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CARTA ENCÍCLICA «ECCLESIAM SUAM»
DO SUMO PONTÍFICE PAULO VI OS CAMINHOS DA IGREJA
PRÓLOGO
Veneráveis Irmãos, Diletos
filhos,
Tendo Jesus Cristo fundado a sua Igreja, para ser ao mesmo tempo mãe amorosa
de todos os homens e medianeira de salvação, vê-se bem o motivo por que, no
decurso dos séculos, lhe deram provas de especial amor e a ela dedicaram
particular solicitude todos os que se interessaram pela glória de Deus e pela
salvação eterna dos homens. Entre esses notabilizaram-se, como era natural, os
Vigários na terra do mesmo Cristo, numerosíssimos bispos e sacerdotes, e
multidão inumerável de bons cristãos.
A doutrina do Evangelho e a grande família humana
1. A todos parecerá, portanto, natural que nós, dirigindo ao mundo esta
nossa primeira Encíclica depois de, por imperscrutável desígnio de Deus,
termos sido chamado ao Sólio Pontifício, volvamos com afeto e reverência o
nosso pensamento à santa Igreja.
Por esses motivos, propomo-nos nesta Encíclica esclarecer o melhor possível
aos olhos de todos, quanto importa à salvação da sociedade humana e, ao mesmo
tempo, quanto a Igreja tem a peito que ambas se encontrem, conheçam e amem.
Quando, por ocasião da abertura da segunda sessão do Concílio Ecumênico
Vaticano II, na festa de São Miguel Arcanjo do ano passado, tivemos a ventura
de vos falar diretamente a todos vós reunidos na basílica de São Pedro,
manifestamos o propósito de vos dirigir também por escrito, como é costume no
princípio de cada pontificado, as nossas palavras de irmão e pai, para vos
manifestarmos alguns pensamentos, mais freqüentes no nosso espírito, que nos
pareceram úteis como orientação prática, ao iniciar-se o nosso ministério
pontifício.
É-nos bem difícil concretizar esses pensamentos, porque temos de os
recolher na meditação mais atenta da doutrina sagrada, uma vez que também a
nós se aplicam as palavras de Cristo: "A minha doutrina não é minha, mas
daquele que me enviou" (Jo 7,16); porque devemos, além disso, adaptá-los
às condições atuais da Igreja, numa hora de vida intensa e de prova, tanto da
sua experiência espiritual interior como do seu esforço apostólico externo; e
porque, finalmente precisamos não ignorar o estado em que se encontra hoje a
humanidade, no meio da qual exercemos o nosso cargo.
Tríplice empenho da Igreja
2. Não ambicionamos, porém, dizer coisas novas nem completas, para isso
está o Concílio Ecumênico; esta nossa despretenciosa conversação epistolar
não deve perturbar a sua obra, mas sim honrá-la e dar-lhe novo ânimo. Nem
quer esta nossa Encíclica revestir caráter solene e propriamente doutrinal, ou
propor ensinamentos determinados, morais ou sociais; quer ser apenas mensagem
fraterna e familiar. Só desejamos, com este escrito, cumprir o dever de vos
abrir a nossa alma, com a intenção de dar maior coesão e maior alegria à
comunhão de fé e de caridade, que reina felizmente entre nós. Pretendemos
assim imprimir vigor renovado ao nosso ministério, contribuir melhor para a
celebração frutuosa do Concílio Ecumênico e clarificar alguns critérios
doutrinais e práticos, que podem guiar utilmente a atividade espiritual e
apostólica da Hierarquia eclesiástica e de quantos lhe prestam obediência e
colaboração, ou mesmo só atenção benévola.
3. Dir-vos-emos desde já, Veneráveis Irmãos, que três são os
pensamentos que nos ocorrem ao considerarmos o altíssimo múnus, que a
Providência, contra os nossos desejos e méritos, nos quis entregar: o de reger
a Igreja de Cristo, na nossa função de Bispo de Roma, e portanto Sucessor do
Apóstolo São Pedro, guarda-mor das chaves do Reino de Deus e Vigário de
Cristo, que o constituiu primeiro pastor do seu rebanho universal.
O primeiro desses pensamentos é que vivemos a hora de a Igreja aprofundar a
consciência de si mesma, meditar sobre o seu mistério, investigar para sua
instrução e edificação a doutrina, que já lhe é conhecida e foi elaborada
e difundida de modo especial neste último século, sobre a sua origem,
natureza, missão e destino. Esta doutrina nunca será, porém, exaurientemente
estudada e compreendida, pois contém a "dispensação do mistério escondido há
séculos em Deus... para que se manifeste... pela Igreja" (Ef 3,9-10), isto
é, contém a misteriosa reserva dos misteriosos desígnios divinos que, por
meio da Igreja, são publicados. Essa doutrina constitui, apesar disso, o tema
que hoje mais deseja examinar aquele que pretende ser discípulo dócil de
Cristo e, mais ainda, quem, como nós e como vós, Veneráveis Irmãos, foi
posto pelo Espírito Santo como Bispo para governar a Igreja de Deus (cf. At
20,28).
4. Desta nossa consciência esclarecida e ativa nasce o desejo espontâneo de
comparar a imagem ideal da Igreja, qual Cristo a viu, quis e amou como sua
Esposa santa e imaculada (Ef 5,27), de a comparar, dizemos, com o rosto que ela
apresenta hoje. Este, pela graça divina, é fiel, sem dúvida, aos traços que
o seu divino Fundador nela imprimiu e o Espírito Santo vivificou, ampliou,
aperfeiçoou no decurso dos séculos, tornando a Igreja mais fel ao conceito
inicial e, por outro lado, mais ajustada à índole da humanidade que ela ia
evangelizando e incorporando a si. Nunca, porém, o rosto da Igreja mostrará
toda a perfeição, beleza e santidade, todo o brilho exigido pelo conceito
divino que a modela.
Daqui vem à Igreja a necessidade nobre e quase impaciente de se renovar,
isto é, emendar os defeitos, que aquela reflexão, como exame interior feito
diante do modelo, que nos deixou Cristo de si mesmo, descobre e repele. Qual é
hoje para a Igreja o dever de corrigir os defeitos dos próprios membros e de os
levar a tender a maior perfeição, e qual o método para chegar com segurança
a esse renovamento? Eis o segundo pensamento que nos vem ao espírito e vos
desejamos manifestar, não só para encontrarmos maior coragem nas reformas
necessárias; mas também para a vossa adesão nos oferecer conselho e apoio.
Trata-se com efeito de empresa delicada e custosa.
5. O nosso terceiro pensamento, que será também vosso, deriva dos dois
primeiros: Quais as relações que a Igreja deve hoje estabelecer com o mundo
que a circunda e em que vive e trabalha?
Uma parte deste mundo, como todos sabem, recebeu influxo profundo do
cristianismo e absorveu-o intimamente, apesar de agora muitas vezes não
reconhecer que lhe deve o que tem de melhor; a cristandade foi-se distanciando e
separando, nestes últimos séculos, da origem da sua civilização. E outra
parte, e a maior, deste mundo dilata-se pelos horizontes ilimitados das nações
novas, como se costuma dizer. Uma parte e outra formam um mundo só, que oferece
à Igreja não um, mas mil contatos possíveis: evidentes e fáceis, alguns;
delicados e complexos, outros; hostis e refratários ao colóquio amigo, hoje
muitíssimos, infelizmente.
É o chamado problema do diálogo entre a Igreja e o mundo moderno, problema
cuja apresentação, na sua amplitude e complexidade, cabe ao Concílio, como
também o esforço para o resolver da melhor maneira possível. A realidade,
porém, e a urgência do problema, se por um lado nos afligem, são-nos por
outro estímulo, quase diríamos vocação. Este ponto era desejo nosso
aclará-lo de algum modo aos nossos olhos, e aos vossos, Veneráveis Irmãos.
Não estais, sem dúvida, menos habituados que nós a senti-lo nas suas
exigências apostólicas. Desejávamos propor este exame como preparação comum
nossa, para as discussões e deliberações que no Sínodo Ecumênico, todos
juntos, julgarmos oportunas em matéria tão grave e complexa.
Zelo assíduo e ilimitado pela paz
6. Notareis certamente que este sumário da nossa Encíclica não inclui
alguns temas urgentes e graves que interessam não só a Igreja mas a
humanidade, como: a paz entre os povos e entre as classes sociais; a miséria e a fome
que ainda afligem povos inteiros; o acesso das nações novas à independência
e ao progresso civil; as relações entre o pensamento moderno e a cultura cristã; as condições infelizes de tanta gente e de tantas partes da Igreja a
que são contestados os direitos próprios de cidadãos livres e de pessoas
humanas, os problemas morais da natalidade, e outros semelhantes.
À grande e universal questão da paz no mundo, digamo-lo desde já,
sentir-nos-erros particularmente obrigado a dirigir não só a nossa atenção
vigilante e cordial, mas também o interesse mais assíduo e eficaz. Limita-se,
é certo, ao âmbito do nosso ministério e está por isso alheio a qualquer
interesse puramente temporal e não opta por formas propriamente políticas.
Desejamos, sim, contribuir para inculcar à humanidade sentimentos e atitudes
que se oponham, por um lado, a quaisquer conflitos violentos e mortíferos, mas
que, por outro, favoreçam todos os ajustes corteses, razoáveis e pacíficos
das relações entre os povos. E teremos igualmente cuidado de ajudar a
convivência harmônica e a colaboração frutuosa entre as nações,
proclamando princípios humanos superiores, que possam ajudar a moderar
egoísmos e paixões, que originam os conflitos bélicos. Procuraremos também
intervir, quando se nos ofereça oportunidade, para ajudar as partes
contendentes a chegarem a soluções honrosas e fraternas. Não nos esquecemos
de que este serviço benévolo é um dever que a maturação, não só das
doutrinas mas também das instituições internacionais, torna hoje mais
necessário na consciência da nossa missão cristã no mundo, cujo objeto
inclui tornar os homens irmãos, porque é reino de justiça e de paz o
inaugurado pela vinda de Cristo ao mundo.
Mas se por agora nos limitamos a considerações de caráter metodológico
para a vida da Igreja, não esquecemos os problemas graves mencionados. A alguns
deles vai o Concílio dedicar a sua atenção. E nós reservamo-nos tomá-los
como objeto do nosso estudo e atividade, no exercício futuro do ministério
apostólico, conforme o Senhor se dignar conceder-nos inspiração e força.
I. A CONSCIÊNCIA
7. Pensamos que hoje é necessário à Igreja aprofundar a consciência que
ela deve ter de si mesma, do tesouro de verdades de que é herdeira e guarda, e
da missão que deve exercer no mundo. Ainda antes de ela se propor o estudo de
qualquer questo em particular, e de considerar a atitude que deve tomar
perante o mundo que a circunda, a Igreja deve neste momento refletir sobre si
mesma, para se confirmar no conhecimento dos desígnios divinos a seu respeito,
para encontrar maior luz, nova força e maior alegria no cumprimento da própria
missão, e para escolher o melhor modo de estreitar, ativar e melhorar os seus
contatos com a humanidade a que pertence, embora possua caracteres próprios
inconfundíveis.
Parece-nos que esta reflexo pode abranger também o modo escolhido por Deus
para se revelar aos homens e para estabelecer com eles aquelas relações
religiosas de que a Igreja é instrumento e expresso. Porque, se é verdade
que a revelação divina se realizou "em muitos lugares e de muitos
modos" (Hb l,l), e com fatos históricos externos e incontestáveis, é
também certo que a inserção dela na vida humana se faz por caminhos só
próprios da palavra e da graça de Deus. Esta comunica-se interiormente às
almas, por meio da pregaço da mensagem salvífica e do conseqüente ato de fé, princípio da nossa justificação.
A vigilância dos fiéis sequazes de Cristo
8. Refletir sobre a origem e natureza da relação nova e vital, que a
doutrina de Cristo estabelece entre Deus e o homem, desejávamos constituísse
ato de docilidade a toda a palavra do Divino Mestre dirigida aos seus ouvintes,
especialmente aos seus discípulos, entre os quais nós mesmo, com toda a razão, nos gostamos de colocar. Dentre as muitas
recomendações, que lhes faz
Nosso Senhor, lembraremos uma das mais sérias e repetidas, que ainda hoje vale
sempre para quem o deseja seguir com fidelidade. Referimo-nos à recomendação
da vigilância.
