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CONGREGAÇÃO PARA O CLERO

DIRETÓRIO GERAL
PARA A CATEQUESE

DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO

AA: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam Actuositatem (18 de novembro de 1965)

AG: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad Gentes (7 de dezembro de 1965)

CA: João Paulo II, Carta encíclica Centesimus Annus (1° de maio de 1991): AAS 83 (1991), pp. 793-867

CD: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ofício pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus (28 de outubro de 1965)

CaIC: Catecismo da Igreja Católica (11 de outubro de 1992)

CCL: Corpus Christianorum, Series Latina (Turnholti 1953 ss.)

CIC: Codex Iuris Canonici (25 de janeiro de 1983)

ChL: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988): AAS 81 (1989), pp. 393-521

COINCAT: Conselho Internacional para a Catequese, Orientações A catequese dos adultos na comunidade cristã, Libreria Editrice Vaticana 1990

CSEL: Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (Wn 1866 ss.)

CT: João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi Tradendae (16 de outubro de 1979): AAS 71 (1979), pp. 1277-1340.

DCG (1971): Sagrada Congregação para o Clero, Directorium Catechisticum Generale Ad normam decreti (11 de abril de 1971): AAS 64 (1972), pp. 97-176

DH: Conc. Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis Humanae (7 de dezembro de 1965)

DM: João Paulo II, Carta encíclica Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980): AAS 72 (1980), pp. 1177-1232

DS: H. Denzinger - A. Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum, Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et Morum, Editio XXXV emendata, Romae 1973

DV: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição dogmática sobre a revelação divina Dei Verbum (18 de novembro de 1965)

EA: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de setembro de 1995): AAS 88 (1996) pp. 5-82

EN: Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (8 de dezembro de 1975): AAS 58 (1976), pp. 5-76

EV: João Paulo II, Carta encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995): AAS 87 (1995), pp. 401-522

FC: João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981): AAS 73 (1981), pp. 81-191

FD: João Paulo II, Constituição apostólica Fidei Depositum (11 de outubro de 1992): AAS 86 (1994), pp. 113-118

GCM: Congregação para a Evangelização dos Povos, Guia para os catequistas. Documento de orientação em vista da vocação, da formação e da promoção dos catequistas nos territórios de missão que dependem da Congregação para a Evangelização dos povos (3 de dezembro de 1993), Cidade do Vaticano 1993

GE: Conc. Ecum. Vaticano II, Declaração sobre a educação Gravissimum Educationis (28 de outubro de 1965)

GS: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965)

LC: Congregação para a Doutrina da fé, Instrução Libertatis Conscientia (22 de março de 1986): AAS 79 (1987), pp. 554-599

LE: João Paulo II, Carta encíclica Laborem Exercens (14 de setembro de 1981): AAS 73 (1981), pp. 577-647

LG: Conc. Ecum. Vaticano II Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium (21 de novembro de 1964)

MM: João XXIII, Carta encíclica Mater et Magistra (15 de maio de 1961): AAS 53 (1961), pp. 401-464

MPD: Sínodo dos Bispos, Mensagem ao Povo de Deus Cum iam ad exitum sobre a catequese no nosso tempo (28 de outubro de 1977), Typis Polyglottis Vaticanis 1977

NA: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre as relações da Igreja com as Religiões não cristãs Nostra Aetate (28 de outubro de 1965)

PB: João Paulo II, Constituição apostólica Pastor Bonus (28 de junho de 1988): AAS 80 (1988), pp. 841-930

PG: Patrologiae Cursus completus, Series Graeca, ed. Jacques P. Migne, Parisiis 1857 ss.

PL: Patrologiae Cursus completus, Series Latina, ed. Jacques P. Migne, Parisiis 1844 ss.

PO: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o ministério e a vida dos presbíteros Presbyterorum Ordinis (7 de dezembro de 1965)

PP: Paulo VI, Carta encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967): AAS 59 (1967), pp. 257-299

RH: João Paulo II, Carta encíclica Redemptor Hominis (4 de março de 1979): AAS 71 (1979), pp. 257-324

OICA: Ordo Initiationis Christianae Adultorum, Editio Typica, Typis Polyglottis Vaticanis 1972

RM: João Paulo II, Carta encíclica Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990): AAS 83 (1991), pp. 249-340

SC: Conc. Ecum. Vaticano II, Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (4 de dezembro de 1963)

SINODO 1985: Sínodo dos Bispos (reunião extraordinária de 1985), Relatório final Ecclesia sub verbo Dei mysteria Christi celebrans pro salute mundi (7 de dezembro de 1985), Cidade do Vaticano 1985

SCh: Sources Chrétiennes, Collection, Paris 1946 ss.

SRS: João Paulo II, Exortação apostólicaSollicitudo Rei Socialis (30 de dezembro de 1987): AAS 80 (1988), pp. 513-586

TMA: João Paulo II, Exortação apostólica Tertio Millennio Adveniente (10 de novembro de 1994): AAS 87 (1995), pp. 5-41

UR: Conc. Ecum. Vaticano II, Decreto sobre o Ecumenismo Unitatis Redintegratio (21 de novembro de 1964)

UUS: João Paulo II, Carta encíclica Ut Unum Sint (25 de maio de 1995): AAS 87 (1995), pp. 921-982

VS: João Paulo II, Carta encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993): AAS 85 (1993), pp. 1133-1228

PREFÁCIO

1. O Concílio Vaticano II prescreveu a redação de um « Diretório para a instrução catequética do povo ».(1) Em obediência a este mandato conciliar, a Congregação para o Clero valeu-se de uma especial Comissão de especialistas e consultou as Conferências Episcopais do mundo, as quais enviaram numerosas sugestões e observações em propósito. O texto preparado foi revisto por uma Comissão teológica ad hoc e pela Congregação para a Doutrina da Fé. No dia 18 de março de 1971 foi definitivamente aprovado por Paulo VI e promulgado no dia 11 de abril do mesmo ano, com o título Diretório Catequético Geral.

2. Os trinta anos transcorridos da conclusão do Concílio Vaticano II aos umbrais do terceiro milênio, constituem, sem dúvida, um tempo extremamente rico de orientações e promoções da catequese. Foi um tempo que, de qualquer modo, repropôs a vitalidade evangelizadora da primeira comunidade eclesial e que relançou oportunamente o ensinamento dos Padres e favoreceu a redescoberta do antigo catecumenato. Desde 1971, o Diretório Catequético Geral tem orientado as Igrejas particulares no longo caminho de renovação da catequese, propondo-se como válido ponto de referência tanto no que diz respeito aos conteúdos, quanto no que concerne à pedagogia e aos métodos a serem empregados.

O itinerário percorrido pela catequese neste período foi caracterizado, em todas as partes, por uma generosa dedicação de muitas pessoas, por iniciativas admiráveis e por frutos muito positivos para a educação e o amadurecimento na fé, de crianças, jovens e adultos. Todavia, não faltaram, contemporaneamente, crises, insuficiências doutrinais e experiências que empobreceram a qualidade da catequese, devidas, em grande parte, à evolução do contexto cultural mundial e a questões eclesiais de matriz não catequética.

3. O Magistério da Igreja não deixou jamais, nestes anos, de exercitar a sua solicitude pastoral em favor da catequese. Numerosos Bispos e Conferências dos Bispos, em todos os continentes, deram um notável impulso à ação catequética também através da publicação de válidos Catecismos e orientações pastorais, promovendo a formação de peritos e favorecendo a pesquisa catequética. Estes esforços foram fecundos e repercutiram favoravelmente na praxe catequética das Igrejas particulares. Uma particular riqueza para a renovação catequética é constituída pelo Ritual para a Iniciação Cristã dos Adultos, promulgado no dia 6 de janeiro de 1972, pela Congregação para o Culto Divino.

É indispensável recordar, de modo especial, o ministério de Paulo VI, o Pontífice que guiou a Igreja durante o primeiro período do pós-Concílio. A seu respeito, João Paulo II disse: « Com os seus gestos, com a sua pregação e com a sua interpretação autorizada do Concílio Vaticano II — que ele considerava como o grande catecismo dos tempos modernos — e ainda com toda a sua vida, o meu venerando Predecessor Paulo VI serviu a catequese da Igreja de modo particularmente exemplar ».(2)

4. Uma decisiva pedra miliária para a catequese foi a reflexão iniciada por ocasião da Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização do mundo contemporâneo, que se celebrou em outubro de 1974. As proposições de tal encontro foram apresentadas ao Papa Paulo VI, o qual promulgou a Exortação Apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975. Este documento apresenta — entre outras coisas — um princípio de particular relevo: a catequese como ação evangelizadora no âmbito da grande missão da Igreja. A atividade catequética, de agora em diante, deverá ser considerada como permanentemente partícipe das urgências e das ânsias próprias do mandato missionário para o nosso tempo.

Também a última Assembléia Sinodal convocada por Paulo VI, em outubro de 1977, escolheu a catequese como tema de análise e de reflexão episcopal. Este Sínodo viu « na renovação catequética um dom precioso do Espírito Santo à Igreja nos dias de hoje ».(3)

5. João Paulo II assumiu esta herança em 1978 e formulou as suas primeiras orientações na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, datada de 16 de outubro de 1979. Tal Exortação forma uma unidade totalmente coerente com a Exortação Evangelii Nuntiandi e repõe plenamente a catequese no quadro da evangelização.

Durante todo o seu pontificado, João Paulo II ofereceu um magistério constante de altíssimo valor catequético. Entre os discursos, as cartas e os ensinamentos escritos, emergem as doze Encíclicas: da Redemptor Hominis à Ut Unum Sint. Estas Encíclicas constituem, por si mesmas, um corpo de doutrina sintético e orgânico, em vista da realização da renovação da vida eclesial, postulada pelo Concílio Vaticano II. Quanto ao valor catequético destes Documentos do magistério de João Paulo II, distinguem-se: a Redemptor Hominis (4 de março de 1979), a Dives in Misericordia (30 de novembro de 1980), a Dominum et Vivificantem (18 de maio de 1986), e, para a reafirmação da permanente validez do mandato missionário, a Redemptoris Missio (7 de dezembro de 1990).

6. Por outro lado, as Assembléias Gerais, ordinárias e extraordinárias, do Sínodo dos Bispos, tiveram uma particular incidência no campo eclesial da catequese. Por sua particular importância, devem ser destacadas as Assembléias Sinodais de 1980 e 1987, relativas respectivamente à missão da família e à vocação dos leigos batizados. Os trabalhos sinodais foram seguidos das correspondentes Exortações Apostólicas de João Paulo II, Familiaris Consortio (22 de novembro de 1981) e Christifideles Laici (30 de dezembro de 1988). O próprio Sínodo Extraordinário dos Bispos, de 1985, influiu também, de maneira decisiva, sobre o presente e sobre o futuro da catequese do nosso tempo. Naquela ocasião, foi feito um balanço dos 20 anos de aplicação do Concílio Vaticano II e os Padres sinodais propuseram ao Santo Padre a elaboração de um Catecismo universal para a Igreja Católica. A proposta da Assembléia sinodal extraordinária de 1985 foi acolhida favoravelmente e assumida por João Paulo II. Terminado o paciente e complexo processo de sua elaboração, o Catecismo da Igreja Católica foi entregue aos Bispos e às Igrejas particulares mediante a Constituição Apostólica Fidei Depositum, do dia 11 de outubro de 1992.

7. Este evento, de tão profundo significado, e o conjunto dos fatos e das intervenções magisteriais precedentemente indicados, impunham o dever de uma revisão do Diretório Catequético Geral, com a finalidade de adaptar este precioso instrumento teológico-pastoral à nova situação e necessidade. Receber tal herança e organizá-la sinteticamente, em função da atividade catequética, sempre na perspectiva da atual etapa da vida da Igreja, é um serviço da Sé Apostólica para todos.

