O Rosário e os males do nosso tempo
2. E hoje, como que acolhendo a mesma voz
da amorosíssima Mãe, com a qual ela nos repete: "Clama, nunca te canses",
apraz-nos tornar a falar-vos, Veneráveis Irmãos, do Rosário mariano, agora que
se aproxima o mês de Outubro: mês que quisemos consagrado a esta cara devoção, e
que enriquecemos com os tesouros das santas indulgências. A Nossa palavra,
todavia, não terá o fim imediato de tributar novos louvores a uma oração já, por
si mesma, tão excelente, nem de estimular os fiéis a praticá-la com sempre maior
fervor; falaremos, antes, de algumas preciosíssimas vantagens que dela podem
derivar, o mais possível correspondentes às condições e às necessidades dos
homens e dos tempos presentes. Porque estamos absolutamente convencido de que,
se a prática do Rosário for retamente seguida, de modo a poder ostentar toda a
eficácia que lhe é intrínseca, não somente aos simples indivíduos, mas também a
toda a sociedade, trará a maior utilidade.
3. Sabem todos o quanto Nós, pelo
dever do Nosso supremo apostolado, nos temos aplicado a contribuir para o bem da
sociedade, e o quarto ainda estamos disposto a fazê-lo, com o auxílio de Deus.
Com freqüência temos advertido os governantes a não fazerem e a não aplicarem
leis que não sejam conformes à mente divina, norma de suma justiça. E, por outra
parte, mais de uma vez temos exortado aqueles cidadãos que, ou por inteligência,
ou por méritos, ou por nobreza do sangue, ou por haveres, estão em posição de
privilégio em relação aos outros, a defenderem e a promoverem, em união de
entendimentos e de forças, os supremos e fundamentais interesses da sociedade.
4. Mas, na estado presente da sociedade civil, sobejas são as causas que
debilitam os ligames da ordem pública e desviam os povos da justa honestidade
dos costumes. Todavia, os males que mais perigosamente minam o bem comum
parecem-nos ser principalmente os três seguintes: "aversão à vida humilde e
laboriosa; o horror ao sofrimento; o esquecimento dos bens futuros, objeto das
nossas esperanças".
A aversão ao viver moderno
5. Lamentamos - e conosco devem reconhecê-lo e
deplorá-lo mesmo aqueles que não admitem outra regra senão a luz da razão, nem
outra medida afora a utilidade, - lamentamos que uma chaga verdadeiramente
profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os
deveres e as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. De fato,
daí se segue que, nas relações domésticas, os filhos, intolerantes de toda
educação que não seja a da moleza e da volúpia, recusam arrogantemente a
obediência que a própria natureza lhes impõe. Por esse mesmo motivo os operários
se afastam do seu próprio mister, fogem do labor, e, descontentes com a sua
sorte, levantam o olhar a metas demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada
repartição dos bens.
Ao mesmo tempo dai se segue o afanar-se de muitos que,
depois de abandonarem o torrão natal, buscam o bulício e as numerosas seduções
da cidade. Por este motivo ainda, veio a faltar o necessário equilíbrio entre as
classes sociais; tudo é flutuante; os ânimos são agitados por invejas e
rivalidades; a justiça é abertamente violada; e aqueles que foram iludidos nas
suas esperanças procuram perturbar a tranqüilidade pública com sedições, com
desordens e com a resistência aos defensores da ordem pública.
As lições do mistérios gozosos
6. Pois bem: contra estes males pensamos que
se deve buscar remédio no Rosário de Maria, composto de uma bem ordenada série
de orações e da piedosa contemplação de mistérios relativos a Cristo Redentor e
a sua Mãe. Expliquem-se de forma exata e popular os mistérios gozosos,
apresentando-os aos olhos dos fiéis como outros tantos quadros e vivas
figurações das virtudes. E assim cada um verá que fácil e rica mina eles
oferecem de ensinamentos aptos para arrastar com maravilhosa suavidade as almas
à honestidade da vida.
7. Eis diante do nosso olhar a Casa de Nazaré, onde toda
santidade, a humana e a divina, colocou a sua morada. Que exemplo de vida comum!
Que perfeito modelo de sociedade! Ali há simplicidade e candura de costumes;
perpétua harmonia de almas; nenhuma desordem; respeito mútuo; e, enfim, o amor:
mas não o amor falso e mendaz, e sim aquele amor integral, que se alimenta na
prática dos próprios deveres, e tal que atrai a admiração de todos.
Ali não falta a solicitude de se proporcionar a
si mesmos tudo quanto é necessário à vida, mas com o "suor da fronte", e como
convém àqueles que, contentando-se com pouco, se esforçam antes por diminuir a
sua pobreza do que por multiplicar os seus haveres. E, sobre tudo isto, reina
ali a maior serenidade de ânimo e alegria de espírito: duas coisas que sempre
acompanham a consciência do dever cumprido.
