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CARTA APOSTÓLICA OCTOGESIMA ADVENIENS DE SUA SANTIDADE O
PAPA PAULO VI AO SENHOR CARDEAL MAURÍCIO ROY, PRESIDENTE DO CONSELHO DOS LEIGOS E DA PONTIFÍCIA
COMISSÃO "JUSTIÇA E PAZ" POR OCASIÃO DO 8O°
ANIVERSÁRIO DA ENCÍCLICA "RERUM NOVARUM"
Senhor Cardeal:
1. O 80° aniversário da publicação da Encíclica
Rerum Novarum, cuja
mensagem continua a inspirar a ação em ordem à justiça social, anima-nos a
retomar e a prosseguir o ensino dos nossos predecessores, em resposta às
necessidades novas de um mundo em transformação. A Igreja caminha, de fato,
juntamente com a humanidade e compartilha de sua sorte no seio da história. Ao
anunciar aos homens, a Boa Nova do amor de Deus e da salvação em Cristo, ela
ilumina também a sua atividade com a luz do Evangelho e ajuda-os, deste modo, a
corresponderem aos desígnios divinos do amor e a realizarem a plenitude das
suas aspirações.
Apelo universal por mais justiça
2. Com confiança, nós vemos o Espírito do Senhor prosseguir a sua obra no
coração dos homens e congregar por toda a parte comunidades cristãs,
conscientes das suas responsabilidades na sociedade. Em todos os continentes,
entre todas as raças, nações e culturas, e no meio de todos os
condicionalismos, o Senhor continua a suscitar apóstolos autênticos do
Evangelho.
Foi-nos dada a oportunidade de os encontrar, de os admirar e de os encorajar,
no decorrer das nossas recentes viagens. Entramos em contato com as multidões e
pudemos ouvir os seus apelos, gritos de angústia e de esperança ao mesmo
tempo.
Nessas ocasiões, apresentaram-se-nos, com uma evidência nova, os graves
problemas do nosso tempo, como peculiares, é certo, de cada região, mas, não
obstante, comuns a uma humanidade que se interroga a si mesma, sobre o seu
futuro e sobre a orientação e o significado das mudanças que estão se
operando. Diferenças flagrantes subsistem no desenvolvimento econômico,
cultural e político das nações: ao lado de regiões fortemente
industrializadas, outras, nesse aspecto, encontram-se ainda no estado agrícola;
ao lado de países que desfrutam de bem-estar, outros lutam ainda contra a fome;
ao lado de povos com um nível cultural elevado, outros continuam ainda
empenhados em eliminar o analfabetismo. De todas as partes, porém, se sente o
despertar de uma aspiração a mais justiça e se eleva o desejo de uma paz
melhor assegurada, num clima de respeito mútuo entre os homens e entre os povos.
A diversidade das situações dos cristãos no mundo
3. Sem dúvida que são muito diversas as
situações nas quais, voluntária
ou forçosamente, se encontram comprometidos os cristãos, conforme as regiões,
conforme os sistemas sócio-políticos e conforme as culturas. Em algumas partes,
eles são reduzidos ao silêncio e olhados com suspeita e, por assim dizer,
postos à margem da sociedade, enquadrados, sem liberdade, num sistema
totalitário. Noutras partes, eles constituem fracas minorias, cuja voz
dificilmente se faz ouvir. Noutras nações, ainda, onde a Igreja vê
reconhecido o seu lugar e por vezes de maneira oficial, ela própria se acha
sujeita às repercussões da crise que abala a sociedade, de modo que alguns dos seus membros são
tentados a optarem por soluções radicais e violentas, das quais eles crêem
poder esperar soluções mais felizes. E, enquanto outros, inconscientes das
injustiças presentes, se esforçam por manter a situação existente, outros,
enfim, deixam-se fascinar por ideologias revolucionárias, que lhes prometem,
não sem ilusão, um mundo definitivamente melhor.
4. Perante situações, assim tão diversificadas,
torna-se-nos difícil tanto
o pronunciar uma palavra única, como o propor uma solução que tenha um valor
universal. Mas, isso não é ambição nossa, nem mesmo a nossa missão. É às
comunidades cristãs que cabe analisar, com objetividade, a situação própria
do seu país e procurar iluminá-la, com a luz das palavras inalteráveis do
Evangelho; a elas cumpre, haurir princípios de reflexão, normas para julgar e
diretrizes para a ação, na doutrina social da Igreja, tal como ela vem sendo
elaborada, no decurso da história, e, especialmente, nesta era industrial, a
partir da data histórica da mensagem de Leão XIII sobre "a condição dos
operários", da qual nós temos a honra e a alegria de celebrar hoje o
aniversário. A essas comunidades cristãs incumbe discernir, com a ajuda do
Espírito Santo em comunhão com os bispos responsáveis e em diálogo com os
outros irmãos cristãos e com todos os homens de boa vontade - as opções e os
compromissos que convém tomar, para realizar as transformações sociais,
políticas e econômicas que se apresentam como necessárias e urgentes, em não
poucos casos. Nesta procura diligente das mudanças a promover, os cristãos
deverão, antes de mais nada, renovar a sua confiança na força e na
originalidade das exigências evangélicas. O Evangelho, de fato, não está
ultrapassado, pela circunstância de ter sido anunciado, escrito e vivido, num
contexto sócio-cultural diferente. A sua inspiração, enriquecida pela experiência vivente da
tradição cristã, ao longo dos séculos, permanece sempre nova, em ordem à
conversão dos homens e ao progresso da vida em sociedade, sem que por isso, se
possa chegar a utilizá-la em favor de opções temporais particulares,
esquecendo a sua mensagem universal e eterna (1).
A mensagem específica da Igreja
5. No meio das perturbações e das incertezas da hora atual, a Igreja tem
uma mensagem específica a proclamar, um apoio a dar aos homens nos seus
esforços por tomar as rédeas do seu futuro e orientá-lo. Passada a época em
que a Encíclica Rerum Novarum denunciava, de maneira enérgica e categórica, o
escândalo da condição operária, na sociedade industrial nascente, a
evolução histórica fez com que se tomasse consciência, como o reconheciam
já as Encíclicas Quadragesimo Anno (2) e Mater et Magistra (3), de outras dimensões
e de outras aplicações da justiça social.
O recente Concílio Ecumênico aplicou-se, por sua vez, a descobri-las, em
particular na Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Nós próprios também
já continuamos as orientações ali dadas, com a nossa Encíclica Populorum
Progressio: "Hoje, dizíamos então, o fato mais saliente, de que cada um
deve tomar consciência é que a questão social se tornou mundial." (4)
"Uma renovada conscientização das exigências da mensagem evangélica,
comporta para a Igreja a obrigação de se pôr ao serviço dos homens, para os
ajudar a captar todas as dimensões deste grave problema e para os convencer da
urgência de uma ação solidária, nesta viragem da história da humanidade".(5)
6. Caberá, depois, também ao próximo Sínodo dos Bispos, estudar, ele
próprio, mais em pormenor e aprofundar a missão da Igreja, diante das graves
questões que a justiça no mundo levanta em nosso tempo. Entretanto, o
aniversário da Encíclica Rerum Novarum, proporcionanos hoje a ocasião, para
contar-lhe, Senhor Cardeal, na sua qualidade de Presidente da Comissão "Justiça
e Paz" e do Conselho dos Leigos, as nossas preocupações e os pensamentos
que nos vão na alma.
Quereríamos ainda, por este meio, encorajar estes organismos da Santa Sé na
sua atividade eclesial, ao serviço dos homens.
Amplidão das mudanças atuais
7. Ao fazer isto, a nossa finalidade, sem esquecer, por outro lado, os
problemas permanentes já tratados pelos nossos predecessores, é chamar a
atenção para algumas questões que, pela sua urgência, pela sua amplitude,
pela sua complexidade, devem estar no centro das preocupações dos cristãos,
para os anos que vão seguir-se, a fim de que, juntamente com os outros homens,
se apliquem a resolver as novas dificuldades que põem em causa o próprio
futuro do homem. Importa saber equacionar os problemas sociais, postos pela
economia moderna - condições humanas de produção, equidade nas permutas de
bens e na repartição das riquezas, significado das crescentes necessidades de
consumo e compartilha das responsabilidades - num contexto mais amplo, de
civilização nova. Nas atuais mutações, tão profundas e tão rápidas, cada
dia o homem se descobre como algo novo e interroga-se a si mesmo, acerca do sentido do seu próprio ser e da sua
sobrevivência coletiva. Hesitante em recolher as lições de um passado, que
reputa superado e demasiado diferente, ele tem, não obstante, necessidade de
lançar luz sobre o seu porvir - porvir que ele antevê tão incerto quanto
instável - pelo recurso a verdades permanentes e eternas, que certamente o
transcendem, mas das quais pode, se o quiser fazer sinceramente, encontrar por
si mesmo os vestígios.(6)
I. NOVOS PROBLEMAS SOCIAIS
A urbanização
8. Um fenômeno que ressalta, atrai a nossa atenção, tanto nos países
industrializados, como nas nações em vias de desenvolvimento: a urbanização.
