 |
Padre Eustáquio van Lieshout
(1890-1943)
Beatificado em Belo Horizonte,
Brasil, pelo Cardeal José Saraiva Martins, a 15 de Junho de 2006
Humberto van Lieshout, que mais tarde seria conhecido como o Venerável
Padre Eustáquio, nasceu no dia 3 de novembro de 1890, em Aarle Rixtel, na
Holanda. Passou o final de sua vida no bairro Celeste Império, vizinho ao
Jardim Montanhês, celebrando Missas na capela Cristo Rei, única igreja
existente nas proximidades dos bairros Celeste Império, Villa Minas Gerais e
Progresso (atual bairro Padre Eustáquio). Andava por toda a região, atendendo
pessoas e resumindo sua missão em duas palavras: "Saúde e paz", numa atitude
de fé e amor ao próximo.
Padre Eustáquio faleceu no Sanatório Minas Gerais, atual hospital Alberto
Cavalcanti, também naquele bairro, onde estão preservados os móveis da época
de seu falecimento. Tornou-se símbolo da fé religiosa, ao longo de sua atuação,
promovendo curas e distribuindo bênçãos pelos vários lugares por onde passou.
Após sua morte, foi atribuída a ele a graça da cura de um câncer em um de seus
devotos, entre outros milagres.
Em 10 de dezembro de 1913, Padre Eustáquio iniciou o noviciado canônico, em
Tremelo, na Bélgica. Fez votos temporários de pobreza, castidade e obediência
como religioso da Congregação dos Sagrados Corações, no dia 27 de janeiro de
1915, tendo feito os votos perpétuos três anos mais tarde. A 10 de agosto de
1919, após cursar filosofia e teologia em seminários da Congregação, foi
ordenado sacerdote por Dom Henrique Hopmans, bispo da diocese holandesa de
Breda. Desse ano até agosto de 1924, trabalhou como auxiliar do mestre de
noviços, vigário paroquial em Roelofarendsveen, tendo exercido, em 1920, o
ministério sacerdotal em Maassluis, nas proximidades de Roterdam, cuidando de
grande comunidade de famílias belgas que, em 1914, tiveram que deixar sua
pátria, por causa da invasão alemã.
Em agostode 1924, por ordem dos superiores, chegou à comunidade da
Congregação em Miranda de Ebro, na Espanha, a fim de aprender a língua
espanhola, pois fora nomeado missionário na América do Sul, juntamente com os
padres Gil van den Boorgart e Matias van Rooy. Em 22 de abril do ano seguinte,
os três deixaram o porto de Amsterdam com destino ao Rio de Janeiro.
No dia 15 de julho de 1925, Padre Eustáquio e seus irmãos de Congregação
chegaram em Romaria, no Triângulo Mineiro, onde assumiram a pastoral do
santuário episcopal e da paróquia de Nossa Senhora da Abadia de Água Suja e
das paróquias de São Miguel de Nova Ponte e Santana de Indianópolis, todas na
Arquidiocese de Uberaba. A Padre Eustáquio, coube a função de vigário
paroquial com prioridade de serviços de atendimento às comunidades da sede
paroquial de Nova Ponte e de todas as suas capelas.
Em 26 de março de 1926, tornou-se reitor do Santuário de Nossa Senhora da
Abadia, pároco das três paróquias citadas e da paróquia de Iraí de Minas e
assumiu, também, as responsabilidades de conselheiro da Congregação dos
Sagrados Corações no Brasil.
Ao ministrar suas orientações pessoais ações curativas de enfermidades
físicas Padre Eustáquio falava da disposição de Deus em curar as pessoas
integralmente e, sempre que possível, indicava medicamentos naturais de
aquisição fácil e uso seguro. Para tanto, seguia, com critério, as orientações
medicamentais do "Manual de Medicina no Campo", um compêndio de medicina
natural e de primeiros socorros que ele sempre carregava consigo, no bolso da
batina ou com seus objetos religiosos, numa pequena valise de couro. Era comum
vê-lo consultar o manual, após ter dado alguma bênção ou antes de fazer a
indicação de algum medicamento. Com freqüência, costumava-se vê-lo coletando
folhas e raízes cujas serventias medicamentosas costumava testar em casa.
Muitas pessoas que necessitavam de ajuda, na falta de farmacêutico ou médico,
procuravam Padre Eustáquio.