É certo que este conselho do Divino Mestre se refere principalmente ao
destino último do homem, próximo ou remoto no tempo. Mas, exatamente porque
esta vigilância deve atuar sempre na consciência do servo fiel, determina-lhe
na prática o comportamento moral a cada momento. É o que deve caracterizar o
cristão no meio do mundo. Nosso Senhor recomenda-nos a vigilância mesmo
falando de fatos muito próximos, de perigos e tentações que podem fazer
decair ou transviar a atitude do homem (cf. Mt 26,41). Fácil é descobrir no
Evangelho um apelo contínuo à retidão no pensar e agir. Acaso não se referia
a ela a mensagem do Precursor, que inicia a vida pública no Evangelho? E o
próprio Jesus Cristo não nos convidou a aceitarmos interiormente o reino de
Deus? (Mt 17,21). Não é toda a sua pedagogia um apelo, uma iniciação à
interioridade? A consciência psicológica e a consciência moral são chamadas
por Cristo à plenitude simultânea, quase como condição para recebermos, como
convém ao homem, os dons divinos da verdade e da graça. E a consciência do
discípulo tornar-se-á depois memória (cf. Mt 26,75; Lc 24,8; Jo 14,26; Jo
16,4) de todas as lições de Jesus e de tudo quanto sucedeu à sua volta. Virão depois o
progresso e aprofundamento na compreensão de quem ele é, e do que ensinou e
fêz.
O nascimento da Igreja e o despertar da sua consciência profética são os
dois fatos característicos e simultâneos do Pentecostes. Ambos a par vão
completar-se: a Igreja progredirá na sua organização e no seu desenvolvimento
hierárquico e comunitário; e a consciência da sua vocação, da sua natureza
misteriosa, da boa doutrina e da sua missão acompanhará gradualmente esse
progresso, segundo a aspiração de São Paulo: "E peço que a vossa
caridade abunde mais e mais em ciência e em todo discernimento" (Fl 1,9).
"Creio, Senhor!"
9. Poderíamos exprimir de outro modo o apelo que dirigimos, tanto a cada
pessoa em particular que esteja disposta a ouvi-lo, portanto, a cada um de vós,
Veneráveis Irmãos, e aos que convosco seguem o nosso ensinamento, quanto a
toda a "sociedade dos féis", que é a Igreja considerada no seu
conjunto. Poderíamos convidar a todos para um ato de fé, viva, profunda e
consciente, em Jesus Cristo Senhor Nosso. Este momento da nossa vida religiosa
deveria caraterizar-se por esta profissão de fé, vigorosa e convicta, ainda que
sempre humilde e ansiosa, semelhante à que nos transmite o Evangelho,
pronunciada pelo cego de nascença, a quem Jesus Cristo, com bondade igual ao
poder, abrira os olhos: "Creio, Senhor" (Jo 9,38); ou semelhante à de
Marta, no mesmo Evangelho: "Sim, eu creio, Senhor, que tu és o Cristo,
Filho de Deus vivo, que vieste a este mundo" (Jo 11,27); ou ainda
semelhante à tão comovente de Simão, depois transformado em Pedro: "Tu
és o Cristo, Filho de Deus vivo" (Mt 16,16).
Por que nos atrevemos a convidar-vos a este ato de consciência eclesial? a
este ato de fé explícito, ainda que interior?
Muitas são as razões, segundo nos parece, e todas derivam de exigências
profundas e essenciais do momento particular em que se encontra a vida da
Igreja.
Viver a própria vocação
10. Ela precisa refletir sobre si mesma; precisa sentir-se viver. Deve
aprender a conhecer-se melhor, se quer realizar a própria vocação e oferecer
ao mundo a sua mensagem de fraternidade e salvação. Precisa experimentar
Cristo em si mesma, segundo a palavra do Apóstolo São Paulo: "Habite
Cristo pela fé nos vossos corações" (Ef 3,17).
Todos sabem que a Igreja está mergulhada na humanidade, dela faz parte, a
ela vai buscar os seus membros, dela extrai tesouros preciosos de cultura, dela
sofre as vicissitudes históricas e pelo bem dela trabalha. Ora é sabido
igualmente que a humanidade no tempo atual está em vias de grandes
transformações, abalos e progressos, que lhe modificam profundamente não só
o estilo de vida no exterior, mas também o modo de pensar. O pensamento, a
cultura e o espírito sofrem modificação profunda, originada no progresso
científico, técnico e social, como também nas correntes do pensamento
filosófico e político, que a invadem e penetram. Tudo isto, como ondas do mar,
envolve e sacode a Igreja. As almas, que a ela se confiam, são muito
influenciadas pelo clima do mundo temporal; de maneira que um perigo quase de
vertigem, de aturdimento, de extravio pode abalar a solidez dos seus membros e
levar muitos a admitir os pensamentos mais desvairados, como se a Igreja
houvesse de negar-se a si mesma e adotar formas novíssimas e nunca imaginadas
de viver. Não foi, por exemplo, o fenômeno modernista que ainda se manifesta
em várias tentativas de expressão heterogêneas à realidade autêntica do
catolicismo, não foi ele um episódio duma exaltação semelhante das tendências psicológico-culturais, próprias do mundo profano, que
pretendiam suplantar a expressão fiel e genuína da doutrina e das normas da
Igreja de Cristo? Ora, para nos imunizarmos desse perigo ameaçador e múltiplo,
que vem de várias partes, parece-nos que é remédio bom e óbvio aprofundarmos
o conhecimento que temos da Igreja, daquilo que ela é na verdade, segundo o
plano de Cristo, que nos é conservado na Sagrada Escritura e na Tradição, e
depois interpretado e desenvolvido pela genuína tradiço eclesiástica. Esta
é, como sabemos, iluminada e guiada pelo Espírito Santo, sempre pronto, todas
as vezes que o imploremos e ouçamos, a dar cumprimento indefectível à
promessa de Cristo: "O Espírito Santo, que o Pai enviará no meu nome, vos
ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos tiver dito"
(Jo 14,26).
A consciência segundo a mentalidade moderna
11. Coisa semelhante poderíamos dizer a propósito dos erros que se espalham
mesmo no interior da Igreja e fazem vítimas naqueles que só em parte conhecem
a natureza e a missão da mesma, sem terem na devida conta os documentos da
revelação divina e do magistério instituído pelo próprio Cristo.
Aliás, esta necessidade de refletir sobre coisas já conhecidas, para as
contemplar no espelho interior do próprio espírito, é caraterística do homem
moderno; o pensamento deste curva-se facilmente sobre si mesmo e só confere
certeza e plenitude quando se apresenta em plena luz à própria consciência.
Não quer dizer que este hábito se encontre imune de perigos graves. Correntes
filosóficas muito conhecidas exploraram e exaltaram esta forma de atividade
espiritual, apresentando-a como definitiva e suprema, e até como medida e fonte
da realidade, fazendo chegar o pensamento a conclusões abstrusas, desoladas, paradoxais e radicalmente falazes. Mas habituar-se a buscar a verdade, que se
reflete na própria consciência, não deixa de ser muito apreciável e hoje
muito praticado como expressão requintada da cultura moderna. Nem estes
transvios impedem que o ato de reflexão, quando bem fundado na apreensão
objetiva da realidade, revele cada vez melhor, a quem se dá ao trabalho de o
realizar, algo do fato da existência do próprio ser, da própria dignidade
espiritual, e da própria capacidade de conhecer e agir.
Do Concílio de Trento às Encíclicas hodiernas
12. E sabido, além disso, que a Igreja se lançou nestes últimos tempos a
estudar-se melhor a si mesma, valendo-se de insígnes investigadores, de homens
grandes e intelectuais, de escolas teológicas qualificadas, de movimentos
pastorais e missionários, de experiências religiosas notáveis e sobretudo de
ensinamentos pontifícios dignos de memória.
Levar-nos-ia longe demais, aludir só que fosse, à abundância da literatura
teológica, editada no século passado e no atual, que tem por objeto a Igreja.
Muito demorado seria igualmente lembrar os documentos que o Episcopado católico
e esta Sé Apostólica publicaram sobre tema de tanta amplitude e alcance. A
partir do Concílio de Trento, que fez o possível por reparar as conseqüências
da crise que afastou tantos cristãos no século XVI, a doutrina sobre a Igreja
contou grandes cultores e conseqüentemente notáveis progressos. Basta
referirmo-nos aqui aos ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano I neste
campo, para compreendermos como o estudo sobre a Igreja solicita a atenção,
tanto dos Pastores e Mestres como dos féis e de todos os cristãos. Esse tema
é, quase diríamos, fase obrigatória no caminho do conhecimento exaustivo de
Cristo e de toda a sua obra; tanto assim que, conforme já foi dito, o Concílio
Ecumênico Vaticano II não passa de continuação e complemento do I, precisamente pelo encargo de retomar
o exame e aprofundamento da doutrina sobre a Igreja. E, se não dizemos mais,
por amor de brevidade, pois falamos a quem muito bem conhece esta matéria, não
pouco vulgarizada hoje dentro da Igreja pela catequese e pela espiritualidade, não podemos deixar de nomear com honra dois documentos dignos de particular
memória: a Encíclica "Satis Cognitum", do Papa Leão XIII (1896) e a
Encíclica "Mystici Corporis", do Papa Pio XII (1943). Ambos os documentos
nos oferecem doutrina abundante e luminosa sobre a instituição divina, pela
qual Cristo prolonga no mundo a sua obra de salvação, e sobre a qual recai
agora o nosso discurso. Baste recordar as palavras iniciais do segundo documento
pontifício assinalado, que se tornou, podemos dizer, texto clássico da
teologia sobre a Igreja e fonte de meditações espirituais sobre esta obra da
misericórdia divina que a todos nós diz respeito. Apraz-nos recordar as
palavras magistrais de tão grande predecessor nosso: "A doutrina do Corpo
Místico de Cristo, que é a Igreja, recebida dos lábios do próprio Redentor e
que põe na devida luz o grande e nunca assaz celebrado benefício, da nossa
íntima união com tão excelsa Cabeça, é de sua natureza tão grandiosa e
sublime que chama à contemplação todos os que são movidos pelo Espírito de
Deus; e, iluminando as suas inteligências, incita-os eficazmente a obras
salutares, consentâneas com a mesma doutrina". (AAS, 35, p. 193-248; ano
1943).
A ciência do Corpo Místico
13. É para ouvirmos este convite, que julgamos poder ainda hoje atrair os
nossos espíritos e revelar-nos uma das necessidades fundamentais da vida da
Igreja nestes tempos, que hoje o propomos. Cada vez mais instruídos na ciência
do Corpo Místico, apreciaremos melhor os sentidos divinos que encerra,
fortificando ao mesmo tempo as nossas almas de modo incomparável e dispondo-nos cada
vez melhor para a correspondência aos deveres da nossa missão e às
necessidades dos homens. Nem nos parece difícil aumentar em nós esta ciência,
quando por um lado observamos, como dizíamos, o florescimento enorme de estudos
que têm por objeto a santa Igreja, e sabemos por outro que é sobre ela que
mais se fixa o olhar do Concílio Ecumênico Vaticano II. Queremos, neste
momento, tributar um elogio bem sentido àqueles investigadores, que,
especialmente nos últimos anos, se dedicaram ao estudo eclesiológico com
perfeita docilidade ao magistério católico e genial capacidade de pesquisa e
de expressão. Consagraram-lhe árduas, contínuas e frutuosas canseiras e
apresentaram múltiplos esclarecimentos da doutrina sobre a Igreja, alguns de
alto valor e de grande utilidade, trabalhando quer nas escolas teológicas e na
discussão científica e literária, quer na apologia e na divulgação, e ainda
na assistência espiritual às almas dos féis e no colóquio com os irmãos
separados.
Temos esperança que a obra do Concílio, assistida pela luz do Espírito
Santo, será continuada e levada a bom termo com tal docilidade às suas
inspirações divinas, com tal esforço na indagação profunda e completa do
pensamento original de Cristo e dos seus necessários e legítimos progressos no
tempo, com tal esforço para tornar as verdades divinas não espada para dividir
os espíritos, em discussões estéreis ou em cisões fastidiosas, mas laço
para os unir e os levar a maior clareza e concórdia, que a obra do Concílio
reverterá inteiramente em glória de Deus, alegria da Igreja e edificação do
mundo.