Após longos séculos, a civilização agrícola perdeu o seu vigor. Será
que se dispensa, de resto, uma atenção suficiente ao acondicionamento e ao
melhoramento da vida das populações rurais, cuja condição econômica
inferior e, por vezes, miserável, provoca o êxodo em direção aos tristes
amontoados dos subúrbios onde não as esperam nem trabalho nem alojamento?
Este êxodo rural permanente, o crescimento industrial, o aumento
demográfico contínuo e a atração dos centros urbanos determinam
concentrações de população cuja amplitude se torna difícil de imaginar,
dado que se começa já a falar de "megalópoles", as quais reúnem em
si dezenas de milhões de habitantes. Existem sem dúvida cidades cujas
dimensões podem assegurar um melhor equilíbrio da população. Susceptíveis
de oferecer trabalho àqueles a quem os progressos da agricultura deixaram sem
emprego, elas permitem um acomodamento do ambiente humano global, de molde a
evitar proliferação do proletariado e o amontoado das grandes aglomerações.
9. O crescimento desmesurado destas cidades acompanha a expansão industrial,
sem contudo se confundir com ela. Baseada na pesquisa tecnológica e na
transformação da natureza, a industrialização prossegue sem parar o seu
caminho, dando mostras de um poder criador incessante. Ao mesmo tempo que certas
empresas se desenvolvem e se concentram, outras morrem ou deslocam-se, criando-se, assim,
novos problemas sociais: desemprego profissional ou regional, reconversão e
mobilidade das pessoas, adaptação permanente dos trabalhadores, disparidade
das condições nos diversos ramos industriais. Uma competição desmedida, que
utiliza os meios modernos de publicidade, lança sem cessar novos produtos e
procura aliciar o consumidor; e então, as antigas instalações industriais,
ainda em funcionamento, ficam inutilizadas. E, assim, enquanto vastíssimas
camadas da população não podem ainda satisfazer as suas necessidades primárias, emprega-se o engenho em criar as necessidades supérfluas.
Poder-se-á, pois, perguntar, com toda a razão, se, apesar de todas as suas
conquistas, o homem não está voltando contra si próprio os frutos da sua atividade. Depois de se ter assegurado um domínio necessário sobre a
natureza,(7) não estará agora tornandose escravo dos objetos que ele mesmo
fabrica?
Os cristãos na cidade
10. O aparecimento de uma civilização urbana, que acompanha o incremento da
civilização industrial, não será, na realidade, um verdadeiro desafio
lançado à sabedoria do homem, à sua capacidade de organização e à sua imaginação
prospectiva? No seio da sociedade industrial, a urbanização transtorna os
modos de viver e as estruturas habituais da existência: a família, a
vizinhança e os próprios moldes da comunidade cristã. O homem experimenta,
assim, uma nova forma de solidão, não já frente a uma natureza hostil, que
ele levou séculos a dominar, mas no meio da multidão anônima que o rodeia e
onde ele se sente como um estranho. Fase irreversível, sem dúvida, no
desenvolvimento das sociedades humanas, a urbanização levanta ao homem
problemas difíceis: como dominar o seu crescimento, regular a sua organização
e conseguir a sua animação para o bem de todos?
Neste crescimento desordenado, novos proletariados começam a aparecer.
Instalam-se no coração das cidades que os ricos por vezes abandonam; ou então
acampam nos arrabaldes, molduras de miséria, que começam a importunar, numa
forma de protesto ainda silenciosa, o luxo demasiado gritante das cidades do
consumo e do esbanjamento. Assim, em lugar de favorecer o encontro fraterno e a
ajuda mútua, a cidade, pelo contrário, desenvolve as discriminações e
também a indiferença; ela presta-se para novas formas de exploração e de
domínio, em que uns especulam com as necessidades dos outros, disso auferindo
lucros inadmissíveis. Por detrás das fachadas escondem-se muitas misérias,
ignoradas mesmo pelos vizinhos; outras estabelecem-se onde sossobra a dignidade
do homem: delinquência, criminalidade, droga, erotismo.
11. São os mais fracos, efetivamente, que se tornam as vítimas das
condições de vida desumanizadoras, degradantes para as consciências e
perniciosas para a instituição da família: a promiscuidade nos alojamentos
populares torna impossível um mínimo de intimidade; os lares jovens, esperam em
vão por uma habitação decente e a preço acessível, desmoralizando-se pouco
a pouco, de modo que a sua unidade pode mesmo chegar a ser comprometida; os
jovens por sua vez, fogem de um lar demasiado exíguo e procuram na rua
compensações e companhias que escapam a qualquer vigilância. É dever grave
dos responsáveis procurar dominar e orientar este processo das coisas.
Torna-se urgente reconstituir, a nível de rua, de bairro, ou de aglomerado
ainda maior, aquela rede social em que o homem possa satisfazer as necessidades
da sua personalidade. Devem ser criados centros de interesse e de cultura, ou
desenvolvidos se já existem, ao nível das comunidades e das paróquias,
naquelas diversas formas de associação, naqueles círculos de recreação,
naqueles lugares de reunião, naqueles encontros espirituais comunitários,
etc., em que cada um possa sair do isolamento e tornar a criar relações
fraternas.
12. Construir a cidade, lugar de existência dos homens, e das suas
comunidades ampliadas, criar novos modos de vizinhança e de relações,
descortinar uma aplicação original da justiça social, assumir, enfim, o
encargo deste futuro coletivo que se preanuncia difícil é uma tarefa em que os
cristãos devem participar. A esses homens amontoados numa promiscuidade urbana
que se torna intolerável, é necessário levar uma mensagem de esperança,
mediante uma fraternidade vivida e uma justiça concreta que os cristãos,
conscientes desta responsabilidade nova não se deixem descoroçoar, diante da
imensidade amorfa da cidade, mas, ao contrário, recordem-se do profeta Jonas, o
qual longamente percorreu Nínive, a grande cidade, para nela anunciar a Boa
Nova da misericórdia divina, amparado, na sua fraqueza, unicamente pela força da palavra de Deus todo-poderoso. Na Bíblia, a cidade é
freqüentemente apresentada, como sendo de fato o lugar do pecado e do orgulho;
orgulho de um homem que se sente bastante seguro de si, para construir sem Deus
a sua vida, e, mesmo, para se armar, com altivez contra Ele. Mas, aí vem
também Jerusalém, a cidade santa, o lugar de encontro com Deus e a
prefiguração da cidade que vem do alto. (8)
Os jovens
13. Vida urbana e mutação industrial, por outro lado, fazem vir à tona
problemas até agora mal conhecidos. Qual será, por exemplo, neste mundo em
gestação, o lugar dos jovens?
Por toda a parte o diálogo se apresenta difícil entre uma juventude
portadora de aspirações de renovação e, também, de insegurança quanto ao
futuro, e as gerações adultas. Quem não vê que nesse fato se encerra uma
fonte de graves conflitos, de ruptura e de abdicações, mesmo no seio da
família, e uma questão em aberto, pelo que se refere às raízes da autoridade,
da educação, da liberdade e da transmissão de valores e de convicções?
O lugar da mulher
De modo semelhante, em diversos países está sendo objeto de constante
procura e, por vezes, mesmo de reivindicações enérgicas, um estatuto da
mulher, o qual faça cessar a efetiva discriminação existente e estabeleça
relações de igualdade nos direitos e de respeito pela sua dignidade. Não
falamos, obviamente, daquela falsa igualdade que negasse as distinções
estabelecidas pelo mesmo Criador e que estivesse em contradição com o papel
específico e, quantas vezes capital, da mulher no coração do lar e, também na sociedade. A evolução das
legislações deve, ao
contrário, orientar-se no sentido de proteger a sua vocação própria e, ao
mesmo tempo, de reconhecer a sua independência, enquanto pessoa, e a igualdade
dos seus direitos a participar na vida cultural, econômica, social e política.
Os trabalhadores
14. A Igrej a repetiu-o solenemente, durante o recente Concílio Ecumênico:
"A pessoa humana é e deve ser o princípio, o sujeito e o fim de todas as
instituições sociais". (9) Todo o homem tem direito ao trabalho, à
possibilidade de desenvolver as próprias qualidades e a sua personalidade no
exercício da profissão abraçada, a uma remuneração equitativa que lhe
permita, a ele e à sua família, "cultivar uma vida digna no aspecto
material, social, cultural e espiritual", (10) à assistência em caso de
necessidade, quer esta seja proveniente de doença ou da idade.
