CONGREGAÇÃO PARA O CLERO
DIRECTÓRIO
PARA O MINISTÉRIO E A VIDA
DOS PRESBÍTEROS
LIBRERIA EDITRICE VATICANA
00120 CITTÀ DEL VATICANO
INTRODUÇÃO
A larga experiência da Igreja sobre o ministério e a vida
dos presbíteros, condensada nos diversos documentos do Magistério,(1)
recebeu nos nossos dias um novo impulso graças ao ensino contido na
Exortação apostólica post-sinodal « Pastores dabo
vobis ».
A publicação desse documento no qual o Sumo Pontífice
quis unir a sua voz de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro à dos Padres
sinodais (2) constituíu para os presbíteros e para toda a
Igreja, o início dum fiel e fecundo caminho de aprofundamento e de aplicação
do seu conteúdo.
« Hoje, de modo particular, a priorit·ria tarefa pastoral da
nova evangelização, que diz respeito a todo o Povo de Deus e
postula um novo ardor, novos métodos e nova expresso para o an·ncio
e o testemunho do Evangelho, exige sacerdotes radical e integralmente imersos no
mistério de Cristo, e capazes de realizar um novo estilo de vida pastoral».(3)
Os primeiros responsáveis desta « nova evangelização»
do terceiro Milénto são os presbíteros, os quais, porém,
para poderem realizar a sua missão têm necessidade de alimentar em
si mesmos uma vida que seja pura transparência da própria
identidade, e de viver uma união de amor com Jesus Cristo Sumo e Eterno
Sacerdote, Cabeça, Mestre, Esposo e Pastor, alimentando a sua própria
espiritualidade e o seu ministério com uma formação
permanente e completa.
Para responder a tal exigência surgiu este Directório,
pedido por numerosos Bispos quer durante o Sínodo de 1990 quer por ocasião
da consulta geral ao Episcopado promovida por este Dicastério.
Na elaboração deste documento foram tidas em consideração
quer as sugestões de todo o episcopado mundial, expressamente consultado,
quer quanto foi dito nos trabalhos da Congregação plenária,
realizada no Vaticano em Outubro de 1993, quer, enfim, as reflexões de não
poucos teólogos, canonistas e especialistas na matéria,
provenientes de diversas áreas geográficas e inseridos nas actuais
situações pastorais.
Procurou-se oferecer elementos práticos que possam ajudar
iniciativas o mais possível unitárias, evitando todavia entrar
naqueles detalhes que só as legítimas praxes locais e as condições
reais de cada Diocese e Conferência Episcopal poderão com utilidade
sugerir à prudência e ao zelo dos pastores. Dada, pois, a natureza
de « Directório » deste documento pareceu oportuno, nas actuais
circunstâncias, chamar a atenção só para aqueles
elementos doutrinais que constituem o fundamento da identidade, da
espiritualidade e da formação permanente dos presbíteros.
O documento, portanto, não pretende apresentar uma exposição
exaustiva sobre o sacerdócio, nem ser uma pura e simples repetição
de quanto foi já autenticamente declarado pelo Magistério da
Igreja, ele entende antes responder às principais interrogações
quer de ordem doutrinal quer disciplinar e pastoral, postas aos sacerdotes pelo
empenho na nova evangelização.
Assim, por exemplo, pretendeu-se esclarecer que a verdadeira identidade
sacerdotal, como o Divino Mestre a quis e a Igreja a viveu sempre, não é
conciliável com aquelas tendências democraticistas que quereriam
esvaziar ou anular a realidade do sacerdócio ministerial. Deu-se
particular ênfase ao tema especifico da comunhão, exigência
que hoje se sente dum modo particular dada a sua incidência na vida do
sacerdote. O mesmo se pode dizer da espiritualidade presbiteral que, nos nossos
tempos, sofreu não poucos contra-golpes, sobretudo por causa do
secularismo e dum errado antropologismo. Pareceu, enfim, necessário dar
alguns conselhos para uma adequada formação permanente que ajude
os sacerdotes a viver com alegria e responsabilidade a sua vocação.
O texto é naturalmente destinado, através dos Bispos, a
todos os presbíteros da Igreja. As directrizes nele contidas dizem
respeito, em particular, aos presbíteros do clero secular diocesano,
embora muitas delas, com as adaptações devidas, devam ser tidas em
conta pelos presbíteros membros dos Institutos religiosos e das
Sociedades de vida apostólica.
Desejamos que este Directório possa constituir para cada
sacerdote uma ajuda no aprofundamento da própria identidade e a
incrementar a própria espiritualidade; um encorajamento no ministério
e na realização da própria formação
permanente, da qual so os primeiros agentes; um ponto de referência
para um rico e autêntico apostolado, para bem da Igreja e do mundo
inteiro.
Da Congregação do Clero, Quinta Feira Santa 1994
JOSÉ T. Card. SANCHEZ
Prefeito
+ CRESCENZIO SEPE
Arcebispo titular de Grado
Secretário
Capitulo I
IDENTIDADE DO PRESBÍTERO
1. O sacerdócio como dom
Toda a Igreja foi tornada participante da unção sacerdotal de
Cristo no Espíritu Santo. Pois, na Igreja, « todos os fiéis
formam um sacerdócio santo e real, oferecem vítimas a Deus por
meio de Jesus Cristo, e anunciam as virtudes d'Aquele que os chamou das trevas
para a sua luz admir·vel » (cf 1 Ped. 2, 5. 9).(4). Em Cristo,
todo o seu Corpo mêstico est· unido ao Pai pelo Espêrito Santo,
para a salvação de todos os homens.
Porém a Igreja sozinha não pode levar para diante tal missão:
toda a sua actividade tem intrinsecamente necessidade da comunhão com
Cristo, cabeça do seu Corpo. Indissoluvelmente unida ao seu Senhor, ela
recebe constantemente d'Ele mesmo o influxo de graça e de verdade, de
guia e de sustento, para poder ser para todos e para cada um « o sinal e o
instrumento da íntima união do homem com Deus e da unidade de todo
o género humano».(5)
O sacerdote ministerial encontra a sua razão de ser nesta união
vital e operacional da Igreja com Cristo. Com efeito, mediante tal ministério,
o Senhor continua a exercer no seu Povo aquela actividade que só a Ele
pertence enquanto Cabeça do seu Corpo. Portanto, o sacerdócio
ministerial torna tangível a acção própria de Cristo
Cabeça, e testemunha que Cristo não se afastou da sua Igreja, mas
continua a vivificá-la com o seu sacerdócio perene. Por este
motivo, a Igreja considera o sacerdócio ministerial como um dom que Lhe
foi concedido no ministério de alguns dos seus fiéis
Tal dom instituído por Cristo para continuar a sua própria
missão salvífica, foi conferido inicialmente aos Apóstolos
e continua na Igreja, através dos Bispos seus sucessores.
2. Raiz sacramental
Mediante a ordenação sacramental por meio da imposição
das mãos e da oração consecratória por parte do
Bispo, estabelece-se no presbítero « um vínculo ontológico
específico que une o sacerdote a Cristo, Sumo Sacerdote e Bom Pastor ».(6)
A identidade do sacerdote deriva, portanto, da participação
específica no Sacerdócio de Cristo, pelo qual o ordenado se torna,
na Igreja e para a Igreja, imagem real, viva e transparente de Cristo Sacerdote,
« uma representação sacramental de Cristo Cabeça e
Pastor ».(7) Através da consagração, o sacerdote «
recebe como dom um "poder" espiritual que é participação
na autoridade com a qual Jesus Cristo, mediante o Seu Espírito, guia a
Igreja ».(8) Esta identificação sacramental com o Sumo e
Eterno Sacerdote insere especificamente o presbítero no mistério
trinitário e, através do mistério de Cristo, na Comunhão
ministerial da Igreja para servir o Povo de Deus.(9)
Dimensão trinitária
3. Em comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito
Se é verdade que todo o cristão, pelo Baptismo, está em
comunhão com Deus Uno e Trino, é também verdade que, em
virtude da consagração recebida mediante o sacramento da Ordem, o
sacerdote é colocado
numa relação particular e específica com o Pai, com o
Filho e com o Espírito Santo. Com efeito « a nossa identidade tem a
sua fonte última na caridade do Pai. Ao Filho, por Ele enviado como Sumo
Sacerdote e Bom Pastor, estamos unidos sacramentalmente mediante o sacerdócio
ministerial pela acção do Espírito Santo. A vida e o ministério
do sacerdote são uma continuação da vida e acção
do próprio Cristo. Esta é a nossa identidade, a nossa verdadeira
dignidade, a fonte da nossa alegria, a certeza da nossa vida »(10).
A identidade, o ministério e a existência do presbítero
estão, portanto, essencialmente relacionadas com as três Pessoas
Divinas, em ordem ao serviço sacerdotal à Igreja.
4 Na dinâmica trinitária da salvação
O sacerdote, « como prolongamento visêvel e sinal sacramental de
Cristo na sua própria presenÁa diante da Igreja e do mundo como
origem permanente e sempre nova da salvação »,(11) est·
inserido na dinmica trinit·ria da salvação com uma
responsabilidade especial. A sua identidade provém do « ministerium
verbi et sacramentorum », o qual est· em relação
essencial com o mistério do amor salvêfico do Pai (cf Jo
17, 6-9; 1
Cor 1, 1; 2 Cor 1, 1), com o ser sacerdotal de Cristo, que
escolhe e chama pessoalmente o seu ministro para estar com Ele (cf Mc 3,
15) e com o dom do Espêrito (cf Jo 20, 21), que comunica ao sacerdote a
forÁa necess·ria para dar a vida a uma multidão de filhos de
Deus, convocados para o ùnico corpo eclesial e encaminhados para o Reino
do Pai.
5. Intima relação com a Trindade
A partir daqui se compreende a característica essencialmente «
relacional » (cf Jo 17, 11. 21) (12) da identidade do sacerdote.
A graça e o carácter indelével conferidos mediante a unção
sacramental do Espírito Santo (13) colocam o sacerdote em relação
pessoal com a Trindade, uma vez que ela constitui a fonte do ser e do agir
sacerdotal. Portanto, tal relação deve ser necessariamente vivida
pelo sacerdote duma maneira íntima e pessoal, em diálogo de adoração
e de amor com as Três Pessoas divinas, consciente de que o dom recebido
lhe foi dado para o serviço de todos.
Dimensão cristológica
6 Identidade específica
A dimensão cristológica, como a trinitária, deriva
directamente do sacramento que configura ontologicamente a Cristo Sacerdote,
Mestre, Santificador e Pastor do seu Povo em favor do seu Povo.(14)
Aos fiéis que, permanecendo enxertados no sacerdócio comum, são
constituêdos no sacerdócio ministerial, é dada uma participação
indelével do mesmo e ·nico sacerdócio de Cristo na dimensão
da mediação e do poder, em relação santificação,
ao ensino e à condução de todo o Povo de Deus. Assim, se,
por um lado, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio
ministerial ou hier·rquico estão necessariamente ordenados um ao
outro, dado que um e outro, cada um a seu modo, participam do ùnico
sacerdócio de Cristo, por outro lado, eles diferem essencialmente entre
si.(15)
Neste sentido a identidade do sacerdote é nova em relação
à de todos os cristãos que, mediante o Baptismo, participam no único
sacerdócio de Cristo e são chamados a dar testemunho d'Ele em toda
a terra.(16)
A especificidade do sacerdócio ministerial situa-se perante a
necessidade que todos os fiéis têm de aderir à mediação
e ao poder de Cristo, que se torna visível pelo exercício do
sacerdócio ministerial.
Nesta sua peculiar identidade cristológica, o sacerdote deve ter
consciência de que a sua vida é um mistério inserido
totalmente no mistério de Cristo e da Igreja dum modo novo e específico,
e que isto o empenha totalmente e o gratifica.(17)
7.No seio do Povo de Deus
Cristo associa os Apóstolos à sua própria missão.
« Como o Pai me enviou, assim eu vos envio a vós » (Jo
20, 21). Na própria sagrada Ordenação está
ontologicamente presente a dimensão missionária. O sacerdote é
escolhido, consagrado e enviado para actualizar eficazmente esta missão
eterna de Cristo, de quem se torna autêntico representante e mensageiro: «
Quem vos ouve a mim ouve, quem vos despreza a mim despreza, e quem me despreza,
despreza Aquele que me enviou » (Lc 10, 16).
Pode-se portanto dizer que a configuração a Cristo, mediante a
consagração sacramental, define o sacerdote no seio do Povo de
Deus, fazendo-o participar a seu modo no poder santificador, de magistério
e pastoral do próprio Jesus Cristo, Cabeça e Pastor da Igreja.(18)
Agindo « in persona Christi Capitis », o sacerdote torna-se o
ministro das acções salvíficas essenciais, transmite as
verdades necessárias à salvação e apascenta o Povo
de Deus, conduzindo-o rumo à santidade.(19)
Dimensão pneumatológica
8. Carácter sacramental
Na ordenação presbiteral, o sacerdote recebeu o selo do Espírito
Santo que fez dele um homem assinalado com o carácter sacramental para
ser para sempre ministro de Cristo e da Igreja. Seguro da promessa de que o
Consolador permanecerá « com ele para sempre » (Jo 14, 16-17),
o sacerdote sabe que nunca perderá a presença e o poder eficaz do
Espírito Santo, para poder exercer o seu ministério e viver a
caridade pastoral como dom total de si para a salvação dos seus
irmãos.