A videira e os ramos
14. Abstemo-nos deliberadamente de pronunciar qualquer juízo, nesta
Encíclica, sobre os pontos doutrinais relativos à Igreja, apresentados ao
exame do Concílio, que nos compete presidir: a tão alta e autorizada reunião queremos por agora
deixar liberdade de estudo e de palavra, reservando ao nosso múnus apostólico,
de mestre e pastor colocado à frente da Igreja de Deus, o momento e modo de
exprimir o nosso juízo. Muita alegria sentiremos se o pudermos apresentar em
plena conformidade com os Padres conciliares.
Mas não podemos deixar de aludir de algum modo aos frutos, que esperamos
hão de provir tanto do Concílio como do esforço a que nos referíamos, que a
Igreja deve realizar para conseguir consciência mais plena e vigorosa de si
mesma. São esses frutos que temos agora em vista no nosso ministério
apostólico, enquanto iniciamos os trabalhos, doces e ingentes ao mesmo tempo,
que são, por assim dizer, o programa do nosso pontificado; e vo-lo expomos,
Veneráveis Irmãos, com bastante brevidade mas sinceramente, esperando que nos
queirais ajudar a pô-lo em execução mediante o vosso conselho, a vossa
adesão e o vosso concurso. Pensamos que, patenteando-vos o nosso espírito, o
patenteamos a todos os féis da Igreja de Deus e que o eco da nossa voz chegará
mesmo aos que se encontram para além dos confins definidos do redil de Cristo.
15. O primeiro fruto da tomada de consciência mais profunda da Igreja quanto
a si mesma é a descoberta renovada da sua relação vital com Cristo, coisa bem
conhecida, mas fundamental, indispensável, e nunca suficientemente compreendida,
meditada e pregada. Que se deveria dizer sobre este capítulo central de todo o
nosso patrimônio religioso? Felizmente, vós já conheceis bem esta doutrina;
nem nós agora lhe acrescentaremos nada, simplesmente a recomendação de a
terdes sempre presente como objeto principal e como diretriz tanto da vossa vida
espiritual como da vossa pregação. Mais que a nossa palavra exortatória, valerá a do nosso mencionado predecessor na
sobredita Encíclica "Mystici Corporis": "É necessário que nos
habituemos a ver a Cristo na Igreja. Pois é Cristo quem vive na sua Igreja,
quem por ela ensina, governa e confere a santidade; é também Cristo quem se
manifesta de vários modos nos seus vários membros da sua sociedade" (AAS,
35,1943, p. 238). Muito agradável nos seria deter-nos nas reminiscências da
Sagrada Escritura, dos Santos Padres, dos Doutores e dos Santos que afluem ao
nosso espírito, quando reconsideramos este ponto luminoso da nossa fé. Não
nos diz o próprio Jesus que ele é a videira e nós os sarmentos? (cf. Jo
l5,lss). Não se apresenta à nossa mente toda a doutrina riquíssima de São
Paulo, que não se cansa de nos recordar: "Vós sois uma só coisa em
Cristo Jesus" (Gl 3,28) e de nos recomendar: "...cresçamos em tudo em
direção àquele que é a cabeça, Cristo, pelo qual todo o corpo... realiza o
seu crescimento" (Ef 4,15-16) e de nos lembrar: "...Cristo é tudo em
todos"? (Cl 3,11). Baste-nos recordar, entre os mestres, a Santo Agostinho:
"... alegremo-nos e demos graças por termos sido feitos não só cristãos, mas Cristo. Entendeis,
Irmãos, compreendeis a misericórdia de Deus
para conosco? Admirai, alegrai-vos: fomos feitos Cristo. Pois, se Ele é a
cabeça, nós somos os membros; homem completo somos Ele e nós... Logo a
plenitude de Cristo constituem-na a cabeça e os membros. Que vem a ser a
cabeça e os membros? Cristo e a Igreja" (In Jo. tract. 21,8: PL 35,1568).
O mistério da Igreja
16. Bem sabemos que é um mistério, é o mistério da Igreja. Se nós, com a
ajuda de Deus, fixarmos o olhar da alma neste mistério, conseguiremos muitos
benefícios espirituais, aqueles exatamente que agora julgamos mais necessários
para a Igrej a. A presença de Cristo, mais, a própria vida dele, tornar-se-á operante em cada uma das almas e no conjunto do
Corpo Místico, pelo exercício da fé viva e vivificante, que fará:
"Cristo habitar pela fé em vossos corações", segundo a palavra do
Apóstolo (Ef 3,17). A consciência do mistério da Igreja é um fato próprio
da fé adulta e vivida. Produz nas almas aquele "sentir da Igreja",
que penetra o cristão formado na escola da palavra divina, alimentado pela
graça dos sacramentos e pelas inspirações inefáveis do Espírito Paráclito,
habituado a praticar as virtudes evangélicas, embebido da cultura e do modo de
ser da comunidade eclesial, e cheio de alegria vendo-se revestido daquele
sacerdócio real que é próprio do povo de Deus (cf. 1Pd 2,9).
O mistério da Igreja não é simples objeto de conhecimento teológico, deve
ser fato vivido, em que a alma fiel, antes de ser capaz de definir a Igreja com
exatidão, a pode apreender numa experiência conatural. E a comunidade dos
crentes certifica-se intimamente da sua participação no Corpo Místico de
Cristo, ao reparar que, por divina instituição, o ministério da Hierarquia
eclesiástica a inicia, a gera (cf. Gl 4,19,1Cor 4,15), a instrui, a santifica e
a dirige. De maneira que, por meio deste santo canal, Cristo derrama nos seus
membros místicos as comunicações admiráveis da sua verdade e da sua graça,
e dá ao seu Corpo Místico, peregrino no tempo, a organização visível, a
unidade ilustre, a funcionalidade orgânica, a variedade harmônica e a beleza
espiritual. As imagens não conseguem traduzir-nos, em conceitos acessíveis,
toda a realidade e profundeza deste mistério. Ainda assim, depois da imagem
recordada do Corpo Místico, sugerida pelo Apóstolo São Paulo, deveremos fazer
especial menção de outra, porque é do próprio Cristo: a do edifício de que
Ele é arquiteto e construtor; edifício fundado sobre um homem, frágil por
natureza, mas por Ele transformado milagrosamente em pedra sólida, isto é,
dotado de prodigiosa e perene indefectibilidade: "sobre esta pedra educarei a minha
Igreja" (Mt 16,18).
Pedagogia daquele que é batizado
17. Se soubermos reavivar em nós mesmos, e acender nos fiéis com profunda e
acertada pedagogia, este sentido confortante da Igreja, sucederá que muitas
antinomias, aflição do pensamento dos cultores da eclesiologia, serão
praticamente vencidas e resolvidas na experiência da realidade viva da Igreja
inspirada na sua doutrina. Tais antinomias são, por exemplo, a Igreja
simultaneamente visível e espiritual, livre e disciplinada, comunitária e
hierárquica, já santa e sempre a caminho da santificação, contemplativa e
ativa, e assim por diante. Mas o sentido da Igreja porá em relevo
principalmente a sua espiritualidade do melhor quilate, alimentada na leitura
piedosa da Sagrada Escritura, dos Santos Padres e Doutores, e em todas as outras
fontes que produzem essa consciência. Queremos referir-nos agora à catequese
exata e sistemática; àquela escola admirável, de palavras, sinais e divinas
efusões, que é a Sagrada Liturgia; à meditação silenciosa e ardente das
verdades divinas; e finalmente à oração contemplativa. A vida interior continua
a ser a grande fonte da espiritualidade da Igreja, condiciona-lhe a
receptividade às irradiações do Espírito de Cristo, é expressão
fundamental e insubstituível da sua atividade religiosa e social, e é ainda
para ela defesa inviolável e renascente energia no seu difícil contato com o
mundo profano.
18. É preciso restituir toda a sua importância ao fato de termos recebido o
santo batismo, termos sido enxertados, por este sacramento, no Corpo Místico de
Cristo, que é a Igreja. O batizado deve sobretudo apreciar conscientemente a
sua elevação, melhor, a nova geração que recebe e o eleva à incomparável realidade de
filho adotivo de Deus, à dignidade
de irmão de Cristo, à felicidade, queremos dizer à graça e ventura da
inabitação do Espírito Santo, à vocação duma vida nova. Nada perde ele do
que é humano, a não ser a infeliz sorte derivada do pecado original, e fica
habilitado a valorizar e utilizar do melhor modo tudo quanto é humano. Ser
cristão, ter recebido o santo batismo, não deve parecer-nos coisa indiferente
ou desatendível; deve ser característica profunda e venturosa da consciência
de cada batizado; deve ser para ele, como o foi para os cristãos antigos, uma
"iluminação", que ao atrair sobre ele os raios vivificantes da
Verdade divina, lhe abre o céu, lhe alumia a vida terrena, o torna capaz de se
dirigir, como filho da luz, para a visão de Deus, fonte de eterna felicidade.
Que programa prático sugere à nossa vida e ao nosso ministério essa
consideração! E bem fácil descobri-lo. Alegramo-nos ao constatar que este
programa se encontra já em vias de aplicação em toda a Igreja, servido por
zelo prudente e ardoroso. Animamo-lo, recomendamo-lo e abençoamo-lo.
II. A RENOVAÇÃO
19. Mais, é grande em nós o desejo de que a Igreja de Deus seja qual Jesus
a quer: una, santa, toda encaminhada à perfeição a que Ele a chamou e de que
a tornou capaz. Perfeita no seu conceito ideal, no desígnio de Deus, a Igreja
deve-se ir aperfeiçoando sempre na expressão real, na sua existência
terrestre. É este o grande problema moral que domina a sua vida, a caracteriza,
a estimula, a acusa, a sustenta e a enche de gemidos e de orações, de
arrependimentos e de esperanças, de esforço e de confiança, de
responsabilidades e de méritos. É problema inerente às realidades teológicas de que depende a vida
humana. Não podemos ajuizar sobre o homem, a sua natureza e a sua perfeição
original, sobre as conseqüências ruinosas do pecado original, capacidades do
homem para o bem e auxílio de que precisa para o desejar e realizar, sobre o
sentido da vida presente e das suas finalidades, os valores que o homem deseja
ou de que pode dispor, sobre o critério de perfeição e de santidade, e sobre
os meios e modos para dar à vida o seu grau mais alto de beleza e plenitude,
não podemos fazer nada disto sem nos referirmos ao ensino doutrinal de Cristo e
do magistério eclesiástico dele derivado. A ambição de conhecer os caminhos
do Senhor é e deve ser constante na Igreja, e a discussão que se vai mantendo,
de século em século no seio da Igreja, sobre as questões, de perfeição,
sendo tão fecunda e variada, bem queríamos que tornasse a despertar o
interesse máximo a que tem direito. E isto no tanto para elaborar novas
teorias, quanto para gerar energias novas, que levem àquela santidade que Jesus
Cristo nos ensinou e nos possibilita conhecer, desejar e conseguir. Para isso
nos dá o seu exemplo, a sua palavra, a sua graça, a sua escola baseada na
tradição eclesiástica, fortificada pela ação comunitária, ilustrada pelas
figuras singulares dos Santos.
Perfectibilidade dos cristãos
20. Este afã de aperfeiçoamento espiritual e moral é também estimulado
exteriormente pelas condições em que a Igreja vai vivendo. Não pode ficar
imóvel e indiferente entre as mudanças do mundo que a cerca. Este, por mil
caminhos, influencia e condiciona a atitude prática da Igreja. Como todos
sabem, ela não está separada do mundo, vive nele. Por isso, os membros da
Igreja estão sujeitos à influência do mundo, de que respiram a cultura, aceitam as leis e absorvem os costumes. Este contacto permanente,
que a Igreja tem com a sociedade temporal, impõe-lhe uma problemática
contínua, hoje dificílima. Por um lado, a vida cristã, como a Igreja a
defende e promove, deve com perseverança e tenacidade preservar-se de tudo
quanto pode enganá-la, profaná-la e sufocá-la, procurando imunizar-se do
contágio do erro e do mal; por outro, a vida cristã deve não só adaptar-se
às formas do pensamento e da moral, que o ambiente terreno lhe oferece e
impõe, quando elas forem compatíveis com as exigências essenciais do seu
programa religioso e moral, mas deve procurar aproximá-las de si,
purificá-las, nobilitá-las, vivificá-las e santificá-las: nova missão, que
impõe à Igreja um exame constante de vigilância moral, reclamado hoje com
particular urgência e gravidade.