Se é certo que, para a defesa destes direitos, as sociedades democráticas
aceitam o princípio da organização sindical, por outro lado, elas nem sempre
estão abertas para o exercício do mesmo. Deve admitir-se o papel importante
dos sindicatos: eles têm por objetivo a representação das diversas categorias
dos trabalhadores, a sua legítima colaboração no progresso econômico da
sociedade e o desenvolvimento do seu sentido de responsabilidade, para a
realização do bem comum. A sua atividade não está, contudo, isenta de
dificuldades: pode sobrevir a tentação, aqui e além, de aproveitar uma
situação de força, para impor, principalmente mediante a greve - cujo direito, como meio último de defesa permanece, certamente, reconhecido -
condições demasiado gravosas para o conjunto da economia ou do corpo social,
ou para fazer vingar reivindicações de ordem nitidamente política. Quando se
trata de serviços públicos em particular, necessários para a vida cotidiana
de toda uma comunidade, dever-se-á saber determinar os limites, para além dos
quais o prejuízo causado se torna inadmissível.
As vítimas das mudanças
15. Em poucas palavras: alguns progressos foram já feitos, no sentido de
introduzir, no âmago das relações da produção econômica, mais justiça e
mais participação nas responsabilidades. Entretanto, neste campo imenso, muito
resta ainda por fazer. Deste modo, devem prosseguir ativamente a reflexão, a
investigação e as experiências, sob pena de se ficar atrasado, em relação
às legítimas aspirações dos trabalhadores; aspirações essas, que cada vez
se despertam mais, à medida que se desenvolvem a sua formação, a consciência
da própria dignidade e, ainda, o vigor das suas organizações.
O egoísmo e a dominação são
tentações permanentes entre os homens. Por
isso, um discernimento cada vez mais apurado torna-se necessário para captar,
na sua origem, as situações nascentes de injustiça e instaurar
progressivamente uma justiça menos imperfeita. Na mutação industrial, que
exige uma adaptação rápida e constante, aqueles que virão a encontrar-se
lesados tornar-se-ão mais numerosos e mais desfavorecidos para fazerem ouvir a
própria voz. A atenção da Igreja volta-se para estes novos "pobres"
- inválidos, inaptos para a vida social, ou velhos ou segregados por várias
causas - para ir ao encontro deles, ajudá-los e defender-lhes o lugar e a
dignidade numa sociedade endurecida pela competição e pela fascinação do
êxito.
As discriminações
16. No número das vítimas de situações de injustiça se bem que o
fenômeno, infelizmente, não seja novidade - devem-se colocar aqueles que são
objeto de discriminações, de direito ou de fato, por motivo da sua raça, da
sua origem, da sua cor, da sua cultura, do seu sexo ou da sua religião.
A discriminação racial reveste-se, neste momento, de um cunho de maior
atualidade, em virtude da tensão que ela faz nascer, tanto no interior de
alguns países, como mesmo no plano internacional. Com razão os homens
consideram injustificável e rejeitam como inadmissível a tendência para
manter ou introduzir uma legislação ou tipos de comportamento,
sistematicamente inspirados por preconceitos racistas: os membros da humanidade
compartilham a mesma natureza e, por conseqüência, a mesma dignidade, com os
mesmos direitos e os mesmos deveres fundamentais, assim como o mesmo destino
sobrenatural. Dentro da mesma pátria comum, todos devem ser iguais perante a
lei, poder encontrar um acesso igual à vida econômica, cultural, cívica ou
social, e beneficiar de uma equitativa repartição da riqueza nacional.
Direito à emigração
17. O nosso pensamento vai também para a
situação precária de um grande
número de trabalhadores emigrados, cuja condição de estrangeiros lhes torna
assaz difícil toda a reivindicação social, da sua parte, não obstante a sua
real participação no esforço econômico do país que os acolhe. E urgente que
se procure superar, em relação a eles, uma atitude estritamente nacionalista,
a fim de lhes criar um estatuto que reconheça um direito à emigração,
favoreça a sua integração e lhes facilite a própria promoção profissional e lhes permita o acesso a uma habitação decente, em que
possam vir a juntar-se-lhes, se for o caso, as suas famílias.(11)
Têm uma certa relação com esta categoria as populações que, para poderem
encontrar trabalho, escapar a uma catástrofe ou a um clima hostil, abandonam as
suas próprias regiões e, depois, vêm a encontrar-se desenraizadas nas outras
para onde se deslocam.
É dever de todos, e especialmente dos
cristãos, (12) trabalhar energicamente,
para ser instaurada a fraternidade universal, base indispensável de uma
justiça autêntica e condição de uma paz duradoura: "Não podemos
invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos
alguns homens, criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação
do homem para com Deus Pai e a sua relação para com os outros homens seus
irmãos, que a Escritura afirma: quem não ama, não conhece a Deus (1Jo
4,8)".(13)
Criar postos de trabalho
18. Com o crescimento demográfico, muito acentuado sobretudo nas
nações
jovens, o número daqueles que não conseguem encontrar trabalho e se vêem
obrigados a levar uma vida de miséria ou de parasitismo irá aumentar nos
próximos anos, a menos que um rebate da consciência humana não venha a
desencadear um movimento geral de solidariedade, para uma política eficiente de
investimentos, de organização da produção e da comercialização, e, de
igual modo, de formação. É do nosso conhecimento a atenção que se está
dispensando a estes problemas pelas instituições internacionais; assim,
resta-nos formular votos ardentes para que
não tarde o dia em que os seus membros
possam conformar os próprios atos com as suas declarações. Constitui motivo
de inquietação o verificar, neste campo, uma espécie de fatalismo que se
apodera mesmo dos responsáveis. Um tal sentimento leva, por vezes, a soluções
malthusianas apregoadas por uma propaganda ativa em favor da anticoncepção e
do aborto. Nesta situação crítica, é preciso afirmar, ao contrário, que a
família, sem a qual nenhuma sociedade pode subsistir, tem direito àquela
assistência que lhe assegure as condições para uma sã expansão. "É
certo, dizíamos na nossa Encíclica Populorum Progressio, que os poderes
públicos, nos limites da sua competência, podem intervir, promovendo uma
informação apropriada e tomando medidas adequadas, desde que estas sejam
conformes às exigências da lei moral e respeitem a justa liberdade dos
cônjuges. Sem direito inalienável ao matrimônio e à procriação, não
existe dignidade humana".(14)
19. Jamais, em época alguma, o apelo à imaginação
social foi assim tão
explícito. Impõe-se consagrar a esta causa, esforços de invenção e capitais
tão importantes como os que são consagrados ao armamento ou às conquistas
tecnológicas. Se o homem se deixar ultrapassar e não prever a tempo e horas a
emergência dos novos problemas sociais, estes tornar-se-ão demasiado graves
para poder esperar-se para eles uma solução pacífica.
Os meios de comunicação social
20. Entre as mudanças maiores do nosso tempo, nós
não queremos deixar de
salientar a importância crescente que assumem os meios de comunicação social
e o seu influxo na transformação das mentalidades, dos conhecimentos, das organizações e
da própria sociedade. Eles têm sem dúvida muitos aspectos positivos: graças
a eles, chegam até nós, quase instantaneamente, as informações do mundo
inteiro, criando um contacto que elimina as distâncias e elementos de unidade
entre todos os homens, e facultando uma difusão mais extensa da formação e da
cultura.
Entretanto, estes mesmos meios de comunicação social, pela sua própria
ação, chegam a representar como que um novo poder. E como não interrogar-se,
então, sobre os detentores reais de tal poder, sobre as finalidades que eles
intentam, sobre os meios que eles adotam e, enfim, sobre a repercussão da sua
mesma ação, quanto ao exercício das liberdades individuais, tanto no domínio
político e ideológico, como na vida social, econômica e cultural? Os homens
que detêm este poder carregam uma grave responsabilidade moral no que diz
respeito à verdade das informações que devem difundir, no que diz respeito
às necessidades e às reações que eles suscitam e, ainda, aos valores que
eles propôem.
Mais ainda: com a televisão é um modo original de conhecimento e uma nova
civilização que se esboça, a da imagem.
Naturalmente os poderes públicos não podem ignorar a potência crescente e
influência dos meios de comunicacão social, bem como as vantagens e riscos que
o seu uso comporta para a comunidade civil, e, ainda, o seu desenvolvimento e
real aperfeiçoamento.
Sâo eles, portanto, chamados a desempenhar a própria
função positiva de
serviço ao bem comum, encorajando todas as expressões construtivas, auxiliando
cada um dos cidadãos e dos grupos, na defesa dos valores fundamentais da pessoa
e da convivência humana e, também, atuando de tal maneira que se evite,
oportunamente, o difundir-se de tudo aquilo que vá atingir o patrimônio comum dos
valores sobre os quais se funda o progresso civil bem ordenado.(15)
O meio ambiente
21. À medida que o horizonte do homem assim se modifica, a partir das
imagens que se selecionam para ele, uma outra transformação começa a fazer-se
sentir, conseqüência tão dramática quanto inesperada da atividade humana. De
um momento para outro, o homem toma consciência dela: por motivo da
exploração inconsiderada da natureza, começa a correr o risco de destruí-la
e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação. Não só já o ambiente
material se torna uma ameaça permanente, poluições e lixo, novas doenças,
poder destruidor absoluto; é mesmo o quadro humano que o homem não consegue
dominar, criando assim, para o dia de amanhã, um ambiente global, que poderá
tornar-se-lhe insuportável. Problema social de envergadura, este, que diz
respeito à inteira família humana.