8. Ora, estes exemplos de modéstia e de humildade, de tolerância da
fadiga, de bondade para com o próximo e de fiel observância dos pequenos deveres
da vida quotidiana, e, numa palavra, os exemplos de todas estas virtudes, assim
que entram nos corações e nele se imprimem profundamente, certamente produzem
nele pouco a pouco a desejada transformação dos pensamentos e dos costumes.
Então os deveres do próprio estado não mais serão nem descurados nem
considerados enfadonhos, mas serão, antes, agradáveis e deleitáveis; e a
consciência do dever, imbuída de senso de alegria, será sempre mais decidida no
obrar o bem.
Por conseqüência, os costumes tornar-se-ão mais brandos sob todos
os aspectos; a convivência familiar transcorrerá no amor e na alegria; as
relações com os outros serão pautadas por um maior respeito e caridade. E, se
estas transformações se estenderem dos indivíduos às famílias, às cidades, aos
povos e às suas instituições, é fácil ver que imensas vantagens devam daí
derivar para a sociedade inteira.
A aversão ao sacrifício
9. O segundo mal funestíssimo, que Nós nunca
deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e ruinosamente envenena as
almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as
adversidades.
De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam,
a serena liberdade de espírito como um prêmio para quem exercita a virtude e
suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma quimérica
perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as
comodidades terrenas.
Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda
debilita fatalmente as almas, que, mesmo quando não se arruínam totalmente,
ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem vergonhosamente em face
dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.
As lições dos mistérios dolorosos
10. Pois bem: ainda contra este mal é bem
justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que, pela força do
exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá
se os homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a
sua vida, se aplicarem, no recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.
Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou
a fazer e a ensinar, a fim de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos
ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade, acerca da tolerância da dor e dos
trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que, voluntariamente e de
grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.
Com
efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de
ultrajes e de calúnias. Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado
considerado indigno de continuar a viver, e merecedor de morrer entre os
clamores de todo um povo.
Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja
alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente "traspassada" pela "espadácia
dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe das
dores.
11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos
de tão excelsa virtude, oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse,
ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar espinhos e abrolhos", ainda que
o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças, nunca
haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios,
nunca haverá calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com
paciência.
É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e
suportar coisas árduas"; porque todo aquele que não quiser ser indigno desse
nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como
resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o
tiveram alguns filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no
exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que tinha diante de si, suportou o
suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que,
depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa
afrontar as adversidades; antes, alegra-se com elas, e considera um lucro
qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.
A Igreja Católica sempre teve, e
tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres, em grande
número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as
pegadas de Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras
de todo gênero, e têm como seu programa, mais com os fatos do que com as
palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e morramos com Ele" (Jo.
11, 16).
12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem
sempre mais, a fim de que deles brote segurança para a sociedade, e virtude e
glória para a Igreja.
O descaso dos bens eternos
13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um
remédio é particularmente próprio dos homens dos nossos dias Com efeito, os
homens dos tempos passados, mesmo quando com excessiva paixão procuravam as
coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as celestes; antes, os mais
sábios entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um lugar de
hospedagem e uma estação de passagem, antes que uma morada fixa e definitiva.
Ao
contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal
modo os bens transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria
melhor na eternidade bem-aventurada, mas, por excesso de vergonha, chegam a
cancelá-la completamente de sua memória, contra a advertência de S. Paulo: "Não
temos aqui uma cidade permanente, porém demandamos a futura" (Heb.
13, 14).
Quem quiser examinar as causas desta aberração
logo notará que a primeira delas é a convicção de muitos de que o pensamento das
coisas eternas extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do
Estado. Calúnia odiosa e insensata.
E, de fato, os bens que esperamos não são de
natureza tal que absorvam os pensamentos do homem até o ponto de o distrair
inteiramente do cuidado dos interesses terrenos. O próprio Cristo embora
recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de Deus, com isto nos insinua
que não devemos descurar tudo o mais.
E, de fato, se o uso dos bens terrenos e dos
gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à virtude; se o esplendor e
o bem-estar da, cidade terrena - que depois redundam em glória da sociedade
humana - são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da
cidade eterna, eles não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos
desígnios de Deus.
Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e
da graça; e por isto não pode ter disposto que uma obste à outra e estejam entre
si em luta; mas, ao contrário, que, amigavelmente unidas, nos guiem, por uma
trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que, embora mortais, somos
destinados.