9. Comunhão pessoal com o Espírito Santo
É ainda o Espírito Santo que, na Ordenação,
confere ao sacerdote a missão profética de anunciar e explicar,
com autoridade, a Palavra de Deus. Inserido na comunhão da Igreja com
toda a ordem sacerdotal, o presbítero será guiado pelo Espírito
de Verdade, que o Pai enviou por meio de Cristo, e que lhe ensina todas as
coisas, recordando tudo o que Jesus disse aos Apóstolos. Portanto o presbítero,
com a ajuda do Espírito Santo e o estudo da Palavra de Deus nas
Escrituras, à luz da Tradição e do Magistério,(20)
descobre a riqueza da Palavra que deve anunciar à comunidade eclesial que
lhe foi confiada.
10. Invocação do Espírito Santo
Mediante o carácter sacramental e identificando a sua intenção
com a da Igreja, o sacerdote está sempre em comunhão com o Espírito
Santo na celebração da liturgia, sobretudo na Eucaristia e nos
outros sacramentos. Em todos os sacramentos é o próprio Cristo que
age em favor da Igreja, por meio do Espírito Santo invocado na sua potência
eficaz pelo sacerdote celebrante « in persona Christi ». (21) Portanto
a celebração sacramental recebe a sua eficácia da palavra
de Cristo que a instituíu e da potência do Espírito que a
Igreja frequentemente invoca mediante a epiclese.
Isto é particularmente evidente na Oração eucarística
na qual o sacerdote, invocando a potência do Espírito Santo sobre o
pão e sobre o vinho, pronuncia as palavras de Jesus e actualiza o mistério
do Corpo e do Sangue de Cristo realmente presente.
11. Força para guiar a comunidade
É, enfim, na comunhão do Espírito Santo que o sacerdote
encontra a força para guiar a comunidade que lhe foi confiada e para mantê-la
na unidade querida pelo Senhor.(22) A oração do sacerdote no Espírito
Santo pode ser modelada pela oração sacerdotal de Jesus Cristo (cf
Jo 17). Ele deve rezar, portanto, pela unidade dos fiéis para que
sejam uma coisa só a fim de que o mundo creia que o Pai enviou o Filho
para a salvação de todos.
Dimensão Eclesiológica
12. «Na» e «à frente da »Igreja
Cristo, origem permanente e sempre nova da salvação, é
o mistério fontal de que deriva o mistério da Igreja, seu Corpo e
sua Esposa, chamada pelo seu Esposo a ser instrumento de redenção.
Por meio da missão confiada aos Apóstolos e aos seus Sucessores,
Cristo continua a dar a vida à sua Igreja.
Através do mistério de Cristo, o sacerdote, exercendo o seu múltiplo
ministério, é inserido também no mistério da Igreja,
a qual, « na fé, toma consciência de não existir por si
mesma, mas pela graça de Cristo, no Espírito Santo ».(23)
Deste modo, o sacerdote, enquanto é inserido na Igreja, coloca-se também
«à frente dela ».(24)
13. Participante, em certo modo, do carácter esponsal de Cristo
O sacramento da Ordem, efectivamente, torna participante o sacerdote não
só do mistério de Cristo Sacerdote, Mestre, Cabeça e Pastor
mas, dalguma maneira, também de Cristo « Servo e Esposo da Igreja ».
(25) Esta é o « Corpo » dEle, que a amou e a ama a ponto de dar
a vida por ela (cf Ef 5, 25); regenera-a e purifica-a continuamente por meio da
palavra de Deus e dos sacramentos (cf Ibid. 5, 26); esforça-se
por torná-la cada vez mais bela (cf Ibid. 5, 27) e, enfim,
sustenta-a e trata-a com solicitude (cf Ibid. 5, 29).
Os presbíteros que colaboradores da Ordem Episcopal
constituem com o seu Bispo um único Presbitério (26) e participam,
em grau subordinado, do único sacerdócio de Cristo, em certo modo
participam também, à semelhança do Bispo, daquela dimensão
esponsal em relação à Igreja a qual é bem
simbolizada no rito da ordenação episcopal com a entrega do
anel.(27)
Os presbíteros, que « em cada uma das comunidades locais de fiéis
tornam, por assim dizer, presente o Bispo, a que estão unidos mediante um
confiante e generoso espírito», (28) deverão ser fiéis
à Esposa e, como ícones viventes do Cristo Esposo, tornar operante
a multiforme doação de Cristo à sua Igreja.
Para esta comunhão com Cristo Esposo, também o sacerdócio
ministerial é constituído como Cristo, com Cristo e em
Cristo naquele mistério de amor salvífico de que o matrimónio
entre os cristãos é uma participação.
Chamado por um acto de amor sobrenatural, absolutamente gratuito, o
sacerdote deve amar a Igreja como Cristo a amou, consagrando a ela todas as suas
energias e dando-se com caridade pastoral até dar quotidianamente a sua
própria vida.
14. Universalidade do sacerdócio
O mandamento do Senhor de ir a todos os povos (Mt 28, 18-20) constitui uma
outra modalidade do estar do sacerdote « à frente » da
Igreja.(29) Enviado, « missus », pelo Pai, por meio de Cristo, o
sacerdote pertence « in modo immediato » da Igreja universal (30) que
tem a « missão » de anunciar a Boa Nova até « aos
confins da terra » (Act 1, 8).(31)
« O dom espiritual, recebido pelos sacerdotes na ordenação,
prepara-os para uma vastêssima e universal missão de salvação
».(32) Com efeito, pela Ordem e ministério recebido, todos os
sacerdotes são associados ao Corpo Episcopal e, em comunhão hierárquica
com ele, segundo a sua vocação e graça, servem para o bem
de toda a Igreja.(33) Portanto, o pertencer a uma Igreja particular mediante a
incardinação (34) não deve fechar o sacerdote numa
mentalidade restrita e particularista, mas abri-lo ao serviço de outras
Igrejas, porque toda a Igreja é a realização particular da única
Igreja de Jesus Cristo, tanto que a Igreja universal vive e cumpre a sua missão
nas e mediante as Igrejas particulares em comunhão efectiva com ela.
Todos os sacerdotes, portanto, devem ter um coração e um espírito
missionário, abrindo-se às necessidades da Igreja e do mundo.(35)
15. Carácter missionário do sacerdócio
É importante que o presbêtero tenha plena consciência e
viva profundamente esta realidade mission·ria do seu sacerdócio, em
total sintonia com a Igreja que sente a necessidade de enviar os seus ministros
para os lugares onde é mais urgente a sua missão e de empenhar-se
em realizar uma mais justa distribuição do clero.(36)
Esta exigência da vida da Igreja no mundo contemporâneo deve ser
sentida e vivida por todo o sacerdote antes de mais, e essencialmente, como dom
a viver dentro da sua instituição e ao seu serviço.
Não são portanto admissíveis, todas aquelas opiniões
que, em nome de um mal entendido respeito das culturas particulares, tendem a
desvirtuar a acção missionária da Igreja que é
chamada a realizar o ministério universal, de salvação, que
transcende e deve vivificar todas as culturas.(37)
É necessário também dizer que a dilatação
universal do ministério sacerdotal encontra hoje uma correspondência
nas características sócio-culturais do mundo contemporâne no
qual se sente a exigência de eliminar todas as barreiras que dividem os
povos e as nações e que, sobretudo através das comunicações
das culturas, quer irmanar os povos, não obstante as distâncias
geográficas que as dividem.
Nunca como hoje, por isso, o clero se deve sentir apostolicamente empenhado
a unir todos os homens em Cristo, na sua Igreja.
16. Autoridade como «amoris officium».
Uma manifestação ulterior da colocação do
sacerdote « à frente da » Igreja está em ele ser o guia
que conduz à santificação os fiéis confiados ao seu
ministério, que é essencialmente pastoral.
Esta realidade, a viver com humildade e coerência, pode estar sujeita
a duas tentações opostas.
A primeira é a de exercer o próprio ministério pondo e
dispondo do rebanho (cf Lc 22, 24-27); 1 Ped 5, 1-4, enquanto a segunda é
a de esvaziar, mediante uma incorrecta concepção de «
comunidade », a própria configuração a Cristo Cabeça
e Pastor.
A primeira tentação foi forte também para os próprios
discípulos e recebeu de Jesus uma correcção precisa e
repetida: toda a autoridade deve ser exercida em espírito de serviço,
como amoris officium (38) e dedicação desinteressada para
o bem do rebanho (cf Jo 13, 14; 10, 11).
O sacerdote dever· recordar sempre que o Senhor e Mestre « não
veio para ser servido, mas para servir» (Mc 10, 45); que se ajoelhou a
lavar os pés aos seus discêpulos (cf Jo 13, 5) antes de
morrer na Cruz e antes de enviá-los por todo o mundo (Jo 20, 21).
Os sacerdotes darão autêntico testemunho do Senhor
Ressuscitado, a quem foi dado « todo o poder no céu e na terra »
(cf Mt 28, 18), se exercerem o próprio « poder »
gastando-o no humilde e autorizado serviço em favor do rebanho (39) e no
respeito das tarefas que Cristo e a Igreja confiam aos fiéis leigos (40)
e aos fiéis consagrados pela profissão dos conselhos evangélicos.(41)
17.Tentação do democratismo
Muitas vezes acontece que, para evitar este primeiro desvio, se cai no
segundo, tendente a eliminar todas as diferenças de funçoes entre
os membros do Corpo Místico de Cristo que é a Igreja, negando na
prática a doutrina certa da Igreja acerca da distinção
entre o sacerdócio comum e o ministerial.(42)
Entre as diversas insídias que hoje se notam, encontra-se o chamado «
democra-tismo». A propósito, convém recordar que a Igreja
reconhece todos os méritos e valores que a cultura democrática
trouxe consigo para a sociedade civil. Por outro lado, a Igreja bateu-se sempre
com todos os meios à sua disposição para o reconhecimento
da igual dignidade de todos os homens. Com base nesta tradição
eclesial, o Concílio Vaticano II falou abertamente da comum dignidade de
todos os baptizados na Igreja.(43)
Todavia, é também necessário afirmar que nao são
automaticamente transferíveis à Igreja a mentalidade e a praxe
existentes nalgumas correntes culturais sócio-polêticas do nosso
tempo. Pois, a Igreja deve a sua existência e a sua estrutura ao desígnio
salvífico de Deus. Ela contempla-se a si mesma como dom da benevolência
do Pai que a libertou mediante a humilhação do seu Filho na cruz.
Portanto, a Igreja quer ser no Espírito Santo totalmente
conforme e fiel à vontade livre e libertadora do seu Senhor Jesus Cristo.
Este mistério faz com que a Igreja seja, por sua própria natureza,
uma realidade diversa das puras sociedades humanas.
Constitui, por isso, uma tentação gravêssima o chamado «
democratismo », dado que conduz a não reconhecer a autoridade e a
graça capital de Cristo Cabeça e a desnaturar a Igreja como se ela
fosse apenas uma sociedade humana. Uma tal concepção lesa a própria
constituição hier·rquica, como foi querida pelo seu Divino
fundador, como foi sempre claramente ensinada pelo Magistério e
ininterruptamente vivida pela mesma Igreja.
A participação na Igreja está baseada no mistério
da comunhão que, por sua natureza, contempla em si mesma a presença
e a acção da Hierarquia eclesiástica.
Por conseguinte, não é admissível na Igreja uma certa
mentalidade, que se manifesta por vezes sobretudo em alguns organismos de
participação eclesial, e que tende quer a confundir as tarefas dos
presbíteros e as dos fiéis leigos, quer a não distinguir a
autoridade própria do Bispo da dos presbíteros como colaboradores
dos Bispos, quer a negar a especificidade do ministério petrino no Colégio
Episcopal.