O trabalho para a nova elaboração do Diretório Geral para a Catequese, promovido pela Congregação para o Clero, foi realizado por um grupo de Bispos e por especialistas em teologia e em catequese. Foi, sucessivamente, submetido à consulta das Conferências dos Bispos e dos principais Institutos ou Centros de estudos catequéticos, e foi feito respeitando substancialmente a inspiração e os conteúdos do texto de 1971. Evidentemente, a nova redação do Diretório Geral para a Catequese teve que balancear duas exigências principais:

– de um lado, a contextualização da catequese na evangelização, postulada pelas Exortações Evangelii Nuntiandie Catechesi Tradendae

– por outro lado, a assunção dos conteúdos da fé propostos pelo Catecismo da Igreja Católica.

8. O Diretório Geral para a Catequese, embora conservando a estrutura de fundo do texto de 1971, articula-se do seguinte modo:

– Uma Exposição Introdutiva, na qual se oferecem orientações fundamentais para a interpretação e a compreensão das situações humanas e das situações eclesiais, a partir da fé e da confiança na força da semente do Evangelho. São breves diagnósticos em vista da missão.

– A Primeira Parte (4) é articulada em três capítulos e enraíza de forma mais acentuada a catequese na Constituição conciliar Dei Verbum, colocando-a no quadro da evangelização presente em Evangelii Nuntiandi e Catechesi Tradendae. Propõe, além disso, um esclarecimento da natureza da catequese.

– A Segunda Parte(5) consta de dois capítulos. No primeiro, sob o título « Normas e critérios para a apresentação da mensagem evangélica na catequese », com nova articulação e numa perspectiva enriquecida, reúnem-se, em sua totalidade, os conteúdos do capítulo correspondente do texto anterior. O segundo capítulo, completamente novo, serve à apresentação do Catecismo da Igreja Católica como texto de referência para a transmissão da fé na catequese e para a redação dos Catecismos locais. O texto oferece também princípios básicos em vista da elaboração dos Catecismos para as Igrejas particulares e locais.

– A Terceira Parte(6) mostra-se suficientemente renovada, formulando também as linhas essenciais de uma pedagogia da fé, inspirada à pedagogia divina; uma questão, esta, que diz respeito tanto à teologia como às ciências humanas.

– A Quarta Parte(7) tem por título « Os destinatários da catequese ». Em cinco breves capítulos, se presta atenção às situações bastante diferentes das pessoas às quais se dirige a catequese, aos aspectos relativos à situação sócio-religiosa e, de modo especial, à questão da inculturação.

– A Quinta Parte(8) coloca como centro de gravitação a Igreja particular, que tem o dever primordial de promover, programar, supervisionar e coordenar toda a atividade catequética. Adquire um particular relevo a descrição dos respectivos papéis dos diversos agentes (que têm o seu ponto de referência sempre no Pastor da Igreja particular) e das exigências formativas em cada caso.

– A Conclusão, que exorta a uma intensificação da ação catequética no nosso tempo, coroa a reflexão e as orientações com um apelo à confiança na ação do Espírito Santo e na eficácia da palavra de Deus semeada no amor.

9. A finalidade do presente Diretório é, obviamente, a mesma que norteava o texto de 1971. Propõe-se, efetivamente, fornecer « os princípios teológico-pastorais fundamentais, inspirados no Concílio Ecumênico Vaticano II e no Magistério da Igreja, aptos a poder orientar e coordenar a ação pastoral do ministério da palavra » e, de forma concreta, a catequese.(9) O intuito fundamental era e é o de oferecer reflexões e princípios, mais do que aplicações imediatas ou diretrizes práticas. Tal caminho e método é adotado sobretudo pelas seguintes razões: somente se desde o início se compreendem corretamente a natureza e os fins da catequese, assim como as verdades e os valores que devem ser transmitidos, poderão ser evitados defeitos e erros em matéria catequética.(10)

Cabe à competência específica dos Episcopados a aplicação mais concreta desses princípios e enunciados, através de orientações e Diretórios nacionais, regionais ou diocesanos, catecismos e todo outro meio considerado idôneo a promover eficazmente a catequese.

10. É evidente que nem todas as partes do Diretório têm a mesma importância. Aquelas que tratam da revelação divina, da natureza da catequese e dos critérios que presidem o anúncio cristão, têm valor para todos. As partes, ao invés, que se referem à presente situação, à metodologia e ao modo de adaptar a catequese às diferentes situações de idade ou de contexto cultural, devem ser acolhidas mais como indicações e como orientações fundamentais.(11)

11. Os destinatários do Diretório são principalmente os Bispos, as Conferências dos Bispos e, de modo geral, todos aqueles que, sob o mandato ou presidência dos primeiros, têm responsabilidades no campo catequético. É óbvio que o Diretório pode ser um válido instrumento para a formação dos candidatos ao sacerdócio, para a formação permanente dos presbíteros e para a formação dos catequistas.

Uma finalidade imediata do Diretório é ajudar a redação dos Diretórios Catequéticos e catecismos. Conforme sugestão recebida de muitos Bispos, incluem-se numerosas notas e referências que podem ser de grande utilidade para a elaboração dos mencionados instrumentos.

12. Uma vez que o Diretório é endereçado às Igrejas particulares, cujas situações e necessidades pastorais são muito variadas, é evidente que se pôde levar em consideração unicamente as situações comuns ou intermediárias. Isto acontece, igualmente, quando se descreve a organização da catequese nos diversos níveis. Na utilização do Diretório, deve-se ter presente esta observação. Como já se ressaltava no texto de 1971, o que será insuficiente naquelas regiões onde a catequese pôde alcançar um alto nível de qualidade e de meios, talvez poderá parecer excessivo naqueles lugares onde a catequese não pôde ainda experimentar tal progresso.

13. Ao publicar este texto, novo testemunho da solicitude da Sé Apostólica para com o ministério catequético, exprimem-se os votos de que ele seja acolhido, examinado e estudado com grande atenção, levando em consideração as necessidades pastorais de cada Igreja particular; e que ele possa também estimular, para o futuro, estudos e pesquisas mais profundas, que respondam às necessidades da catequese e às normas e orientações do Magistério da Igreja.

Que a Virgem Maria, Estrela da nova evangelização, nos conduza ao conhecimento pleno de Jesus Cristo, Mestre e Senhor.

« Quanto ao mais, irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor continue o seu caminho e seja glorificada, como aconteceu entre vós » (2 Ts 3, 1).

Do Vaticano, 15 de agosto de 1997

Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Darío Castrillón Hoyos
Arcebispo emérito de Bucaramanga
Pro-Prefeito

Crescenzio Sepe
Arcebispo tit. de Grado
Secretário


EXPOSIÇÃO INTRODUTIVA

O anúncio do Evangelho no mundo contemporâneo

« Escutai: Eis que o semeador saiu a semear. E ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e a comeram.
Outra parte caiu no solo pedregoso e, não havendo terra bastante, nasceu logo, porque não havia terra profunda, mas, ao surgir do sol, queimou-se e, por não ter raiz, secou.
Outra parte caiu entre os espinhos; os espinhos cresceram e a sufocaram, e não deu fruto.
Outras caíram em terra boa e produziram fruto, crescendo e se desenvolvendo, e uma produziu trinta, outra sessenta e outra cem por cento » (Mc 4,3-8).

14. Esta exposição introdutiva pretende estimular os pastores e os agentes da catequese a tomarem consciência da necessidade de olhar sempre para o campo semeado, e a fazê-lo a partir de uma perspectiva de fé e de misericórdia. A interpretação do mundo contemporâneo, aqui apresentada, tem, obviamente, um caráter de provisoriedade, próprio da contingência histórica.

« Saiu o semeador a semear » (Mc 4,3)

15. Esta parábola é fonte inspiradora para a evangelização. « A semente é a palavra de Deus » (Lc 8,11). O semeador é Jesus Cristo. Ele anunciou o Evangelho na Palestina há dois mil anos e enviou os seus discípulos a semeá-lo pelo mundo. Jesus Cristo hoje, presente na Igreja por meio do Seu Espírito, continua a divulgar amplamente a palavra do Pai no campo do mundo.

A qualidade do terreno é sempre muito variada. O Evangelho cai « à beira do caminho » (Mc 4,4), quando não é realmente escutado; cai « em solo pedregoso » (Mc 4,5), sem penetrar profundamente na terra; ou « entre os espinhos » (Mc 4,7), e é imediatamente sufocado no coração dos homens, distraídos por muitas preocupações. Mas uma parte cai « em terra boa » (Mc 4,8), isto é, em homens e mulheres abertos à relação pessoal com Deus e solidários com o próximo, e produz frutos abundantes.

Jesus, na parábola, comunica a boa notícia de que o Reino de Deus chega, não obstante as dificuldades do terreno, as tensões, os conflitos e os problemas do mundo. A semente do Evangelho fecunda a história dos homens e preanuncia uma colheita abundante. Jesus faz também uma advertência: somente no coração bem disposto a palavra de Deus germina.

Um olhar ao mundo, a partir da fé

16. A Igreja continua a semear o Evangelho de Jesus no grande campo de Deus. Os cristãos, inseridos nos mais variados contextos sociais, olham o mundo com os mesmos olhos com que Jesus contemplava a sociedade do seu tempo. O discípulo de Jesus Cristo, de fato, participa, de seu interior, « das alegrias e das esperanças, das tristezas e das angústias dos homens de hoje »,(12) olha para a história humana, participa dela, não apenas com a razão, mas também com a fé. À luz desta, o mundo se mostra ao mesmo tempo « criado e conservado pelo amor do Criador, reduzido à servidão do pecado, e libertado por Cristo crucificado e ressuscitado, com a derrota do Maligno... ».(13)

O cristão sabe que a cada realidade e evento humano subjazem ao mesmo tempo:

– a ação criadora de Deus, que comunica a cada ser a sua bondade;

– a força que deriva do pecado, o qual limita e entorpece o homem;

– o dinamismo que nasce da Páscoa de Cristo, qual germe de renovação que confere ao crente a esperança de uma « consumação »(14) definitiva.

Um olhar ao mundo, que prescindisse de um desses três aspectos, não seria autenticamente cristão. É importante, portanto, que a catequese saiba iniciar os catecúmenos e os catequizandos a uma « leitura teológica dos problemas modernos ».(15)

O campo do mundo

17. Mãe dos homens, a Igreja, antes de mais nada, vê, com profunda dor, « uma multidão inumerável de homens e de mu-

lheres, crianças, adultos e anciãos, isto é, de pessoas humanas concretas e irrepetíveis, que sofrem sob o peso intolerável da miséria ».(16) Por meio da catequese, na qual o ensinamento social da Igreja ocupe o seu lugar,(17) ela deseja suscitar no coração dos cristãos « o empenho pela justiça »(18) e a « opção ou amor preferencial pelos pobres »,(19) de modo que a sua presença seja realmente luz que ilumina e sal que transforma.

Os direitos humanos

18. A Igreja, ao analisar o campo do mundo, é muito sensível a tudo aquilo que ofende a dignidade da pessoa humana. Ela sabe que desta dignidade nascem os direitos humanos,(20) objeto constante da preocupação e do empenho dos cristãos. Por isso, o seu olhar não abrange somente os indicadores econômicos e sociais,(21) mas também, sobretudo, os culturais e religiosos. O que ela busca é o progresso integral das pessoas e dos povos.(22)

A Igreja percebe, com alegria, que « uma corrente benéfica já se alastra e permeia todos os povos da terra, tornando-os cada vez mais conscientes da dignidade do homem ».(23) Esta consciência se exprime na viva preocupação pelo respeito dos direitos humanos e no mais decidido rechaço de suas violações. O direito à vida, ao trabalho, à educação, à criação de uma família, à participação na vida pública e à liberdade religiosa são hoje particularmente reivindicados.