O cristão deve voltar-se para estas perspectivas novas, para assumir a
responsabilidade, juntamente com os outros homens, por um destino, na realidade,
já comum.
II. ASPIRAÇÕES FUNDAMENTAIS E CORRENTES DE IDÉIAS
22. Ao mesmo tempo que o progresso científico e técnico continua alterando
profundamente a paisagem do homem, bem como os seus próprios modos de conhecer,
de trabalhar, de consumir e de ter relações, exprime-se, cada vez mais nítida, nestes novos contextos, uma dupla aspiração, mais viva à
medida que se desenvolvem a sua informação e a sua educação: a aspiração
à igualdade e a aspiração à participação; trata-se de dois aspectos da
dignidade do homem e da sua liberdade.
Vantagens e limitações dos reconhecimentos jurídicos
23. No sentido de
poder vir a ser inscrita na ordem da ação prática e nas estruturas esta dupla
aspiração, alguns progressos foram feitos já, tanto no enunciado dos direitos
do homem, como na procura de estabelecer acordos internacionais para a
aplicação destes direitos.(16) Mas, entretanto, as discriminações, étnicas,
culturais, religiosas, políticas,... renascem continuamente. Na realidade, os
direitos humanos permanecem ainda muitíssimas vezes sem serem reconhecidos, se
não são mesmo ludibriados, ou então, o respeito que se lhes vota é puramente
formal. Em muitos casos a legislação acha-se atrasada, em relação às
situações reais. Depois, muito embora necessária, ela demonstra-se
insuficiente para estabelecer verdadeiras relações de justiça e de igualdade.
O Evangelho, ao ensinar-nos a caridade inculca-nos o respeito privilegiado pelos
pobres e faz-nos ver a sua situação particular na sociedade: os mais
favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poder colocar, com
mais liberalidade, os seus bens ao serviço dos outros. Se, efetivamente, para
além das regras jurídicas, falta um sentido profundo do serviço de outrem,
mesmo a legalidade perante a lei poderá servir de álibi para flagrantes
discriminações, para se manterem explorações e para um desprezo efetivo. Sem
uma renovada educação, no que se refere à solidariedade, uma excessiva
afirmação da igualdade pode dar azo a um individualismo em que cada qual reivindica os seus direitos, sem querer ser responsável pelo
bem comum.
Quem não vê a contribuição capital, neste campo, do espírito cristão,
o qual, de resto, vai ao encontro das aspirações do homem a ser amado? "O
amor do homem, primeiro valor da ordem terrestre", garante as condições
da paz, tanto social como internacional, ao afirmar a nossa fraternidade
universal. (17)
A sociedade política
24. A dupla aspiração à igualdade e à participação procura promover um
tipo de sociedade democrática. Diversos modelos foram propostos e alguns deles
ensaiados; nenhum deles, porém, proporciona completa satisfação; e, por isso,
a busca permanece aberta, entre as tendências ideológicas e pragmáticas. O cristão tem o dever de participar também ele nesta busca diligente, na
organização e na vida da sociedade política. Ser social, o homem, constrói o
seu destino numa série de grupos particulares que exigem, como seu complemento
e como condição necessária para o próprio desenvolvimento, uma sociedade
mais ampla, de características universais, a sociedade política. Toda a
atividade privada deve enquadrar-se nesta sociedade ampliada e toma, por isso
mesmo, a dimensão do bem comum (18). Isto, de per si, já diz bem qual a
importância de uma educação para a vida em sociedade, em que, para além da
informação sobre os direitos de cada um, seja recordado também o seu
necessário correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em relação
aos outros. O sentido e a prática do dever são, por sua vez, condicionados pelo domínio de si mesmo,
pela aceitação das responsabilidades e das limitações impostas ao exercício
da liberdade do indivíduo ou do grupo.
25. A ação politica - será necessário acentuar que se trata
prevalentemente de uma ação e não de uma ideologia? - deve ter como base de
sustentação um esquema de sociedade, coerente nos meios concretos que escolhe
e na sua inspiração, que deve alimentar-se numa concepção plena da vocação
do homem e das suas diferentes expressões sociais. Não compete nem ao Estado,
nem sequer aos partidos políticos, que estariam fechados sobre si mesmos,
procurar impor uma ideologia, por meios que viessem a redundar em ditadura dos
espíritos, a pior de todas. É sim aos grupos culturais e religiosos -
salvaguardada a liberdade de adesão que eles pressupõem - que assiste o direito
de, pelas suas vias próprias e de maneira desinteressada, desenvolverem no
corpo social essas convicções supremas acerca da natureza, da origem e do fim
do homem e da sociedade.
Neste ponto, é oportuno recordar o princípio proclamado no recente
Concílio Vaticano II: "A verdade não se impõe de outro modo senão pela
sua própria força de verdade, que penetra nos espíritos, ao mesmo tempo suave
e fortemente".(19)
Ideologias e liberdade humana
26. Também para o cristão é válido que, se ele quiser viver a sua fé
numa ação política, concebida como um serviço, não pode, sem se contradizer
a si mesmo, aderir a sistemas ideológicos ou políticos que se oponham
radicalmente, ou então nos pontos essenciais, à sua mesma fé e à sua concepção do homem: nem à ideologia marxista, ou ao seu
materialismo ateu, ou à sua dialética da violência, ou, ainda, àquela
maneira como ele absorve a liberdade individual na coletividade, negando,
simultaneamente, toda e qualquer transcendência ao homem e à sua história,
pessoal e coletiva, nem à ideologia liberal, que crê exaltar a liberdade
individual, subtraindo-a a toda a limitação, estimulando-a com a busca
exclusiva do interesse e do poderio e considerando, por outro lado, as
solidariedades sociais como conseqüências, mais ou menos automáticas, das
iniciativas individuais e não já como um fim e um critério mais alto do valor
e da organização social.
27. Será necessário sublinhar a possível ambigüidade de toda e qualquer
ideologia social? Umas vezes, elas reduzem a ação política ou social, a ser
simplesmente a aplicação de uma idéia abstrata, puramente teórica; outras
vezes, é o pensamento que se torna instrumento ao serviço da ação, como um
simples meio de uma estratégia. Em ambos os casos não será o homem que corre
o risco de ficar alienado? A fé cristã situa-se num plano superior e, algumas
vezes, oposto ao das ideologias, na medida em que ela reconhece Deus,
transcendente e criador, o qual interpela o homem como liberdade responsável,
através de toda a gama do criado.
28. Existiria o perigo também de aderir a uma ideologia que não tem na sua
base uma doutrina verdadeira e orgânica e de refugiar-se nela como se se
tratasse de uma explicação cabal e suficiente de tudo, e de arranjar, de tal
modo, para si mesmo, um novo ídolo, de que se aceita, por vezes sem disso dar-se
conta, o caráter totalitário e constrangedor. E pensa-se encontrar nisso uma
justificação para o próprio agir, mesmo que este seja violento, uma
adequação para um desejo generoso de serviço; este permanece, mas deixa-se absorver numa ideologia que, muito
embora proponha certas vias de libertação para o homem, acaba finalmente por
escravizá-lo.
29. Se em nossos dias se tornou possível falar de um recuo das ideologias,
isso pode indicar que chegou um tempo favorável para uma abertura para a
transcendência concreta do cristianismo; entretanto, isso pode ser também o
deslize mais acentuado para um novo positivismo: a técnica universalizada como
forma dominante de atividade, como um modo avassalador de existir, mesmo como
linguagem, sem que o problema do seu significado seja realmente posto.
Os movimentos históricos
30. Mas fora deste positivismo, que reduz o homem a uma só
dimensão - ainda
que esta seja hoje importante - e nisso o mutila, o cristão encontra no seu
agir, movimentos históricos concretos resultantes das ideologias e, por outro
lado, distintos delas. Já o nosso venerável predecessor João XXIII, na Pacem
in terris, demonstrava que é possível fazer esta distinção: "Importa
não identificar, escrevia ele, falsas teorias filosóficas sobre a natureza, a
origem e o fim do universo e do homem, com movimentos históricos, baseados numa
finalidade econômica, social, cultural ou política, embora estes últimos
tenham tido a sua origem e continuem a haurir a sua inspiração nessas teorias
filosóficas. A doutrina, uma vez formulada, é aquilo que é, não muda; ao
passo que os movimentos, dado que têm por objeto condições concretas e
mutáveis da vida, não podem deixar de sofrer o influxo profundo dessa evolução. De resto, na medida em que estes movimentos estão em conformidade
com as normas da reta razão e interpretam as justas aspirações humanas, quem
ousará negar que neles possa haver elementos positivos e dignos de aprovaçâo?"
(20)
A atração das correntes socialistas
31. Há cristãos, hoje em dia, que se sentem atraídos pelas correntes
socialistas e pelas suas diversas evoluções. Eles procuram descobrir aí um
certo número de aspirações, que acalentam em si mesmos, em nome da sua fé.
