional.
É óbvio que ainda há muito a realizar em benefício do pleno
progresso das mulheres no mundo contemporâneo. Formulamos votos a fim de que a
Organização das Nações Unidas desempenhe um papel importante na transformação
das legítimas aspirações das mulheres.
Obrigado, Senhor Presidente!