19. Em numerosos lugares, todavia, e em aparente contradição com a sensibilidade pela dignidade da pessoa, os direitos humanos são claramente violados.(24) Dessa maneira, alimentam-se outras formas de pobreza, que não se colocam no plano material: trata-se de uma pobreza cultural e religiosa, que preocupa igualmente

a comunidade eclesial. A negação ou a limitação dos direitos humanos, de fato, empobrece a pessoa e os povos, tanto ou mais do que a privação dos bens materiais.(25)

A obra evangelizadora da Igreja, neste vasto campo dos direitos humanos, tem uma tarefa irrenunciável: promover a descoberta da dignidade inviolável de cada pessoa humana. « Em certo sentido, é a tarefa central e unificadora do serviço que a Igreja, e nela os fiéis leigos, são chamados a prestar à família dos homens ».(26) A catequese deve prepará-los para esta tarefa.

A cultura e as culturas

20. O semeador sabe que a semente penetra em terrenos concretos e tem necessidade de absorver todos os elementos necessários para frutificar.(27) Sabe também que, às vezes, alguns desses elementos podem prejudicar a germinação e a colheita.

A Constituição Gaudium et Spes sublinha a grande importância da ciência e da técnica na gestação e no desenvolvimento da cultura moderna. A mentalidade científica que delas emana, « modifica profundamente a cultura e os modos de pensamento », (28) com grandes repercussões humanas e religiosas. A racionalidade científica e experimental é profundamente enraizada no homem de hoje.

Todavia, a consciência de que este tipo de racionalidade não pode explicar todas as coisas, ganha sempre mais terreno. Os próprios homens da ciência constatam que, paralelamente ao rigor da experimentação, é necessário outro tipo de saber, para poder compreender em profundidade o ser humano. A reflexão filosófica sobre a linguagem mostra, por exemplo, que o pensamento simbólico é uma forma de acesso ao mistério da pessoa humana, contrariamente inacessível. Torna-se indispensável assim, uma racionalidade que não cinda o ser humano, que integre a sua afetividade, que o unifique, dando um sentido mais pleno à sua vida.

21. Juntamente com esta « forma mais universal de cultura »,(29) hoje se constata também um desejo crescente de revalorizar as culturas autóctones. A pergunta do Concílio é viva ainda: « Como se deve favorecer o dinamismo e a expansão duma nova cultura, sem que pereça a fidelidade viva para com a herança das tradições? ».(30)

– Em muitos lugares, se toma viva consciência de que as culturas tradicionais são agredidas por influências externas dominantes e por imitações alienantes de formas de vida importadas. Corroem-se assim, gradualmente, a identidade e os valores próprios dos povos.

– Constata-se também a enorme influência dos meios de comunicação, os quais, muitas vezes, em virtude de interesses econômicos ou ideológicos, impõem uma visão da vida que não respeita a fisionomia cultural dos povos aos quais se dirigem.

A evangelização encontra assim, na inculturação, um de seus maiores desafios. A Igreja, à luz do Evangelho, deve assumir todos os valores positivos da cultura e das culturas (31) e rejeitar aqueles elementos que impedem as pessoas e os povos de alcançarem o desenvolvimento de suas autênticas potencialidades.

A situação religiosa e moral

22. Entre os elementos que compõem o patrimônio cultural de um povo, o fator religioso-moral tem, para o semeador, um particular relevo. Na cultura atual existe uma persistente difusão da indiferença religiosa: « Muitos de nossos contemporâneos ... não percebem de modo algum esta união íntima e vital com Deus ou explicitamente a rejeitam ».(32)

O ateísmo, como negação de Deus, « conta entre os gravíssimos problemas de nosso tempo ».(33) Ele adota formas diversas, mas aparece hoje especialmente sob a forma do secularismo, que consiste numa visão autonomista do homem e do mundo « segundo a qual esse mundo se explicaria por si mesmo, sem ser necessário recorrer a Deus ».(34) No âmbito especificamente religioso, existem sinais de um « retorno ao sagrado »,(35) de uma nova sede de realidades transcendentes e divinas. O mundo atual atesta, de modo mais amplo e vital, « o despertar da procura religiosa ».(36) Certamente este fenômeno « não deixa de ser ambíguo ».(37) O amplo desenvolvimento das seitas e de novos movimentos religiosos e o redespertar do « fundamentalismo »(38) são dados que interpelam seriamente a Igreja e que devem ser atentamente analisados.

23. A atual situação moral procede de pari passu com a religiosa. Efetivamente, percebe-se um obscurecimento da verdade ontológica da pessoa humana. E isto acontece como se a rejeição de Deus quisesse significar a ruptura interior das aspirações do ser humano.(39) Assiste-se, assim, em muitos lugares, a um « relativismo ético que tira à convivência civil qualquer ponto seguro de referência moral ».(40)

A evangelização encontra no terreno religioso-moral um ambiente de atuação privilegiado. A missão primordial da Igreja, de fato, é anunciar Deus, testemunhá-Lo diante do mundo. Trata-se de fazer conhecer as verdadeiras feições de Deus e o Seu desígnio de amor e de salvação em favor dos homens, assim como Jesus o revelou.

Para preparar tais testemunhos, é necessário que a Igreja desenvolva uma catequese que propicie o encontro com Deus e fortaleça um vínculo permanente de comunhão com Ele.

A Igreja no campo do mundo

A fé dos cristãos

24. Os discípulos de Jesus estão imersos no mundo como o fermento mas, como em todos os tempos, não estão imunes de sofrer a influência das situações humanas.

É, por isso, necessário, interrogar-se sobre a atual situação da fé dos cristãos.

A renovação catequética, desenvolvida na Igreja durante as últimas décadas, está dando frutos muito positivos.(41) A catequese das crianças, dos jovens e dos adultos, nesses anos, deu origem a uma tipologia de cristão verdadeiramente consciente de sua fé e coerente com esta em sua vida. De fato, favoreceu neles:

– uma nova experiência vital de Deus, como Pai misericordioso;

– uma redescoberta mais profunda de Jesus Cristo, não apenas na sua divindade, mas também na sua verdadeira humanidade;

– o sentir-se, todos, co-responsáveis pela missão da Igreja no mundo;

– a tomada de consciência das exigências sociais da fé.

25. Todavia, diante do atual panorama religioso, os filhos da Igreja devem se examinar: « em que medida são tocados, também eles, pela atmosfera de secularismo e de relativismo ético? ».(42)

Uma primeira categoria configura-se naquela « multidão de homens que receberam o Batismo, mas vivem fora de toda a vida cristã ».(43) Trata-se, de fato, de uma multidão de cristãos « não praticantes », (44) ainda que, no fundo do coração de muitos, o sentimento religioso não tenha desaparecido de todo. Redespertá-los para a fé é um verdadeiro desafio para a Igreja.

Além desses, há ainda as « pessoas simples »,(45) que se exprimem, às vezes, com sentimentos religiosos muito sinceros e com uma « religiosidade popular » (46) muito enraizada. Possuem uma certa fé, mas « conhecem mal os fundamentos dessa mesma fé ».(47) Além disso, existem também numerosos cristãos, muito cultos, mas com uma formação religiosa recebida apenas na infância, e que necessitam reposicionar e amadurecer a sua fé « sob uma luz diversa ».(48)

26. Não falta, além disso, um certo número de cristãos batizados que, infelizmente, escondem a própria identidade cristã, ou por causa de uma errônea forma de diálogo inter-religioso ou por uma certa reticência em testemunhar a própria fé em Jesus Cristo na sociedade contemporânea.

Estas situações da fé dos cristãos reclamam do semeador, com urgência, o desenvolvimento de uma nova evangelização,(49) sobretudo naquelas Igrejas de antiga tradição cristã, onde o secularismo penetrou mais. Nesta nova situação necessitada de evangelização, o anúncio missionário e a catequese, sobretudo aos jovens e aos adultos, constituem uma clara prioridade.

A vida interna da comunidade eclesial

27. É importante considerar também a própria vida da comunidade eclesial, a sua íntima qualidade.

Uma primeira consideração é descobrir como, na Igreja, tenha sido acolhido e tenha dado frutos o Concílio Vaticano II. Os grandes documentos conciliares não permaneceram letra morta: constatam-se os seus efeitos. As quatro constituições — Sacrosanctum Concilium, Lumen Gentium, Dei Verbum e Gaudium et Spes — fecundaram a Igreja. De fato:

– A vida litúrgica é compreendida mais profundamente como fonte e vértice da vida eclesial;

– O povo de Deus adquiriu uma consciência mais viva do « sacerdócio comum », (50) radicado no Batismo. Ao mesmo tempo, redescobre sempre mais a vocação universal à santidade e um sentido mais profundo do serviço à caridade.

– A comunidade eclesial adquiriu um sentido mais vivo da Palavra de Deus. A Sagrada Escritura, por exemplo, é lida, saboreada e meditada de modo mais intenso.

– A missão da Igreja no mundo é sentida de maneira nova. Com base numa renovação interior, o Concílio abriu os católicos à exigência de uma evangelização ligada necessariamente com a promoção humana, à necessidade do diálogo com o mundo, com as diversas culturas e religiões e à urgente busca da união entre os cristãos.

28. Mas em meio a esta fecundidade, devem-se reconhecer também os « defeitos e dificuldades no acolhimento do Concílio ».(51) Malgrado uma doutrina eclesiológica tão ampla e profunda, enfraqueceu-se o sentido da pertença eclesial; constata-se freqüentemente uma « desafeição para com a Igreja »; (52) ela é contemplada, muitas vezes, de modo unilateral, como mera instituição, despojada do seu mistério.

Em algumas ocasiões, foram tomadas posições parciais e opostas na interpretação e na aplicação da renovação solicitada à Igreja pelo Concílio Vaticano II. Tais ideologias e comportamentos conduziram a fragmentações e a prejudicar o testemunho de comunhão, indispensável para a evangelização.

A ação evangelizadora da Igreja, e nesta a catequese, deve buscar mais decididamente uma sólida coesão eclesial. Para isso, é urgente promover e aprofundar uma autêntica eclesiologia de comunhão, (53) para gerar nos cristãos, uma profunda espiritualidade eclesial.

Situação da catequese: a sua vitalidade e os seus problemas

29. Muitos são os aspectos positivos da catequese nestes últimos anos, que mostram a sua vitalidade. Entre outros, devem ser destacados:

– O grande número de sacerdotes, religiosos e leigos que se consagram à catequese com grande entusiasmo e perseverança. É uma das ações eclesiais mais relevantes.

– Deve ser sublinhado também o caráter missionário da atual catequese e a sua propensão em assegurar a adesão à fé, dos catecúmenos e dos catequizandos, num mundo no qual o sentido religioso se obscura. Nesta dinâmica, tem-se uma clara consciência de que a catequese deve adquirir o estilo de formação integral e não reduzir-se a simples ensinamento: deverá esforçar-se, de fato, para suscitar uma verdadeira conversão. (54)

– Em sintonia com tudo o que já foi dito, assume extraordinária importância o incremento que vai adquirindo a catequese dos adultos (55) no projeto de catequese de muitas Igrejas particulares. Esta opção aparece como prioritária nos planos pastorais de muitas dioceses. Também em alguns movimentos e grupos eclesiais ela ocupa um lugar central.

– Favorecido, sem dúvida, pelas recentes orientações do Magistério, o pensamento catequético ganhou, nos nossos dias, uma maior densidade e profundidade. Neste sentido, muitas Igrejas locais já dispõem de idôneas e oportunas orientações pastorais.

30. Todavia, é necessário examinar, com particular atenção, alguns problemas, buscando encontrar uma solução para os mesmos:

– O primeiro diz respeito ao próprio conceito de catequese como escola da fé, como aprendizado e tirocínio de toda a vida cristã, que ainda não penetrou plenamente na consciência dos catequistas.