Em determinado momento têm a sensação de estar inseridos numa corrente
histórica e querem realizar aí a sua ação. Mas sucede que, conforme os
continentes e as culturas, esta corrente histórica assume formas diversas, sob
um mesmo vocábulo; contudo, tal corrente foi e continua a ser, em muitos casos,
inspirada por ideologias incompatíveis com a fé cristã. Impõe-se, por
conseguinte um discernimento atento. Muito freqüentemente, os cristãos
atraídos pelo socialismo têm tendência para o idealizar, em termos muito
genéricos, aliás: desejo de justiça, de solidariedade e de igualdade. Eles
recusam-se a reconhecer as pressões dos movimentos históricos socialistas, que
permanecem condicionados pelas suas ideologias de origem. Entre os diversos
escalões de expressão do socialismo - uma aspiraçâo generosa e uma procura
diligente de uma sociedade mais justa, movimentos históricos que tenham uma
organização e uma finalidade política, ou, ainda, uma ideologia que pretenda
dar uma visão total e autônoma do homem - devem fazer-se distinções, que
hão de servir para guiar opções concretas. No entanto, essas distinções
não devem ir até ao extremismo de considerar esses diversos escalões de
expressão do socialismo como completamente separados e independentes. A ligação concreta que, conforme as circunstâncias, existe entre eles, tem de
ser lucidamente notada; e então, uma tal perspicácia permitirá aos cristãos estabelecer o
grau de compromisso possível nessa causa, salvaguardados os valores,
principalmente, de liberdade, de responsabilidade e de abertura ao espiritual,
que garantam o desabrochamento integral do homem.
Evolução histórica do marxismo
32. Outros cristãos perguntam-se mesmo, se uma evolução histórica do
marxismo não permitiria algumas aproximações concretas. Eles verificam que se
deu, de fato, uma certa explosão do mesmo marxismo, o qual, até agora se
apresentava como uma ideologia unitária, explicativa da totalidade do homem e
do mundo no seu processo de desenvolvimento, e, portanto, atéia. Com efeito,
para além do contraste ideológico que põe frente-a-frente, separando-os
oficialmente entre si, os vários defensores do marxismo-leninismo, com a sua
interpretação prospectiva do pensamento dos fundadores; para além das oposições abertas entre os sistemas políticos que atualmente derivam o nome
desse mesmo pensamento: há alguns que estabelecem distinções entre os
diversos escalões de expressão do marxismo.
33. Para uns, o marxismo continua a ser, essencialmente, uma prática ativa
da luta de classes. Por isso mesmo que têm a experiência vivida da força
sempre presente e a renascer sem cessar, daquelas relações de dominação e de
exploração entre os homens, estes que assim encaram o maxismo reduzem-no
freqüentemente a ser apenas a tal luta, por vezes sem nenhum outro objetivo;
luta que é preciso prosseguir, e até mesmo suscitar, de modo permanente. Para
outros, o marxismo será prevalentemente o exercício coletivo de um poder
político e econômico, sob a direção do partido único, que intenta ser, ele
somente, expressão e garantia do bem de todos, subtraindo aos indivíduos e aos outros grupos toda e qualquer possibilidade de iniciativa e
de escolha. A um terceiro nível, o marxismo, quer esteja no poder, quer não,
é algo que se relaciona com uma ideologia socialista, à base de materialismo
histórico e de negação de tudo o que é transcendente.
Noutra perspectiva, finalmente, o marxismo apresenta-se sob uma forma mais
atenuada e mais sedutora para o espírito moderno: como uma atividade
científica, como um método rigoroso de exame da realidade social e política,
ou ainda, como a ligação racional e experimentada pela história, entre o
conhecimento teórico e a prática da transformação revolucionária. Se bem
que este tipo de análise favoreça determinados aspectos da realidade, em
detrimento dos outros, e os interprete em função da ideologia, ele proporciona
entretanto a alguns, com um instrumento de trabalho, uma certeza preliminar para
a ação: a pretensão de decifrar, sob um prisma científico, as molas reais da
evolução da sociedade.
34. Se nesta gama do marxismo, tal como ele é vivido concretamente, se podem
distinguir estes diversos aspectos e as questões que eles levantam aos
cristãos para a reflexão e para a ação, seria ilusório e perigoso mesmo,
chegar-se ao ponto de esquecer a ligação íntima que os une radicalmente, e de
aceitar os elementos de análise marxista sem reconhecer as suas relações com
a ideologia, e ainda, de entrar na prática da luta de classes e da sua
interpretação marxista, esquecendo-se de atender ao tipo de sociedade
totalitária e violenta, a que conduz este processo.
A ideologia liberal
35. Por outro lado, assiste-se também a uma renovação da ideologia
liberal. Esta corrente procura afirmar-se tanto em nome da eficiência
econômica, como para defender o indivíduo contra a ação cada vez mais invasora das organizações, como,
ainda, contra as tendências totalitárias dos poderes políticos. E certamente
que a iniciativa pessoal é de conservar e de desenvolver. Mas, os cristãos que
se comprometem nesta linha não terão também eles tendência para idealizar o
liberalismo, o qual se torna então uma proclamação em favor da liberdade?
Eles quereriam um modelo novo, mais adaptado às condições atuais, esquecendo
facilmente de que, nas suas próprias raízes, o liberalismo filosófico é uma
afirmação errônea da autonomia do indivíduo, na sua atividade, nas suas
motivações e no exercício da sua liberdade. Isto equivale a dizer que a
ideologia liberal exige igualmente da parte deles um discernimento atento.
O discernimento cristão
36. Nesta estimativa renovada das ideologias, o cristão haurirá nas fontes
da sua fé e no ensino da Igreja os princípios e os critérios oportunos, para
evitar de deixar-se fascinar e depois aprisionar num sistema, cujas limitações
e cujo totalitarismo ele se arriscará a ver só quando é já demasiado tarde,
se não se apercebe deles nas suas raízes. Contornando, pois, todo e qualquer
sistema, sem por outro lado deixar de se comprometer concretamente, ao serviço
dos seus irmãos, o cristão deve procurar afirmar, no âmago mesmo das suas
opções, aquilo que é específico da contribuição cristã, para uma
tranformação positiva da sociedade (21).
O renascer das utopias
37. Nos nossos dias, aliás, as fraquezas das ideologias são melhor
conhecidas através dos sistemas concretos, nos quais elas procuram passar à
realização prática. Socialismo burocrático, capitalismo tecnocrático e democracia autoritária,
manifestam a dificuldade para resolver o grande problema humano de viver
juntamente com os outros, na justiça e na igualdade. Como poderiam eles, na
verdade, evitar o materialismo, o egoísmo ou a violência que, fatalmente, os
acompanham? Donde, uma contestação que começa a aparecer, mais ou menos por
toda a parte, indício de um mal-estar profundo, ao mesmo tempo que se assiste
ao renascer daquilo que se convencionou chamar as utopias. Estas pretendem
resolver melhor do que as ideologias o problema político das sociedades
modernas. Seria perigoso deixar de reconhecer que o apelo à utopia não passa
muitas vezes de pretexto cômodo para quem quer esquivar as tarefas concretas e
refugiar-se num mundo imaginário. Viver num futuro hipotético é um álibi
fácil para poder alijar as responsabilidades imediatas. Entretanto, é
necessário reconhecê-lo, esta forma de crítica da sociedade existente provoca
muitas vezes a imaginação prospectiva para, ao mesmo tempo, perceber no
presente o possível ignorado, que aí se acha inscrito, e para orientar no
sentido de um futuro novo; ela apóia, deste modo, a dinâmica social pela
confiança ela dá às forças inventivas do espírito e do coração humano; e,
se não rejeita nenhuma abertura, ela pode encontrar também o apelo cristão.
Na verdade, o Espírito do Senhor, que anima o homem renovado em Cristo,
altera sem cessar os horizontes onde a sua inteligência gostaria de encontrar
segurança e onde de bom grado a sua ação se confinaria: uma força habita no
mesmo homem que o convida a superar todos os sistemas e todas as ideologias. No
coração do mundo permanece o mistério do próprio homem, o qual se descobre filho de Deus, no decurso de um processo histórico e psicológico em que lutam
e se alternam violências e liberdade, peso do pecado e sopro do Espírito.
O dinamismo da fé cristã triunfa
então dos cálculos mesquinhos do
egoísmo. Animado pela virtude do Espírito de Jesus Cristo, Salvador dos homens,
apoiado pela esperança, o cristão compromete-se na construção de uma cidade
humana, pacífica, justa e fraterna, que possa ser uma oferenda agradável a
Deus.(22) Efetivamente, "a expectativa de uma terra nova não deve
enfraquecer, mas antes estimular em nós a solicitude em cultivar essa terra,
onde cresce o corpo da nova família humana, que já consegue apresentar uma
certa prefiguração do século vindouro" (23).