A propósito, é necess·rio recordar que o presbitério
e o Conselho Presbiteral não são expressões do direito de
associação dos clérigos e tão pouco podem ser
entendidos segundo uma óptica sindical com reivindicações e
interesses de partido, alheios à comunhão eclesial.(44)
18. Distinção entre sacerdócio comum e ministerial
A distinção entre o sacerdócio comum e o ministerial,
longe de comportar separação ou divisão entre os membros da
comunidade cristã, harmoniza e unifica a vida da Igreja. Com efeito,
esta, enquanto Corpo de Cristo, é comunhão orgãnica entre
todos os membros, e nela cada um serve a vida do conjunto na medida em que vive
plenamente o seu papel distinto e a sua vocação específica
(1 cor 12, 12ss).(45)
Portanto, a nenhum é lícito mudar o que Cristo quis para a sua
Igreja. Ela està indissoluvelmente ligada ao seu Fundador e Cabeça
o qual é o único a dar-lhe, mediante a poténcia do Espírito
Santo, ministros para o serviço dos seus fiéis. Nenhuma
comunidade, mesmo em situação de particular necessidade, pode
substituir Cristo que chama, consagra e envia, através dos legítimos
pastores, concedendo-se o próprio sacerdote, contrariando as disposições
da Igreja.(46) A resposta para resolver os casos de necessidade est· na
oração de Jesus: « pedi ao senhor da messe que mande
trabalhadores para a sua seara » (Mt 9, 38). Se a esta oração
feita com fé se unir a intensa vida de caridade da comunidade, então
estaremos seguros de que o Senhor não deixará de dar pastores
segundo o seu coração (cf Jer 3, 15 ) (47)
19. Só os sacerdotes são pastores
Um modo para não cair na tentação « democraticista
» é o de evitar a chamada « clericalização »
do laicado (48) que tende a restringir o sacerdócio ministerial do presbítero
que é o único, depois do Bispo, ao qual, em virtude do ministério
sacerdotal recebido mediante a ordenação, se pode atribuir dum
modo próprio unívoco o termo « pastor ». Com efeito, a
qualificação de « pastoral » refere-se quer à «
potestas docendi et santificandi » quer à « potestas regendi ».(49)
De resto, recorde-se que tais tendências não favorecem a
verdadeira promoção do laicado uma vez que elas conduzem muitas
vezes a esquecer a autêntica vocação e missão dos
leigos no mundo.
Comunhão sacerdotal
20. Comunhão com a Trindade e com Cristo
À luz de tudo quanto se disse sobre a identidade, a comunhão
do sacerdote realiza-se antes de tudo com o Pai, origem última de todo o
poder; com o Filho, em cuja missão redentora participa; e com o Espírito
Santo, que lhe dá a força para viver e realizar a caridade
pastoral que o qualifica sacerdotalmente.
Com efeito,« não se pode definir a natureza e a missão do
sacerdócio ministerial, senão nesta múltipla e rica trama
de relações, que brotam da Trindade Santêssima e se
prolongam na comunho da Igreja como sinal e instrumento, em Cristo, da união
com Deus e da unidade de todo o género humano ».(50)
21. Comunhão com a Igreja
Desta fundamental união-comunhão com Cristo e com a Trindade
deriva, para o presbítero, a sua comunhão-relação
nos seus aspectos de mistério e de comunidade eclesial.(51) Com efeito, é
no interior do mistério da Igreja, como mistério de comunhão
trinitária em tensão missionária, que se revela toda a
identidade cristã e, portanto, também a identidade específica
e pessoal do presbítero e do seu ministério.
Concretamente, a comunhão eclesial do presbítero realiza-se de
diversos modos. Com efeito, mediante a ordenação sacramental, ele
estabelece laços especiais com o Papa, com o Corpo episcopal, com o
Bispo próprio, com os outros presbíteros, com os fiéis
leigos.
22. Comunhão Hierárquica
A comunhão como característica do sacerdócio funda-se
na unicidade da Cabeça, Pastor Esposo da Igreja, que é Cristo.(52)
Em tal comunhão ministerial sobressaem alguns vínculos
determinados em relação antes de mais com o Papa, com o Colégio
Episcopal e com o Bispo próprio. « Não existe ministério
sacerdotal senão na comunhão com o Sumo Pontífice e com o
Colégio Episcopal e de modo particular com o próprio Bispo
diocesano, aos quais se deve guardar ìfilial respeito e obedênciaî
prometidos no rito da ordenação ».(53) Trata-se, portanto,
duma comunhão hierarquica, isto é, duma comunhão na qual a
hierarquia se apresenta interiormente estruturada
Em virtude da participação em grau subordinado aos Bispos no único
sacerdócio ministerial, tal comunhão implica também o vínculo
espiritual e orgânico-estrutural dos presbíteros com toda a ordem
dos Bispos e com o Bispo próprio,(54) e com o Romano Pontífice,
enquanto Pastor da Igreja universal e de cada Igreja particular.(55) Isto é
reforçado pelo facto de que toda a ordem dos Bispos no seu conjunto e
cada um dos Bispos devem estar em comunhão hierárquica com a Cabeça
do Colégio.(56) Tal Colégio, com efeito, é constituêdo
só pelos Bispos consagrados, que esto em comunho hierárquica
com a Cabeça e os seus membros.
23. Comunhão na celebração eucarística
A comunhão hierárquica está expressa de modo
significativo na oração eucarística quando o sacerdote, ao
rezar pelo Papa, pelo Colégio Episcopal e pelo Bispo próprio, não
exprime apenas um sentimento de devoção mas testemunha a
autenticidade da sua celebração (57)
A própria celebração eucarística, nas circunstâncias
e condiçôes previstas,(55) sobretudo quando é presidida pelo
Bispo e com a participação dos fiéis, sobretudo na Igreja
catedral, manifesta bem a unidade do sacerdócio de Cristo na pluralidade
dos seus ministros, e bem assim a unidade do sacrifício e do Povo de
Deus.(59) Além disso, ela concorre para consolidar a fraternidade
ministerial existente entre os presbíteros.(60)
24. Comunhão na actividade ministerial
Todo o presbítero tenha um profundo, humilde e filial vínculo
de caridade, com a pessoa do Santo Padre e adira ao seu ministério
petrino de magistério, de santificação e de governo, com
docilidade exemplar.(61)
Mediante a fidelidade e o servição à autoridade do
Bispo próprio, realizar· a comunhão requerida pelo exercício
do seu ministério sacerdotal. Para os pastores mais entendidos, é
fàcil constatar a necessidade de evitar toda a forma de subjectivismo no
exercício do seu ministério, aderindo corresponsavelmente aos
programas pastorais. Tal adesão, para além de ser expressão
de maturidade, contribui para a edificação daquela unidade na
comunhão que é indispensável para a obra de evangelização.(62)
No pleno respeito da subordinação hierárquica, o presbítero
tornar-se-á promotor dum relacionamento franco, vivo e filial com o seu
Bispo, assinalado por uma confiança sincera, por uma amizade cordial, por
um verdadeiro esforço de conformidade e convergência ideal e
programática no espírito duma inteligente capacidade de iniciativa
e de coragem pastoral.(63)
25. Comunhão no presbitério
Em virtude do sacramento da Ordem « cada sacerdote está unido
aos outros membros do presbitério por particulares vínculos de
caridade apostólica, de ministério e de fraternidade ».(64)
Com efeito, ele é inserido na «Ordo Presbyterorum» constituindo
aquela unidade que pode definir-se uma verdadeira família na qual os laços
não vem da carne nem do sangue mas da graça da Ordem.(65)
A agregação a um presbitério determinado (66)
realiza-se sempre no âmbito duma Igreja particular, dum Ordinariado ou de
uma Prelatura pessoal. Com efeito, ao contrário do Colégio
Episcopal, não há fundamentação teológica
para afirmar a existência dum presbitério universal.
Fraternidade sacerdotal e agregação ao presbitério são,
portanto, elementos que caracterizam o sacerdote. Particularmente significativo,
na ordenação presbiteral é o rito da imposição
das mãos por parte do Bispo, no qual tomam parte todos os presbíteros
presentes, para indicar a participação no mesmo grau de ministério
e para mostrar que o sacerdote não pode agir sózinho, mas sempre
no interior do presbitério, tornando-se irmão de todos aqueles que
o constituem.(67)
26. Incardinação numa Igreja particula
A incardinação numa determinada Igreja particular(68)
constitui um autêntico vínculo jurídico (69) que tem também
um valor espiritual, já que dela provém « a relação
com o Bispo no único presbitério, a partilha da solicitude
pastoral, a dedicaçãoà cura evangélica do Povo de
Deus nas condições históricas concretas e ambientais ».(70)
Nesta perspectiva, o vínculo com a Igreja particular está na
origem da responsabilidade na acção pastoral.
Não se esqueça, a propósito, que os sacerdotes
seculares não incardinados na Diocese e os sacerdotes membros dum
Instituto religioso ou de uma Sociedade de vida apostólica, os quais
residem na Diocese e exercem, para o seu bem, qualquer missão, embora
estejam sujeitos aos seus legítimos Ordinários, pertencem a pleno
ou a diverso título ao presbitério de tal diocese, (71) onde «
têm voz quer activa quer passiva para constituir o conselho presbiteral »
(72). Os sacerdotes religiosos, em particular, numa unidade de forças,
partilham da solicitude pastoral oferecendo o contributo de carismas específicos
e «estimulando com a sua presença a Igreja particular a viver mais
intensamente a sua abertura universal ».(73)
Os presbíteros incardinados numa Diocese, mas para o serviço
de qualquer movimento eclesial aprovado pela autoridade eclesiàstica
competente,(74) ao qual pertencem, estejam conscientes de ser membros do presbitério
da Diocese em que desempenham o seu ministério e de dever colaborar
sinceramente com ele. Por sua vez o Bispo de incardinação respeite
o estilo de vida exigido pela agregação ao Movimento e esteja
disposto, de acordo com as normas do direito, a permitir que o presbítero
possa prestar o seu serviço noutras Igrejas, se isto faz parte do carisma
do mesmo movimento.(75)
27. Presbitério lugar de santificação
O presbitério é o lugar privilegiado para o sacerdote poder
encontrar os meios específicos de santificação e de
evangelização e ser ajudado a superar as limitações
e fraquezas próprias da natureza humana que hoje particularmente se
notam.
Portanto, ele farà todos os esforços para evitar viver o seu
sacerdócio dum modo isolado e subjectivista e favorecer· a comunhão
fraterna dando e recebendo ó de sacerdote a sacerdote ó o calor da
amizade, da assistência cordial, do acolhimento, da correcção
fraterna, muito consciente de que a graça da Ordem « assume e eleva
as relações humanas, psicológicas, afectivas, de amizade e
espirituais... e se concretiza nas mais variadas formas de ajuda recíproca,
não só espirituais mas também materiais ».(76)
Tudo isto é expresso na liturgia da Missa « in Coena Domini »
de Quinta Feira Santa a qual mostra como da comunhão eucarística
nascida na última Ceia os sacerdotes recebem a capacidade de
amar-se uns aos outros, como o Mestre os ama.(77)
28. Amizade sacerdotal
O sentido profundo e eclesial do presbitério sacerdotal não só
não impede como ajuda as responsabilidades pessoais de todos os presbíteros
na realização do ministério particular que o Bispo lhes
confiou.(78) A capacidade de cultivar e viver amadurecidas e profundas amizades
sacerdotais aparece como fonte de serenidade e de alegria no exercício do
ministério, apoio decisivo nas dificuldades e ajuda preciosa no
incremento da caridade pastoral, que o presbítero deve exercer dum modo
particular precisamente para com os colegas em dificuldade que tem necessidade
de compreensão, ajuda e apoio.(79)
29. Vida Comum
Uma manifestação desta comunhão é também
a « vida comum » desde sempre apoiada pela Igreja,(80) recentemente
recomendada pelos documentos do Concílio Vaticano II (81) e do Magistério
sucessivo, (82) positivamente aplicada em não poucas dioceses.
Entre as suas diversas formas (casa comum, comunidade de mesa, etc.) deve
considerar-se como mais excelente o participar comunitariamente na oração
litúrgica.(83) As diversas modalidades devem ser apoiadas segundo as
possibilidades e as conveniências práticas, sem necessariamente
recalcar louváveis modelos próprios da vida religiosa.
Dum modo particular devem ser louvadas aquelas associações que
apoiam a fraternidade sacerdotal, a santidade no exercício do ministério,
a comunhão com o Bispo e com toda a Igreja.(84)
É de desejar que os párocos estejam dispostos a apoiar a vida
comum na casa paroquial com os seus coadjutores,(85) estimulando-os
efectivamente como seus colaboradores e participantes da solicitude pastoral;
por seu lado os coadjutores para construir a comunhão sacerdotal devem
reconhecer e respeitar a autoridade do pároco.(86)
30. Comunhão com os fiéis leigos
Homem de comunhão, o sacerdote não poder· exprimir o seu
amor ao Senhor e à Igreja sem traduzi-lo em amor real e incondicionado ao
Povo cristão, objecto do seu trabalho pastoral.(87)
Como Cristo, o presbítero deve tornar-se « quase a sua transparência
no meio do rebanho » que lhe foi confiado,(88) colocando-se em « relação
positiva e promotora » com os fiéis leigos. Reconhecendo a sua
dignidade de filhos de Deus, promove o seu papel na Igreja, e coloca ao seu
serviço todo o seu ministério sacerdotal e a sua caridade
pastoral.(89) Mediante a consciência da profunda comunhão que o
liga aos fiéis leigos e aos religiosos, o sacerdote fará todo o
esforço para « suscitar e desenvolver a corresponsabilidade na
comunhão e única missão de salvação, com a
pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o
Espírito concede aos crentes para a edificação da Igreja ».(90)
Mais concretamente, o pároco, procurando sempre o bem comum na
Igreja, apoiará as associações de fiéis e os
movimentos que têm finalidades religiosas,(91) acolhendo-os a todos, e
ajudando-os a encontrar entre elas a unidade de intenções na oração
e na acção apostólica.