– No que concerne à orientação de fundo, o conceito de « Revelação » impregna ordinariamente a atividade catequética; todavia, o conceito conciliar de « Tradição » tem uma menor influência como elemento realmente inspirador. De fato, em muitas catequeses, a referência à Sagrada Escritura é quase que exclusiva, sem que a reflexão e a vida bimilenar da Igreja (56) acompanhem tal referência, de modo suficiente. A natureza eclesial da catequese se mostra, neste caso, menos clara. A inter-relação entre Sagrada Escritura, Tradição e Magistério, « cada qual segundo seu próprio modo »,(57) ainda não fecunda harmoniosamente a transmissão catequética da fé.

– No que diz respeito à finalidade da catequese, que visa promover a comunhão com Jesus Cristo, é necessária uma apresentação mais equilibrada de toda a verdade do mistério de Cristo. Às vezes, se insiste somente na sua humanidade, sem fazer explícita referência à sua divindade; em outras ocasiões, menos freqüentes nos nossos dias, a sua divindade é tão acentuada, que não se percebe mais a realidade do mistério da Encarnação do Verbo. (58)

– Em relação ao conteúdo da catequese, subsistem vários problemas. Há algumas lacunas doutrinais no que concerne à verdade sobre Deus e sobre o homem, sobre o pecado e a graça e sobre os Novíssimos. Há a necessidade de uma formação moral mais sólida; constata-se uma apresentação inadequada da história da Igreja e um escassa importância dada à sua Doutrina Social. Em algumas regiões, proliferam catecismos e textos de iniciativa particular, com tendências seletivas e acentuações tão diferentes, que prejudicam a necessária convergência na unidade da fé.(59)

– « A catequese é intrinsecamente ligada com toda a ação litúrgica e sacramental ».(60) Muitas vezes, porém, a praxe catequética apresenta uma ligação fraca e fragmentária com a liturgia: atenção limitada aos sinais e ritos litúrgicos, pouca valorização das fontes litúrgicas, percursos catequéticos que pouco ou nada têm a ver com o ano litúrgico, presença marginal de celebrações nos itinerários da catequese.

– No que concerne à pedagogia, após uma excessiva acentuação do valor do método e das técnicas, por parte de alguns, ainda não se presta a devida atenção às exigências e à originalidade da pedagogia própria da fé.(61) Cai-se facilmente no dualismo « conteúdo-método », com reducionismos num sentido ou no outro. No que diz respeito à dimensão pedagógica, não se exercitou sempre o necessário discernimento teológico.

– No que concerne à diferença das culturas em relação ao serviço da fé, constitui um problema saber transmitir o Evangelho no limite do horizonte cultural dos povos aos quais se dirige, de modo que ele possa ser apreendido realmente como uma grande notícia para a vida das pessoas e da sociedade. (62)

– A formação para o apostolado e para a missão é uma das tarefas principais da catequese. No entanto, enquanto na atividade catequética cresce uma nova sensibilidade em formar os fiéis leigos para o testemunho cristão, para o diálogo inter-religioso e para o compromisso secular, a educação para a dimensão missionária ad gentes mostra-se ainda fraca e inadequada. Com freqüência, a catequese ordinária reserva às missões uma atenção marginal e não constante.

A semeadura do Evangelho

31. Depois de ter analisado o terreno, o semeador envia os seus operários para anunciar o Evangelho por todo o mundo, comunicando-lhes a força do seu Espírito. Ao mesmo tempo, mostra-lhes como ler os sinais dos tempos e lhes pede uma preparação muito acurada para realizar a semeadura.

Como ler os sinais dos tempos

32. A voz do Espírito que Jesus, por parte do Pai, enviou a Seus discípulos ressoa também nos acontecimentos da história. (63) Por trás dos dados mutáveis da situação atual e nas profundas motivações dos desafios que se apresentam à evangelização, é necessário descobrir « os sinais da presença e do desígnio de Deus ». (64) Trata-se de uma análise que se deve fazer à luz da fé, com uma atitude de compaixão. Valendo-se das ciências humanas, (65) sempre necessárias, a Igreja busca descobrir o sentido da situação atual, no âmbito da história da salvação. Os seus juízos sobre a realidade são sempre diagnósticos para a missão.

Alguns desafios para a catequese

33. Para poder exprimir a sua vitalidade e a sua eficácia, a catequese, hoje, deveria assumir os seguintes desafios e orientações:

– antes de tudo, ela deve se apresentar como um válido serviço à evangelização da Igreja, com uma acentuada característica missionária;

– ela deve se dirigir aos seus destinatários privilegiados, como foram e continuam a ser as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos a partir, sobretudo, dos primeiros;

– seguindo o exemplo da catequese patrística, ela deve plasmar a personalidade daquele que crê e, portanto, deve ser uma verdadeira e própria escola de pedagogia cristã;

– deve anunciar os mistérios essenciais do cristianismo, promovendo a experiência trinitária da vida em Cristo como centro da vida de fé;

– deve considerar como tarefa prioritária a preparação e a formação de catequistas de fé profunda.

I PARTE

A CATEQUESE NA MISSÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA

A catequese na missão evangelizadora da Igreja

« Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura » (Mc 16,15)
« Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei » (Mt 28,19-20).
« Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas... até os confins da terra » (At 1,8).

O mandato missionário de Jesus

34. Jesus, após a sua ressurreição, enviou por parte do Pai o Espírito Santo para que realizasse, a partir de dentro, a obra da salvação e estimulasse os discípulos a continuarem a sua própria missão no mundo inteiro, como ele mesmo fora enviado pelo Pai. Ele foi o primeiro e o maior evangelizador. Anunciou o Reino de Deus,(66) como nova e definitiva intervenção divina na história e definiu este anúncio como « o Evangelho », ou seja, a boa nova. A este dedicou toda a sua existência terrena: deu a conhecer a alegria de pertencer ao Reino,(67) as suas exigências e a sua magna carta,(68) os mistérios que encerra,(69) a vida fraterna daqueles que nele entram,(70) e a sua plenitude futura.(71)

Significado e finalidade desta parte

35. Esta primeira parte pretende definir o caráter próprio da catequese.

O primeiro capítulo, relativo à estrutura teológica, recorda brevemente o conceito de Revelação exposto no Documento conciliar Dei Verbum. Ele determina, de maneira específica, o modo de conceber o ministério da Palavra. Os conceitos palavra de Deus, Evangelho, Reino de Deus e Tradição, presentes nessa Constituição dogmática, fundam o significado de catequese. Junto a esses, é referencial obrigatório para a catequese o conceito de evangelização. A sua dinâmica e os seus elementos são expostos com uma precisão nova e profunda, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi.

O segundo capítulo situa a catequese no quadro da evangelização e a coloca em relação com as demais formas de ministério da palavra de Deus. Graças a essa relação, descobre-se mais facilmente o caráter próprio da catequese.

O terceiro capítulo analisa mais diretamente a catequese enquanto tal: a sua natureza eclesial, a sua finalidade vinculativa de comunhão com Jesus Cristo, os seus deveres, e a inspiração catecumenal que a anima.

A concepção que se tem da catequese condiciona profundamente a seleção e a organização dos seus conteúdos (cognitivos, experienciais e comportamentais), precisa os seus destinatários e define a pedagogia que se exige para alcançar os seus objetivos.

O termo catequese sofreu uma evolução semântica durante os vinte séculos de história da Igreja. Neste Diretório, o conceito de catequese inspira-se nos Documentos do Magistério Pontifício pósconciliar e, sobretudo, na Evangelii Nuntiandi, na Catechesi Tradendae e na Redemptoris Missio.

I CAPÍTULO

A Revelação e a sua transmissão mediante a evangelização

« Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. (...) dando-nos a conhecer o mistério da sua vontade, conforme decisão prévia que lhe aprouve tomar para levar o tempo à sua plenitude: a de em Cristo encabeçar todas as coisas... » (Ef 1,3-10).

A Revelação do desígnio providencial de Deus

36. « Deus, que cria e conserva todas as coisas por meio do Verbo, oferece aos homens, na criação, um perene testemunho de si mesmo ». (72) O homem, que por sua natureza e vocação é « capaz de Deus », quando ouve a mensagem das criaturas, pode atingir a certeza da existência de Deus como causa e fim de tudo e que Ele pode se revelar ao homem.

A constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II descreveu a Revelação como o ato mediante o qual Deus se manifesta pessoalmente aos homens. Deus se mostra, de fato, como Aquele que quer comunicar a Si mesmo, tornando a pessoa humana partícipe de sua natureza divina. (73) Dessa maneira, Ele realiza o seu desígnio de amor.

« Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade, pelo qual os homens... têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina ». (74)

37. Este desígnio providencial (75) do Pai, revelado plenamente em Jesus Cristo, realiza-se com a força do Espírito Santo.

Ele comporta:

– a revelação de Deus, da sua « verdade íntima »,(76) do seu « segredo », (77) da verdadeira vocação e dignidade do homem; (78)

– a oferta da salvação a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus, (79) que implica a libertação do mal, do pecado e da morte; (80)

– o definitivo chamado para reunir na família de Deus todos os filhos dispersos, realizando assim a união fraterna entre os homens. (81)

A Revelação: fatos e palavras

38. Deus, na sua imensidão, para se revelar à pessoa humana, utiliza uma pedagogia: (82) serve-se de eventos e de palavras humanas para comunicar o seu desígnio; e o faz progressivamente e por etapas, (83) para se aproximar melhor dos homens. Deus, de fato, age de maneira tal, que os homens cheguem ao conhecimento do seu plano salvífico através dos eventos da história da salvação e mediante as palavras divinamente inspiradas que os acompanham e os explicam.

« Este plano da Revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que

– as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras,

– enquanto as palavras, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido ».(84)

39. Também a evangelização, que transmite ao mundo a Revelação, realiza-se com obras e palavras. Ela é, ao mesmo tempo, testemunho e anúncio, palavra e sacramento, ensinamento e empenho.

A catequese, por sua vez, transmite os fatos e as palavras da Revelação: deve proclamá-los e narrá-los e, ao mesmo tempo, explicar os profundos mistérios que estes encerram. Além disso, sendo a Revelação fonte de luz para a pessoa humana, a catequese não apenas recorda as maravilhas de Deus operadas no passado mas, à luz da mesma Revelação, interpreta os sinais dos tempos e a vida presente dos homens e das mulheres, uma vez que, neles, realiza-se o desígnio de Deus para a salvação do mundo. (85)

Jesus Cristo, mediador e plenitude da Revelação

40. Deus revelou-se progressivamente aos homens, por meio dos profetas e dos eventos salvíficos, até à plenitude da Revelação com o envio de seu próprio Filho: (86)

« Jesus Cristo, pela plena presença e manifestação de Si mesmo, por palavras e obras, sinais e milagres, e especialmente por sua morte e gloriosa ressurreição dentre os mortos, enviado finalmente o Espírito de verdade, aperfeiçoa e completa a Revelação ».(87)

Jesus Cristo não é somente o maior dos profetas, mas é o Filho eterno de Deus, feito homem. Ele é, portanto, o evento último para o qual convergem todos os eventos da história da salvação.(88) Ele é, de fato, « a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai ». (89)

41. O ministério da Palavra deve ressaltar esta admirável característica, própria da economia da Revelação: o Filho de Deus entra na história dos homens, assume a vida e a morte humanas e realiza a nova e definitiva aliança entre Deus e os homens. É dever próprio da catequese mostrar quem é Jesus Cristo: a sua vida e o seu mistério, e apresentar a fé cristã como seqüela da sua pessoa.(90) Por isso, deve basear-se constantemente nos Evangelhos, os quais « são o coração de todas as Escrituras, uma vez que constituem o principal testemunho sobre a vida e a doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador.(91)

O fato que Jesus Cristo seja a plenitude da Revelação é o fundamento do « cristocentrismo » (92) da catequese: o mistério de Cristo, na mensagem revelada, não é um elemento a mais, junto aos demais, mas sim o centro a partir do qual todos os demais elementos se hierarquizam e se iluminam.