A interrogação das ciências sobre o homem
38. Neste mundo, dominado pela mutação científica e técnica, que corre o
risco de se deixar arrastar para um novo positivismo, uma outra dúvida se
levanta, mais essencial. Depois de se ter submetido racionalmente a natureza,
eis que é o próprio homem que se acha como que encerrado, ele mesmo, na sua
racionalidade; também ele se torna objeto de ciências. As "ciências
humanas" estão hoje colhendo triunfos significativos. Por uma parte, elas
submetem a um exame crítico e radical os conhecimentos aceitos até agora,
acerca do homem, por isso mesmo que estes se lhes apresentam ou como demasiado
empíricos, ou como demasiado teóricos. Por outro lado, a necessidade
metodológica e o "a-priori" ideológico levam-nas, muitas vezes, a
isolar, de entre as situações mais variadas, alguns aspectos do homem e a
dar-lhes, não obstante, uma explicação que pretende ser global ou ao menos
uma interpretação que desejaria, ser totalizante, a partir de um ponto de
vista meramente quantitativo ou fenomenológico. Esta redução científica deixa transparecer uma
pretensão
perigosa. Favorecer assim determinado aspecto da análise, é mutilar o homem e,
sob a aparência de um processo científico, torna-se incapaz de o compreender
na sua totalidade.
39. É necessário que não se dispense menos atenção também à ação que
as "ciências humanas" podem suscitar, ao darem origem à elaboração
de modelos sociais, que se quereria em seguida impor como tipos de comportamento,
cientificamente comprovados. Assim sendo, o homem pode tornar-se objeto de
manipulações, que orientem os seus desejos e as suas necessidades e modifiquem
os seus comportamentos até mesmo o seu sistema de valores. Não resta nenhuma
dúvida que nisso se encerra um perigo grave para as sociedades de amanhã e
para o mesmo homem. Porque, se porventura todos se põem de acordo para
construir uma sociedade nova, para vir a estar ao serviço do homem, ainda resta
saber de qual homem se trata.
40. A suspeição das "ciências humanas" atinge o cristão mais do
que quaisquer outros, mas não o encontra desprevenido. Por isso mesmo que,
conforme escrevíamos na Encíclica Populorum progressio, é nesse ponto preciso
que se situa a contribuição específica da Igreja para as civilizações:
"Comungando as melhores aspirações dos homens e sofrendo por os ver
insatisfeitos, a Igreja deseja ajudá-los a alcançar o seu desenvolvimento pleno;
e, por isso, propõe-lhes o que ela possui como próprio: uma visão global do
homem e da humanidade".(24)
Seria o caso, então, de a Igreja contestar as "ciências humanas"
e denunciar as suas atividades e a sua pretensão? Como sucede para as ciências
da natureza, a Igreja deposita confiança nesta
investigação e convida os cristãos a
procurarem estar ativamente presentes nela.(25)
Animados pela mesma exigência científica e pelo desejo de melhor conhecer o
homem, mas ao mesmo tempo iluminados pelo vivo impulso da sua fé, os cristãos
que se aplicam às "ciências humanas" devem procurar estabelecer um
diálogo que se preanuncia frutuoso, entre a Igreja e esse campo novo de
descobertas. Obviamente cada uma das disciplinas científicas não poderá
captar, na sua particularidade, senão um aspecto parcial, mas verdadeiro, do
homem; a totalidade e o sentido porém, escapam-lhe. Entretanto dentro de tais
limites, as "ciências humanas" garantem uma função positiva que a
Igreja de bom grado reconhece. Elas podem mesmo alargar as perspectivas da
liberdade humana, abrindo-lhe um campo mais vasto, que os condicionamentos até
agora notados não lhe deixariam sequer prever. Elas poderiam ajudar também a
moral social cristã, a qual verá o seu campo limitar-se sempre que se trata de
propor alguns modelos sociais como melhores; ao passo que a sua posição
crítica e de transcendência sairá reforçada, ao mostrar o caráter relativo
dos comportamentos e dos valores que determinada sociedade apresentava como
definitivos e inerentes à própria natureza do homem. Condição, ao mesmo
tempo indispensável e insuficiente, para uma melhor descoberta do humano, estas
ciências são uma linguagem, e cada vez mais complexa, mas que amplia em vez de
diminuir o abismo do mistério do coração do homem e não lhe traz a resposta
completa e definitiva ao desejo que sobe do mais profundo do seu ser.
A ambigüidade do progresso
41. Este conhecimento mais apurado do homem faculta uma crítica mais
perfeita e esclarece uma noção fundamental, que permanece na base das
sociedades modernas, ao mesmo tempo como móbil, como medida e como objetivo: o
progresso.
A partir do século XIX para cá, as sociedades ocidentais, e muitas outras,
ao tomar contacto com elas, depositaram a sua esperança num progresso sem
cessar renovado e indefinido. Este progresso assim aparecia-lhes como o esforço
de libertação do homem, pelo que respeita às necessidades da natureza e às
pressões sociais, era como que a condição e a medida da liberdade humana.
Difundido pelos modernos meios de informação e pela solicitação de saber e
de consumo mais espalhada, o progresso tornou-se uma ideologia onipresente. No
entanto, em nossos dias uma dúvida se levanta, tanto sobre o seu valor, como
sobre as suas possibilidades de êxito. O que significa, realmente, esta busca
inexorável de um progresso, que parece escapar-se sempre que se pensa tê-lo
alcançado? Não dominado, o progresso deixa atrás de si a insatisfação. Com
toda a razão, sem dúvida, se denunciaram já tanto as limitações como os
efeitos perniciosos de um crescimento econômico puramente quantitativo e se
auspicia alcançar também os objetivos de ordem qualitativa. A qualidade e a
verdade das relações humanas, o grau de participação e de responsabilidade
não são menos significativos e importantes para o devir da sociedade do que a
quantidade e a variedade dos bens produzidos e consumidos. Superando a
tentação de medir tudo em termos de eficiência e de intercâmbios e em
relações de forças e de interesses, o homem deseja hoje substituir cada vez
mais estes critérios quantitativos, pela intensidade da comunicação, pela
difusão dos conhecimentos e das culturas, pelo serviço recíproco e pela boa
harmonia para levar por diante uma tarefa comum.
O verdadeiro progresso não estará,
por acaso, num desenvolvimento da consciência moral que leve o homem a assumir
o encargo das solidariedades ampliadas e a abrir-se livremente para os outros e
para Deus? Para um cristão, o progresso encontra-se necessariamente com o
mistério escatológico da morte: a morte de Cristo e a sua ressurreição e o
impulso do Espírito do Senhor, ajudam o homem a situar a sua própria liberdade
criadora e reconhecida, na verdade de todo o progresso e na esperança que não
ilude.(26)
OS CRISTÃOS PERANTE ESTES NOVOS PROBLEMAS
Dinamismo da doutrina social da Igreja
42. Diante de tantas questões novas, a Igreja procura fazer um esforço de
reflexão, para poder dar uma resposta, no seu campo próprio, à expectativa
dos homens. Se os problemas hoje, por um lado, se apresentam como originais,
dada a sua amplitude e a sua urgência, será que, por outro, o homem se acha
desprovido para os resolver? A doutrina social da Igreja, com toda a sua
dinâmica, acompanha os homens em tal busca diligente. Se ela não intervém
para autentificar uma estrutura estabelecida ou para propor um modelo
pré-fabricado, também não se limita a recordar alguns princípios gerais. Ao
contrário, ela é algo que se desenvolve por meio de uma reflexão que é feita
em permanente contacto com as situações deste mundo, susceptíveis de
mudanças, sob o impulso do Evangelho, qual fonte de renovação, enquanto que a
sua mensagem é aceita na sua totalidade e nas suas exigências. Tal doutrina desenvolve-se também, com a responsabilidade própria da mesma
Igreja, marcada por uma vontade desinteressada de serviço e por uma especial
atenção aos mais pobres; e inspira-se finalmente, ainda, numa experiência
rica, de muitos séculos, que lhe permite empreender na continuidade das suas
preocupações permanentes, as inovações ousadas e criadoras que a presente
situação do mundo exige. .
Para uma maior justiça
43. Deve ser instaurada uma maior justiça pelo que se refere à repartição
dos bens, tanto no interior das comunidades nacionais, como no plano
internacional. Nas transações mundiais é necessário superar as relações de
forças, para se chegar a pactos favoráveis, em vista do bem de todos. As
relações de força jamais estabeleceram de fato a justiça de maneira
duradoura e verdadeira, se bem que, muitas vezes, o alternar-se das posições
permite encontrar condições mais fáceis de diálogo. O uso da força, de
resto, suscita da outra parte o pôr em prática forças adversas, donde um
clima de lutas que dá azo a situações extremas de violência e a abusos.(27)
Mas, conforme já o temos afirmado muitas vezes, o dever mais importante da
justiça é o de permitir a cada país promover o seu próprio desenvolvimento,
no sistema de uma cooperação isenta de todo o espírito de domínio,
econômico e político. Certamente que a complexidade dos problemas levantados
é grande no emaranhado atual das interdependências. Impõe-se também ter a
coragem necessária para empreender uma revisão das relações entre as
nações, quer se trate de repartição internacional da produção, de
estrutura das permutas, de verificação dos lucros, de sistema monetário, -
sem esquecer as ações de solidariedade humanitária - de pôr em questão os
modelos de crescimento das nações ricas, para transformar as mentalidades
abrindo-as no sentido da prioridade do dever internacional e para renovar os
organismos internacionais, em vista de uma maior eficácia.