Enquanto reune a família de Deus e realiza a Igreja-comunhão,
o presbítero torna-se o pontífice, aquele que une o homem a Deus,
tornando-se « irmão dos homens pelo facto mesmo de querer ser seu
pastor, pai e mestre ».(92) Para o homem de hoje que procura o sentido da
sua existência, ele é guia que leva ao encontro com Cristo,
encontro que, embora de maneira não definitiva, se realiza, como anúncio
e como realidade já presente na sua Igreja. Deste modo o presbítero,
colocado ao serviço do Povo de Deus, deve apresentar-se como perito em
humanidade, homem de verdade e de comunhão, testemunha da solicitude do Único
Pastor por todas e cada uma das suas ovelhas. A comunidade deve poder
seguramente contar com a sua dedicação, a sua disponibilidade, o
seu trabalho infatigável de evangelização e, sobretudo, com
o seu amor fiel e incondicionado.
Portanto, ele deve exercer a sua missão espiritual com amabilidade e
firmeza, com humildade e espírito de serviço,(93) dobrando-se à
compaixão, participando nos sofrimentos humanos que derivam das várias
formas de pobreza, espiritual e material, velhas e novas. Use de misericórdia
em relação ao caminho difícil e incerto de conversão
dos pecadores, para os quais terá sempre disponível o dom da
verdade, e a paciente e encorajante benevolência do Bom Pastor, que não
censura a ovelha perdida mas carrega-a aos ombros e faz uma festa pelo seu
regresso ao rebanho (cf. Lc 15, 4-7).(94)
31. Comunhão com os membros dos Institutos de vida consagrada
Reservará uma particular atenção às relações
com os irmãos e as irmãs empenhados na vida de consagração
especial a Deus em todas as suas formas, mostrando-lhes um apreço sincero
e um real espírito de colaboração apostólica,
respeitando e promovendo os carismas específicos. Além disso
colaborará para que a vida consagrada apareça cada vez mais
luminosa para vantagem da Igreja inteira e cada vez mais persuasiva e atraente
para as gerações jovens.
Neste espírito de estima pela vida consagrada, o sacerdote terá
particular cuidado com aquelas comunidades que, por diversos motivos, mais
precisarem da sã doutrina, da assistência e do encorajamento na
fidelidade.
32. Pastoral vocacional
Todo o sacerdote reservará um particular cuidado à pastoral
vocacional, não deixando de incentivar a oração pelas vocações,
de prodigar-se na catequese, de cuidar da formação dos acólitos,
de apoiar iniciativas apropriadas mediante a relação pessoal que
faça descobrir os talentos e saiba descobrir a vontade de Deus em ordem a
uma escolha corajosa na sequela de Cristo.(95)
Certamente a consciência clara da própria identidade, a coerência
de vida,a alegria transparente e o ardor missionário constituem outros
tantos elementos imprescindíveis daquela pastoral das vocações
que deve integrar-se na pastoral organica e ordinária.
Com o seminário, berço da sua vocação e palco da
primeira experiência de vida de comunhão, o sacerdote manterá
sempre relações de colaboração cordial e de afecto
sincero.
É « exigencia insuprimível da caridade pastoral »
(96) que secundando a graça do Espírito Santo cada
presbítero se preocupe de suscitar ao menos uma vocação
sacerdotal que lhe possa continuar o ministério.
33. Empenho político e social
O sacerdote, servidor da Igreja que em virtude da sua universalidade e
catolicidade não pode ligar-se a nenhuma contingência histórica,
estará acima de qualquer parte política. Ele não pode tomar
parte activa em partidos políticos ou na condução de
associações sindicais, a menos que, na opinião da
autoridade eclesiástica competente, o exijam a defesa dos direitos da
Igreja e a promoção do bem comum.(97) Com efeito, embora estas
coisas sejam boas em si mesmas, são todavia alheias ao estado clerical,
enquanto podem constituir um perigo grave de rotura da comunidade eclesial.(98)
Como Jesus (Jo 6, 15ss), o presbítero « deve renunciar a
empenhar-se em formas de política activa, especialmente quando ela é
partidária, como quase sempre inevitavelmente acontece, para permanecer o
homem de todos num plano de fraternidade espiritual ».(99) Por isso, todo o
fiel deve sempre poder abeirar-se do sacerdote sem se sentir excluído por
nenhum motivo.
O presbítero recordará que « não compete aos
Pastores da Igreia intervir directamente na acção política
e na organização social. Esta tarefa faz parte, com efeito, da
vocação dos fiéis leigos, os quais por iniciativa própria
trabalham juntamente com os seus concidadãos ».(100) Ele não
deixará de dedicar-se, todavia, « ao esforço de formar
rectamente a sua conciência » (l0l)
A redução da sua missão a tarefas temporais, puramente
sociais ou políticas ou de qualquer modo alheias à sua identidade
não é uma conquista mas uma perda gravíssima para a
fecundidade evangélica da Igreja inteira.
Capítulo II
ESPIRITUALIDADE SACERDOTAL
Contexto Histórico actual
34. Interpretar os sinais dos tempos
A vida e o ministério dos sacerdotes desenvolvem-se sempre no
contexto histórico, de vez em quando carregado de novos problemas e de
recursos inéditos, em que a Igreja, peregrina neste mundo, vai vivendo.
O sacerdócio não nasce da história, mas da vontade imutável
do Senhor. Todavia ele vai-se confrontando com as circunstâncias históricas
e embora permanecendo sempre fiel a si mesmo configura-se, nas opções
concretas, também através duma relação crítica
e duma procura de evangélica sintonia com os « sinais dos tempos ».
Por isso, os presbíteros têm o dever de interpretar tais «
sinais » à luz da fé e de os submeter a um discernimento
prudente. Em todo o caso não poderão ignorá-los, sobretudo
se se quere orientar dum modo eficaz e pertinente a própria vida de modo
que o seu serviço e o seu testemunho sejam cada vez mais fecundos para o
reino de Deus.
Na actual fase da vida da Igreja e da sociedade, os presbíteros são
chamados a viver em profundidade o seu ministério, tendo em conta as cada
vez mais profundas, numerosas e delicadas exigências de ordem não só
pastoral mas também social e cultural, às quais devem fazer
frente. (102)
Portanto, eles estão hoje empenhados nos diversos campos de
apostolado que requerem generosidade e dedicação completa, preparação
intelectual e, sobretudo, uma vida espiritual amadurecida e profunda, enraizada
na caridade pastoral, que é a sua via específica para a santidade
e que constitui também um autêntico serviço aos fiéis
no ministério pastoral.
35. A exigência da nova evangelização
Daqui se conclui que o sacerdote está envolvido, de maneira muito
especial, no empenhamento da Igreja inteira em ordem à nova evangelização.
Partindo da fé em Jesus Cristo, Redentor do homem, tem a certeza de que
n'Ele existe uma « imperscrutável riqueza » (Ef 3, 8)
que nenhuma cultura, nenhuma época pode exaurir e da qual os homens
sempre podem beber para se enriquecerem.(l03)
É esta, portanto, a hora duma renovação da nossa fé
em Jesus Cristo, que é o mesmo « ontem, hoje e sempre » (Heb
13, 8). Por conseguinte, « a chamada à nova evangelização
é antes de mais uma chamada à conversão ». (104) Ao
mesmo tempo é uma chamada à esperança, « que se apoia
nas promessas de Deus, na fidelidade à sua Palavra, e que tem como
certeza inabalávela ressurreição de Cristo, a sua vitória
defintiva sobre o pecado e sobre a morte, primeiro anúncio e raiz de toda
a evangelização, fundamento de toda a promoção
humana, princípio de toda a autêntica cultura cristã ».
(105)
Em tal contexto, o sacerdote deve antes de mais reavivar a sua fé, a
sua esperança e o seu amor sincero ao Senhor, de maneira a podê-lo
apresentar à contemplação dos fiéis e de todos os
homens como verdadeiramente é: uma Pessoa viva, afascinante, que nos ama
mais do que ninguém porque deu a sua vida por nós; « não
há maior amor do que dar a vida pelos seus amigos » (Jo 15,
13).
Ao mesmo tempo o sacerdote, consciente de que toda a pessoa, de diferentes
modos, vive à procura dum amor capaz de levá-la para lá dos
estreitos limites da sua fraqueza, do seu egoísmo e, sobretudo, da sua
morte, proclamará que Jesus Cristo é a resposta a todas estas
ansias.
Na nova evangelização, o sacerdote é chamado a ser o
arauto da esperança. (106)
36. O desafio das seitas e dos novos cultos
O proliferar das seitas e dos novos cultos, bem como a sua difusão
mesmo entre os fiéis católicos, cultos constitui um particular
desafio ao ministério pastoral.
Na base dum tal fenômeno existem motivações complexas.
Em todo o caso, o ministério dos presbíteros deve responder com
prontidão e dum modo incisivo à procura do sagrado e da autêntica
espiritualidade que hoje dum modo particular, se nota.
Com efeito, nestes últimos anos, tornou-se evidente que são
eminentemente pastorais as motivações que exigem o sacerdote como
homem de Deus e mestre de Oração.
Ao mesmo tempo, impõe-se a necessidade de fazer com que a comunidade
confiada aos seus cuidados pastorais seja realmente acolhedora de maneira que
ninguém que a ela pertença se sinta anónimo ou objecto de
indiferença.
Trata-se de uma responsabilidade que recai certamente sobre cada fiel mas,
de maneira muito particular sobre o presbítero, que é o homem da
comunhão.
Se ele souber acolher com estima e respeito todo aquele que o contactar
valorizando-lhe a personalidade, então criará um estilo de autêntica
caridade que se tornará contagioso e se estenderá gradualmente a
toda a comunidade.
Para vencer o desafio das seitas e dos novos cultos, é
particularmente importante uma catequese amadurecida e completa, a qual requer
hoje um esforço especial por parte do sacerdote, a fim de que todos os
seus fiéis conheçam realmente o significado da vocação
cristã e da fé católica. De modo particular, os fiéis
devem ser educados a conhecer bem a relação existente entre a sua
vocação específica em Cristo e a pertença à
Igreja, que devem aprender a amar filial e tenazmente.
Tudo isto se realizará se o sacerdote, na sua vida e no seu ministério,
evitar tudo o que poderia provocar tibieza, indiferença ou identificação
selectiva em relação à Igreja.
37. Luzes e sombras da actividade ministerial
É um motivo de grande conforto sublinhar que hoje os presbíteros
de todas as idades e na sua maioria e desenvolvem com alegre empenho, muitas
vezes fruto de silencioso heroísmo, o seu ministério, trabalhando
até ao limite das próprias forças sem ver, por vezes, os
frutos do seu trabalho.
Por este seu empenho, eles constituem hoje um anúncio vivo daquela
graça divina que, conferida no momento da ordenação,
continua a dar força renovada para o sacro ministério.
Junto com estas luzes, que iluminam a vida do sacerdote, não faltam
sombras que tendem a enfraquecer a beleza e a tornar menos eficaz o exercício
do ministério.
O ministério pastoral é uma empresa fascinante mas árdua,
sempre exposta à incompreensão e à marginalização
e, hoje, sobretudo ao cansaço, à desconfiança, ao
isolamento e, por vezes, à solidão.
Para vencer os desafios que a mentalidade secularista continuamente lhe
coloca o sacerdote terá o cuidado de reservar o primado absoluto à
vida espiritual, ao estar sempre com Cristo e ao viver com generosidade a
caridade pastoral, intensificando a comunhão com todos, em primeiro
lugar, com os outros presbíteros
Estar com Cristo na Oração
38. Primado da vida espiritual
O sacerdote foi, por assim dizer, « concebido » na longa oração
durante a qual o Senhor Jesus pediu ao Pai pelos seus apóstolos e, por
todos aqueles que no decurso dos séculos iriam participar da sua missão
(cf. Lc 6, 12; cf Jo 17, 15-20). A mesma oração de
Jesus no Getsemani (cf Mt 26, 36-44 par.), toda orientada para o sacrifício
sacerdotal do Gólgota, manifesta dum modo paradigmático «
como o nosso sacerdócio deva ser profundamente vinculado à oração:
enraizado na oração ».(107)
Nascidos destas orações e chamados a renovar um Sacrifício
que é inseparável delas, os presbíteros manterão
vivo o seu ministério mediante uma vida espiritual, à qual darão
absoluta preeminência, evitando esquecê-la por causa das diversas
actividades. Precisamente para poder realizar frutuosamente o ministério
pastoral, o sacerdote tem necessidade de entrar numa particular e profunda
sintonia com Cristo bom Pastor, o qual permanece sempre o único
protagonista principal de toda a acção pastoral.