A transmissão da Revelação por meio da Igreja, obra do Espírito Santo

42. A revelação de Deus, culminada em Jesus Cristo, é destinada a toda a humanidade: « Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade » (1 Tm 2,4). Em virtude dessa vontade salvífica universal, Deus dispôs que a Revelação se transmitisse a todos os povos e a todas as gerações e permanecesse íntegra. (93)

43. Para cumprir este desígnio divino, Jesus Cristo instituiu a Igreja com fundamento nos apóstolos e, mandando sobre eles o Espírito Santo, por parte do Pai, enviou-os a pregar o Evangelho em todo o mundo. Os apóstolos, com palavras, obras e por escrito, executaram fielmente tal mandato.(94)

Esta Tradição apostólica perpetua-se na Igreja e por meio da Igreja. E esta, no seu todo, pastores e fiéis, vigia por sua conservação e transmissão. O Evangelho, de fato, conserva-se íntegro e vivo na Igreja: os discípulos de Jesus o contemplam e o meditam incessantemente, vivem-no na existência cotidiana e o anunciam na missão. O Espírito Santo fecunda constantemente a Igreja enquanto ela vive o Evangelho; faz com que ela cresça continuamente na compreensão do mesmo, e a impulsiona e sustenta na tarefa de anunciá-lo em todos os recantos do mundo.(95)

44. A conservação íntegra da Revelação, palavra de Deus contida na Tradição e na Escritura, assim como a sua contínua transmissão, são garantidas na sua autenticidade. O Magistério da Igreja, sustentado pelo Espírito Santo e dotado do « carisma da verdade », exercita a função de « interpretar autenticamente a Palavra de Deus ».(96)

45. A Igreja, « sacramento universal de salvação »,(97) movida pelo Espírito Santo, transmite a Revelação por meio da evangelização: anuncia a boa nova do desígnio salvífico do Pai e, nos sacramentos, comunica os dons divinos.

A Deus, que se revela, é devida a obediência da fé, pela qual o homem adere livremente ao « Evangelho da graça de Deus » (At 20,24), com pleno assentimento do intelecto e da vontade. Guiado pela fé, dom do Espírito, o homem chega à contemplar e a saborear o Deus do amor, que em Cristo revelou as riquezas da sua glória.(98)

A evangelização(99)

46. A Igreja « existe para evangelizar », (100) isto é, para « levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade ». (101)

O mandato missionário de Jesus comporta vários aspectos intimamente conexos entre si: « proclamai » (Mc 16,15), « fazei discípulos e ensinai », (102) « sereis minhas testemunhas », (103) « batizai », (104) « fazei isto em minha memória » (Lc 22,19), « amai-vos uns aos outros » (Jo 15,12). Anúncio, testemunho, ensinamento, sacramentos, amor ao próximo, fazer discípulos: todos estes aspectos são via e meios para a transmissão do único Evangelho, e constituem os elementos da evangelização.

Alguns deles se revestem de uma importância tão grande que, às vezes, se tende a identificá-los com a ação evangelizadora. Todavia, « nenhuma definição parcial e fragmentária, porém, chegará a dar razão da realidade rica, complexa e dinâmica que é a evangelização ». (105) Corre-se o risco de empobrecê-la e até mesmo de mutilá-la. Ao contrário, ela deve desenvolver a « sua totalidade » (106) e incorporar as suas intrínsecas bipolaridades: testemunho e anúncio, (107) palavra e sacramento, (108) mudança interior e transformação social. (109) Os agentes da evangelização devem saber agir com uma « visão global » (110) da mesma e identificá-la com o conjunto da missão da Igreja. (111)

O processo da evangelização

47. A Igreja, embora contendo em si, permanentemente, a plenitude dos meios da salvação, opera sempre de modo gradual. (112) O decreto conciliar Ad Gentes esclareceu bem a dinâmica do processo evangelizador: testemunho cristão, diálogo e presença da caridade (11-12), anúncio do Evangelho e chamado à conversão (13), catecumenato e iniciação cristã (14), formação da comunidade cristã por meio dos sacramentos e dos ministérios (15-18). (113) Este é o dinamismo da implantação e da edificação da Igreja.

48. De acordo com isso, é necessário conceber a evangelização como o processo através do qual a Igreja, movida pelo Espírito, anuncia e difunde o Evangelho em todo o mundo. Ela:

– impulsionada pela caridade, impregna e transforma toda a ordem temporal, assumindo e renovando as culturas; (114)

– dá testemunho, (115) entre os povos, do novo modo de ser e de viver que caracteriza os cristãos;

– proclama explicitamente o Evangelho, mediante o « primeiro anúncio », (116) chamando à conversão; (117)

– inicia na fé e na vida cristã, mediante a «catequese » (118) e os « sacramentos de iniciação », (119) aqueles que se convertem a Jesus Cristo, ou aqueles que retomam o caminho de sua seqüela, incorporando os primeiros na comunidade cristã e a ela reconduzindo os demais; (120)

– alimenta constantemente o dom da comunhão (121) nos fiéis, mediante a educação permanente da fé (homilia, outras formas do ministério da Palavra), os sacramentos e o exercício da caridade;

– suscita continuamente a missão, (122) enviando todos os discípulos de Cristo a anunciarem o Evangelho, com palavras e obras, em todo o mundo.

49. O processo evangelizador, (123) conseqüentemente, é estruturado em etapas ou « momentos essenciais »: (124) a ação missionária para os não crentes e para aqueles que vivem na indiferença religiosa; a ação catequética e de iniciação para aqueles que optam pelo Evangelho e para aqueles que necessitam completar ou reestruturar a sua iniciação; e a ação pastoral para os fiéis cristãos já maduros, no seio da comunidade cristã. (125) Esses momentos, no entanto, não são etapas concluídas: reiteram-se, se necessário, uma vez que darão o alimento evangélico mais adequado ao crescimento espiritual de cada pessoa ou da própria comunidade.

O ministério da Palavra de Deus na evangelização

50. O ministério da Palavra (126) é elemento fundamental da evangelização. A presença cristã, em meio aos diferentes grupos humanos, e o testemunho de vida precisam ser esclarecidos e justificados pelo anúncio explícito de Jesus Cristo, o Senhor. « Não há verdadeira evangelização se o nome, o ensinamento, a vida e as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem proclamados ». (127) Mesmo aqueles que já são discípulos de Cristo têm necessidade de ser alimentados constantemente com a palavra de Deus, para crescerem na sua vida cristã. (128)

O ministério da Palavra, no interior da evangelização, transmite a Revelação por meio da Igreja, valendo-se das « palavras » humanas. Estas, porém, são sempre em referência às « obras »: àquelas que Deus realizou e continua a realizar, especialmente nos sacramentos; ao testemunho de vida dos cristãos; à ação transformadora que estes, unidos a tantos homens de boa vontade, realizam no mundo. Esta palavra humana da Igreja é o meio de que o Espírito Santo se serve, para continuar o diálogo com a humanidade. Ele é, de fato, o principal agente do ministério da Palavra, aquele por meio do qual « a viva voz do Evangelho ressoa na Igreja, e por meio desta, no mundo ». (129)

O ministério da Palavra exercita-se « de muitas formas ». (130) A Igreja, desde a época apostólica, (131) no seu desejo de oferecer a palavra de Deus da maneira mais apropriada, tem realizado este ministério através das mais variadas formas. (132) Todas elas servem para veicular aquelas funções basilares que o ministério da Palavra é chamado a desempenhar.

Funções e formas do ministério da Palavra

51. As principais funções do ministério da Palavra são as seguintes:

Convocação e chamado à fé

É a função que mais imediatamente se deduz do mandato missionário de Jesus. Realiza-se mediante o « primeiro anúncio », dirigido aos não crentes: aqueles que fizeram uma opção de nãocrença, os batizados que vivem às margens da vida cristã, os praticantes de outras religiões... (133) O despertar religioso das crianças, nas famílias cristãs, é também uma forma eminente desta função.

A iniciação

Aqueles que, movidos pela graça, decidem seguir Jesus, são « introduzidos na vida religiosa, litúrgica e caritativa do Povo de Deus ». (134) A Igreja realiza esta função, fundamentalmente por meio da catequese, em estreita relação com os sacramentos da iniciação, tanto se estes devem ser ainda recebidos quanto se já o foram. Formas importantes são: a catequese dos adultos não batizados, no catecumenato; a catequese dos adultos batizados que desejam retornar à fé, ou daqueles que têm necessidade de completar a sua iniciação; a catequese das crianças e dos mais jovens, que por si só, já tem um caráter de iniciação. Também a educação cristã familiar e o ensino escolar da religião exercem uma função de iniciação.

A educação permanente à fé

Em diversas regiões, ela é chamada também de « catequese permanente ». (135)

Dirige-se aos cristãos iniciados nos elementos de base, que têm necessidade de alimentar e amadurecer constantemente a sua fé, durante toda a vida. É uma função que se realiza através de formas muito variadas: « sistemáticas e ocasionais, individuais e comunitárias, organizadas e espontâneas, etc. ». (136)

A função litúrgica

O ministério da Palavra compreende também uma função litúrgica, uma vez que, quando ele se realiza no âmbito de uma ação sacra, é parte integrante da mesma. (137) Ele se exprime de maneira eminente através da homilia. Outras formas são as intervenções e as exortações durante as celebrações da palavra. É preciso também fazer referência à preparação imediata aos diversos sacramentos, às celebrações sacramentais e, sobretudo, à participação dos fiéis na Eucaristia, como forma fundamental da educação da fé.

A função teológica

Ela busca desenvolver a compreensão da fé, colocando-se na dinâmica da « fides quaerens intellectum », ou seja, da fé que procura entender. (138) A teologia, para cumprir esta função, precisa confrontar-se ou dialogar com as formas filosóficas do pensamento, com os humanismos que conotam a cultura e com as ciências do homem. Articula-se em formas que promovem « a abordagem sistemática e a pesquisa científica das verdades da fé ». (139)

52. São formas importantes do ministério da Palavra: o primeiro anúncio ou pregação missionária, a catequese pré e pós-batismal, a forma litúrgica e a forma teológica. Acontece, com freqüência, que tais formas, por circunstâncias pastorais, devam assumir mais de uma função. A catequese, por exemplo, junto à sua função de iniciação, deve exercitar, freqüentemente, tarefas missionárias. A própria homilia, de acordo com as circunstâncias, será conveniente que assuma as funções de convocação e de iniciação orgânica.

A conversão e a fé

53. Ao anunciar ao mundo a Boa Nova da Revelação, a evangelização convida homens e mulheres à conversão e à fé. 140 O chamado de Jesus, « arrependei-vos e crede no Evangelho » (Mc 1,15), continua a ressoar hoje, mediante a evangelização da Igreja. A fé cristã é, antes de mais nada, conversão a Jesus Cristo, (141) adesão plena e sincera à sua pessoa, e decisão de caminhar na sua seqüela. (142) A fé é um encontro pessoal com Jesus Cristo, é tornar-se seu discípulo. Isso exige o empenho permanente de pensar como Ele, de julgar como Ele e de viver como Ele viveu. (143) Assim, o crente se une à comunidade dos discípulos e assume, como sua, a fé da Igreja. (144)

54. Este « sim » a Jesus Cristo, plenitude da Revelação do Pai, encerra em si uma dupla dimensão: o confiante abandono em Deus e a amorosa adesão a tudo aquilo que Ele nos revelou. Isto é possível somente mediante a ação do Espírito Santo: (145)

« Com a fé, o homem livremente se entrega todo a Deus, prestando ao Deus revelador, um obséquio pleno do intelecto e da vontade, e dando voluntário assentimento à revelação feita por Ele ». (146)

« Crer, portanto, tem uma dupla referência: à pessoa e à verdade; à verdade por confiança na pessoa que a atesta ». (147)

55. A fé comporta uma transformação de vida, uma « metanóia », (148) ou seja, uma profunda transformação da mente e do coração; faz com que o crente viva aquela « nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros que o Evangelho inaugura ». (149) Esta transformação de vida manifesta-se em todos os níveis da existência do cristão: na sua vida interior de adoração e de acolhimento da vontade divina; na sua participação ativa na missão da Igreja; na sua vida matrimonial e familiar; no exercício da vida profissional; no cumprimento das atividades econômicas e sociais.