21. Também para este exame, é providencial a celebração do Concílio. O caráter pastoral que ele se propôs, as finalidades práticas de
"atualização" da disciplina canônica, o desejo de tornar o
exercício da vida cristã o mais fácil que seja possível, sem renunciar ao
caráter sobrenatural que lhe é próprio, conferem ao Concílio um mérito
particular já neste momento, apesar de não possuirmos ainda a maioria das
deliberações que dele esperamos. Na verdade, ele desperta, tanto nos Pastores
como nos fiéis, o desejo de conservar e robustecer na vida cristã o seu
caráter de autenticidade sobrenatural, e recorda a todos o dever de imprimir
este caráter de maneira positiva e enérgica no proceder de cada um: leva os
fracos a serem bons, os bons a serem melhores, os melhores a serem generosos e
os generosos a fazerem-se santos. Abre à santidade novos caminhos, incita o
amor a tornar-se fecundo, e provoca novas arrancadas de virtude e de heroísmo
cristão.
Em que sentido deve-se entender a reforma
22. Naturalmente, tocará ao Concílio sugerir as reformas na legislação da
Igreja. E as Comissões pós-conciliares, especialmente a instituída para a
revisão do Código do Direito Canônico, desde já designada por nós,
procurarão formular em termos concretos as deliberações do Sínodo
Ecumênico. A vós, Veneráveis Irmãos, pertencerá indicar-nos as medidas para
purificar e rejuvenescer a face da santa Igreja. Mas novamente vos manifestamos
o nosso propósito de favorecer tal reforma: quantas vezes nos séculos passados
este intento aparece associado à história dos Concílios! Pois seja-o uma vez
mais, e desta não já para extirpar na Igreja determinadas heresias e desordens
gerais que, graças a Deus, agora não existem, mas para infundir novo vigor
espiritual ao Corpo Místico de Cristo, como organização visível,
purificando-o dos defeitos de muitos dos seus membros e estimulando-o a novas
virtudes.
Para que isto aconteça, suposto o divino auxílio, seja-nos permitido
apresentar-vos aqui algumas considerações prévias que podem facilitar a obra
de renovação, infundir-lhe o necessário vigor, - não é sem algum
sacrifício que ela se pode obter! -, e traçar algumas linhas, que parecem
facilitar a sua realização.
23. Deveremos recordar primeiramente alguns critérios que nos mostram em que
sentido esta reforma se há de promover. Não pode abarcar nem o conceito
essencial nem as estruturas fundamentais da Igreja católica. A palavra reforma
seria mal usada se a empregássemos nesta acepção. Não podemos acusar de
infidelidade esta nossa amada e santa Igreja de Deus, pertencer à qual temos
como a maior das graças. Ela dá ao nosso espírito o testemunho de "que
somos filhos de Deus" (Rom 8,16). Não é orgulho, não é presunção,
não é obstinação nem loucura, mas certeza luminosa, convicção alegre esta nossa: a de termos sido
constituídos membros vivos e genuínos do Corpo de Cristo, de sermos
autênticos herdeiros do seu Evangelho e verdadeiros continuadores dos
Apóstolos, de possuirmos a herança intacta e viva da tradição original
apostólica, no grande patrimônio doutrinal e moral característico da Igreja
católica, qual ela existe hoje. Se isto forma o nosso orgulho, ou melhor o
motivo pelo qual devemos "dar sempre graças à Deus" (Ef 5,20),
constitui igualmente para nós responsabilidade: diante de Deus, a quem temos de
dar contas de tão grande benefício; diante da Igreja, a quem devemos infundir,
juntamente com a certeza, o desejo, o propósito de conservar o tesouro, o
depósito de que fala São Paulo (1Tm 6,20), diante dos Irmãos ainda de nós
separados e diante do mundo inteiro para que todos venham participar conosco no
dom de Deus.
24. Se, neste particular, podemos falar de reforma, não devemos tomá-la
como mudança, mas sim como confirmação no esforço para mantermos na Igreja a
fisionomia que lhe imprimiu Cristo, mais ainda, no esforço para a reconduzir
sempre à sua forma perfeita, correspondente por um lado ao desígnio primitivo
do Fundador, e por outro reconhecida como conseqüente e legítima no progresso
necessário. Como da semente se origina a árvore, assim daquele desígnio vem
à Igreja a sua forma legítima, histórica e concreta. Não nos iluda o
critério de reduzir o edifício da Igreja, que se tornou amplo e majestoso para
a glória de Deus, como templo seu magnífico, de o reduzir às suas
proporçôes iniciais e mínimas, como se estas fossem as únicas verdadeiras e
justas. Nem nos fascine a ambição de renovar a estrutura da Igreja por via
carismática, como se fosse nova e verdadeira a expressão eclesial nascida de
idéias meramente particulares, embora fervorosas e atribuídas talvez à divina inspiração. Por este caminho
se introduziriam sonhos arbitrários de renovações artificiosas no plano
constitutivo da Igreja. Como ela é, devemo-la servir e amar, com sentido
inteligente da história e buscando humildemente a vontade de Deus, que a
assiste e guia, mesmo quando permite que a fraqueza humana lhe empane algum
tanto a pureza das linhas e a elegância da ação. Esta pureza e esta elegância é que nós andamos procurando e queremos promover.
Prejuízos e perigos que emanam da concepção profana da vida
25. Urge confirmarmo-nos nestas convicções, para fugir a outro perigo que o
desejo de reforma poderia originar, não tanto em nós, Pastores, defendidos por
um vigilante sentido de responsabilidade, quanto na opinião de muitos fiéis.
Pensam estes que a renovação da Igreja deve consistir principalmente na
adaptação dos seus sentimentos e costumes aos do mundo. A fascinação da vida
profana é hoje violentíssima. O conformismo parece a muitos necessário e
justificado. Quem não está bem firme na fé e na prática da lei
eclesiástica, facilmente pensará ter chegado o momento de nos adaptarmos à
concepção profana da vida, como se esta fosse a melhor, a que o cristão pode
e deve tomar para si. Fenômeno de adaptação que se manifesta no campo
filosófico (qual é a força da moda, até mesmo no reino do pensamento, que
deveria ser autônomo e livre, apenas receptivo e dócil perante a verdade e a
autoridade de mestres provados!), e que se apresenta também no campo prático,
em que se torna cada dia mais incerto e difícil marcar a linha da retidão
moral.
26. O naturalismo ameaça esvaziar a noção original da mensagem cristã. O relativismo, tudo justificando, e
afirmando que tudo é do mesmo valor, impugna o
caráter absoluto dos princípios cristãos. O hábito de excluir qualquer esforço,
qualquer incômodo, da prática ordinária da vida, acusa de inutilidade
enfadonha a disciplina e a ascese cristã. Às vezes, até o desejo apostólico
de entrar em ambientes profanos e de conseguir boa aceitação nos espíritos
modernos sobretudo juvenis, traduz-se em renúncia às formas próprias da vida
cristã e mesmo àquele estilo de domínio próprio, que deve dar sentido e
vigor ao desejo de aproximação e de influxo para o bem. Não é verdade,
porventura, que muitas vezes o Clero novo, ou até alguns Religiosos zelantes,
guiados pela boa intenção de penetrar nas massas populares e noutros meios,
procuram confundir-se em vez de distinguir-se, renunciando assim com inútil
mimetismo à eficácia genuína do seu apostolado? O grande princípio,
enunciado por Cristo, volta a apresentar-se na sua atualidade e também na sua
dificuldade: estar no mundo, mas não ser do mundo. Felizes de nós porque a
altíssima e oportuníssima oração, daquele "que sempre vive para
interceder por nós" (Hb 7,25), ainda hoje é repetida diante do Pai do
céu: "Não peço que os tires do mundo, mas que os defendas do mal"
(Jo 17,15).
Não imobilidade, mas "atualização"
27. O dito não significa que seja intenção nossa ver a perfeição na
imobilidade dessas formas que a Igreja foi revestindo através dos séculos; ou
julgar que ela consiste em tornarmo-nos refratários a qualquer aproximação
nossa às formas hoje comuns e aceitáveis nos costumes e na índole do nosso
tempo. A palavra, hoje famosa, do nosso venerado predecessor João XXIII de
feliz memória, a palavra "atualização", sempre a teremos presente
como orientação programática; confirmamo-la como critério diretivo do Concílio Ecumênico e continuaremos a
recordá-la como estímulo à vitalidade
sempre renascente da Igreja, à sua capacidade sempre atenta a descobrir os sinais dos tempos, e à sua
agilidade sempre juvenil de sempre e em toda a parte "tudo provar e de
tomar para si o que é bom" (1Ts 5,21).
Obediência, energias morais, sacrifício
28. Mas, para lição proveitosa de todos nós, ouçamos uma vez mais esta
advertência: a Igreja renovará a sua juventude não tanto mudando as suas leis
exteriores, quanto dispondo interiormente o espírito dos seus para obedecer a
Cristo, e por isso para observar aquelas leis que a Igreja, com a intenção de
seguir o caminho de Cristo, estabelece. Aqui está o segredo da sua renovação, aqui a sua
"metánoia", aqui o seu exercício de perfeição. As normas
eclesiásticas poder-se-ão tornar mais praticáveis pela simplificação dalguns
preceitos e pela maior confiança que ela mostre na liberdade do cristão de
hoje, mais instruído nos seus deveres, mais adulto e mais ponderado na escolha
dos meios para os cumprir. Mas não podem deixar de manter-se na sua exigência
essencial. Sempre a vida cristã, como a Igreja a vai interpretando e codificando
em prudentes disposições, exigirá fidelidade, esforço, mortificação e
sacrifício. Será sempre o "caminho estreito", de que Nosso Senhor
nos fala (cf. Mt 7,13ss). De nós, cristãos modernos, não exigirá menores
energias morais, talvez até maiores do que exigiu dos cristãos de ontem: uma
prontidão na obediência, hoje não menos necessária que no passado e talvez
mais difícil, sem dúvida mais meritória, devendo guiar-se mais por motivos
sobrenaturais do que naturais. Não é conformidade com o espírito do mundo, não é subtração à disciplina duma ascética razoável, não é indiferença
perante os costumes livres do nosso tempo, não é emancipação da autoridade
de prudentes e legítimos Superiores, não é apatia diante das formas
contraditórias do pensamento moderno. Nada disto pode dar vigor à Igreja, dispô-la para receber o influxo dos dons do
Espírito Santo, dar-lhe autenticidade no seguimento de Cristo Senhor Nosso,
comunicar-lhe o ardor da caridade fraterna e a capacidade de transmitir a sua
mensagem de salvação. Mas tudo lhe há de vir da correspondência à graça
divina, da fidelidade ao Evangelho do Senhor, da sua coesão hierárquica e
comunitária. O Cristão não é mole e cobarde, é forte e fiel.
29. Sabemos quanto se alongaria o nosso discurso, se quiséssemos traçar,
mesmo só em linhas gerais, o programa moderno da vida cristã. Não o
pretendemos agora. Vós, aliás, conheceis as necessidades morais do nosso
tempo, e não vos cansareis de levar os féis a compreender o prestígio, pureza
e austeridade da vida cristã, como não vos furtareis a denunciar, da melhor
maneira possível e até publicamente, os perigos morais e os vícios de que
sofre o nosso tempo. Todos nós recordamos as palavras solenes que a Sagrada
Escritura nos propõe: "Conheço as tuas obras e o teu trabalho e a tua
paciência, e que não podes suportar os maus" (Ap 2,2). E todos
procuraremos ser Pastores vigilantes e ativos. Também a nós há de o Concílio
Ecumênico dar normas novas e salutares, e todos nos devemos certamente dispor
desde já para as ouvirmos e cumprirmos.
O espírito de pobreza
30. Mas não queremos renunciar a duas alusões em particular, que nos
parecem referir-se a necessidades e deveres primordiais, e podem oferecer
orientações gerais para a renovação eficaz da vida eclesial.
Aludimos primeiramente ao espírito de pobreza. Pensamos que ele é tantas
vezes proposto no Sagrado Evangelho, e que tão intimamente se integra no plano
do nosso destino para o reino de Deus, que é tão ameaçado pela apreciação dos bens hoje, predominante na mentalidade moderna, e tão
necessário para nos fazer entender tantas fraquezas e ruínas do tempo passado
e para nos levar igualmente a compreender qual deve ser o nosso teor de vida e
qual o melhor método para anunciar às almas a religião de Cristo, e, por fim, tão difícil de praticar como é devido, que nos atrevemos a mencioná-lo
explicitamente nesta nossa mensagem, não por termos o propósito de publicar
especiais medidas canônicas a este respeito, mas antes para vos pedirmos,
Veneráveis Irmãos, o conforto da vossa concordância, do vosso conselho e do
vosso exemplo. Esperamos que vós, autorizada expresso dos melhores impulsos
do Espírito de Cristo comunicados à santa Igreja, manifesteis como devem os
Pastores e os fiéis adaptar hoje à pobreza a linguagem e a prática da vida.
"Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo Jesus" (Fl 2,5),
recomenda-nos o Apóstolo; esperamos também que indiqueis como devemos propor
à vida da Igreja os critérios diretivos que devem fundar a nossa confiança
mais na ajuda de Deus e nos bens do espírito, do que nos meios temporais. Eles
devem recordar-nos a nós, e ensinar ao mundo, a sua primazia sobre os bens
econômicos; e também que devemos limitar e subordinar a posse e uso destes ao
que for útil para o conveniente exercício da nossa missão apostólica.
31. A brevidade desta alusão ao valor e obrigação do espírito de pobreza,
nota característica do Evangelho de Cristo, não nos dispensa de recordar que
esse espírito não nos impede compreender e utilizar devidamente a realidade
econômica, que se tornou gigantesca e fundamental no progresso da civilização
moderna, especialmente em todos os seus reflexos humanos e sociais. Julgamos
até que a libertação interior, produzida pelo espírito de pobreza
evangélica, aumenta a nossa sensibilidade e capacidade para compreendermos os fenômenos relacionados com os fatores
econômicos.
Essa libertação ensinar-nos-á a apreciar a riqueza e o progresso, que dela
podem originar-se, de maneira exata, embora muitas vezes severa mas justificada;
inspirar-nos-á o mais vivo e generoso interesse pela indigência e também o
desejo de que os bens econômicos não sejam fonte de lutas, de egoísmos e de
orgulho entre os homens, mas, pela justiça e pela eqüidade, sirvam o bem
comum, sendo cada vez mais bem distribuídos. O discípulo do Evangelho é capaz
de apreciar acertadamente e de cooperar com dedicação em tudo quanto se refere
a estes bens econômicos, inferiores aos espirituais e eternos, mas necessários
à vida presente: a ciência, a técnica e sobretudo o trabalho tornam-se para
nós objeto de interesse vivíssimo; e o pão que produzem torna-se sagrado para
a mesa e para o altar. Os ensinamentos sociais da Igreja não deixam dúvidas
sobre este ponto; e aproveitamos com gosto esta ocasião para reafirmar a nossa
adesão a essa doutrina salutar.
A hora da caridade
32. A segunda alusão, que desejamos fazer, é ao espírito de caridade. Mas
este tema não o tendes vós já muito presente? Não constitui a caridade o
ponto focal da economia religiosa do Antigo e do Novo Testamento? Não se
dirigem à caridade os passos da experiência espiritual da Igreja? Não é a
caridade a descoberta constante, mas cada vez mais luminosa e agradável, que a
teologia e a piedade vão fazendo, na meditação incessante dos tesouros
escriturísticos e sacramentais, de que a Igreja é herdeira, guarda, mestra e
distribuidora? Com os nossos predecessores, com a coroa de Santos que o nosso
tempo deu à Igreja celeste e terrestre, e com o pressentimento devoto do povo fiel, nós julgamos que é necessário dar finalmente à caridade o lugar que lhe compete: o primeiro, o mais
alto na escala dos valores religiosos e morais, não só na estimativa mas
também na prática da vida cristã. Isto vale tanto da caridade para com Deus,
que o seu Amor derramou sobre nós, como da caridade, que, por reflexo, nós devemos efundir sobre o nosso próximo, isto é,
sobre todo o gênero humano. A caridade tudo explica, tudo inspira, tudo torna
possível e tudo renova. A caridade "tudo sofre, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta" (lCor 13,7). Quem dentre nós ignora estas coisas?
E se as conhecemos, não é esta a hora da caridade?
Culto a Maria
33. Este ideal de humilde e profunda plenitude cristã levanta o nosso
pensamento até Maria Santíssima, aquela que perfeita e maravilhosamente o
refletiu em si, o integrou na sua vida terrena, e agora, em conseqüência, goza
no céu a luz plena e a bem-aventurança. Floresce hoje na Igreja, graças a
Deus, o culto de Nossa Senhora; e nós nesta ocasião pensamos nele, admirando,
na Virgem Santíssima, Mãe de Cristo, e por isso Mãe de Deus e Mãe nossa, o
modelo da perfeição cristã, o espelho das virtudes sinceras e a maravilha
mais sublime da humanidade. O culto de Maria é fonte de ensinamentos
evangélicos: sendo ela a criatura mais abençoada, mais doce e mais humilde, a
imaculada, a quem tocou o privilégio de oferecer ao Verbo de Deus um corpo
humano na sua primitiva e inocente beleza, nós quisemos, na nossa
peregrinação à Terra Santa, que Ela nos ensinasse a autenticidade cristã, e
agora de novo lhe dirigimos os olhares suplicantes, como amorosa mestra de vida,
no momento em que estamos tratando convosco, Venerados irmãos, da regeneração
espiritual e moral da vida da Santa Igreja.
III. O DIÁLOGO
34. Há uma terceira atitude, que a Igreja Católica deve tomar neste momento
da história do mundo. Referimo-nos ao estudo sobre os contactos que ela há de
manter com a humanidade. Se a Igreja adquire cada vez mais clara consciência de
si e procura modelar-se em conformidade com o tipo proposto por Cristo, não
poderá deixar de distinguir-se profundamente do ambiente humano, em que afinal
vive ou do qual se aproxima. O Evangelho põe-nos diante dos olhos esta
distinção quando nos fala do "mundo", isto é, da humanidade como
oposta à luz da fé e ao dom da graça; da humanidade, que se exalta num
ingênuo otimismo, julgando que lhe bastam as próprias forças para se realizar
com plenitude, estabilidade e proveito; ou ainda da humanidade que se deprime
num pessimismo cruel, declarando fatais, incuráveis e mesmo talvez
apetecíveis, como manifestações de liberdade e autenticidade - os próprios
vícios, fraquezas e doenças morais. O Evangelho, que conhece, denuncia, faz
suas e cura as misérias humanas com penetrante e pungente sinceridade, não
cede todavia nem a ilusões sobre a bondade natural do homem, considerado
auto-suficiente e com a exigência única de que o deixem expandir-se em plena
liberdade, nem, por outro lado, à desesperada resignação diante duma natureza
corrompida e sem cura. O Evangelho é luz, é novidade, é energia, é
renascimento, é salvação. Por isso gera e carateriza uma forma de vida nova,
de que o Novo Testamento nos dá lição contínua e admirável: "Não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim
de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e
perfeito" (Rm 12,2). Assim nos exorta São Paulo.
Esta diversidade, entre a vida cristã e a vida profana, deriva também da
justificação real, efetiva, e da consciência que dela adquirimos. Somos justificados pela nossa participação ao
mistério pascal, que primeiramente nos é dada no santo batismo, como dizíamos
acima, o qual é e deve considerar-se verdadeira regeneração. Também no-lo
recorda So Paulo: "...todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na
sua morte que fomos batizados. Portanto pelo batismo nós fomos sepultados com
Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela
glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova" (Rm 6,3-4).
Viver no mundo, mas não ser do mundo
35. Muito útil será que também o cristão de hoje tenha sempre presente
esta sua forma de vida, original e admirável, que o manterá no gozo da sua
dignidade e o imunizará do contágio da miséria humana ou da sedução do
brilho humano que o rodeiam.
Eis como São Paulo educava os fiéis da primeira geração: "Não
formeis parelha incoerente com os incrédulos. Que afinidade pode haver entre a
justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? ...Que
relação entre o fiel e o incrédulo? (2Cor 6,14-15). A pedagogia cristã
deverá recordar sempre ao discípulo dos nossos tempos, esta sua condição
privilegiada e o conseqüente dever de estar no mundo sem ser do mundo, segundo
a oração de Jesus pelos seus discípulos, acima recordada: "Não peço
que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Eles não são do mundo
como Eu não sou do mundo" (Jo 17,15-16). É voto que a Igreja faz seu.
36. Mas distinção não é separação. Nem é indiferença, temor ou
desprezo. Quando a Igreja afirma a sua distinção da humanidade, não se opõe,
aproxima-se dela. Como o médico, ao ver as ameaças da epidemia, procura preservar-se da
infecção a si e aos outros, sem deixar de atender aos já
contagiados, assim a Igreja não considera privilégio exclusivo a
misericórdia, que lhe concede a bondade divina, não faz da própria felicidade
razão para desinteressar-se de quem a não conseguiu ainda; bem ao contrário,
esse mesmo tesouro de salvação, que possui, é para ela fonte de interesse e
de amor por todos os que lhe esto perto. O mesmo faz com todos que pode
abranger num esforço comunicativo universal.
Missão a cumprir, mensagem para propagar
37. Se a Igreja, como dizíamos, tem consciência do que o Senhor quer que
ela seja, surge nela uma plenitude única e a necessidade de efusão, adverte
claramente uma missão que a transcende e um anúncio que deve espalhar. É o
dever da evangelização, é o mandato missionário, é o dever de apostolado.
Não lhe basta uma atitude de conservantismo. É certo que o tesouro de verdade
e de graça, que nos veio em herança da tradição cristã, o devemos guardar e
o devemos até defender. "Guarda o depósito", manda São Paulo (1Tm
6,20). Mas nem a guarda nem a defesa são os únicos deveres da Igreja quanto
aos dons que possui. Dever seu, inerente ao patrimônio recebido de Cristo, é
também a difuso, a oferta, o anúncio: "Ide, pois, ensinar todos os
povos" (Mt 28,19). Foi a última ordem de Cristo aos seus Apóstolos.
Estes, já com o simples nome de Apóstolos, definem a própria missão
indeclinável. A este interior impulso da caridade, que tende a fazer-se dom
exterior, daremos o nome, hoje comum, de diálogo.
O diálogo
38. A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se
palavra, faz-se mensagem, faz-se colóquio.
Este aspecto capital da vida hodierna da Igreja será objeto de estudo
especial e amplo do Concílio Ecumênico, como todos sabem. Nós não queremos
entrar no exame concreto dos temas que esse estudo apresenta, para deixarmos aos
Padres conciliares a missão de os tratar com toda a liberdade. Queremos só
convidar-vos, Veneráveis Irmãos, a antepor a esse estudo algumas
considerações, para ficarmos a conhecer mais claramente os motivos que levam a
Igreja ao diálogo, os métodos mais aconselháveis e os objetivos em vista.
Queremos dispor os ânimos, não tratar as matérias.
39. Nem podemos desinteressar-nos deste assunto, convencidos como estamos que
o diálogo deve caracterizar o nosso cargo apostólico. Somos herdeiros do
estilo e da diretriz pastoral, que nos foram legados pelos nossos predecessores
do último século a partir do grande e sábio Leão XIII. Este Papa, quase
personificando a figura evangélica do escriba prudente, que, "...como pai
de família, tira do seu tesouro coisas antigas e coisas novas" (Mt 13,52),
exerceu com autoridade o magistério católico, tomando por objeto das suas
lições substanciosas os problemas do nosso tempo, considerados à luz da
palavra de Cristo. E o mesmo fizeram os que lhe sucederam, como sabeis. Não é
magnífico e opulento o patrimônio doutrinal que nos deixaram os nossos
imediatos predecessores, especialmente os Papas Pio XI e Pio XII? É doutrina
elaborada com o intento amoroso e clarividente de unir o pensamento divino ao
pensamento humano, este considerado não em abstrato mas na linguagem concreta
do homem moderno. Ora essa tentativa apostólica que é senão diálogo? E João
XXIII nosso imediato predecessor de venerada memória, não deu ao seu
ensinamento uma direção ainda mais acentuada no mesmo sentido? Pretendeu
aproximá-lo quanto possível da experiência e capacidade de compreensão do mundo
contemporâneo. E ao próprio Concílio não se quis
dar, e com razão, orientação pastoral, toda destinada a inserir a mensagem
cristã no círculo do pensamento, palavra, cultura, dos hábitos e tendências
da humanidade, como ela vive hoje e se agita sobre a face da terra? Antes de
convertermos o mundo, e precisamente para o convertermos, é necessário que nos
acerquemos e lhe falemos.