39. Instrumentos da vida espiritual
Tal vida espiritual deve ser encarnada na existência de cada presbítero
mediante a liturgia, a oração pessoal, o estilo de vida e a prática
das virtudes cristãs que contribuem para a fecundidade da acção
ministerial. A própria conformação a Cristo exige, por
assim dizer, o respirar um clima de amizade e de encontro pessoal com o Senhor
Jesus e de serviço à Igreja, seu Corpo, que o sacerdote demonstrará
de amar mediante o cumprimento fiel e incansável dos deveres do ministério
pastoral. (108)
É necessário, portanto, que o presbítero programe a
sua vida de oração de maneira a incluir: a celebração
eucarística quotidiana, (109) com adequada preparação e acção
de graças; a confissão frequente (110) e a direcção
espiritual já praticada no seminário; (111) a celebração
íntegra e fervorosa da liturgia das horas, (112) à qual é
quotidianamente obrigado; (113) O exame de consciência; (114) a oração
mental propriamente dita; (115) a lectio divina; (116) os momentos prolongados
de silêncio e de colóquio, sobretudo nos Exercícios e
retiros Espirituais periódicos; (117) as preciosas expressões da
devoção mariana como o Rosário; (118) a « Via Sacra »e
os outros pios exercícios; (119) a frutuosa leitura hagiográfica.(120)
Cada ano, como sinal do constante desejo de fidelidade, durante a Santa
Missa crismal de Quinta Feira Santa, os presbíteros renovem perante o
Bispo e juntamente com ele as promessas feitas no momento da ordenação.
(121)
O cuidado da vida espiritual deve ser considerado pelo sacerdote como um
dever que infunde alegria e ainda como um direito dos fiéis que procuram
nele, consciente ou in-conscientemente, o homem de Deus, o conselheiro, o
mediador de paz, o amigo fiel e prudente, o guia seguro em quem as pessoas
confiam nos momentos duros da vida para encontrar conforto e segurança.
(122)
40. Imitar Cristo que reza
Por causa de numerosos empenhos provenientes em larga medida da actividade
pastoral, a vida do presbítero está exposta, hoje mais do que
nunca, a uma série de solicitações que poderiam conduzi-la
para um crescente activismo exterior, submetendo-a a um ritmo, por
vezes, frenético e irresistível.
Contra tal « tentação », é necessário
não esquecer que a primeira intenção de Jesus foi a de
convocar à sua volta os Apóstolos para que antes de mais «
estivessem com ele » (Mc . 3, 14)
O próprio Filho de Deus quis deixar-nos o testemunho da sua oração.
Com efeito, muito frequentemente, os Evangelhos apresentam-nos Cristo em oração:
na revelação da sua missão por parte do Pai (cf Lc
3, 21-22) antes de chamar os Apóstolos (cf Lc 6, 12), ao dar graças
a Deus na multiplicação dos pes (cf Mt 14, 19; 15,
36; Mc 6, 41; 8, 7; Lc 9, 16; Jo 6, 11), na transfiguração
no monte (cf Lc 9, 28-29), quando cura o surdo mudo (cf Mc 7,
34) e ressuscita Lázaro (cf
Jo 11, 41ss), antes da confissão de Pedro (cf Lc 9, 18),
quando ensina os discêpulos a rezar (cf Lc 11, 1) e quando eles
regressam depois de ter cumprido a sua missão (cf Mt 11, 25 e ss;
Lc 10, 21 e ss), ao abençoar as crianças (cf Mt 19,
13) e ao rezar por Pedro (cf Lc 22, 32).
Toda a sua actividade quotidiana derivava da oração. Assim ele
retirava-se para o deserto ou para o monte para rezar (cf Mc 1, 35; 6,
46; Lc 5, 16; Mt 4, 114, 23), levantava-se de manh muito
cedo (cf Mc 1, 35) e passava a noite inteira em oração a Deus (cf
Mt 14, 23. 25; Mc 6, 46. 48; cf Lc 6, 12).
Até ao termo da sua vida, na ·ltima Ceia (cf Jo 17,
1-26), na agonia (cf Mt 26, 36-44 par.) e na cruz (cf Lc 23, 34.
46; Mt 27, 46; Mc 15, 34), o divino Mestre demonstrou que a oração
animava o seu ministério messiânico e o seu êxodo pascal.
Ressuscitado de entre os mortos, vive para sempre e intercede por nós (cf
Heb 7, 25).(123)
A exemplo de Cristo, o sacerdote deve saber manter a vivência e a
abundância dos momentos de silêncio e de oração para
mediante eles cultivar e aprofundar uma relação existencial com a
pessoa viva do Senhor Jesus.
41. Imitar a Igreja que reza
Para permanecer fiel ao empenho de «estar com Jesus », é
necessário que o presbítero saiba imitar a Igreja que reza.
Proclamando a Palavra de Deus, que ele mesmo recebeu com alegria, o
sacerdote recorde-se da exortação que o Bispo Ihe dirigiu no dia
da sua ordenação: « Por isso, fazendo da Palavra o objecto da
tua contínua reflexão, crê sempre no que lês, ensina o
que crês, realiza na vida o que ensinas. Deste modo, enquanto com a
doutrina dar·s alimento ao Povo de Deus e com o bom testemunho da vida Ihe
servirás de conforto e sustento, tornar-te-ás construtor do templo
de Deus, que é a Igreja ». De forma semelhante em relação
à celebração dos sacramentos e, em particular da
Eucaristia: « Sê, portanto, consciente do que fazes, imita o que
realizas e dado que celebras o mistério da morte e da ressurreição
do Senhor, leva a morte de Cristo no teu corpo e caminha na sua novidade de vida
». E, enfim, em relação à guia pastoral do Povo de
Deus para o conduzir até ao Pai: « Por isso não deixes nunca
de ter o olhar fixo em Cristo, bom Pastor, que veio não para ser servido
mas para servir e para procurar e salvar os que estavam perdidos ».(124)
42. Oração como comunhão
Fortificado pela especial ligação ao Senhor, o comunhão
presbítero saber· enfrentar os momentos em que poderia sentir-se só
no meio dos homens; renovando energicamente o seu estar com Cristo que na
Eucaristia é o seu refúgio e o seu melhor repouso.
Como Jesus, que enquanto estava só estava continuamente com o Pai (cf
Lc 3, 21; Mc 1, 35), assim também o presbêtero deve
ser o homem que na solidão encontra a comunhão com Deus,(125) de
modo a poder dizer com S. Ambrósio: « Nunca estou menos só do
que quando pareço estar só »(126)
Caridade pastoral
43. Manifestação da Caridade de Cristo
A caridade pastoral constitui o principio interior e dinâmico capaz de
unificar as múltiplas e diversas actividades pastorais do presbitério
e, dado o contexto sócio-cultural e religioso no qual vive, é
instrumento indispensàvel para conduzir os homens à vida da Graça.
Plasmada por tal caridade, a actividade ministerial deve ser uma manifestação
da caridade de Cristo, da qual o presbítero saberá exprimir
atitudes e comportamentos, até à doação total de si
em benefício do rebanho que Ihe foi confiado.(127)
Assimilar a caridade pastoral de Cristo de maneira a torná-la forma
da própria vida, é uma meta que exige do sacerdote empenhos e
sacrificios contínuos, jà que ela não se improvisa, não
conhece paragens nem pode ser conseguida duma vez para sempre. O ministro de
Cristo deve sentir- se obrigado a viver e a testemunhar esta realidade sempre e
em toda a parte, mesmo quando, por causa da idade, for desobrigado de encargos
pastorais concretos.
44. Funcionalismo
A caridade pastoral corre, sobretudo hoje, o perigo de ser esvaziada do seu
significado pelo assim chamado « funcionalismo ». Com efeito, não
é raro notar, mesmo em alguns sacerdotes, o influxo duma mentalidade que
tende erroneamente a reduzir o sacerdócio ministerial só aos
aspectos funcionais. Ser padre consistiria em realizar alguns serviços e
em garantir algumas prestações de trabalho. Tal concepção
redutora da identidade e do ministério do sacerdote, corre o risco de lançar
a vida deste no vazio, que muitas vezes é preenchido por formas de vida
que não estão de acordo com o próprio ministério.
O sacerdote, que sabe ser ministro de Cristo e da sua esposa, encontrar·
na oração, no estudo e na leitura espiritual a força necess·ria
para vencer também este perigo. (128)
Pregação da palavra
45. Fidelidade à palavra
Cristo confiou aos Apóstolos e à Igreja a missão de
pregar a Boa Nova a todos os homens.
Transmitir a fé é revelar, anunciar e aprofundar a vocação
cristã; isto é, a chamada que Deus dirige a cada homem
manifestando-lhe o mistério da salvação e,
contemporaneamente, o lugar que ele deve ocupar em relação a tal
ministério, como filho de adopção no Filho. (129) Este
duplo aspecto é evidenciado sinteticamente no Símbolo da Fé,
uma das expressões mais autorizadas daquela fé com que a Igreja
sempre respondeu ao apelo de Deus.(130)
Colocam-se, então, ao ministério presbiteral duas exigências
que são como duas faces da mesma medalha. Há, em primeiro lugar, o
carácter missionário da transmissão da fé. O ministério
da palavra não pode ser abstracto ou distante da vida das pessoas; ao
contrário, ele deve referir-se directamente ao sentido da vida do homem,
de cada homem, e, portanto, deverá entrar nas questões mais vivas
que se colocam à consciência humana.
Por outro lado, há uma exigência de autenticidade e de
conformidade com a fé da Igreja, guardiã da verdade acerca de
Deus e do homem. Isto deve ser feito com sentido de extrema responsabilidade,
consciente de que se trata duma questão da máxima importância
enquanto está em jogo a vida do homem e o sentido da sua existência.
Em ordem a um frutuoso ministério da Palavra, tendo presente tal
contexto, o presbítero deve dar o primado ao testemunho de vida, que faz
descobrir a potência do amor de Deus e torna persuasiva a sua palavra. Além
disso, terá em conta a pregação explícita do mistério
de Cristo aos crentes, aos não crentes e aos não cristãos;
a catequese, que é a exposição ordenada e orgânica da
doutrina da Igreja; a aplicação da verdade revelada à solução
dos casos concretos.(131)
A consciência da absoluta necessidade de « permanecer » fiéis
e ancorados à Palavra de Deus e à Tradição para ser
verdadeiramente discípulos de Cristo e conhecer a verdade (cf. Jo
8, 31-32) acompanhou sempre a história da espiritualidade sacerdotal e
foi sublinhada com autoridade também pelo Concêlio Ecuménico
Vaticano II.(132)
Sobretudo na sociedade contemporanea, marcada pelo materialismo teórico
e prático, pelo subjectivismo e pelo problematicismo, é necessário
que o Evangelho seja apresentado como « a potência de Deus para
salvar aqueles que crêem » (Rom 1, 16). Os presbíteros,
recordando que « a fé depende da pregação e a pregação,
por sua vez, se actua pela Palavra de Cristo » (Rom 10, 17),
empenharo todas as suas energias para corresponder a esta missão
que é primária no seu ministério. Com efeito, eles são
não só as testemunhas, mas também os anunciadores e
transmissores da fé.(133)
Tal ministério ó realizado na comunhão hierárquica
ó habilita-os a exprimir com autoridade a fé católica e a
dar testemunho oficial da fé da Igreja. Com efeito, o Povo de
Deus « é reunido antes de mais mediante a palavra de Deus vivo, que
todos têm o direito de procurar nos lábios dos sacerdotes ».(134)
Para ser autêntica, a palavra deve ser transmitida « sem
duplicidade e sem nenhuma falsificação, mas manifestando com
franqueza a verdade diante de Deus » (2 Cor 4, 2). O presbêtero,
com uma maturidade respons·vel, evitar· disfarçar, reduzir,
distorcer ou diluir o conte·do da mensagem divina. Com efeito, a sua missão
« não é de ensinar uma sabedoria própria, mas sim de
ensinar a palavra de Deus e de convidar insistentemente a todos à conversão
e à santidade ».(135)
Portanto, a pregação não pode reduzir-se à
comunicação de pensamentos próprios, à manifestação
da experiência pessoal, a simples explicações de carácter
psicológico, (136) sociológico ou filantrópico; nem sequer
ser excessivamente condescendente ao fascênio da retórica, muitas
vezes tão habitual na comunicação às multidões.
Trata-se de anunciar uma Palavra de que não é permitido
dispor,dado que foi confiada à Igreja para defender, compreender e
transmitir fielmente.(137)
46. Palavra e vida
A consciência da própria missão de anunciador do
Evangelho, deverá pastoralmente concretizar-se de modo que o presbítero
cada vez mais possa vivificar, à luz da Palavra de Deus, as diversas
situações e os diversos ambientes nos quais ele desenvolve o seu
ministério.
Para ser eficaz e crêvel é importante que o presbítero ó
na perspectiva da fé e do seu ministério ó conheça,
com um sentido crítico construtivo as ideologias, a linguagem, os laços
culturais, as tipologias difundidas através dos meios de comunicação
e que, em grande parte condicionam as mentalidades.
Estimulado pelo Apóstolo que exclamava: « Ai de mim se não
pregar o Evangelho! » (1 Cor 9, 16), saberá utilizar todos
os meios de transmissão que as ciências e a tecnologia moderna Ihe
oferecem.
Certamente que nem tudo depende de tais meios ou das capacidades humanas, já
que a graça divina pode conseguir o seu efeito independentemente da obra
dos homens. Mas, no plano de Deus, a pregação da Palavra é,
normalmente, o canal privilegiado para a transmissão da fé e para
a missão evangelizadora.