44. Sob o impulso dos novos sistemas de produção, as fronteiras nacionais
explodem e vê-se aparecerem novas potências econômicas, as empresas
plurinacionais, que, dada a concentração e a flexibilidade dos seus meios
podem levar por diante estratégias autônomas, em boa parte independentes dos
poderes políticos nacionais, e, portanto, sem controle sob o ponto de vista do
bem comum. Ao estender as suas atividades, estes organismos privados podem
conduzir a uma nova forma abusiva de dominação econômica no campo social,
cultural e político. A concentração excessiva dos meios e dos poderes, que
era já denunciada por Pio XI, no 40°- aniversário da Rerum Novarum, reveste-se
de um novo aspecto concreto.
Mudança de estruturas
45. Hoje em dia, os homens aspiram a libertar-se da necessidade e da
dependência. Mas uma semelhante libertação começa pela liberdade interior
que eles devem saber encontrar, defronte aos seus bens e aos seus poderes; eles
não chegarão todavia a isso senão mediante um amor transcendente para com o
homem e uma disponibilidade efetiva de serviço. De outro modo, está bem claro,
as ideologias mais revolucionárias não têm como resultado senão uma mudança
de patrões; instalados por sua vez no poder, estes novos patrões rodeiam-se de
privilégios, limitam as liberdades e instauram novas formas de injustiça.
Além disso, muitos chegam hoje a pôr-se o problema do modelo mesmo de
sociedade. A ambição de várias nações, na competição que as opõe e as
arrasta, é a de chegarem a atingir o poderio tecnológico, econômico e militar;
tal ambição opõe-se, portanto, à criação de estruturas, em que o ritmo do
progresso seria regulado em função de uma maior justiça, em vez de acentuar
as diferenças e de criar um clima de desconfiança e de luta que continuamente
compromete a paz.
Significado cristão da
ação política
46. Não será neste ponto que se patenteia uma limitação radical da
economia? A atividade econômica, que é necessária, se está ao serviço do
homem, pode "ser fonte de fraternidade e sinal da Providência"; (28) ela
é ocasião de intercâmbios concretos entre os homens, de reconhecimento de
direitos, de serviços que se prestam e da afirmação da dignidade no trabalho.
Apesar de ser freqüentemente terreno de lutas e de dominação, ela pode abrir
as portas ao diálogo e suscitar cooperações. No entanto, - comporta o risco
de absorver excessivamente as forças e a liberdade. (29) É por isso que a
passagem da economia ao campo político se afigura necessária. Sob o termo
"político", naturalmente, são possíveis muitas confusões que devem
ser esclarecidas; entretanto, todos têm mais ou menos a sensação de que nos
domínios sociais e econômicos - tanto nacionais como internacionais - a
decisão última é do poder político.
Este poder, que constitui o vínculo natural e necessário para garantir a
coesão do corpo social, deve ter como finalidade a realização do bem comum.
Assim, deverá ele agir com respeito pelas legítimas liberdades dos indivíduos, das famílias
e dos grupos subsidiários, a fim de criar, eficazmente e para proveito de todos,
as condições requeridas para atingir o bem autêntico e completo do homem,
incluído o seu fim espiritual, deverá desenvolver a sua ação dentro dos
limites da sua competência, que podem ser diversos, conforme os países e os
povos; deverá intervir sempre com uma preocupação de justiça e de
devotamento ao bem comum, pelo qual ele mesmo tem a responsabilidade suprema;
por outro lado, não deve subtrair aos indivíduos e aos grupos intermediários
o campo próprio das suas atividades e das suas responsabilidades, atuando no
qual contribuirão para esse bem comum. Efetivamente, "o objetivo de toda a
intervenção, em matéria social é ajudar os membros do corpo social; e não
destruí-los ou absorvê-los".(30)
Atendo-se, pois, à sua vocação própria, o poder político deve saber
desvincular-se de interesses particulares, para poder encarar a sua
responsabilidade pelo que se refere ao bem de todos os homens, passando mesmo
para além das fronteiras nacionais. Tomar a sério a política, nos seus
diversos níveis, local, regional, nacional e mundial, é afirmar o dever do
homem, de todos os homens de reconhecerem a realidade concreta e o valor da
liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos
o bem da cidade, da nação e da humanidade. A política é uma maneira exigente
- se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço
dos outros. Sem resolver todos os problemas, naturalmente, a mesma política
esforça-se por fornecer soluções, para as relações dos homens entre si. O seu domínio é vasto e abrange muitas coisas,
não é porém, exclusivo; e uma atitude exorbitante que pretendesse fazer da
política algo de absoluto, tornar-se-ia um perigo grave. Reconhecendo muito
embora a autonomia da realidade política, esforçar-se-ão os cristãos,
solicitados a entrarem na ação política, por encontrar uma coerência entre
as suas opções e o Evangelho e, dentro de um legítimo pluralismo, por dar um
testemunho, pessoal e coletivo, da seriedade da sua fé, mediante um serviço
eficaz e desinteressado para com os homens.
Compartilha das responsabilidades
47. A passagem à dimensão política exprime também um requisito atual do
homem: uma maior participação nas responsabilidades e nas decisões. Esta
aspiração legítima manifesta-se sobretudo à medida que se eleva o nível
cultural, que se desenvolve o sentido da liberdade e que o homem se apercebe
melhor de como, num mundo aberto para um futuro incerto, as opções de hoje
condicionam já a vida de amanhã. Assim João XXIII, na Encíclica "Mater
et Magistra" (31) fazia notar que um tal acesso às responsabilidades é uma
exigência fundamental da natureza do homem, um exercício concreto da sua
liberdade, uma via para o desenvolvimento e ademais, indicava como é que na
vida econômica e em particular nas empresas, esta participação nas
responsabilidades devia ser garantida.(32)
Hoje o âmbito de tal participação é mais vasto; ele estende-se também ao
campo social e político, em que igualmente tem de ser instituída e
intensificada uma compartilha razoável nas responsabilidades e nas decisões. É certo que as
alternativas propostas à decisão são cada vez mais complexas; as
considerações a ter em conta são múltiplas e a previsão das conseqüências
é aleatória, se bem que ciências novas se esforcem por iluminar a liberdade
nestes momentos importantes. No entanto, apesar das limitações que por vezes
se impõem, estes obstáculos não devem reprimir uma difusão maior na
comparticipação, na elaboração das decisões, na sua escolha e no pô-las em
prática. Para contrabalançar uma tecnocracia crescente, torna-se necessário
criar formas de democracia moderna, que não somente proporcionem a cada homem a
possibilidade de informar-se e de exprimir-se, mas também que o levem a
comprometer-se numa responsabilidade comum.
Deste modo,
transformar-se-ão os grupos humanos, pouco a pouco, em
comunidades de comparticipação e de vida. A liberdade que se arma muitíssimas
vezes como reivindicação de autonomia em oposição à liberdade de outrem,
desabrochará na realidade humana mais profunda: comprometer-se e
prodigalizar-se, para chegar a construir as solidariedades ativas e vividas.
Mas, para o cristão é perdendo-se em Deus que o liberta, que o homem encontra
uma verdadeira liberdade, renovada na morte e ressurreição do Senhor.
IV APELO À AÇÃO
Necessidade de se comprometer na ação
48. No campo social, a Igreja sempre teve a
preocupação de assumir um duplo
papel: o de iluminar os espíritos, para os ajudar a descobrir a verdade e a
discernir o caminho a seguir no meio das diversas doutrinas que os solicitam; e
o de entrar na ação e difundir, com uma real solicitude de serviço e de eficácia, as energias do Evangelho.
Não foi
porventura para ser fiel a este seu desiderato que a Igreja enviou em missão
apostólica, para o meio dos trabalhadores, sacerdotes, que, compartilhando
integralmente a condição operária, aí são testemunhas da sua solicitude, da
sua diligência e da sua atitude de procura?
É a todos os cristãos que nós dirigimos de novo ainda e de uma maneira
insistente, um apelo à ação. Na nossa Encíclica "Populorum
Progressio" (sobre o Desenvolvimento dos povos), insistíamos já, para que
todos pusessem mãos à obra: "Os leigos devem assumir como sua tarefa
própria a renovação da ordem temporal. Se o papel da Hierarquia consiste em
ensinar e interpretar autenticamente os princípios morais que hão de ser
seguidos neste domínio, pertence aos leigos, pelas suas livres iniciativas e
sem esperar passivamente ordens e diretrizes, imbuir de espírito cristão a
mentalidade e os costumes, as leis e as estruturas da sua comunidade de
vida".(33) Seria bom que cada um procurasse examinar-se, para ver o que é
que já fez até agora e aquilo que deveria fazer. Não basta recordar os
princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e
proferir denúncias proféticas; estas palavras ficarão sem efeito real, se
elas não forem acompanhadas, para cada um em particular, de uma tomada de
consciência mais viva da sua própria responsabilidade e de uma ação efetiva.