A fé e a conversão brotam do « coração », isto é, do mais profundo da pessoa humana, envolvendo-a inteira. Encontrando Jesus e aderindo a Ele, o ser humano vê realizadas as suas mais profundas aspirações; encontra tudo aquilo que sempre buscou e o encontra abundantemente. (150) A fé responde àquela « ânsia », (151) freqüentemente inconsciente e sempre limitada, de conhecer a verdade sobre Deus, sobre o próprio homem e sobre o destino que o espera. É como uma água pura (152) que reaviva o caminho do homem, peregrino em busca de seu lar.

A fé é um dom de Deus. Pode nascer do íntimo do coração humano somente como fruto da « graça prévia e adjuvante » (153) e como resposta, completamente livre, à moção do Espírito Santo, que move o coração e o dirige a Deus, dando-lhe « suavidade no consentir e crer na verdade ». (154)

A Virgem Maria viveu, no modo mais perfeito, estas dimensões da fé. A Igreja venera n'Ela, « a mais pura realização da fé ». (155)

O processo da conversão permanente

56. A fé é um dom destinado a crescer no coração dos crentes. (156) A adesão a Jesus Cristo, de fato, inicia um processo de conversão permanente, que dura toda a vida. (157) Quem acede à fé é como uma criança recém-nascida (158) que, pouco a pouco, crescerá e se converterá num ser adulto que tende ao « estado de homem feito », (159) à maturidade da plenitude em Cristo.

No processo de fé e de conversão podem-se revelar, do ponto de vista teológico, diversos momentos importantes:

a) O interesse pelo Evangelho. O primeiro momento é aquele em que, no coração do não crente, do indiferente ou do praticante de outra religião, nasce, como conseqüência do primeiro anúncio, um interesse pelo Evangelho, sem ser ainda uma decisão firme. Aquele primeiro movimento do espírito humano para a fé, que já é fruto da graça, recebe diversos nomes: « propensão à fé », (160) « preparação evangélica », (161) inclinação a crer, « procura religiosa ». (162) A Igreja denomina « simpatizantes » (163) aqueles que mostram essa inquietação.

b) A conversão. Este primeiro interesse pelo Evangelho necessita de um tempo de busca (164) para poder-se transformar em uma opção sólida. A decisão para a fé deve ser avaliada e amadurecida. Tal busca, movida pelo Espírito Santo e pelo anúncio do kerigma, prepara a conversão que será — certamente — « inicial », (165) mas que já traz consigo a adesão a Jesus Cristo e a vontade de caminhar na sua seqüela. Esta « opção fundamental » funda toda a vida cristã do discípulo do Senhor. (166)

c) A profissão de fé. O abandonar-se a Jesus Cristo gera nos crentes o desejo de conhecê-Lo mais profundamente e de identificar-se com Ele. A catequese os inicia no conhecimento da fé e no aprendizado da vida cristã, favorecendo um caminho espiritual que provoca uma « progressiva transformação de mentalidade e costumes », (167) feita de renúncias e de lutas, mas também de alegrias que Deus concede sem medida. O discípulo de Jesus Cristo torna-se, então, idôneo a fazer uma viva, explícita e operante profissão de fé. (168)

d) O caminho rumo à perfeição. Esta maturidade de base, da qual nasce a profissão de fé, não é o ponto final no processo permanente de conversão. A profissão de fé batismal coloca-se como fundamento de um edifício espiritual destinado a crescer. O batizado, impulsionado sempre pelo Espírito Santo, alimentado pelos sacramentos, pela oração e pelo exercício da caridade, e ajudado pelas múltiplas formas de educação permanente da fé, procura tornar seu o desejo de Cristo: « Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito ». (169) É o chamado à plenitude que se dirige a cada batizado.

57. O ministério da Palavra está a serviço deste processo de conversão plena. O primeiro anúncio tem a característica de chamar à fé; a catequese, a de dar um fundamento à conversão e uma estrutura de base à vida cristã; e a educação permanente à fé, na qual se distingue a homilia, a de ser o nutrimento constante do qual cada organismo adulto necessita para viver. (170)

Diversas situações sócio-religiosas diante da evangelização

58. A evangelização do mundo tem diante de si um panorama religioso muito diversificado e mutável, no qual se podem distinguir fundamentalmente « três situações » (171) que requerem respostas adequadas e diferenciadas.

a) A situação daqueles « povos, grupos humanos, contextos socioculturais onde Cristo e o seu Evangelho não são conhecidos, onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos ». (172) Esta situação postula a « missão ad gentes » (173) com uma ação evangelizadora centrada, preferivelmente, nos jovens e adultos. A sua peculiaridade consiste no fato de que se dirige aos não cristãos, convidando-os à conversão. A catequese, nesta situação, desenvolve-se ordinariamente no interior do Catecumenato batismal.

b) Existem, além disso, situações nas quais, num determinado contexto sociocultural, estão presentes, de maneira muito significativa, « comunidades cristãs que possuem sólidas e adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da missão universal ». (174) Estas comunidades necessitam de uma intensa « ação pastoral da Igreja », visto que são constituídas por pessoas e famílias com um profundo senso cristão. Em tal contexto, é necessário que a catequese às crianças, adolescentes e jovens desenvolva verdadeiros processos de iniciação cristã bem articulados, que lhes permitam aceder à idade adulta com uma fé madura que, de evangelizados, os transforme em evangelizadores. Mesmo nessas situações, os adultos são destinatários de modalidades diversas de formação cristã.

c) Em muitos países de tradição cristã e, às vezes, também nas Igrejas mais jovens, existe uma « situação intermédia », (175) onde « grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do Seu Evangelho ». (176) Esta situação requer uma « nova evangelização ». A sua peculiaridade consiste no fato de que a ação missionária se dirige aos batizados de todas as idades, que vivem num contexto religioso de referências cristãs, percebidos apenas exteriormente. Nesta situação, o primeiro anúncio e uma catequese de base constituem a opção prioritária.

Mútua conexão entre as ações evangelizadoras correspondentes a estas situações

59. Estas situações sócio-religiosas são, obviamente, diferentes e não é justo equipará-las. Tal diversidade, que sempre existiu na missão da Igreja, adquire hoje, neste mundo em constante transformação, uma novidade. De fato, com freqüência, diversas situações convivem num mesmo território. Em muitas cidades grandes, por exemplo, coexistem simultaneamente a situação que postula uma « missão ad gentes » e outra que requer uma « nova evangelização ». Junto a estas, estão dinamicamente presentes comunidades cristãs missionárias, alimentadas por uma adequada « ação pastoral ». Hoje ocorre freqüentemente que, no território de uma Igreja particular, seja preciso enfrentar o conjunto dessas situações. « Os confins entre o cuidado pastoral dos fiéis, a nova evangelização e a atividade missionária específica não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses âmbitos barreiras ou compartimentos estanques ». (177) De fato, « cada uma influi sobre a outra, estimula e a ajuda ». (178)

Por isso, em vista do mútuo enriquecimento das ações evangelizadoras que convivem juntas, convém levar em consideração que:

– A missão ad gentes, qualquer que seja a área ou âmbito em que se realiza, é a responsabilidade missionária mais específica que Jesus confiou à Sua Igreja e, portanto, é o modelo exemplar do conjunto da ação missionária da Igreja. A « nova evangelização » não pode suplantar ou substituir a « missão ad gentes », que continua a ser a atividade missionária específica e a tarefa primária. (179)

– « O modelo de toda catequese é o Catecumenato batismal , que é formação específica, mediante a qual o adulto convertido à fé é levado à confissão da fé batismal, durante a vigília pascal ». (180) Esta formação catecumenal deve inspirar as outras formas de catequese, nos seus objetivos e no seu dinamismo.

– « A catequese dos adultos, uma vez que é dirigida a pessoas capazes de uma adesão e de um empenho realmente responsáveis, deve ser considerada como a principal forma de catequese, para qual todas as demais, não por isso menos necessárias, estão orientadas ». (181) Isso implica que a catequese das demais idades deve tê-la como ponto de referência e deve articular-se com ela, num projeto catequético de pastoral diocesana, que seja coerente.

Desse modo, a catequese, situada no âmbito da missão evangelizadora da Igreja como « momento » essencial da mesma, recebe da evangelização, um dinamismo missionário que a fecunda interiormente e a configura na sua identidade. O ministério da catequese mostra-se, assim, como um serviço eclesial fundamental na realização do mandato missionário de Jesus.

II CAPÍTULO

A catequese no processo da evangelização

« O que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos a seus filhos; nós o contaremos à geração seguinte os louvores de Iahweh e seu poder, e as maravilhas que realizou » (Sl 78,34).
« Apolo tinha sido instruído no caminho do Senhor e, no fervor do espírito, falava e ensinava com exatidão o que se refere a Jesus » (At 18,25).

60. Neste capítulo, mostra-se a relação da catequese com os demais elementos da evangelização, da qual ela é parte integrante.

Neste sentido, descreve-se, em primeiro lugar, a relação da catequese com o primeiro anúncio, que se realiza na missão. Mostra-se depois a íntima conexão entre a catequese e os sacramentos da iniciação cristã. Explica-se, a seguir, o papel fundamental da catequese na vida ordinária da Igreja no seu papel de educar permanentemente à fé.

Uma consideração especial é reservada à relação que existe entre a catequese e o ensino escolar da Religião, uma vez que ambas as ações são profundamente interligadas e, juntamente com a educação familiar cristã, mostram ser basilares para a formação da infância e da juventude.

Primeiro anúncio e catequese

61. O primeiro anúncio se dirige aos não crentes e àqueles que, de fato, vivem na indiferença religiosa. Ele tem a função de anunciar o Evangelho e de chamar à conversão. A catequese, « distinta do primeiro anúncio do Evangelho » (182) promove e faz amadurecer esta conversão inicial, educando à fé o convertido e incorporando-o na comunidade cristã. A relação entre estas duas formas do ministério da Palavra é, portanto, uma relação de distinção na complementariedade.

O primeiro anúncio, que cada cristão é chamado a realizar, participa do « ide » (183) que Jesus propôs a seus discípulos: implica, portanto, o sair, o apressar-se, o propor. A catequese, ao invés, parte da condição que o próprio Jesus indicou, « aquele que crer », (184) aquele que se converter, aquele que se decidir. As duas ações são essenciais e se atraem mutuamente: ir e acolher, anunciar e educar, chamar e incorporar.

62. Na prática pastoral, todavia, as fronteiras entre as duas ações não são facilmente delimitáveis. Freqüentemente, as pessoas que acedem à catequese, necessitam, de fato, de uma verdadeira conversão. Por isso, a Igreja deseja que, ordinariamente, uma primeira etapa do processo catequético seja dedicada a assegurar a conversão. (185) Na « missão ad gentes », esta tarefa se realiza no « pré-catecumenato ». (186) Na situação requerida pela « nova evangelização » esta tarefa se realiza por meio da « catequese kerigmática », que alguns chamam de « pré-catequese », (187) porque, inspirada no pré-catecumenato, é uma proposta da Boa Nova em ordem a uma sólida opção de fé. Somente a partir da conversão, isto é, apostando na atitude interior « daquele que crer », a catequese propriamente dita poderá desenvolver a sua tarefa específica de educação da fé. (188)

O fato de que a catequese, num primeiro momento, assuma estas tarefas missionárias, não dispensa a Igreja particular de promover uma intervenção institucionalizada de primeiro anúncio, como atuação mais direta do mandato missionário de Jesus. A renovação catequética deve basear-se nesta evangelização missionária prévia.