Para tantos que hoje estão fora ou longe do anúncio de Cristo,
o presbítero sentirá como particularmente urgente e actual a
pergunta angustiante: « como poderão acreditar sem ter ouvido falar?
E como poderão ouvir falar sem alguém que Ihes anuncie? » (Rom
10, 14).
Para tal fim, ele deve sentir-se empenhado pessoalmente em cultivar a
Sagrada Escritura com o estudo duma s exegese, sobretudo patrística,
e com a meditação feita segundo os diversos métodos
comprovados pela tradição da Igreja, de maneira a obter dela uma
compreensão animada pelo amor.(138) Por esse motivo, o presbítero
tem o dever de reservar particular atenção à preparação,
quer remota quer próxima, da homilia litúrgica, ao seu conteúdo,
ao equilíbrio entre parte de exposição e de aplicação,
à pedagogia e àtécnica de apresentar, até à
boa dicção, que respeite a dignidade do acto e dos destinatários.(139)
47. Palavra e Catequese
A catequese é parte relevante desta missão evangelizadora,
sendo instrumento privilegiado do ensino e da maturação da fé.(140)
O presbítero, enquanto colaborador e por mandato do Bispo, tem a
responsabilidade de animar, coordenar e dirigir a actividade catequística
da comunidade que Ihe est· confiada. È importante que ele saiba
integrar tal actividade num projecto orgânico de evangelização
garantindo, antes de mais, a comunhão da catequese da própria
comunidade com a pessoa do Bispo, com a Igreja particular e com a Igreja
universal. (141)
Dum modo particular, ele dever· saber suscitar a justa e oportuna
responsabilidade e a colaboração em relação à
catequese, quer dos membros dos Institutos de Vida consagrada e das Sociedades
de vida apostólica, quer dos fiéis leigos, (142) adequadamente
preparados, mostrando-lhes reconhecimento e estima pelo trabalho catequístico.
Deve pôr especial cuidado na cura da formação inicial e
permanente dos catequistas. Na medida do possível, o sacerdote deverá
ser o catequista dos catequistas, formando com eles uma verdadeira
comunidade de discípulos do Senhor que sirva como ponto de referência
para os catequisandos.
Mestre (143) e educador da fé, (144) o presbítero far·
com que a catequese, sobretudo a sacramental, seja parte privilegiada da educação
cristã na família, no ensino religioso, na formação
dos movimentos apostólicos, etc., e que ela se dirija a todas as
categorias de fiéis: crianças e jovens, adolescentes, adultos e
idosos. Além disso, na transmissão do ensino catequético
far· uso de todas as ajudas, subsídios didácticos e
instrumentos de comunicação que possam ser eficazes a fim de que
os fiéis, de maneira adaptada à sua índole, capacidade,
idade e às condiçðes pràticas de vida, sejam capazes de
apreender com maior plenitude a doutrina cristã e de traduzi-la na prática
da maneira mais conveniente.(145)
Para tal fim, o presbítero não deixar· de ter como
principal ponto de referência o Catecismo da Igreja Católica. Com
efeito tal texto constitui norma segura e autêntica do ensino da
Igreja.(146)
O Sacramento da eucaristia
48. O mistério eucarístico
Se o serviço da Palavra é elemento fundamental do ministério
presbiteral, o coração e o centro vital desse é, sem dúvida,
constituêdo pela Eucaristia, que é, sobretudo, a presença
real, no tempo, do ·nico e eterno sacrifício de Cristo.(147)
Memorial sacramental da morte e ressurreição de Cristo,
representação real e eficaz do único Sacrifício
redentor, fonte e cume da vida cristã e de toda a evangelização,(148)
a Eucaristia é princípio, meio e fim do ministério
sacerdotal, uma vez que « todos os ministérios eclesiásticos
e as obras de apostolado estão estrictamente unidos à Eucaristia e
a ela estão ordenados ».(149) Consagrado para perpetuar o Santo
Sacrifício, o presbítero manifesta assim, de maneira mais
evidente, a sua identidade.
Existe, com efeito, uma conexão íntima entre a centralidade da
Eucaristia, a caridade pastoral e a unidade de vida do presbítero,(150) o
qual encontra nela as indicações decisivas para o itinerário
de santidade a que é especificamente chamado.
Se o presbítero empresta a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, a inteligência,
a vontade, a voz e as mãos para, mediante o seu ministério, poder
oferecer ao Pai o sacrifício sacramental da redenção, deverá
fazer próprias as disposições do Mestre e viver, como Ele,
sendo « dom » para os seus irmãos. Deverá por isso
aprender a unir-se intimamente à oferta, colocando sobre o altar do
sacrifício toda a sua vida como sinal manifestativo do amor gratuito e
preveniente de Deus.
49. Celebracão
É necessário chamar a atenção para o valor cla
Eucaristia insubstituível da celebração quotidiana da Santa
Missa, mesmo sem a presença de fiéis.(151) Ele deve vivê-la
como o momento central do dia e do ministério quotidiano, fruto dum
desejo sincero e de ocasião de encontro profundo e eficaz com Cristo, e
terá o máximo cuidado de ( celebrá-la com devoção
e íntima participação da mente e do coração.
Numa civilização cada vez mais sensível à
comunicação mediante os sinais e as imagens, o sacerdote concederá
adequada atenção a tudo o que possa exaltar o decoro e a
sacralidade da celebração eucarística. É importante
que em tal celebração, se dê justo ressalto à
qualidade e limpeza do lugar, à arquitectura do altar e do tabernáculo,(152)
à nobreza dos vasos sagrados, dos paramentos,(153) do canto,(154) da música,(155)
ao silêncio sagrado,(156) etc. Todos estes elementos podem contribuir para
uma melhor participação no Sacrifício eucarístico.
Com efeito, a escassa atenção aos aspectos simbólicos da
liturgia e mais ainda o desleixo e a pressa, a superficialidade e a desordem,
esvaziam-lhe o significado, enfraquecendo-lhe a função de
incremento da fé. (157) Quem celebra mal manifesta a fraqueza da sua fé
e não educa os outros na fé. Ao contrário, celebrar bem
constitui uma primeira e importante catequese sobre o santo Sacrifício.
Por isso, o sacerdote, embora coloque ao serviço da celebração
todos os seus dotes para a tornar viva e participada pelos fiéis, deve
ater-se ao rito estabelecido nos livros litúrgicos aprovados pela
autoridade competente, sem acrescentar, tirar ou mudar nada.(158)
Todos os Ordinários, os Superiores religiosos, os Directores das
sociedades de vida apostólica e os outros Prelados, têm o dever
grave, para além de dar o exemplo, de vigiar a fim de que as normas litúrgicas
(concernentes à celebração da Eucaristia sejam fielmente
observadas pelos seus fiéis em todos os lugares.
Os sacerdotes que celebram ou que concelebram são obrigados a usar as
vestes sagradas prescritas pelas rubricas. (159)
50. Adoração eucarística
A centralidade da Eucaristia deverá mostrar-se não só
mediante a celebração digna e vivida do Sacrifício, mas
também mediante a adoração frequente do Sacramento, de
maneira que o presbítero se apresente como modelo do rebanho também
na atenção devota e na meditação assídua
feita sempre que seja possível na presença do Senhor
no tabernáculo. E desejável que os presbíteros encarregados
da direcção de comunidades dediquem largos espaços de tempo
à adoração comunitária e reservem ao Santíssimo
Sacramento do altar, mesmo fora da missa, atenções e honras
superiores a qualquer outro rito e gesto. « A fé e o amor à
Eucaristia não podem permitir que a presença de Cristo no Tabernáculo
permaneça solitária » (160)
Momento privilegiado da adoração eucarística pode ser a
celebração da Liturgia das Horas, a qual constitui, durante o dia,
o verdadeiro prolungamento do sacrifício de louvor e de acção
de graças que tem na Eucaristia o centro e a fonte sacramental. A
Liturgia das Horas, na qual o sacerdote, unido a Cristo, è a voz da
Igreja para o mundo inteiro, será celebrada, também comunitáriamente,
quando è possível e nas formas convenientes, de maneira a ser «
intérprete e veículo da voz universal que canta a glóriade
Deus e pede a salvação do homem » (161)
Os Capítulos canonicais devem reservar a tal celebração
uma solenidade exemplar.
Todavia tanto na celebração comunitária como na
individual, dever-se-à evitar sempre reduzi-la a um puro « dever »
a cumprir mecanicamente como simples e apressada leitura sem a necessária
atenção ao sentido do texto.
O Sacramento da penitência
51. Ministro da Reconciliação
O Espírito Santo para a remissão dos pecados é um dom
do Ressuscitado aos Apóstolos: « Recebei o Espírito Santo; a
quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados e a quem os retiverdes
ser-lhe-ão retidos » (Jo 20, 21-23). Cristo confiou a obra
de reconciliação do homem com Deus exclusivamente aos seus Apóstolos
e àqueles que lhes sucedem na mesma missão. Os sacerdotes são,
portanto, por vontade de Cristo, os únicos ministros do sacramento da
reconciliação.(162) Como Cristo, são enviados a chamar os
pecadores à conversão e a reconduzí-los ao Pai, mediante o
julgamento de misericórdia.
A Reconciliação sacramental restabelece a amizade com Deus Pai
e com todos os seus filhos na sua família que é a Igreja, a qual,
portanto, rejuvenesce sendo edificada em todas as suas dimensões:
universal, diocesana, paroquial.(163)
Não obstante a triste constatação da perda do sentido
do pecado, que caracteriza largamente as culturas do nosso tempo, o sacerdote
deve praticar, com alegria e dedicação, o ministério da
formação das consciências, do perdão e da paz.
É, portanto, necessário que ele saiba identificar-se, em certo
sentido, com este sacramento e, assumindo a atitude de Cristo, saiba abeirar-se
misericordiosamente, como bom samaritano, da humanidade ferida, mostrando a
novidade cristã da dimensão medicinal da Penitência, que
existe em ordem à cura e ao perdão.(164)
52. Dedicacão ao ministério da Reconciliação
Em virtude do seu munus, (165) e por causa da ordenação
sacramental o presbítero deverá dedicar tempo e energias a ouvir
as confissões dos fiéis, os quais, como a experiência
demonstra, de boa vontade vão receber este Sacramento onde houver
sacerdotes disponíveis. Isto vale para toda a parte mas, sobretudo, para
as Igrejas das zonas mais frequentadas e para os Santuários, onde é
possível uma colaboração fraterna e responsável com
os sacerdotes religiosos e com os idosos.
Cada sacerdote deve ater-se à norma eclesial que defende e promove o
valor da confissão individual e a pessoal e íntegra acusação
dos pecados em colóquio directo com o confessor,(166) reservando o uso da
confissão e da absolvição comunitária só para
os casos extraordinários e com as condições requeridas,
contemplados pelas disposições vigentes.(167)
O confessor encontrará maneira de iluminar a consciência do
penitente com uma palavra, que, embora breve, seja apropriada à situação
concreta, de maneira a contribuir para uma renovada orientação
pessoal à conversão com uma incidência profunda no caminho
espiritual, também mediante a imposição duma satisfação
conveniente.(168)
Em todo o caso, o sacerdote saberá manter a celebração
da Reconciliação ao nível sacramental, superando o perigo
de reduzi-la a uma actividade puramente psicológica ou simplesmente
formalística.
Isto se manifestará, entre outras coisas, em viver fielmente a
disciplina vigente acerca do lugar e ambiente das confissões.(169)
53. Necessidade de confessar-se
Como todo o bom fiel também o presbítero tem necessidade de
confessar os próprios pecados e as próprias fraquezas. Ele é
o primeiro a saber que a prática deste sacramento o fortalece na fé
e na caridade para com Deus e para com os irmãos.
Para se encontrar nas melhores condições de mostrar com eficácia
a beleza da Penitência, é essencial que o ministro do sacramento
ofereça um testemunho pessoal precedendo os outros fiéis no fazer
a experiência do perdão. Isto constitui também a primeira
condição para a revalorização pastoral do sacramento
da Reconciliação. Deste modo, é uma boa coisa para os fiéis
saber e dar-se conta de que os seus sacerdotes se confessam com
regularidade.(170) « toda a existência sacerdotal sofre uma queda
inexorável, se lhe falta, por negligência ou por qualquer outro
motivo, o recurso, periódico e inspirado por uma autêntica fé
e devoção, ao Sacramento da Penitência. Num padre que não
se confessasse mais ou se confessasse mal, o seu ser padre e o seu trabalho de
padre ressentir-se-iam muito brevemente, e dar-se-ia conto disso a Comunidade,
de que ele é pastor».(171)
54. Direccão espiritual para si e para os outros
Paralelamente ao Sacramento da Reconciliação, para o presbítero
não deixará de exercer o ministério da direccão
espiritual. A descoberta e a difusão desta prática, em
momentos dlversos da administração da Penitência, é
um grande benefício para a Igreja no tempo presente.(172) A
disponibilidade generosa e activa os presbíteros para praticá-la
constitui também uma ocasião importante para determinar e
sustentar as vocações ao sacerdócio e às várias
formas de vida consagrada.