De Romaria, foi transferido para Poá em São Paulo, onde continuou seu
trabalho, incentivando lideranças religiosas existentes. Também fazia bênçãos,
entre elas a da água no reservatório e nas pias de água benta, à entrada da
igreja. Com o passar do tempo, os fiéis começaram a levar para a igreja
garrafas de água para ser abençoadas. Com a notícia de fatos referentes a
bênçãos do Padre Eustáquio seguidas de curas, o aglomerado de pessoas começou
a aumentar em Poá. Por causa do transtorno, foi enviado para Araguari e ficou
um tempo em reclusão, mantendo comunicação por carta com outras pessoas,
principalmente seu amigo Padre Gil.
A 12 de fevereiro de 1942, Padre Eustáquio regeu a paróquia de Ibiá, até
ser transferido para Belo Horizonte em 7 de abril do mesmo ano. Chegou na
capital mineira sem alarde, já que era nacionalmente venerado como santo e
taumaturgo. Porém, a despeito da discrição, logo nos primeiros dias muitas
pessoas o procuraram pedindo bênçãos e curas, na capela Cristo Rei, no
bairro Celeste Império.
Como a capela Cristo Rei, matriz provisória, era muito distante do convento
dos frades franciscanos, onde os padres dos Sagrados Corações se hospedavam,
por praticidade, Padre Eustáquio alugou uma casa a apenas um quilômetro da
capela.
Em 9 de setembro de 1942, o então prefeito da capital, Juscelino
Kubitscheck, que se considerava beneficiado por milagre conseguido por
intercessão do Padre Eustáquio, doou à paróquia um terreno onde foi construída
a Igreja dos Sagrados Corações, cuja pedra fundamental foi abençoada por Dom
Cabral. Nesse dia, após a cerimônia, Padre Eustáquio disse a alguns membros da
Comissão Pró-Construção da Matriz: "Não verei o fim da guerra. Comecei a
igreja, mas não a terminarei".
Em 1943, de 18 a 21 de agosto, durante o retiro que pregava às alunas do
Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte, Padre Eustáquio
demonstrou aparência abatida e cansaço. No dia seguinte, repousou em seu
quarto, febril e trêmulo. Na manhã do dia 23, ainda febril e mais abatido,
dirigiu-se à igreja, como fazia todos os dias, para rezar a missa. Ao final,
dirigiu-se à sacristia, onde se sentou em um banco e desfaleceu. Os médicos
Américo Souza Gomes, Olinto Orsini de Castro, Alfredo Balena e Otávio Coelho
Magalhães o examinaram, mas não houve dúvida no diagnóstico: tifo
exantemático, devido a uma picada de carrapato.
Padre Eustáquio permaneceu ali, rezando, embora dissesse que não
sobreviveria. Recebeu o sacramento dos enfermos, mas chamava ansiosamente pelo
amigo Padre Gil. Enquanto o aguardava, fez a renovação dos votos religiosos,
pressentindo que a morte estava perto.
As freiras, os médicos e os enfermeiros emocionaram-se vendo seu olhar
irradiar-se quando ele repetia cada palavra da seguinte fórmula que Padre
Hermenegildo lhe ditava, com lentidão e clareza:
"Eu, Eustáquio, conforme as Constituições, Estatutos e Regras, renovo os
meus votos de pobreza, castidade e obediência como irmão da Congregação dos
Sagrados Corações de Jesus e de Maria, em cujo serviço quero viver e morrer.
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Depois, a sós com seus dois
confrades, disse em tom de alívio e de espera:
"Graças a Deus, estou pronto! Mas como demora o Padre Gil!"
No dia 30 de agosto, Padre Gil conseguiu chegar para ver o amigo. Vendo-o à
porta, Padre Eustáquio, em esforço heróico, tentou erguer-se do leito. Com voz
serena, disse-lhe: "Padre Gil, Graças a Deus!" e desfaleceu-se,
derradeiramente. No dia seguinte, Belo Horizonte amanheceu de luto. A imprensa
divulgava, incessantemente, notícias sobre seu falecimento.
Após sua morte, foi atribuída a ele a cura de um câncer de um devoto,
constatada clinicamente e comprovada cientificamente. Esse relato consta no
processo para sua beatificação, iniciado em 1997. Outros casos de curas e
milagres também são relatados por várias pessoas.
Padre Eustáquio costumava dizer que sua vocação era "amar e fazer amar a
Deus".
|