A Catequese a serviço da iniciação cristã

A catequese, « momento » essencial do processo de evangelização

63. A Exortação apostólica Catechesi Tradendae, colocando a catequese no âmbito da missão da Igreja, recorda que a evangelização é uma realidade rica, complexa e dinâmica, que compreende « momentos » essenciais e diferentes entre si. E acrescenta: « A catequese é... um desses momentos — e quanto ele há-de ser tido em conta! — de todo o processo da evangelização ». (189) Isto significa que há ações que « preparam » (190) a catequese, e ações que « derivam » (191) da catequese.

O « momento » da catequese é aquele que corresponde ao período em que se estrutura a conversão a Jesus Cristo, oferecendo as bases para aquela primeira adesão. Os convertidos, mediante « um ensinamento e um aprendizado devidamente prolongado no decorrer de toda a vida cristã », (192) são iniciados no mistério da salvação e num estilo de vida evangélico. Trata-se, de fato, de « iniciá-los na plenitude da vida cristã ». (193)

64. Ao realizar, de diferentes formas, esta função de iniciação do ministério da Palavra, a catequese lança os fundamentos do edifício da fé. (194) Outras funções deste ministério construirão depois os diferentes andares desse mesmo edifício.

A catequese de iniciação é, assim, o elo necessário entre a ação missionária, que chama à fé, e a ação pastoral, que alimenta continuamente a comunidade cristã. Não é, portanto, uma ação facultativa, mas sim uma ação basilar e fundamental para a construção, tanto da personalidade do discípulo, quanto da comunidade. Sem ela, a ação missionária não teria continuidade e seria estéril. Sem ela, a ação pastoral não teria raízes e seria superficial e confusa: qualquer tempestade faria desmoronar todo o edifício. (195)

Na verdade, « o crescimento interior da Igreja, a sua correspondência aos desígnios de Deus, dependem essencialmente da catequese ». (196) Neste sentido, a catequese deve ser considerada como momento prioritário na evangelização.

A catequese a serviço da iniciação cristã

65. A fé, mediante a qual o homem responde ao anúncio do Evangelho, exige o Batismo. A íntima relação entre as duas realidades tem sua raiz na vontade do próprio Cristo, que ordenou aos seus apóstolos que fizessem discípulos em todas as nações e os batizassem. « A missão de batizar, portanto, a missão sacramental, está implícita na missão de evangelizar ». (197)

Aqueles que se converteram a Jesus Cristo e foram educados à fé por meio da catequese, ao receberem os sacramentos da iniciação cristã, o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia, são « libertados do poder das trevas; mortos com Cristo, con-sepultados e coressuscitados com Ele, recebem o Espírito da adoção de filhos e com todo o Povo de Deus celebram o memorial da morte e da ressurreição do Senhor ». (198)

66. A catequese é, assim, elemento fundamental da iniciação cristã e é estreitamente ligada com os sacramentos de iniciação, de modo particular com o Batismo, « sacramento da fé ». (199) O elo que une a catequese com o Batismo é a profissão de fé que é, ao mesmo tempo, o elemento interior a este sacramento e a meta da catequese. A finalidade da ação catequética consiste precisamente nisso: em favorecer uma viva, explícita e operosa profissão de fé. (200) A Igreja, para alcançar esta finalidade, transmite aos catecúmenos e aos catequizandos, a viva experiência que ela tem do Evangelho, e a sua fé, a fim de que estes a façam própria, ao professá-la. Por isso, « a catequese autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à revelação que Deus fez de Si mesmo ao homem, em Jesus Cristo; revelação esta conservada na memória

profunda da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e constantemente comunicada, por uma « traditio » (tradição) viva e ativa, de uma geração para a outra ». (201)

Características fundamentais da catequese de iniciação

67. O fato de ser « momento essencial » do processo evangelizador, a serviço da iniciação cristã, confere à catequese algumas características. (202) Ela é:

– uma formação orgânica e sistemática da fé. O Sínodo de 1977 sublinhou a necessidade de uma catequese « orgânica e bem ordenada », (203) uma vez que o aprofundamento vital e orgânico do mistério de Cristo é aquilo que principalmente distingue a catequese de todas as demais formas de apresentação da Palavra de Deus.

– Esta formação orgânica é mais do que um ensino: é um aprendizado de toda a vida cristã, « uma iniciação cristã integral », (204) que favorece uma autêntica seqüela de Cristo, centrada na Sua Pessoa. Trata-se, de fato, de educar ao conhecimento e à vida de fé, de tal maneira que o homem no seu todo, nas suas experiências mais profundas, se sinta fecundado pela Palavra de Deus. Ajudar-se-á, assim, o discípulo de Cristo, a transformar o homem velho, a assumir os seus compromissos batismais e a professar a fé a partir do « coração ». (205)

– É uma formação de base, essencial, (206) centrada naquilo que constitui o núcleo da experiência cristã, nas certezas mais fundamentais da fé e nos mais basilares valores evangélicos. A catequese lança os fundamentos do edifício espiritual do cristão, alimenta as raízes da sua vida de fé, habilitando-o a receber o sucessivo alimento sólido, na vida ordinária da comunidade cristã.

68. Em síntese: a catequese de iniciação, sendo orgânica e sistemática, não se reduz ao meramente circunstancial ou ocasional; (207) sendo formação para a vida cristã, supera — incluindo-o — o mero ensino; (208) e sendo essencial, visa àquilo que é « comum » para o cristão, sem entrar em questões disputadas, nem transformar-se em pesquisa teológica. Enfim, sendo iniciação, incorpora na comunidade que vive, celebra e testemunha a fé. Realiza, portanto, ao mesmo tempo, tarefas de iniciação, de educação e de instrução. (209) Esta riqueza, inerente ao Catecumenato dos adultos não batizados, deve inspirar as demais formas de catequese.

A Catequese a serviço da educação permanente da fé

A educação permanente da fé na comunidade cristã

69. A educação permanente à fé segue a educação de base e a supõe. Ambas atualizam duas funções do ministério da Palavra, distintas e complementares, a serviço do processo permanente de conversão.

A catequese de iniciação lança as bases da vida cristã naqueles que seguem Jesus. O processo permanente de conversão vai além daquilo que fornece a catequese de base. Para favorecer tal processo, é necessária uma comunidade cristã que acolha os iniciados para sustentá-los e formá-los na fé. « A catequese corre o risco de se tornar estéril se uma comunidade de fé e de vida cristã não acolher o catecúmeno num certo estágio da sua catequização ». (210) O acompanhamento que a comunidade exercita em favor do iniciado, transforma-se em plena integração do mesmo na comunidade.

70. Na comunidade cristã, os discípulos de Jesus Cristo se alimentam em uma dúplice mesa: « da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo ». (211) O Evangelho e a Eucaristia são alimento constante na peregrinação rumo à casa do Pai. A ação do Espírito Santo faz com que o dom da « comunhão » e o empenho da « missão » sejam aprofundados e vividos de maneira sempre mais intensa.

A educação permanente da fé se dirige não apenas a cada cristão, para acompanhá-lo no seu caminho rumo à santidade, mas também à comunidade cristã enquanto tal, para que amadureça tanto na sua vida interior de amor a Deus e aos irmãos, quanto na sua abertura ao mundo como comunidade missionária. O desejo e a oração de Jesus ao Pai são um incessante apelo: « a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste ». (212) Aproximar-se, pouco a pouco, desse ideal, exige, na comunidade, uma grande fidelidade à ação do Espírito Santo, um constante alimentar-se do Corpo e Sangue do Senhor e uma permanente educação na fé, na escuta da Palavra.

Nesta mesa da Palavra de Deus, a homilia ocupa um lugar privilegiado, uma vez que « retoma o itinerário de fé proposto pela catequese e o leva ao seu complemento natural; ao mesmo tempo, ela impulsiona os discípulos do Senhor a retomarem cada dia o seu itinerário espiritual, na verdade, na adoração e na ação de graças ». (213)

Múltiplas formas de catequese permanente

71. Para a educação permanente à fé, o ministério da Palavra conta com muitas formas de catequese. Entre estas, podem ser evidenciadas as seguintes:

– O estudo e o aprofundamento da Sagrada Escritura, lida não somente na Igreja, mas com a Igreja e a sua fé sempre viva. Isto ajuda a descobrir a verdade divina, de modo a suscitar uma resposta de fé. A chamada « lectio divina » é forma eminente deste vital estudo das Escrituras. (214)

– A leitura cristã dos eventos, que é requerida pela vocação missionária da comunidade cristã. A este respeito, o estudo da doutrina social da Igreja é indispensável, visto que « sua finalidade principal é interpretar estas realidades (as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional), examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho ». (215)

– A catequese litúrgica, que prepara aos sacramentos e favorece uma compreensão e uma experiência mais profunda da liturgia. Ela explica o conteúdo das orações, o sentido dos gestos e dos sinais, educa à participação ativa, à contemplação e ao silêncio. Deve ser considerada como « uma eminente forma de catequese ». (216)

– A catequese ocasional, que em determinadas circunstâncias da vida pessoal, familiar, social e eclesial, busca ajudar a interpretar e viver tais circunstâncias, a partir da perspectiva da fé. (217)

– As iniciativas de formação espiritual, que fortalecem as convicções, abrem a novas perspectivas e fazem perseverar na oração e no compromisso da seqüela de Cristo.

O aprofundamento sistemático da mensagem cristã, por meio de um ensino teológico que eduque verdadeiramente à fé, faça crescer na compreensão da mesma e torne o cristão capaz de dar razões da sua esperança, no mundo atual. (218) Num certo sentido, é apropriado denominar tal ensino como « catequese de aperfeiçoamento ».

72. É de fundamental importância que a catequese de iniciação para adultos, batizados ou não, a catequese de iniciação para crianças e jovens e a catequese permanente sejam bem conexas no projeto catequético da comunidade cristã, a fim de que a Igreja particular cresça harmoniosamente e a sua atividade evangelizadora nasça de fontes autênticas. « É importante também que a catequese das crianças e dos jovens, a catequese permanente e a catequese dos adultos não sejam domínios estanques e sem comunicação... é necessário favorecer a sua perfeita complementaridade ». (219)

Catequese e ensino escolar da Religião

O caráter próprio do ensino escolar da Religião

73. Uma consideração especial merece — no âmbito do ministério da Palavra — o caráter próprio do ensino religioso na escola e a sua relação com a catequese das crianças e dos jovens.

A relação entre o ensino religioso na escola e a catequese é uma relação de distinção e de complementaridade: « Há um nexo indivisível e, ao mesmo tempo, uma clara distinção entre o ensino da religião e a catequese ». (220)

O que confere ao ensino religioso escolar a sua peculiar característica, é o fato de ser chamado a penetrar no âmbito da cultura e de relacionar-se com outras formas do saber. Como forma original do ministério da Palavra, de fato, o ensino religioso escolar torna presente o Evangelho no processo pessoal de assimilação, sistemática e crítica, da cultura. (221)

No universo cultural, que é interiorizado pelos alunos e que é definido pelas formas de saber e pelos valores oferecidos pelas demais disciplinas escolares, o ensino religioso escolar deposita o fermento dinâmico do Evangelho e busca « abranger realmente os outros elementos do saber e da educação, para que o Evangelho impregne a mentalidade dos alunos no ambiente da sua formação e para que a harmonização da sua cultura se faça à luz da fé ». (222)

É necessário, portanto, que o ensino religioso escolar se mostre como uma disciplina escolar, com a mesma exigência de sistema e rigor que requerem as demais disciplinas. Deve apresentar a mensagem e o evento cristão com a mesma seriedade e profundidade com a qual as demais disciplinas apresentam seus ensinamentos. Junto a estas, todavia, o ensino religioso escolar não se situa como algo acessório, mas sim no âmbito de um necessário diálogo interdisciplinar. Este diálogo deve ser instituído, antes de mais nada, naquele nível no qual cada disciplina plasma a personalidade do aluno. Assim, a apresentação da mensagem cristã incidirá na maneira com que se concebe a origem do mundo e o sentido da história, o fundamento dos valores éticos, a função da religião na cultura, o destino do homem, a relação com a natureza. O ensino religioso escolar, mediante este diálogo interdisciplinar, funda, potencia, desenvolve e completa a ação educadora da escola. (223)

O contexto escolar e os destinatários do ensino escolar da Religião

74. O ensino escolar da Religião desenvolve-se em contextos escolares diversos, o que faz com que este, embora mantendo o seu caráter próprio, adquira acentuações diversas. Estas dependem das condições legais e de organização, da concepção didática, dos pressupostos pessoais dos professores e dos alunos e da relação do ensino religioso escolar com a catequese familiar e paroquial.