Para contribuir para o melhoramento da sua espiritualidade é necessário
que os presbíteros recebam eles mesmos a direcção
espiritual. Colocando nas mãos dum sábio colega a formação
da sua alma, a partir dos primeiros anos de ministério, crescerão
na consciência da importancia de não caminhar sozinhos pelos
caminhos da vida espiritual e do empenho pastoral. Recorrendo a este meio eficaz
de formação, tão experimentado na Igreja, os presbíteros
terão plena liberdade na escolha da pessoa a quem confiar a direcção
da sua vida espiritual.
Guia da comunidade
55. Sacerdote para a comunidade
O sacerdote é chamado a confrontar-se com as exigências típicas
dum outro aspecto do seu ministério, para além daqueles já
referidos. Trata-se do cuidado da comunidade que lhe foi confiada e que se
exprime sobretudo no testemunho da caridade.
Pastor da comunidade o sacerdote existe e vive para ela; por ela reza,
estuda, trabalha e se sacrifica; por ela está disposto a dar a vida,
amando-a como Cristo, dirigindo para ela todo o seu amor e a sua estima,(173)
prodigando-se com todas as forças e sem limites de tempo por torná-la,
à imagem da Igreja esposa de Cristo, cada vez mais bela e digna da
complacência do Pai e do amor do Espírito Santo.
Esta dimensão esponsal da vida do presbítero como pastor fará
com que ele guie a sua comunidade servindo com dedicação todos e
cada um dos seus membros esclarecendo as suas consciências com a luz da
verdade revelada, defendendo com autoridade a autenticidade evangélica da
vida cristã, corrigindo os erros, perdoando, sanando as feridas,
consolando as aflições, promovendo a fraternidade.(174)
Este conjunto de atenções, delicadas e complexas, para além
de garantir o testemunho de caridade cada vez mais transparente e eficaz,
manifestará também a profunda comunhão que deve
estabelecer-se entre o presbítero e a sua comunidade, como prolongamento
e actualização da comunhão com Deus, com Cristo e com a
Igreja.(175)
56. Sentir com a Igreja
Para ser bom « guia » do seu Povo, o presbítero estará
também atento a conhecer os sinais dos tempos: dos mais vastos e
profundos que dizem respeito à Igreja universal e ao seu caminho na história
dos homens, aos mais próximos da situação concreta da sua
comunidade.
Este discernimento requer a constante e correcta actualização
no estudo dos problemas teológicos e pastorais, o exercício duma sábia
reflexão sobre os dados sociais, culturais e científicos que
caracterizam o nosso tempo.
Na prática do seu ministério, os presbíteros saberão
traduzir esta exigência numa constante e sincera atitude em sentir com a
Igreja, de modo a trabalhar sempre em comunhão com o Papa, com os Bispos,
com os outros irmãos no sacerdócio, bem como com os fiéis
consagrados pela profissão dos conselhos evangélicos e com os fiéis
leigos.
Além disso, no exercício da sua actividade, não deixarão
de pedir a cooperação dos fiéis consagrados e dos fiéis
leigos, de acordo com as formas legítimas e tendo em conta as capacidades
de cada um.
O Celibato sacerdotal
57. Firme vontade da Igreja
Convencida das profundas motivações da Igreja teológicas
e pastorais que sustentam a relação entre celibato e sacerdócio
e iluminada pelo testemunho que, não obstante casos dolorosos e
negativos, ainda hoje confirma o seu valor espiritual e evangélico em
tantas existências sacerdotais, a Igreja reafirmou no Concílio
Vaticano II e repetida mente no sucessivo Magistério Pontifício a «
firme vontade de manter a lei que exige o celibato livremente escolhido e perpétuo
para os candidatos à ordenação sacerdotal no rito latino »
(176)
O celibato, com efeito, é um dom que a Igreja recebeu e quer
guardar,convencida que ele é um bem para ela e para o mundo.
58. Motivação teológico espiritual do celibato
Como todo o valor evangélico, também o celibato consagrado
deve ser vivido como novida delibertadora, como particular testemunho de
radicalismo na sequela de Cristo e sinal da realidade escatológica.
« Nem todos podem compreendê-lo, mas só aqueles aos quais
foi concedido. Pois, há eunucos que nasceram assim do ventre materno; há
outros que foram feitos eunucos pelos homens e há outros que se fizeram
eunucos por amor do reino dos céus. Quem pode compreender, compreenda »
(Mt 19, 10-12 ). (177)
Para viver com amor e generosidade o dom recebido, é particularmente
importante que o sacerdote compreenda desde o tempo da formação
seminarística a motivação teológica e espiritual da
disciplina eclesiástica sobre o celibato. (178) Este, como dom e carisma
particular de Deus, requer a observância da castidade, portanto da continência
perfeita e perpétua por amor do Reino dos céus, para que os
ministros sagrados possam aderir mais facilmente a Cristo com coração
indiviso e dedicar-se mais livremente ao serviço de Deus e dos
homens.(179) A disciplina eclesiástica manifesta, antes da vontade do
sujeito expressa pela sua disponibilidade, a vontade da Igreja e encontra a sua
razão última no laço estreito que o celibato tem com a
ordenação sagrada, que configura o sacerdote a Jesus Cristo Cabeça
e Esposo da Igreja.(180)
A carta aos Efésios (cf 5, 25-27) coloca em relação
estreita a oblação sacerdotal de Cristo (cf 5, 25) com a santificação
da Igreja (cf 5, 26), amada com amor esponsal. Inserido sacramentalmente neste
sacerdócio de amor exclusivo de Cristo pela Igreja, sua Esposa fiel, o
presbítero exprime com o seu empenho celibatário esse amor que se
torna também fonte fecunda de eficácia pastoral.
Portanto, o celibato não é um influxo que do exterior recai
sobre o ministério sacerdotal, nem pode ser ser considerado simplesmente
uma instituição imposta por lei, até porque quem recebe o
sacramento da Ordem a isso se empenha com plena consciência e
liberdade,(181) depois duma preparação de muitos anos, de profunda
reflexão e de oração assídua. Juntamente com a firme
convicção de que Cristo lhe concede este dom para o bem da Igreja
e para o serviço dos outros, o sacerdote assume-o para toda a vida, reforçando
esta sua vontade na promessa já feita durante o rito da ordenação
diaconal.(182)
Por estas razões, a lei eclesiástica, por um lado confirma o
carisma do celibato mostrando que ele está em íntima conexão
com o ministério sagrado na sua dupla dimensão de relação
com Cristo e com a Igreja, e por outro tutela a liberdade daquele que o
assume.(183)
Por isso, o presbítero consagrado a Cristo com um novo e excelso título,(184)
deve estar bem consciente de que recebeu um dom sancionado por um preciso vínculo
jurídico do qual deriva a obrigação moral da observância.
Tal vínculo, livremente assumido, tem um carácter teologal e
moral, antes de ser jurídico, e é sinal daquela realidade esponsal
que se actua na ordenação sacramental. O presbítero adquire
também aquela paternidade espiritual, mas real, que se alarga de modo
universal e, em particular, se concretiza na relação com a
comunidade que lhe é confiada.(185)
59. Exemplo de Jesus
O celibato é, portanto, dom de si « em » e « com »
Cristo à sua Igreja e exprime o serviço do sacerdote à
Igreja « em » e « com » o Senhor.(186)
Permanecer-se-ia numa imaturidade permanente se o celibato fosse visto como «
um tributo que se paga ao Senhor » para ser introduzido às Ordens
sagradas e não, como « um dom que se recebe da sua misericórdia
»,(187) como escolha de liberdade e acolhi mento agradecido de uma vocação
especial de amor a Deus e aos homens.
O exemplo é o do próprio Senhor o qual, indo contra aquela que
se pode considerar a cultura dominante do seu tempo, escolheu livremente viver
celibatário. Na sua sequela os discípulos deixaram « tudo »
para realizar a missão que Ihes foi confiada (Lc 18, 28-30).
Por esse motivo, a Igreja, desde os tempos apostólicos quis conservar
o dom da continência perpétua dos clérigos e se orientou a
escolher os candidatos às Ordens sagradas entre os celibatários
(cf 2 Tess 2, 15; 1 Cor 7, 5; 9, 5; 1 Tim 3, 2. 12; 5,
9; Tit 1, 6. 8).(188)
60. Dificuldades e objecções
No actual clima cultural, condicionado muitas vezes por uma visão do
homem destituída de valores e, sobretudo, incapaz de dar um sentido
pleno, positivo e libertador à sexualidade humana, coloca-se
frequentemente a pergunta sobre o valor e o significado do celibato sacerdotal
ou, ao menos sobre a oportunidade de afirmar o seu vínculo estricto e a
sua profunda sintonia com o sacerdócio ministerial.
Dificuldades e objeções acompanharam sempre ao longo dos séculos
a escolha da Igreja Latina e de algumas Igrejas Orientais de conferir o sacerdócio
ministerial só àqueles homens que receberam de Deus o dom da
castidade no celibato. A disciplina das outras Igrejas Orientais que admitem o
sacerdócio dos esposados, não se contrapõe à da
Igreja latina. Com efeito, as mesmas Igrejas Orientais exigem todavia o celibato
aos Bispos. Além disso, não permitem o matrimónio dos
sacerdotes e nem permitem núpcias sucessivas aos que ficaram viuvos.
Trata-se sempre e só da ordenação de homens já
casados.
As dificuldades que alguns hoje apresentam,(189) fundamentam-se muitas vezes
quer em argumentos pretextuosos, como por exemplo a acusação de
espiritualismo desencarnado ou que a continência comporte desconfiança
ou desprezo da sexualidade, ou ainda valendo-se de casos difíceis e
dolorosos, quer na generalização de casos particulares. Pelo contrário,
esquece-se o testemunho dado pela imensa maioria dos sacerdotes, que vivem o seu
celibato com liberdade interior, com fortes motivações evangélicas,
em fecundidade espiritual, num horizonte de convencida e contente fidelidade à
própria vocação e missão.
É claro que para garantir e defender este dom num clima de sereno
equilíbrio e de progresso espiritual, devem ser postas em prática
todas as medidas que afastem o sacerdote das dificuldades possíveis.(190)
É necessário portanto que os presbíteros se comportem
com a devida prudência nas relações com as pessoas cuja
familiaridade pode colocar em perigo a fidelidade ao dom ou então
suscitar o escandalo dos fiéis. (191) Nos casos particulares deve
atender-se ao parecer do Bispo que tem obrigação de estabelecer
normas precisas sobre o assunto.(192)
Além disso, os sacerdotes não deixem de seguir aquelas regras
ascéticas garantidas pela experiência da Igreja e que são
ainda mais exigidas nas circunstâncias actuais, pelo que evitem
prudentemente frequentar lugares e assistir a espectáculos ou praticar
leituras que constituam uma insídia à observância da
castidade celibatária.(193) No uso dos meios de comunicação
social, como agentes ou como usufrutuários, observem a discrição
necessária e evitem tudo o que pode prejudicar a vocaçao.
Para guardar com amor o dom recebido, num clima de exasperado permissivismo
sexual, eles deverão encontrar na comunhão com Cristo e com a
Igreja, na devoção à Bem-Aventurada Virgem Maria, e na
consideração dos exemplos dos sacerdotes santos de todos os
tempos, a força necessária para superar as dificuldades que
encontram no seu caminho e agir com aquela maturidade que os torna críveis
perante o mundo.(194).
A obediência
61. Fundamento da obediência
A obediência é um valor sacerdotal de primária importância.
O próprio sacrifício de Jesus na Cruz adquiriu valor e significado
salvífico por causa da sua obediência e da sua fidelidade à
vontade do Pai. Ele « foi obediente até à morte e morte de
cruz » (Fil 2, 8). A carta aos Hebreus sublinha também que
Jesus « aprendeu por experiência a obediência pelas coisas que
sofreu » (Heb 5, 8). Pode, por isso, dizer-se que a obediência
ao Pai está no próprio coração do Sacerdócio
de Cristo.
Como para Cristo, assim também para o presbítero, a obediência
exprime a vontade de Deus que é manifestada ao presbítero através
dos legítimos Superiores. Esta disponibilidade deve ser entendida como
uma verdadeira realização da liberdade pcssoal, consequência
duma escolha amadurecida constantemente diante de Deus na oração.
A virtude da obediência, requerida intrinsecamente pelo sacramento e pela
estrutura hierárquica da Igreja, é claramente prometida pelo clérigo,
primeiro no rito da ordenação diaconal e depois no da ordenação
presbiteral. Mediante ela o presbítero fortalece a sua vontade de submissão
entrando assim, na dinâmica da obediência de Cristo feito Servo
obediente até à morte de Cruz (cf Fil 2, 7-8).(195)
Na cultura contemporânea acentua-se o valor da subjectividade e da
autonomia da pessoa individual, como intrínseco à sua dignidade.
Este valor, em si positivo, se absolutizado e reivindicado fora do seu justo
contexto, resulta negativo.(196) Isto pode manifestar-se também no ambito
eclesial e na própria vida do sacerdote, no momento em que as actividades
que realiza a favor da comunidade, forem reduzidas a um facto puramente
subjectivo.
