Senhor Presidente, a Santa Sé agradece por tomar a Palavra.
Se a UNESCO deseja poder favorecer a universalidade e a
efectividade das normas éticas segundo quanto é estabelecido pelo documento
sobre a ética e a economia finalizada, à luz dos debates realizados em Friburgo
em Novembro de 2003, é necessário que ela empreenda uma reflexão mais profunda
sobre a exigência universal do respeito do ser humano. Visto que o ponto fraco
da multiplicação das morais sectoriais que desenvolvemos actualmente, consiste
em limitar os problemas morais a questões meramente ético-técnicas e esquecer a
questão da universalidade das normas propostas. Unicamente uma ética filosófica
fundamental deveria conduzir-nos a estabelecer aquilo que é efectivamente
humanizante para toda a humanidade. Mas para alcançar este objectivo, é preciso
aceitar que se confira de novo um papel à filosofia nos nossos programas éticos.
A primeira razão para introduzir a reflexão filosófica na ética
é que a filosofia como discurso acerca do real e do sentido constitui o agente
mediador do diálogo que pode desenvolver-se entre ciência e ética. Reflectimos
suficientemente para que exista uma compreensão recíproca entre dois campos de
reflexão heterogéneos como os da ciência e da ética? Seria necessário que
existisse um lugar intermediário que fosse um âmbito de referências partilhadas.
Ao estudar a inteligibilidade da estrutura do real em totalidade, descobrindo
como a experiência está estruturada e como o campo geral do sentido é
constituído, a filosofia representa o campo mediador entre ciência e ética e
fornece-lhe os conceitos e os modelos para uma inteligibilidade do mundo.
A segunda razão para introduzir a reflexão filosófica em ética é
poder debater a validade da norma e da sua universalidade. É a filosofia que
consente esclarecer o que está em questão da validade dos modelos, teorias
usadas pela ciência e pela ética. Ela ajuda ambas a reconhecer de modo mais
adequado como os seus respectivos projectos se deparam com o problema da
verdade. Contudo, a marca da verdade do humano, mesmo se deriva de uma tomada de
consciência, não pode ser relativizada. A crise da normas éticas deve ser
procurada nos pressupostos filosóficos e antropológicos raramente esclarecidos
nos debates das éticas aplicadas. Se a ética não quer ser positivista, não
pode por conseguinte passar de uma base de reflexão, da via de acesso ao
sentido e à verdade que é a filosofia.
A terceira razão para introduzir a filosofia na ética é que esta
reflexão de sabedoria sobre a totalidade do campo da experiência deveria ajudar
a desenvolver a ética no património cultural e religioso das várias comunidades
humanas. O conceito de sentido tão precioso para declarar a validade de uma
prática humana é de importância estratégica em filosofia na análise da
existência humana. O sentido designa este horizonte a partir do qual a
linguagem, a acção, o pensamento, o querer e a afectividade se tornam
compreensíveis. Então, a filosofia pode contribuir para especificar as
contribuições relativas à existência do sentido que as ciências e as diversas
formas de crença religiosa representam. Isto dá origem à importância de
apresentar de novo a questão filosófica da formação concreta de um "nós" da
humanidade, capaz de garantir o respeito de cada um.
Muito obrigado, Senhor Presidente.