E por demais fácil atirar sobre os outros a responsabilidade das injustiças
sem se dar conta ao mesmo tempo de como se tem parte nela, e de como, antes de
tudo o mais, é necessária a conversão pessoal. Esta humildade fundamental
servirá para tirar à ação todo o caráter de intolerância e todo o sectarismo; além disso, ela evitará também o descoroçoamento em
face de uma tarefa que pode aparecer como desmesurada. A esperança do cristão
provém-lhe, antes de mais, do fato de ele saber que o Senhor está operando
conosco no mundo, e que Ele continua no seu Corpo que é a Igreja - e, por esta,
na humanidade inteira - a Redenção realizada sobre a Cruz e que resplandeceu
em vitória na manhã da Ressurreição. (34) Tal esperança provém-lhe igualmente
do fato dele saber que outros homens estão também operando no sentido de se
empreender ações convergentes de justiça e de paz; existe, de fato, por
detrás de uma aparência de indiferença, no coração de cada homem, uma
vontade de vida fraterna e uma sede de justiça e de paz, que importa
simplesmente despertar.
49. Deste modo, na diversidade das situações, das
funções e das organizações, cada um deve individuar a sua própria responsabilidade e
discernir conscienciosamente as ações nas quais está chamado a participar.
Misturadas com as diversas correntes e a par das aspirações legítimas
insinuam-se também orientações ambíguas; por isso, o cristão deve operar
uma seleção e evitar de comprometer-se em colaborações incondicionais e
contrárias aos princípios de um verdadeiro humanismo, mesmo que tais
colaborações sejam solicitadas em nome de solidariedades efetivamente
sentidas. Se ele quiser, de fato, desempenhar um papel específico como
cristão, em conformidade com a sua fé - aquele papel que os próprios não-crentes esperam dele - ele deve velar, no decurso do seu compromisso ativo,
para que as suas motivações sejam sempre esclarecidas, para transcender os
objetivos prosseguidos, com uma visão mais compreensiva, a qual lhe servirá para evitar o escolho dos particularismos egoístas e dos
totalitarismos opressores.
Pluralismo das opções
50. Nas diferentes situações concretas e tendo presentes as solidariedades
vividas por cada um, é necessário reconhecer uma variedade legítima de
opções possíveis. Uma mesma fé cristã pode levar a assumir compromissos
diferentes.(35) A Igreja convida todos os cristãos para uma dupla tarefa, de
animação e de inovação, a fim de fazer evoluir as estruturas, para as
adaptar às verdadeiras necessidades atuais. Aos cristãos que parecem à
primeira vista opôr-se entre si, em virtude de opções diferentes, ela pede um
esforço de compreensão recíproca das posições e das motivações uns dos
outros; um exame leal dos seus comportamentos e da sua retidão sugerirá a cada
um uma atitude de caridade mais profunda, a qual, reconhecendo muito embora as
diferenças, não acredita menos nas possibilidades de convergência e de
unidade. "Aquilo que une os fiéis é de fato mais forte do que aquilo que
os separa".(36)
É certo que muitos, inseridos nas estruturas e nos condicionamentos
modernos, são determinados pelos seus hábitos de pensar, pelas suas funções,
quando não mesmo pela salvaguarda de interesses materiais. Outros vivem tão
intensamente as solidariedades, de classes e de culturas, que chegam a comungar
sem reservas todos os modos de julgar e todas as opções do seu meio ambiente.(37) Cada um deve ter muito a peito o examinar-se a si mesmo e o fazer
brotar em si aquela liberdade verdadeira segundo Cristo, que abra para uma visão universal, no meio dos
condicionamentos mais particulares.
51. É neste ponto também que as organizações
cristãs, sob as suas formas
diversas, têm igualmente uma responsabilidade de ação coletiva. Sem se
substituir às instituições da sociedade civil, devem elas refletir, à sua
maneira própria e transcendendo a sua mesma particularidade, as exigências
concretas da fé cristã para uma transformação justa e, por conseqüência,
necessária, da sociedade.(38)
Hoje, mais do que nunca, a Palavra de Deus não poderá ser anunciada e
ouvida senão na medida em que ela for acompanhada do testemunho do poder do
Espírito Santo, que opera na ação dos cristãos ao serviço dos seus irmãos,
justamente nos pontos onde se joga a sua existência e o seu futuro.
52. Ao contar-lhe assim estas
reflexões, nós temos sem dúvida a
consciência, Senhor Cardeal, de não ter acenado a todos os problemas sociais
que se levantam hoje, ao homem de fé e aos homens de boa vontade. As recentes
declarações que temos tido ocasião de fazer, - às quais se junta a sua
Mensagem, por ocasião do lançamento do Segundo Decênio do Desenvoluimento, -
aquelas sobretudo que concernem aos deveres do conjunto das nações no que diz
respeito à grave questão do desenvolvimento integral e solidário do homem,
estão ainda presentes nos espíritos. Estas que lhe dirigimos com a presente,
querem fornecer ao Conselho dos Leigos e à Comissão Pontifícia "Justiça
e Paz" novos elementos, juntamente com um encorajamento, para a prossecução da sua tarefa de
"despertar o Povo de Deus para uma inteligência plena do seu papel na
hora atual" e de "promoção do apostolado no plano
internacional".(39)
É com estes sentimentos que lhe damos, Senhor Cardeal, a nossa bênção
apostólica.
Roma, junto de São Pedro,
l14 de maio de 1971, ano VIII do nosso pontificado
PAULUS PP. VI
Notas
1. Cf. Conc. Ecum. do Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes,
10, AAS 58
(1966), p.1033.
2.
AAS 23 (1931), p. 209 ss.
3. AAS 53 (1961), p. 429.
4. AAS 59 (1967), p. 258.
5. Ibid., l: p. 257.
6. Cf. 2Cor. 4,17.
7. Cf. Enc.
Populorum
Progressio, 25: AAS 59 (1967) pp. 269-270.
8. Cf. Ap 3,12; 21,2.
9.
Conc. Ecum. Vaticano II,
Const. Past.
Gaudium et Spes, AAS 58 (1966), p.
1045.
10. Ibid. 67; p.1089.
11. Cf. Enc.
Populorum Progressio, 69: AAS 59 (1967) pp. 290-291.
12. Cf. Mt
25,35.
13. Conc. Ecum. Vaticano II, Decl. Nostrae
Aetate, 5: AAS 58 (1966), p. 743.
14. AAS 59 (1967), p. 276.
15. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Decr.
Inter Mirifica, 12: AAS 56 (1964), p.149
16. Cf. Enc.
Pacem in
Terris, AAS 55 (1963), p. 261 ss.
17. Cf.
Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1971: AAS 63 (1971), pp. 5-9.
18. Cf Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes, 74: AAS 58
(1966), pp.1095-1096.
19. Idem, Decl.
Dignitatis Humanae, l: AAS 58 (1966) p. 930.
20. AAS 55 (1963) p. 300.
21. Cf
.Conc. Ecum.Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes, 11: AAS 58
(1966), p.1033.
22. Cf. Rom 15,16.
23. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past. Gaudium et
Spes, 39: AAS 58 ( 1966),
p.1057.
24. 13: AAS 59 (1967), p. 264.
25. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes, 36: AAS 58
(1966), p.1054.
26. Cf.
Rom 5,5.
27. Cf.
Enc. Populorum
Progressio, 56 ss.: AAS 59 (1969), p. 285 ss.
28. Ibidem, 86: p. 299.
29. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes, 63: AAS 58
(1966), p.1085.
30. Enc.
Quadragesimo Anno: AAS 23 (1931), p. 203; cf. Enc. Mater et Magistra;
AAS 53 (1961), pp. 414, 428; Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past. Gaudium et
Spes, 74,75,76: AAS 58 (1966), pp.1095-1100.
31. AAS 53 (1961), pp. 420-422.
32. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past.
Gaudium et Spes, 68, 75: AAS 58
(1966), pp.1089-1090;1097.
33. AAS 59 (1967), pp. 296-297. 34.
Mt 28,30; Fl 2,8-11.
35. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Past. Gaudium et
Spes, 43: AAS 58
(1966), p.1061.
36. Ibidem, 93; 43: pp.1061;1113.
37.
1Tes 5,21.
38. Cf. Conc. Ecum. Vaticano II,
Const. Dogm. Lumen
Gentium, 31: AAS 57 (1965),
pp. 37-38; Decr.
Apostolicam Actuositatem, 5: AAS 58 (1966), p. 842.
39. Carta Apostólica "Motu Proprio"
Catholicam Christi Ecclesiam: AAS
59 (1967), p. 27 e 26.
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