Na realidade o presbítero está, pela natureza do seu ministério,
ao serviço de Cristo e da Igreja. Portanto, estará disponível
a acolher quanto lhe é justamente indicado pelos Superiores e dum modo
particular, se não estiver legitimamente impedido, deverá aceitar
e cumprir fielmente o encargo que lhe foi confiado pelo seu Ordinário.(197)
62. Obediência hierárquica
O presbítero deve uma « especial obrigação de
respeito e obediência » ao Sumo Pontífice e ao Ordinário
próprio.(198) Pelo facto de pertencer a um determinado presbitério,
o presbítero está agregado ao serviço duma Igreja
particular, cujo princípio e fundamento de unidade é o Bispo (199)
que tem sobre ela todo o poder ordinário, próprio e imediato,
necessário para o exercício do seu munus pastoral.(200) A
subordinação hierárquica requerida pelo sacramento da
Ordem, encontra a sua actuação eclesiológico-estrutural na
referência ao Bispo próprio e ao Romano Pontífice, o qual
detém o primado (principatus) do poder ordinário sobre
todas as Igrejas particulares.(201)
A obrigação de adesão ao Magistério em matéria
de fé e de moral está intrinsecamente ligada a todas as funções
que o sacerdote deve desenvolver na Igreja. O procedimento contrário
neste campo deve considerar-se grave, dado que produz o escandalo e a desorientação
dos fiéis.
Ninguém mais do que o presbítero está consciente que a
Igreja tem necessidade de normas. Com efeito, uma vez que a sua estrutura hierárquica
e organica é visível, o exercício das funções
que Deus lhe confiou, especialmente a de guia e a da celebração
dos sacramentos, deve ser adequadamente organizado.(202)
Enquanto ministro de Cristo e da sua Igreja, o presbítero assume
generosamente o empenho de observar fielmente todas e cada uma das normas,
evitando aquelas formas de adesão parcial, segundo critérios
subjectivos, que criam divisão e se repercutem, com notável dano
pastoral, também sobre os fiéis leigos e sobre a opinião pública.
Pois « as leis canónicas, por sua mesma natureza, exigem a observãncia
» e requerem « que quanto é mandado pela cabeça seja
observado nos membros ».(203)
63. Autoridade exercida com caridade
Para que a observância da obediência se dê e para ela
poder alimentar a comunhão eclesial, todos os que estão constituídos
em autoridade os Ordinários, os Superiores religiosos, os
Directores de Sociedades de vida apostólica , para além de
oferecer o necessário e constante exemplo pessoal, devem exercer com
caridade o seu carisma institucional, quer prevendo, quer pedindo, nos modos e
ocasiões convenientes, a adesão a todas as disposições
no âmbito magislerial e disciplinar.(204)
Tal adesão é fonte de liberdade, enquanto não impede,
mas estimula a expontaneidade amadurecida do presbítero, que saberá
assumir uma atitude pastoral se rena e equilibrada, em relação ao
que está estabelecido, criando a harmonia na qual o génio pessoal
se funde numa unidade superior.
64. Respeito das normas litúrgicas
Entre os vários aspectos do problema, de que das normas hoje mais nos
damos conta, mereça notar-se o do respeito convicto das normas litúrgicas.
A liturgia é o exercício do sacerdócio de Cristo,(205) «
o cume para o qual tende a acção da Igreja e, ao mesmo tempo, a
fonte da qual provém toda a sua virtude ».(206) Ela constitui um âmbito
onde o sacerdote deve ter particular consciência de ser ministro e de
obedecer fielmente à Igreja. « Regular a sagrada liturgia compete
unicamente à autoridade da Igreja, que reside na Sé Apostólica
e no Bispo, segundo as normas do direito ». (207) Portanto, em tal matéria,
ele não acrescentará, tirará ou mudará seja o que
for por iniciativa própria.(208)
Dum modo particular, isto vale para a celebração dos
sacramentos, que são por excelência actos de Cristo e da Igreja, e
que o sacerdote administra em nome da pessoa de Cristo e em nome da Igreja para
o bem dos fiéis (209)
Estes têm um verdadeiro direito de participar nas celebrações
litúrgicas tal qual como as quere a Igreja e não segundo os gostos
pessoais de cada ministro e nem sequer segundo os particularismos rituais não
aprovados, expressões de grupos particulares que tendem a fechar-se à
universalidade do Povo de Deus.
65. Unidade de planos pastorais
É necessário que os sacerdotes, no exercício do seu
ministério, não só participem responsavelmente na definição
aos planos pastorais que o Bispo com a colaboração do
Conselho Presbiteral (210) determina, mas também harmonizem com
eles as realizações práticas na própria comunidade.
A sábia criatividade, o espírito de iniciativa próprios
da maturidade dos presbíteros, não só não serão
anulados como poderão ser adequadamente valorizados com grande vantagem
para a fecundidade pastoral. Seguir por caminhos separados neste campo pode
significar, não só rotura da comunhão necessária,
mas também enfraquecimento da própria obra de evangelização.
66. Obrigação do hábito eclesiástico
Numa sociedade secularizada e de tendência materialista, onde também
os sinais externos das realidades sagradas e sobrenaturais tendem a desaparecer,
sente-se particularmente a necessidade de que o presbítero homem
de Deus, dispensador dos seus mistérios seja reconhecível
pela comunidade, também pelo hábito que traz, como sinal inequívoco
da sua dedicação e da sua identidade de detentor dum ministério
público.(211) O presbítero deve ser reconhecido antes de tudo pelo
seu comportamento, mas também pelo vestir de maneira a ser imediatamente
perceptível por cada fiel, melhor ainda por cada homem, (212) a sua
identidade e pertença a Deus e à Igreja.
Por este motivo,o clérigo deve trazer um hábito eclesiástico
decoroso, segundo as normas emanadas pela Conferência Episcopal e segundo
os legítimos costumes locais.(213) Isto significa que tal hábito,
quando não è o talar, deve ser diverso da maneira de vestir dos
leigos e conforme à dignidade e à sacralidade do ministério.
O feitio e a cor devem ser estabelecidos pela Conferência dos Bispos,
sempre de harmonia com as disposições do direito universal.
Pela sua incoerência com o espírito de tal disciplina, as
praxes contrárias não se podem considerar legítimas e devem
ser removidas pela autoridade eclesiástica competente.(214)
Salvas excepções completamente excepcionais, o não uso
do hábito eclesiástico por parte do clérigo pode manifestar
uma consciência débil da sua identidade de pastor inteiramente
dedicado ao serviço da Igreja(.215)
Espírito sacerdotal de pobreza
67. Pobreza como disponibilidade
A pobreza de Jesus tem uma finalidade salvífica. Cristo sendo rico
fez-se pobre por nós, para que nos tornássemos ricos pela sua
pobreza (2 Cor 8, 9), A carta aos Filipenses mostra a relação
entre despojamento de si e o espírito de serviço que deve animar o
ministério pastoral. Diz, com efeito, S. Paulo que Jesus não
considerou « um bem precioso o ser igual a Deus, mas humilhou-se a si mesmo
assumindo a forma de servo» (2, 6-7) Na verdade, dificilmente o sacerdote
se tornará verdadeiramente servo e ministro dos seus fiéis, se
estiver excessivamente preocupado com as suas comodidades e com um excessivo bem
estar.
Através da condição de pobre, Cristo manifesta que tudo
recebeu do Pai desde a eternidade e tudo lhe restitui até à oferta
total da sua vida.
O exemplo de Cristo deve levar o presbítero a conformar-se com Ele,
na liberdade interior, em relação a todos os bens e riquezas do
mundo.(216) O Senhor ensina-nos que o verdadeiro bem é Deus e que a
verdadeira riqueza é ganhar a vida eterna: « Que aproveita, com
efeito, ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua alma?. E que
coisa poderia o homem dar em troca da sua alma? » (Mc 8, 36-37).
O sacerdote, cuia parte de herança é o Senhor (cf Num
18, 20), sabe que a sua missão, como a da Igreja, se realiza no seio do
mundo e que os bens criados são necessários para o desenvolvimento
pessoal do homem. Porém ele usará tais bens com espírito de
responsabilidade, moderação, recta intenção e distância,
próprio de quem tem o seu tesouro nos céus e sabe que tudo deve
ser usado para a edificação do reino de Deus (Lc 10, 7;
Mt 10, 9. 10; 1 Cor 9, 14; Gal 6, 6).(2l7) Portanto,
abster-se-á daquelas actividades lucrativas, que não estão
de harmonia com o seu ministério.(218)
Recordando, além disso, que o dom que recebeu é gratuito,
esteja disposto a dar gratuitamente (Mt 10, 8; Act 8, 18-25)
(219) e a empregar para o bem da Igreja e para obras de caridade o que recebe
por ocasião do exercício do seu munus, depois de ter providenciado
à sua honesta sustentação e ao cumprimento dos deveres do
próprio estado.(220)
O presbítero, embora não tenha assumido a pobreza com uma
promessa pública, é obrigado a levar uma vida simples e a
abster-se de tudo o que pode ter sabor de vaidade, (221) abraçando assim
a pobreza voluntária, para seguir de mais perto Cristo.(222) Em tudo
(habitação, meios de transporte, férias, etc. ), o presbítero
elimine todo o tipo de requinte e de luxo.(223)
Amigo dos mais pobres, reservará para ele as mais delicadas atenções
da sua caridade pastoral, com uma opção preferencial por todas as
pobrezas velhas e novas, tràgicamente presentes no mundo, recordando
sempre que a primeira miséria de que deve ser libertado o homem é
o pecado, raiz última de todo o mal.
Devoção a Maria
68. As virtudes da Mãe
Existe uma « relação essencial... entre a mãe de
da Mãe Jesus e o sacerdócio dos ministros do Filho »,
derivante daquela que existe entre a maternidade divina e o sacerdócio de
Cristo.(224)
Nesta relação se enraíza a espiritualidade mariana de
todo o presbítero. A espiritualidade sacerdotal não pode dizer-se
completa se não toma seriamente em consideração o
testamento de Cristo crucificado, que quis entregar a mãe ao discípulo
predilecto e, mediante ele, a todos os sacerdotes chamados a continuar a sua
obra de redenção.
Como a João aos pés da Cruz, assim a cada presbítero é
confiada, de modo especial, Maria como mãe (cf. Jo 19, 26-27).
Os sacerdotes, que estão entre os discípulos predilectos de
Jesus crucificado e ressuscitado, devem acolher Maria como sua mãe na própria
vida, fazendo dela objecto de contínua atenção e oração.
A sempre Virgem torna-se então a mãe que os conduz a Cristo; que
os faz amar autenticamente a Igreja, que intercede por eles e os guia para o
Reino dos céus.
Todo o presbítero sabe que Maria, porque mãe, é também
a mais eminente formadora do seu sacerdócio, uma vez que é Ela que
sabe modelar o seu coração sacerdotal, protegê-lo dos
perigos, dos cansaços, dos desencorajamentos e de vigiar, com materna
solicitude, para que ele possa crescer em sabedoria, idade e graça,
diante de Deus e dos homens (cf Lc 2, 40).
Mas não se pode ser filho devoto se não se sabem imitar as
virtudes da mãe. Portanto, para ser ministro humilde, obediente, casto e
para testemunhar a caridade na doação total ao Senhor e à
Igreja, o presbítero deve considerar a figura de Maria.(225)
Obra prima do Sacrifício sacerdotal de Cristo, Nossa Senhora
representa a Igreja no modo mais puro, « sem mancha nem ruga », toda «
santa e imaculada » (Ef 5, 27). Esta contemplação da
bem-aventurada Virgem coloca diante do presbítero o ideal para o qual
tender no ministério da sua comunidade, a fim de que esta seja «
Igreja toda gloriosa » (ibid) mediante o dom sacerdotal da sua própria
vida
Capítulo III
FORMAÇÃO PERMANENTE
Princípios
69. Necessidade da formação permanente
A formação permanente é exigência que nasce e que
se desenvolve a partir da recepção do sacramento da Ordem, com o
qual o sacerdote é não só « consagrado » pelo
Pai, e « enviado » pelo Filho, como também é «
animado » pelo Espírito Santo. Portanto, ela provém duma graça
que liberta uma força sobrenatural, destinada a assimilar
progressivamente, e em termos cada vez mais amplos e profundos, toda a vida e acção
do presbítero na fidelidade ao dom recebido: « Recordo-te
escreve S. Paulo que reavives o dom que está em ti » (2 Tim
1, 6).
Trata-se duma necessidade intrínseca ao próprio dom
divino,(226) que deve ser quotidianamente vivificado para que o presbítero
possa responder adequadamente à sua vocação. Com efeito,
enquanto homem historicamente situado, ele tem necessidade de aperfeiçoar-se
em todos os aspectos da sua existência humana e espiritual para poder
alcançar aquela conformação com Cristo que é o princípio
unificante de tudo.
As transformações rápidas e difundidas e um tecido
social frequentemente secularizado, típicos do mundo contemporâneo,
são factores que tornam absolutamente iniludível o dever do presbítero
estar adequadamente preparado para não perder a sua identidade e para
responder às necessidade