40. No que diz respeito à nossa humilde pessoa, ainda que não desejamos
falar dela nem atrair as atenções, não podemos, nesta nossa espontânea
apresentação ao colégio episcopal e ao povo cristão, passar em silêncio o
nosso propósito de perseverar, quanto as nossas débeis forças no-lo
permitirem e, sobretudo, quanto no-lo tornar possível a divina graça, de
perseverar na mesma linha, no mesmo esforço de nos aproximarmos do mundo, em
que a divina Providência nos destinou a viver. Dele nos aproximaremos com toda
a reverência, cuidado e amor, para o compreendermos, para lhe oferecermos os
dons de verdade e de graça de que Jesus Cristo nos constituiu depositário.
Comunicar-lhe-emos a nossa missão maravilhosa de redenção e de esperança.
Profundamente gravadas no nosso espírito estão as palavras de Cristo que
desejamos fazer nossas com humildade e perseverança: "Pois Deus no
enviou o seu Filho ao mundo, para julgar o mundo, mas para que o mundo seja
salvo por ele" (Jo 3,17).
A religião: diálogo entre Deus e o homem
41. Eis, Veneráveis Irmãos, a origem transcendente do diálogo. Está no
plano de Deus. A religião é, de sua natureza, enlace entre Deus e o homem, e a
oração exprime em diálogo este enlace. A revelação, quer dizer a relação
sobrenatural que Deus tomou a iniciativa de renovar com a humanidade, podemo-la
imaginar como diálogo, em que o Verbo de Deus se exprime a si mesmo na
Encarnação e depois no Evangelho.
Esse colóquio paternal e santo, interrompido entre Deus e o homem pelo pecado
original, é maravilhosamente reatado no decurso dos tempos. A história da
salvação narra este diálogo longo e variado, a partir de Deus e a travar
conversação com o homem, variada e admirável. É nesta conversação de
Cristo entre os homens (cf. Br 3,38) que Deus dá a entender alguma coisa mais
de si, o mistério da sua vida, admiravelmente una na essência e trina nas
pessoas, e diz, em resumo, como quer ser conhecido: Ele é Amor, e como quer ser
honrado e servido por nós: amor é o mandamento supremo que nos impõe. O diálogo torna-se pleno e confiado; é convite para a criança, o místico se
exaure plenamente nele.
Características do diálogo da salvação
42. É preciso que tenhamos sempre presente esta inefável e realíssima
relação de diálogo, que Deus Pai nos propõe e estabelece conosco por meio de
Cristo no Espírito Santo, para entendermos a relação que nós, isto é a
Igreja, devemos procurar restabelecer e promover com a humanidade.
O diálogo da salvação foi aberto espontaneamente por iniciativa divina:
"Ele [Deus] foi o primeiro a amarnos" ( 1Jo 4,10). A nós tocará
outra iniciativa, a de prolongarmos até aos homens esse diálogo, sem esperar
que nos chamem.
O diálogo da salvação partiu da caridade, da bondade divina: "Deus
amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito" (Jo 3,16).
Nada, senão o amor fervoroso e desinteressado, deve despertar o nosso.
O diálogo da salvação não se proporcionou aos méritos dos interlocutores
convidados, nem aos resultados que iria conseguir ou que teriam faltado:
"Os sãos não precisam de médico" (Lc 5,31). Também o nosso diálogo deve ser sem limites
nem cálculos.
43. O diálogo da salvação não obrigou fisicamente ninguém a responder:
foi pedido insistente de amor que, se constituiu responsabilidade tremenda
naqueles a quem foi dirigido (cf. Mt 11,21), contudo deixou-os livres para
corresponder ou fechar os ouvidos, adaptou até o número e a força probante
dos sinais (cf. Mt 12,38ss), às exigências e disposições espirituais dos
homens (cf. Mt 13,13ss), facilitou assim aos ouvintes o consentimento livre à
revelação divina, sem perda do mérito por este assentimento. Assim também a
nossa missão, ainda que seja anúncio de verdade indiscutível e de salvação
necessária, não se apresentará armada de coação externa, mas oferecerá o
seu dom salvífico só pelas vias legítimas da educação humana, da persuasão
interior e do trato ordinário, respeitando sempre a liberdade pessoal e civil.
44. O diálogo da salvação ficou ao alcance de todos; foi destinado a todos
sem qualquer discriminação (cf. Cl 3,11). Também o nosso deve ser, em
princípio, universal, isto é, católico, e capaz de entabular-se seja com quem
for, a não ser que o homem o recuse em toda a linha ou finja recebê-lo sem
sinceridade.
O diálogo da salvação conheceu ordinariamente graus, progressos
sucessivos, humildes princípios antes do resultado pleno (cf. Mt 13,31).
Também o nosso atenderá às lentidões da maturação psicológica e
histórica, e esperará a hora da eficácia que lhe vem de Deus. Mas, nem por
isso, o nosso diálogo deixará para amanhã o que pode conseguir hoje; deve ter
a preocupação da hora oportuna e o sentido do valor do tempo (cf. Ef 4,16).
Deve recomeçar cada dia; e recomeçar do nosso lado, não do outro a que se
dirige.
Mensagem cristã no viver humano
45. É claro que as relações entre a Igreja e o mundo podem assumir muitos
e diversos aspectos. Teoricamente, seria possível à Igreja propor-se a redução ao mínimo de tais relações, procurando isolar-se do contacto com a
sociedade profana; como poderia também propor-se assinalar os males que nela
venha a encontrar, anatematizando-os e pregando cruzadas contra eles. E poderia,
ao contrário, aproximar-se da sociedade profana até conseguir influxo
preponderante ou domínio teocrático. Outras atitudes se podem imaginar ainda.
Parece-nos, porém, que a relação da Igreja com o mundo, sem excluir outras
formas legítimas, se representa melhor pelo diálogo, embora não
necessariamente com palavras que tenham para os dois interlocutores o mesmo
sentido. É necessário atender ao que é diverso nas mentalidades e nas
circunstâncias de fato: um é o diálogo com a criança, outro com o adulto; um
com o crente e outro com o incrédulo. Conceber essa relação como diálogo é
o que nos sugerem o hábito agora muito espalhado de assim representar as
relações entre o sacro e o profano; o dinamismo transformador da sociedade
moderna; o pluralismo das suas manifestações; e também a maturidade do homem,
tanto religioso como não religioso, habilitado pela educação profana a
pensar, falar e manter com dignidade o diálogo.
46. Esta forma de relação indica, por parte de quem a inicia, um propósito
de urbanidade, de estima, de simpatia e de bondade; exclui a condenação
apriorística, a polêmica ofensiva e habitual, o prurido de falar por falar. Se
é certo que não visa a obter sem demoras a converso do interlocutor, porque
lhe respeita a dignidade e liberdade, sempre visa ao bem dele e procura dispo-lo
à comunhão mais plena de sentimentos e convicções.
O diálogo supõe em nós, que pretendemos iniciá-lo e continuá-lo com
todos os que nos circundam, um estado de alma característico: o de quem
experimenta a responsabilidade do mandato apostólico, vê que já não pode
separar a própria salvação do trabalho pela salvação alheia, de quem se
esforça por introduzir continuamente, no viver humano, a mensagem de que é
depositário.
Clareza, mansidão, confiança, prudência
47. O colóquio é, portanto, modo de exercer a missão apostólica, arte de
comunicação espiritual. Os seus caracteres são os seguintes: l) Primeiro que
tudo, a clareza. O diálogo supõe e exige compreensibilidade, é transfusão do
pensamento, é estímulo do exercício das faculdades superiores do homem.
Bastaria este seu título para o classificar entre os mais altos fenômenos da
atividade e da cultura humana; e basta, esta sua exigência inicial, para levar
o nosso zelo apostólico a rever todas as formas da nossa linguagem: para
examinar se ela é compreensível, popular e digna. 2) Outro caráter é a mansidão, aprendida na escola de Cristo, como Ele nos recomendou:
"aprendei de mim que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29). O diálogo não é orgulhoso,
não é pungente, não é ofensivo. A autoridade
vem-lhe da verdade que expõe, da caridade que difunde, do exemplo que propõe;
não é comando, não é imposiço. O diálogo é pacífico, evita os modos
violentos, é paciente e é generoso. 3) Outra característica é a confiança,
tanto na eficácia da palavra-convite, como na receptividade do interlocutor.
Produz confidências e amizade, enlaça os espíritos numa adesão mútua ao
Bem, que exclui qualquer interesse egoísta. 4) E o último caráter é a
prudência pedagógica, que atende muito às condições psicológicas e morais
de quem ouve (cf: Mt 7,6): se criança, se inculto, indisposto, desconfiado e
mesmo hostil. Essa prudência leva a tomarmos o pulso à sensibilidade alheia e a modificarmos as nossas pessoas e modos,
para não sermos desagradáveis nem incompreensíveis.
No diálogo, assim entabulado, realiza-se a união da verdade e da caridade,
da inteligência e do amor.
Dialética de autêntica sabedoria
48. Descobre-se no diálogo como são diversas as vias que levam à luz da
fé, mas como apesar disso é possível fazê-las convergir para o mesmo fim.
Ainda que sejam divergentes, podem tornar-se complementares, levando o nosso
raciocínio para fora das sendas comuns e obrigando-o a aprofundar as
investigações e a renovar os modos de expressão. A dialética deste
exercício de pensamento e de paciência far-nos-á descobrir elementos de
verdade mesmo nas opiniões alheias, obrigar-nos-á a exprimir com grande
lealdade a nossa doutrina, e tornar-nos-á merecedores, já só pelo que nos
custou expô-la às objeções e à assimilação lenta de quem nos ouve.
Tornar-nos-á sábios, far-nos-á mestres.
Mas quais as formas com que apresentaremos o diálogo da salvação?
São múltiplas as formas do diálogo da salvação. Obedece a exigências
ensinadas pela experiência, escolhe os meios convenientes, não se prende a vãos apriorismos nem se fixa em
expressões imóveis, quando estas tenham
perdido o poder de interessar e mover os homens.
Como achegar-se aos irmãos na inteireza da verdade
49. Apresenta-se nesta
altura uma questão espinhosa: a adaptabilidade da missão da Igreja à vida dos
homens num dado momento, ou lugar, numa dada cultura e situação social.
Até que ponto deve a Igreja adaptar-se às circunstncias históricas e
locais em que desempenha a sua missão? Como deve premunir-se contra o perigo dum relativismo que ofende a sua
fidelidade dogmática e moral? Mas, ao mesmo tempo, como lhe será possível
abeirar-se de todos para todos salvar, segundo o exemplo do Apóstolo:
"Fiz-me tudo para todos, para salvar a todos" (lCor 9,22). Não é de
fora que salvamos o mundo; assim como o Verbo de Deus se fez homem, assim é
necessário que nós nos identifiquemos, até certo ponto, com as formas de vida
daqueles a quem desejamos levar a mensagem de Cristo, é preciso tomarmos, sem
distância de privilégios ou diafragmas de linguagem incompreensível, os
hábitos comuns, contanto que estes sejam humanos e honestos, sobretudo os
hábitos dos mais pequenos, se queremos ser ouvidos e compreendidos. É
necessário, ainda antes de falar, auscultar a voz e mesmo o coração do homem,
compreendê-lo e, na medida do possível, respeitá-lo. E quando merece, devemos
fazer-lhe a vontade. Temos de nos mostrar irmãos dos homens, se queremos ser
pastores, pais e mestres. O clima do diálogo é a amizade; melhor, o serviço.
Tudo isto devemos recordar e esforçar-nos por praticar, segundo o exemplo e o
preceito que Cristo nos deixou (cf. Jo 13,14-17).
50. Um perigo subsiste porém. A arte do apóstolo tem seus riscos. O desejo
de nos aproximarmos dos nossos irmãos não deve traduzir-se numa atenuação ou
diminuição da verdade. O nosso diálogo não pode ser fraqueza nos
compromissos com a nossa fé. O apostolado não pode transigir com meias
atitudes, ambíguas, quanto aos princípios teóricos e práticos
característicos da nossa procissão cristã. O irenismo e o sincretismo são,
no fim de contas, formas de cepticismo a respeito da força e do conteúdo da
Palavra de Deus, que desejamos pregar. Só quem é de todo fiel à doutrina de
Cristo pode ser apóstolo eficaz. E só quem vive em plenitude a vocação cristã pode imunizar-se do contágio dos erros com que
entra em contacto.
