Senhor Presidente
A minha Delegação gostaria de começar, expressando a sua satisfação pelo
Relatório do Comissário-Geral da Agência Especial das Nações Unidas para os
Trabalhos e as Obras de Socorro (UNRWA), em prol dos refugiados palestinos no
Médio Oriente, e pelo trabalho que a mesma Agência já levou a cabo ao longo do
ano passado.
Para aqueles dentre nós que acompanham esta problemática, o conteúdo de tal
Relatório será muito familiar. Reunimo-nos neste foro, uma vez mais, para
analisar a disposição dos serviços humanos, no meio de uma espiral infinita de
violência e de terrorismo, acções militares e reacções, de uma série efectiva de
retaliações que causam ulteriores violências. Nesta altura, a UNRWA e numerosas
outras Agências, inclusivamente a Pontifícia Missão para a Palestina, através da
generosidade da comunidade internacional, estão a oferecer vários serviços aos
refugiados, que em circunstâncias normais competeriam à responsabilidade das
autoridades locais.
Uma análise realista de tal situação demonstra-nos que há muita retórica acerca
das actividades da promoção da paz, mas também que existe muito pouca boa
vontade política, a propósito da resolução das diferenças. A relutância da
comunidade internacional a interpelar os governantes de Israel e da Palestina,
para negociarem em boa fé, contribuiu para o fracasso do chamado "Road Map". Sem
estas negociações, extremamente necessárias, não existem possibilidades de
reconciliação, de perdão, de compromisso ou de colaboração, e todos estes são
requisitos necessários para uma paz duradoura nessa região. A comunicação é
essencial para unir as diferentes partes interessadas. As políticas de separação
permanente não podem, de forma alguma, promover a paz. Num contexto tão
negativo, a UNRWA e as demais Agências humanitárias devem continuar a oferecer
aos refugiados os serviços de assistência que lhes são próprios.
Senhor Presidente, a minha Delegação está profundamente consciente das
dificuldades que a UNRWA deve enfrentar, no momento de desempenhar serviços
significativos em prol da população dos refugiados, tão adversamente atingidos
por esta "guerra não declarada". Desde há 55 anos a Pontifícia Missão para a
Palestina, em união com as suas Agências em todos os Estados Unidos da América e
na Europa, está ao serviço da mesma população dos refugiados que sofrem,
procurando resolver os seus problemas de desemprego e de acesso à educação e aos
serviços de assistência à saúde.
Em vista de restituir a dignidade aos desempregados que vivem nessa região, ela
chegou a traçar alguns programas intensivos de trabalho, em vista de lhes poder
oferecer um emprego significativo. Através de projectos municipais, eles
restabelecem e reabilitam a infra-estrutura, muitas vezes prejudicada pelos
efeitos da violência e dos conflitos armados. Além disso, estes programas servem
também para revigorar as instituições locais.
Senhor Presidente, a minha Delegação formula votos a fim de que qualquer solução
que se vier a encontrar para resolver este problema multifacetado possa incluir
a questão da Cidade Santa de Jerusalém. À luz dos numerosos episódios de
violência e do desafio que se apresenta ao livre movimento, dificuldades estas
criadas pelo Muro, com pontos de controle e sinais de recolher, a Santa Sé
renova a sua exortação, a fim de que "...se tomem providências
internacionalmente garantidas para assegurar a liberdade de religião e de
consciência dos seus habitantes, assim como o acesso permanente, livre e
desimpedido aos Lugares Santos por parte dos fiéis de todas as religiões e
nacionalidades" (A/RES/ES-10/2). Jerusalém, a Cidade Santa, é um património
conjunto dos fiéis do mundo inteiro, e quem quer que seja encarregado da
vigilância sobre a Cidade Santa é responsável pela mesma diante da comunidade
internacional. A sua administração não deveria ser considerada exclusivamente
como o problema de uma ou de outra autoridade.
Os actuais níveis de violência têm levado os peregrinos a evitar a Terra Santa,
impondo penalidades económicas cada vez mais severas sobre todo o povo dessa
região e, além disso, impedindo o direito que as pessoas do mundo inteiro têm de
visitar e de rezar nesses lugares religiosos. A minha Delegação recorda, de
maneira particular, que a população local nem sempre tem o livre acesso aos
seus templos e Lugares Santos.
Senhor Presidente, a proposta do chamado "Road Map" ainda não trouxe paz a essa
região. Se tivermos em consideração a violência contínua, a depressão económica,
as restrições dos movimentos e a falta de acesso aos lugares religiosos, não
constituirá de modo algum uma surpresa o facto de que muitas pessoas se sentem
obrigadas a abandonar essa região de maneira definitiva. É doloroso observar que
uma terra à qual, outrora, foi confiada uma mensagem de amor, de vida, de
fraternidade e de paz, e que muitas pessoas denominam como Terra Santa,
ultimamente está a transmitir ao mundo uma mensagem muito diferente, feita de
divisão, de destruição e até mesmo de morte.
A família das nações deve interpelar todos os protagonistas interessados em
renovar os seus esforços, em vista de levar paz a essa região. Somente com uma
paz justa e duradoura não imposta, mas garantida através de negociações as
aspirações legítimas de todos os povos dessa terra poderão ser realizadas. Este
resultado depende em grande medida da disponibilidade corajosa das pessoas
responsáveis, que hão-de tomar novas atitudes de compromisso, em conformidade
com as exigências da justiça.
Obrigado, Senhor Presidente!