Não é possível reduzir à uma única forma todos os modelos de ensinamento religioso escolar, desenvolvidas historicamente em seguida a Acordos com os Estados e às deliberações de cada Conferência dos Bispos. Todavia, é necessário esforçar-se para que, segundo os relativos pressupostos, o ensino religioso escolar responda às suas finalidades e características peculiares. (224)

Os alunos « têm o direito de aprender, de modo verdadeiro e com certeza, a religião à qual pertencem. Não pode ser desatendido este seu direito a conhecer mais profundamente a pessoa de Cristo e a totalidade do anúncio salvífico que Ele trouxe. O caráter confessional do ensino religioso escolar, realizado pela Igreja segundo modos e formas estabelecidas em cada País, é, portanto, uma garantia indispensável, oferecida às famílias e aos alunos que escolhem tal ensino ». (225)

Para a escola católica, o ensino religioso escolar, assim qualificado e completado com outras formas do ministério da Palavra (catequese, celebrações litúrgicas, etc.), é parte indispensável da sua tarefa pedagógica e fundamento da sua existência. (226)

O ensino religioso escolar, no contexto da escola pública e no da não confessional, lá onde as autoridades civis ou outras circunstâncias impõem um ensino religioso comum aos católicos e nãocatólicos, (227) terá uma característica mais ecumênica e de conhecimento inter-religioso comum.

Em outras ocasiões, o ensinamento religioso escolar poderá ter um caráter mais cultural, orientado para o conhecimento das religiões, apresentando, com o necessário realce, a religião católica. (228) Também neste caso, sobretudo se administrado por um professor sinceramente respeitoso, o ensino religioso escolar mantém uma dimensão de verdadeira « preparação evangélica ».

75. A situação de vida e de fé dos alunos que freqüentam o ensino religioso escolar é caracterizada por uma constante e notável transformação. O ensino religioso escolar deve levar em conta este dado, para poder atingir as próprias finalidades.

O ensino religioso escolar ajuda os alunos que têm fé a compreender melhor a mensagem cristã, em relação com os grandes problemas existenciais comuns às religiões e característicos de todo ser humano, com as visões da vida mais presentes na cultura, e com os principais problemas morais nos quais, hoje, a humanidade se encontra envolvida.

Os alunos, ao invés, que se encontram em uma situação de busca ou diante de dúvidas religiosas, poderão descobrir no ensino religioso escolar o que é, exatamente, a fé em Jesus Cristo, quais são as respostas que a Igreja oferece aos seus interrogativos, dando-lhes a oportunidade de perscrutar melhor a própria decisão.

Finalmente, quando os alunos não têm fé, o ensino religioso escolar assume as características de um anúncio missionário do Evangelho, em vista de uma decisão de fé, que a catequese, por sua parte, em um contexto comunitário, poderá em seguida fazer crescer e amadurecer.

A educação cristã familiar: catequese e ensino religioso escolar a serviço da educação na fé

76. A educação cristã na família, a catequese e o ensino da religião na escola, cada qual segundo as próprias características peculiares, são intimamente correlacionados com o serviço da educação cristã das crianças, adolescentes e jovens. Na prática, porém, é preciso levar em consideração diferentes variáveis que geralmente se apresentam, com o intuito de agir com realismo e prudência pastoral, na aplicação das orientações gerais.

Portanto, cabe a cada diocese ou região pastoral distinguir as diversas circunstâncias que intervêm, tanto no que concerne à existência ou não da iniciação cristã no âmbito das famílias, para os próprios filhos, quanto no que diz respeito às incumbências formativas que, na tradição ou situação locais, exercitam as paróquias, as escolas, etc...

E, conseqüentemente, a Igreja particular e a Conferência dos Bispos estabelecerão as orientações próprias para os diversos âmbitos, estimulando atividades que são distintas e complementares.

III CAPÍTULO

Natureza, finalidade e tarefas da catequese

« Para a glória de Deus, o Pai, toda língua confesse: Jesus Cristo é o Senhor » (Fl 2,11).

77. Depois de ter delineado o lugar da catequese no âmbito da missão evangelizadora da Igreja, as suas relações com os vários elementos da evangelização e com as outras formas do ministério da Palavra, neste capítulo se pretende refletir de modo específico sobre:

– a natureza eclesial da catequese, ou seja, o sujeito agente da catequese, a Igreja animada pelo Espírito;

– a finalidade que ela busca fundamentalmente, ao catequizar;

– as tarefas com as quais realiza esta finalidade, e que constituem os seus objetivos mais imediatos;

– as fases internas do processo catequético e a inspiração catecumenal que o anima.

Além disso, neste capítulo, aprofundar-se-á mais o caráter próprio da catequese, já descrito no capítulo precedente, onde foram especificadas as relações que ela estabelece com as demais ações eclesiais.

A catequese: ação de natureza eclesial

78. A catequese é um ato essencialmente eclesial. (229) O verdadeiro sujeito da catequese é a Igreja que, continuadora da missão de Jesus Mestre, e animada pelo Espírito, foi enviada para ser mestra da fé. Portanto, a Igreja, imitando a Mãe do Senhor, conserva fielmente o Evangelho no seu coração, (230) anuncia-o, celebra-o, vive-o e o transmite na catequese, a todos aqueles que decidiram seguir Jesus Cristo.

Esta transmissão do Evangelho é um ato vivo de tradição eclesial: (231)

– A Igreja, de fato, transmite a fé que ela mesma vive: a sua compreensão do mistério de Deus e do seu desígnio salvífico; a sua visão da altíssima vocação do homem; o estilo de vida evangélico que comunica a alegria do Reino; a esperança que a invade; o amor que sente pelos homens.

– A Igreja transmite a fé de modo ativo, semeia-a nos corações dos catecúmenos e catequizandos, para fecundar as suas experiências mais profundas. (232) A profissão de fé recebida da Igreja (traditio), germinando e crescendo durante o processo catequético, é restituída (redditio), enriquecida com os valores das diferentes culturas. (233) O catecumenato se transforma, assim, num centro fundamental de incremento da catolicidade, e fermento de renovação eclesial.

79. A Igreja, ao transmitir a fé e a vida nova — através da iniciação cristã — age como mãe dos homens, que gera filhos concebidos por obra do Espírito Santo e nascidos de Deus. (234) Precisamente, « por ser nossa mãe, a Igreja é também a educadora da nossa fé »; (235) é mãe e mestra ao mesmo tempo. Através da catequese, alimenta os seus filhos com a sua própria fé e os incorpora, como membros, na família eclesial. Como boa mãe, oferece-lhes o Evangelho em toda a sua autenticidade e pureza, o qual, ao mesmo tempo, lhes é dado como alimento adaptado, culturalmente enriquecido e como resposta às aspirações mais profundas do coração humano.

Finalidade da catequese: a comunhão com Jesus Cristo

80. « A finalidade definitiva da catequese é a de fazer com que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo ». (236)

Toda a ação evangelizadora tem o objetivo de favorecer a comunhão com Jesus Cristo. A partir da conversão « inicial » (237) de uma pessoa ao Senhor, suscitada pelo Espírito Santo, mediante o primeiro anúncio, a catequese se propõe dar um fundamento e fazer amadurecer esta primeira adesão. Trata-se, então, de ajudar aquele que acaba de ser converter a « ...melhor conhecer o mesmo Jesus Cristo ao qual se entregou: conhecer o seu « mistério », o Reino de Deus que Ele anunciou, as exigências e as promessas contidas na Sua mensagem evangélica e os caminhos que Ele traçou para todos aqueles que O querem seguir ». (238) O Batismo, sacramento mediante o qual « configuramo-nos com Cristo », (239) sustenta, com a sua graça, esta obra da catequese.

81. A comunhão com Jesus Cristo, por sua própria dinâmica, impulsiona o discípulo a se unir com tudo aquilo com que o próprio Jesus Cristo sentiu-se profundamente unido: com Deus, seu Pai, que o enviara ao mundo, e com o Espírito Santo, que lhe dava impulso para a missão; com a Igreja, seu corpo, pela qual se doou, e com os homens, seus irmãos, cuja sorte quis compartilhar.

A finalidade da catequese se exprime na profissão de fé no único Deus: Pai, Filho e Espírito Santo

82. A catequese é aquela forma particular do ministério da Palavra, que faz amadurecer a conversão inicial, até fazer dela uma viva, explícita e operativa confissão de fé: « A catequese tem a sua origem na confissão de fé e leva à confissão de fé ». (240)

A profissão de fé, intrínseca ao Batismo, (241) é eminentemente trinitária. A Igreja batiza « em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo » (Mt 28,19), (242) Deus uno e trino, ao qual o cristão confia a sua vida. A catequese de iniciação prepara — antes ou após o recebimento do Batismo — para este decisivo empenho. A catequese permanente ajudará a amadurecer continuamente esta profissão de fé, a proclamá-la na Eucaristia e a renovar os compromissos que ela implica. É importante que a catequese saiba unir bem a confissão de fé cristológica, « Jesus é o Senhor », com a confissão trinitária, « Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo », uma vez que são tão somente duas modalidades para se exprimir a mesma fé cristã. Aquele que, pelo primeiro anúncio, se converte a Jesus Cristo e O reconhece como Senhor, inicia um processo, ajudado pela catequese, que desemboca necessariamente na confissão explícita da Trindade.

Com a confissão de fé no único Deus, o cristão renuncia a servir qualquer absoluto humano: poder, prazer, raça, antepassados, Estado, dinheiro..., (243) libertando-se de qualquer ídolo que o escravize. É a proclamação da sua vontade de servir a Deus e aos homens, sem nenhum laço. Proclamando a fé na Trindade, comunhão de pessoas, o discípulo de Jesus Cristo manifesta contemporaneamente que o amor a Deus e ao próximo é o princípio que informa o seu ser e o seu agir.

83. A confissão de fé é completa somente se é em referência à Igreja. Cada batizado proclama individualmente o Credo, uma vez que não há ação mais pessoal do que esta. Mas o recita na Igreja e através dela, já que o faz como seu membro. O « creio » e o « cremos » se implicam mutuamente. (244) Ao fundir a sua confissão com a confissão da Igreja, o cristão é incorporado à sua missão: ser « sacramento de salvação » para a vida do mundo. Quem proclama a profissão de fé, assume compromissos que, não poucas vezes, atrairão a perseguição. Na história cristã, os mártires são os anunciadores e as testemunhas por excelência. (245)

As tarefas da catequese realizam a sua finalidade

84. A finalidade da catequese realiza-se através de diversas tarefas, mutuamente relacionadas. (246) Para realizá-las, a catequese se inspirará certamente no modo mediante o qual Jesus formava os Seus discípulos: fazia-os conhecer as diversas dimensões do Reino de Deus (« a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos céus », Mt 13,11), (247) ensinava-os a rezar (« Quando orardes, dizei: Pai... », Lc 11,2), (248) inculcava-lhes atitudes evangélicas (« ...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração », Mt 11,29) e os iniciava na missão (« ...e os enviou dois a dois... », Lc 10,1). (249)

As tarefas da catequese correspondem à educação das diversas dimensões da fé, uma vez que a catequese é uma formação cristã integral, « aberta a todas as outras componentes da vida cristã ». (250) Em virtude da sua própria dinâmica interna, a fé exige ser conhecida, celebrada, vivida e traduzida em ora&cce