Supremacia insubstituível da pregação
51. Julgamos que a voz do Concílio, ao tratar das questões relativas à
ação da Igreja no mundo moderno, indicará alguns critérios teóricos e
práticos, que servirão de guia para bem orientarmos o diálogo com os homens
do nosso tempo. Tratando-se de questão que diz respeito, por um lado, à missão
propriamente apostólica da Igreja e, por outro, às circunstâncias várias e
mutáveis em que ela se exerce, julgamos igualmente que o prudente e operante
governo da Igreja traçará vez por vez limites, formas e caminhos, para manter
animado um diálogo benéfico.
Deixamos por isso este tema para nos limitarmos a recordar, uma vez mais, a
suma importância, que a pregação cristã conserva, e hoje desempenha de
maneira especial no quadro do apostolado católico e do diálogo, que é o que
nos interessa por agora. Nenhuma forma difusora do pensamento a substitui, nem
mesmo às dotadas tecnicamente de extraordinária potência, como são a
imprensa e os meios audiovisivos. Apostolado e pregação, equivalem-se em certo
sentido. A pregação é o primeiro apostolado. O nosso, Veneráveis Irmãos,
é, primeiro que tudo, ministério da Palavra. Sabemos muito bem estas coisas,
mas parece-nos conveniente recordá-las agora, para a nossa ação pastoral
tomar a direção justa. Devemos voltar ao estudo, não já da eloqüência
humana ou da retórica vã, mas sim da arte genuína da palavra sagrada.
52. Devemos procurar as leis da sua simplicidade, limpidez e força, e
também da sua autoridade para vencermos a imperícia natural no emprego de tão alto e misterioso instrumento
espiritual como é a palavra, e para emularmos nobremente todos os que hoje
exercem por meio dela notável influxo, subindo às tribunas da opinião pública. Devemos
pedir ao Senhor este carisma essencial e inebriante (cf. Jr 1,6), para sermos
dignos de dar à fé o seu princípio prático e eficaz (cf. Rm 10,17) e dignos
de fazer chegar a nossa mensagem aos últimos confins da terra (cf. Sl 18,5; Rm
10,18). As prescrições da Constituição conciliar "De Sacra
Liturgia" sobre o ministério da palavra encontrem em nós zelosos e
hábeis executores. A catequese ao povo cristão, e a toda a demais gente que
seja possível atingir, use sempre linguagem oportuna e método acomodado, seja
freqüente, recomende-se pelo testemunho de virtudes pessoais e tenda sempre a
novos progressos. Deste modo, levará os ouvintes à firmeza da fé, à
descoberta de a Palavra divina ser vida, e ainda ao antegozo do Deus vivo.
Deveremos aludir por fim aos ouvintes do nosso diálogo. Mas, também neste
particular, não queremos antecipar-nos à voz do Concílio, que em breve se
fará ouvir, se Deus quiser.
Com quem dialogar
53. Falando em geral desta posição de diálogo, que a Igreja católica deve
hoje assumir com renovado fervor, queremos simplesmente indicar de fugida que
ela deve estar pronta a manter contacto com todos os homens de boa vontade,
dentro e fora do seu âmbito próprio.
Ninguém é estranho ao seu coração materno. Ninguém é indiferente ao seu
ministério. Ninguém, se não quer, é seu inimigo. Não é em vão que a
Igreja se diz católica. Não é em vão que está encarregada de promover no
mundo a unidade, o amor e a paz.
A Igreja não ignora as dimensões formidáveis da sua missão; conhece a
desproporção estatística dos seus membros com a totalidade dos habitantes da
terra; conhece o limite das suas forças; conhece até as suas fraquezas
humanas, os seus erros; sabe também que a aceitação do Evangelho não depende, em última análise, de algum esforço apostólico
seu, de alguma circunstância favorável de ordem temporal. A fé é dom de
Deus, e só Deus marca no mundo os caminhos e as horas da salvação. Mas ela
sabe, por outro lado, que é semente, fermento, sal e luz do mundo. Dá-se conta
da surpreendente novidade dos tempos modernos; mas com ingênua confiança
debruça-se sobre os caminhos da história, e diz aos homens: eu tenho aquilo
que vós procurais, aquilo de que sentis falta. Não promete a felicidade na
terra, mas oferece alguma coisa, a sua luz e a sua graça, para a conseguirmos,
no que é possível.
Depois, aponta aos homens o destino transcendente, ao lhes falar de verdade,
justiça, liberdade, progresso, concórdia, paz e civilização. Palavras estas,
de que a Igreja conhece o segredo; confiou-lho Cristo. Por isso a Igreja tem uma
mensagem especial para cada categoria de homens: para as crianças, a juventude,
os homens de ciência e de pensamento, o mundo do trabalho e as várias classes
sociais, os artistas, os políticos e os governantes; especialmente para os
pobres, os deserdados, os que sofrem, e até para os moribundos; para todos.
Poderá parecer que, falando assim, nos deixamos transportar de entusiasmo
pela nossa missão e que não consideramos as posições concretas, que a
humanidade toma diante da Igreja Católica. Mas não é verdade, porque vemos
muito bem quais são essas posições concretas; e para as descrevermos de
maneira sumária, parece-nos que as devemos classificar à maneira de círculos
concêntricos, em que a mão de Deus nos colocou.
Primeiro círculo: tudo o que é humano
54. Existe um primeiro, imenso círculo, de que não conseguimos descortinar
os limites, pois se confundem com o horizonte. Dentro, está a humanidade toda,
o mundo.
Medimos a distância entre nós e ele, mas de nenhum modo nos sentimos
desinteressados. Tudo o que é humano, nos diz respeito. Temos, de comum com a
humanidade inteira, a natureza, isto é a vida, com todos os seus dons e
problemas. Comungamos de bom grado nesta primeira universalidade, aceitamos as
exigências profundas das suas necessidades fundamentais, aplaudimos as
afirmações novas e por vezes sublimes do seu gênio. Possuímos verdades
morais, vitais, que se hão de por em evidência e revigorar na consciência
humana; são benéficas para todos. Em qualquer esforço que o homem faça para
se compreender a si mesmo e ao mundo, pode contar com a nossa simpatia; onde
quer que as assembléias dos povos se reúnam para determinar os direitos e os
deveres do homem, sentimo-nos honrados, quando no-lo permitem, tomando lugar
nelas. Uma vez que existe no homem uma "alma naturalmente cristã",
queremos honrá-la mostrando-lhe estima e dirigindo-lhe a palavra.
Poderemos recordar a nós próprio, e a todos, como a nossa atitude é, por
um lado, completamente desinteressada, não temos nenhuma ambição política e
temporal, e, por outro, toda empenhada em assumir, isto é, elevar a nível
sobrenatural e cristão, qualquer valor honesto, humano e terreno; não somos a
civilização, mas promotor dela.
A negação de Deus: obstáculo ao diálogo
55. Sabemos, porém, que neste círculo ilimitado há muita, muitíssima
gente por desgraça, que não professa nenhuma religião, sabemos até que
muitos se dizem ateus, em variadíssimas formas. E sabemos que existem alguns
que fazem profissão clara da sua impiedade e a defendem como programa de
educação humana e de atividade política, na ingênua mas fatal persuasão de
irem libertar o homem de concepções velhas e falsas sobre a vida e o mundo,
para as substituírem, segundo dizem, por uma concepção científica, conforme as exigências do progresso moderno.
É o fenômeno mais grave do nosso tempo. Estamos fïrmemente convencidos que
a teoria, sobre a qual se funda a negação de Deus, está fundamentalmente
errada, não corresponde às exigências últimas e inderrogáveis do
pensamento, subtrai à ordem racional do mundo as suas bases autênticas e
fecundas, introduz na vida humana não uma fórmula de solução mas um dogma
cego, que a degrada e desola, e arruina pela raiz todos os sistemas sociais que
nele pretendem fundar-se. Não é libertação, mas drama que tenta apagar a luz
do Deus vivo. Por isso resistiremos nós, com todas as forças, a esta negação
avassaladora, pelo amor supremo da verdade, pelo compromisso sacrossanto de
confessarmos Cristo e o seu Evangelho, com a maior fidelidade pelo amor
apaixonado, irrenunciável, à sorte da humanidade, e na esperança invencível
de o homem moderno vir ainda a descobrir, na mensagem religiosa do catolicismo,
que é chamado a uma civilização imortal mas sempre em progresso, a caminho da
perfeição natural e sobrenatural do homem. A graça de Deus torna-o capaz de
possuir pacífica e honestamente os bens temporais e abre-o à esperança dos
bens eternos.
56. Estas razões que nos obrigam, como obrigaram os nossos Predecessores e
com eles todos quantos têm a peito os valores religiosos, a condenar os
sistemas ideológicos negadores de Deus e opressores da Igreja, sistemas muitas
vezes identificados com regimes econômicos, sociais e políticos, e entre estes
de maneira especial o comunismo ateu. Poder-se-ia dizer que, rigorosamente, não
somos nós que os condenamos, mas que esses sistemas e os regimes que os
personificam se colocam em oposição radical de idéias conosco e praticam atos
de opressão. A nossa queixa é, afinal, mais que sentença de juiz,
lamentação de vítima.
Em tais condições, a hipótese de diálogo torna-se bastante difícil, para
não dizer impossível, ainda que mesmo hoje não temos nenhum propósito de
afastar de nós as pessoas que seguem os sobreditos sistemas e apóiam esses
regimes. Para quem ama a verdade, a discussão é sempre possível. Obstáculos,
porém, de índole moral dificultam-na muitíssimo, por falta de liberdade
suficiente de juízo e de ação, e por abuso dialético da palavra, que deixa
de ser expressão da verdade objetiva para se por ao serviço de fins
utilitários pré-estabelecidos.
Também no silêncio o testemunho do amor
57. É por isto que o diálogo cessa. A Igreja do silêncio, por exemplo,
cala-se falando apenas com o seu sofrimento; e faz-lhe companhia a amargura de
uma sociedade inteira, deprimida e aviltada, em que os direitos do espírito são dominados pelos direitos dos que discricionariamente lhe
impõem a sorte.
Supondo mesmo que principiávamos o nosso discurso, como poderia ele abrir
diálogo nestas circunstâncias? Teria necessariamente de ser "voz que
brada no deserto" (Mc 1,3). Silêncio, brado, paciência, amor apesar de
tudo, tornam-se neste caso o testemunho único que a Igreja pode dar, que nem a
morte pode extinguir.
Mas se firme e franca deve ser a afirmação e defesa da religião e dos
valores humanos que ela proclama e defende, não está isento de intenção
pastoral o esforço por descobrir, no íntimo do ateu moderno, os motivos da sua
perturbação e das suas negações. Reconhecemos que são complexos e
múltiplos; daí a necessidade de sermos cautos em julgar e eficazes em refutar.
Vemos nascer esses motivos, às vêzes da exigência de uma apresentação do
mundo divino mais elevada e pura do que a predominante talvez em certas formas
imperfeitas de linguagem e de culto, que deveríamos procurar tornar quanto
possível límpidas e transparentes, a fim de exprimirem melhor os conceitos
sagrados que representam.
58. Uma inquietação os domina, muitas vezes generosa mas não isenta de
paixão e de utopia, um sonho de justiça e de progresso a serviço de
finalidades sociais divinizadas. Tomam estas o lugar do Absoluto e do
Necessário, são manifestações da necessidade indestrutível do Princípio e
do Fim divino, cuja transcendência e imanência tocará ao nosso paciente e
esclarecido magistério desvelar. Vemo-los valer-se, por vezes com entusiasmo
ingênuo, dum recurso escrupuloso à racionalidade humana, com o intuito de
apresentar uma concepção científica do universo. Recurso este tanto menos
discutível, quanto mais fundado na lógica do pensamento muitas vezes no
diferente da que nós temos na escolástica. Recurso que, pelo seu valor
intrínseco, leva em última análise (bem contra a vontade dos que pensam
descobrir nele uma arma inexpugnável em favor do ateísmo!), a uma armação
nova e final, tanto metafísica como lógica, do Deus supremo. Não haverá
entre nós quem ajude este processo obrigatório do pensamento, que o cientista
político ateu interrompe voluntariamente num dado ponto, apagando a luz mais
clara que faz compreender o universo, a chegar à concepção da realidade
objetiva do universo cósmico, a qual restitui ao espírito o sentido da
presença divina, e aos lábios as humildes e balbuciantes sílabas duma
oração pacificante? Vemo-los também movidos, às vezes, de nobres
sentimentos, desprezando a mediocridade e o egoísmo de tantos ambientes sociais
contemporâneos, e prontos a vir buscar ao nosso Evangelho formas e linguagem de
solidariedade e de compreensão humana. Não seremos capazes um dia de
reconduzir às fontes, que são cristãs, essas expressões de valores morais?
Recordando que o nosso predecessor, de venerada memória, o Papa João XXIII,
escreveu na Encíclica "Pacem in Terris", que as doutrinas de tais movimentos, uma vez elaboradas e
definidas, se mantêm sempre as mesmas, mas que os movimentos não podem deixar
de evoluir nem de subtrair-se a mudanças mesmo profundas (cf. AAS 55,1963, p.
300), não perdemos a esperança de que eles venham um dia a entabular com a
Igreja um colóquio positivo, diferente do que ele poderia ser atualmente para
nós. Agora só daria lugar a lástimas e a gemidos irreprimíveis.
O diálogo pela paz
59. Mas não podemos apartar os nossos olhos do panorama do mundo contemporâneo sem formular um voto de felicidade: o de que o nosso propósito
de cultivar e aperfeiçoar o nosso diálogo, nas várias e mudáveis facetas que
ele apresenta, venha a contribuir para a causa da paz entre os homens, isto,
como método que procura regular as relações humanas à luz nobre da linguagem
razoável e sincera, e como contribuição de experiência e de sabedoria, que
pode reavivar em todos a consideração dos valores supremos. A abertura dum
diálogo, tal como deseja ser o nosso, desinteressado, objetivo e leal, pesa já
por si em favor duma paz livre e honesta; exclui fingimentos, rivalidades,
enganos e traições; não pode deixar de proclamar, como delito e como ruína,
a guerra de agressão, de conquista e de predomínio, nem pode excluir, para
além das relações entre os vértices das nações como hoje se diz, as
existentes no interior das mesmas e as suas bases tanto sociais como familiares
e individuais. Assim se difundirão em todas as instituições e em todos os
espíritos o sentido, o gosto e o dever da paz.
Segundo círculo: os crentes em Deus
60. Depois, vemos desenhar-se a nossa volta outro círculo também imenso,
contudo mais próximo de nós. Ocupam-no primeiramente os homens que adoram o
mesmo Deus único e supremo que nós adoramos, aludimos aos filhos do povo
hebraico, dignos do nosso respeito afetuoso, fiéis à religião que nós
chamamos do Antigo Testamento. E depois os adoradores de Deus segundo o conceito
da religião monoteísta, especialmente da muçulmana, dignos de admiração
pelo que há de verdadeiro e de bom no culto que prestam a Deus. Seguem-se os
adeptos das grandes religiões afro-asiáticas. Não podemos, é claro,
compartilhar essas várias expressões religiosas, nem podemos diante delas
ficar indiferentes, como se todas, equivalendo-se mais ou menos, dispensassem os
seus fiéis de investigar se Deus revelou a forma, infalível, perfeita e
definitiva, como quer ser conhecido, amado e servido. E, por dever de lealdade,
devemos manifestar que estamos certíssimos que uma só é a religião
verdadeira, a cristã; alimentamos a esperança de que a venham a reconhecer
como tal, todos os que procuram e adoram a Deus.
Não queremos deixar de reconhecer desde já com respeito os valores
espirituais e morais das várias confissões religiosas não cristãs; queremos
promover e defender, juntamente com elas, os ideais que nos podem ser comuns, no
campo da liberdade religiosa, da fraternidade humana, da sã cultura, da
beneficência social e da ordem civil. Baseado nestes ideais comuns, o diálogo
é possível do nosso lado; e no deixaremos de o propor, sempre que haja de
ser bem aceito, num clima de respeito recíproco e leal.
Terceiro círculo: os cristãos, irmãos separados
61. Eis por fim o círculo, mais perto ainda de nós, do mundo que se
intitula cristão. Neste campo o diálogo, que se chamou ecumênico, já está
aberto, nalguns setores, está até em fase de realização inicial e positiva.
Muita coisa poderíamos dizer sobre tema tão complexo e delicado. Mas o nosso
discurso não abarca tudo. Limita-se a poucas alusões, no novas aliás. Com
prazer fazemos nossa esta máxima: Ponhamos em evidência primeiramente o que nos é comum,
antes de insistirmos no que nos divide. Boa e fecunda orientação para o nosso
diálogo. Estamos dispostos a prossegui-lo cordialmente. Diremos mais: sobre
tantos pontos de diferença quanto aos usos, à espiritualidade, às leis
canônicas e ao culto, queremos estudar como se poderão satisfazer os
legítimos desejos dos Irmãos cristãos ainda de nós separados. Nada desejamos
tanto como abraçá-los numa perfeita união de fé e de caridade. Mas devemos
também dizer que não podemos transigir sobre a integridade da fé e as
exigências da caridade. Entrevemos desconfianças e resistências. Mas tendo a
Igreja Católica tomado a iniciativa de refazer o redil único de Cristo, não
deixará de proceder com toda paciência e toda delicadeza; não deixará de
mostrar como as suas prerrogativas, que ainda mantêm longe dela os Irmãos
separados, não são fruto de ambição histórica ou de especulação
teológica fantasiosa, mas derivam da vontade de Cristo; e mostrará também que
elas, compreendidas no seu verdadeiro significado, são para bem de todos, levam
à unidade e liberdade comuns e à plenitude cristã também comum; a Igreja
Católica não deixará, na oração e na penitência, de tornar-se idônea e
digna para a desejada reconciliação.
62. Um pensamento, a esse respeito, nos aflige e é este: nós, fautor de tal
reconciliação, somos considerados por muitos Irmãos separados como obstáculo
à reconciliação; isto, por causa do primado de honra e de jurisdição,
entregue por Cristo ao Apóstolo So Pedro e herança nossa dele recebida. Não
dizem alguns que, se desaparecesse o primado do Papa, a unificação das igrejas
separadas com a Igreja Católica seria mais fácil? Queremos pedir aos Irmãos
separados que ponderem a inconsistência desta hipótese; e não só porque, sem
Papa, a Igreja Católica não seria o que é, mas porque, faltando na Igreja de Cristo a autoridade
pastoral suprema, eficaz e decisiva de Pedro, a unidade se arruinaria, e em vão
se procuraria depois refazê-la segundo critérios que substituíssem o
autêntico, que vem do próprio Cristo. "Haveria na Igreja tantos cismas
como sacerdotes", escreve com razão São Jerônimo (Diál. contra Luciferiamos, n. 9). E queiram também considerar que este eixo central, na
construção da santa Igreja, não quer constituir supremacia de orgulho
espiritual e domínio humano, mas primado de serviço, de ministério e de amor.
Não é retórica vã atribuir ao Vigário de Cristo o título de "servo
dos servos de Deus".
Nestas disposições nossas germina o diálogo, que antes de se desenvolver
em conversas fraternais, já é colóquio com o Pai celeste, expresso em
súplica fundada na esperança.
Augúrios e esperanças
63. Devemos notar com alegria e confiança, Veneráveis Irmãos, que este
variado e extensíssimo setor dos Cristos separados está todo embebido de
fermentos espirituais, que parecem anunciar futuros e consoladores progressos na
causa da inserção dos mesmos na única Igreja de Cristo. Queremos implorar a
inspiração do Espírito Santo sobre o "movimento ecumênico".
Queremos tornar a exprimir a nossa comoção e a nossa alegria pelo encontro,
cheio de caridade e não menos de novas esperanças, que tivemos em Jerusalém
com o Patriarca Atenágoras. Queremos saudar com respeito e reconhecimento a
presença de tantos Representantes das Igrejas separadas no Concílio Ecumênico
Vaticano II. Queremos garantir mais uma vez que observamos, com interesse atento
e sagrado, os fenômenos espirituais relativos ao problema da unidade, que
agitam pessoas, grupos e comunidades, que domina vivo e nobre religiosismo. Com
amor e com reverência, saudamos todos estes Cristãos, esperando que, no diálogo da
sinceridade e do amor, nos seja dado promover, juntamente com eles, a causa de
Cristo e da unidade que Ele desejou para a sua Igreja.
O diálogo na Igreja Católica
64. Finalmente o nosso diálogo convida os Filhos da Casa de Deus, a Igreja
una, santa, católica e apostólica, de que esta romana é "mãe e
cabeça". Quanto prazer nos trará este diálogo doméstico, em plenitude
de fé, de caridade e de obras! Quão intenso e familiar o desejamos! Quanto
ambicionamos que tenha conta de todas as verdades, de todas as virtudes e de
todas as realidades do nosso patrimônio doutrinal e espiritual! Quão sincero e
comovido o pretendemos, na sua genuína espiritualidade! Quão pronto a recolher
as vozes múltiplas do mundo contemporâneo! Quão apto a transformar os
católicos em homens verdadeiramente bons, prudentes, livres, serenos e fortes!
Caridade e obediência
65. Este desejo de que as relações interiores da Igreja se caracterizem
pelo tom próprio do diálogo, entre membros de um corpo cujo princípio
constitutivo é a caridade, não dispensa da prática da virtude da obediência,
quando a ordem que tem de haver em toda a sociedade bem unida, e sobretudo a
constituição hierárquica da Igreja reclamam, por um lado, a função própria
da autoridade, e, por outro, a submissão. A autoridade da Igreja é
instituição de Cristo, representa-O, é transmissora autorizada da sua palavra
e da sua caridade pastoral. Deste modo, a obediência procede do motivo de fé,
torna-se escola de humildade evangélica, associa o obediente à sabedoria, à
unidade, à educação e à caridade que regem o corpo eclesiástico, e confere,
a quem se conforma com ela, o mérito da imitação de Cristo: "feito obediente até a
morte" (Fl 2,8).
66. Por obediência, expressa em forma de diálogo, entendemos, portanto, o
exercício da autoridade, bem penetrado da convicção de tratar-se de um
serviço e ministério da verdade e da caridade; e entendemos também a observância das normas canônicas e a reverência ao governo do superior
legítimo, ambas com prontidão e serenidade, como convém a filhos livres e
afetuosos. O espírito de independência, de crítica e rebelião concorda mal
com o amor que anima a solidariedade, a concórdia e a paz na Igreja. Esse
espírito transforma facilmente o diálogo em discussão, rixa ou desavença:
coisa desagradabilíssima, com que infelizmente sempre se deve contar. Por isso
nos acautelava o Apóstolo São Paulo: "Não haja entre vós divisões" (lCor 1,10).
Fervor de sentimentos e obras
67. Muito desejamos que o diálogo interior, isto é, dentro da comunidade
eclesiástica, desperte novo entusiasmo, multiplique assuntos e interlocutores,
de modo que aumentem o vigor e a santidade do Corpo Místico, terreno, de
Cristo. Muito apreciamos e fomentamos tudo quanto propaga os ensinamentos, de
que a Igreja é depositária e distribuidora. Já mencionamos a vida litúrgica
e interior, e a pregação. Podemos agora acrescentar: a escola, a imprensa, o
apostolado social, as missões e o exercício da caridade. Constituem também
assuntos que nos fará considerar o Concílio. E, desde agora, animamos e
abençoamos todos aqueles que, dirigidos pela autoridade competente, participam
no diálogo vivificador da Igreja: os Sacerdotes de modo especial, os
Religiosos, os muito estimados Leigos militantes por Cristo tanto na Ação
Católica como em tantas outras associações e atividades.
A Igreja está hoje mais do que nunca viva!
68. Alegramo-nos e sentimo-nos confortados ao observar que o diálogo no
interior da Igreja, e com os de fora que lhe estão mais próximos, se vai já
praticando: a Igreja está hoje mais do que nunca viva! Mas, reparando bem,
parece que tudo está ainda por fazer, o trabalho começa hoje e não acaba
nunca. É lei da nossa peregrinação na terra e no tempo. É este, Veneráveis
Irmãos, o múnus habitual do nosso ministério: tudo o estimula hoje a
renovar-se, a tornar-se vigilante e operoso.
Pela nossa parte, enquanto assim vos falamos, apraz-nos contar na vossa
colaboração, oferecendo-vos a nossa. Esta comunhão de intenções e
atividades pedimo-la e damo-la nós, elevado recentemente à cátedra do
Apóstolo São Pedro, com o nome e, queira Deus, com alguma coisa do espírito
do Apóstolo das gentes. Celebrando assim a unidade de Cristo entre nós,
enviamo-vos com esta nossa Carta inicial, em nome do Senhor, a nossa fraterna e
paternal bênção apostólica, que de bom grado tornamos extensiva a toda a
Igreja e à humanidade inteira.
Dado em Roma, junto de S. Pedro, aos 6 de agosto de 1964, na Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo.
PAULUS PP. VI
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