14. Mas os homens dados ao
prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus pensamentos nas
coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes que
procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem
completamente de vista a eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta. Na verdade, Deus não poderia infligir ao homem punição mais terrível do
que abandonando-o por toda a vida às seduções dos vícios, sem ter jamais um
olhar para o Céu.
As lições dos mistérios gloriosos
15. A este perigo não estará exposto aquele
que, rezando o santo Rosário, meditar com atenção e com freqüência as verdades
contidas nos mistérios gloriosos. Desses mistérios, com efeito, brilha na mente
dos cristãos uma luz tão viva, que nos faz descobrir aqueles bens que o nosso
olho humano nunca poderia perceber, mas que Deus - assim o cremos com fé
inabalável - preparou "para aqueles que o amam".
Deles aprendemos, além disto, que a morte não é
um esfacelamento que tudo perde e destrói, mas sim uma simples passagem e uma
mudança de vida. Aprendemos que o caminho do céu está aberto a todos; e, quando
observamos Cristo que volta ao Céu, recordamos a sua bela promessa: "Vou
preparar-vos o lugar".
Aprendemos que haverá um tempo em que "Deus
enxugará toda lágrima dos nossos olhos; em que não haverá mais nem lutos, nem
pranto, nem dor, mas estaremos sempre com o Senhor, semelhantes a Deus, porque o
veremos como Ele é, bebendo na torrente das suas delícias, concidadãos dos
santos", em feliz união com a grande Mãe e Rainha.
16. Uma alma que se nutra destas verdades deverá
necessariamente inflamar-se delas e repetir a frase de um grande. Santo: "Oh!
como me parece sórdida a terra quando olho o Céu"; deverá necessariamente
alegrar-se ao pensamento de que "um instante de um leve sofrimento nosso produz
em nós uma medida eterna de glória".
E, verdadeiramente, só aqui está o segredo de
harmonizar o tempo com a eternidade, a cidade terrena com a celeste, e de formar
caracteres fortes e generosos. E se estes se tornarem muito numerosos, sem
dúvida estará com isso consolidada a dignidade e a grandeza do Estado; e
florescerá tudo o que é verdadeiro, tudo o que é bom, tudo o que é belo;
florescerá em harmonia com aquela norma que é o sumo princípio e a fonte
inexaurível de toda verdade, de toda bondade e de toda beleza.
17. Ora, quem não vê a verdade disso que havemos observado desde
o princípio, isto é, de que preciosos bens é fecundo o santo Rosário? O quanto
ele é maravilhosamente eficaz em curar os males dos nossos tempos, e em opor um
dique aos gravíssimos males da sociedade?
As confrarias do Rosário
18. Mas, como cada um facilmente compreende, de tal
eficácia serão mais direta e mais largamente participantes os membros das sacras
confrarias do Rosário, porque a ela adquirem um direito particular, quer pela
sua união fraterna, quer pela sua devoção especial à Virgem Santíssima.
Tais sodalícios autorizadamente aprovados pelos Romanos Pontífices e por eles
enriquecidos de privilégios e de tesouros de indulgências, têm uma forma própria
de ordenação e de disciplina. Promovem reuniões em dias determinados, e neles
são fornecidos meios mais adequados para florescer na piedade e para prestar
úteis serviços à própria sociedade civil. Eles são como que falanges militantes
que, guiadas e amparadas pela celeste Rainha, combaterão as batalhas de Cristo,
em virtude dos seus santos mistérios.
E em todas as ocasiões, mas especialmente
em Lepanto, pôde-se ver como a Virgem se compraz com as orações, as festas e as
procissões desses seus devotos.
19. Bem justo é, pois, que não somente os filhos
do patriarca S. Domingos - certamente obrigados mais do que os outros, por
motivo da sua vocação, - mas também todos aqueles que têm cura de almas
-especialmente nas igrejas onde essas confrarias estão canonicamente eretas - se
apliquem com todo o seu zelo a multiplicá-las, desenvolvê-las e assisti-las.
Antes, ardentemente desejamos que também se dediquem a este trabalho aqueles que
empreendem missões, seja para levar a doutrina de Cristo aos infiéis, seja para
reforçá-la nos fiéis.
20. Não duvidamos de que, pelas exortações de todos estes,
muitos cristãos estarão prontos não só a inscrever-se nessas confrarias, mas
também a esforçar-se, por todos os meios, para colher as já indicadas vantagens
espirituais que formam como que a razão de ser e, por assim dizer, a substância
do santo Rosário. Depois, o exemplo dos membros das confrarias arrastará também
os outros fiéis a uma maior estima e devoção ao Rosário; os quais, assim
estimulados, porão todo o seu empenho - como Nós vivamente desejamos - em tirar
também, na mais larga medida, salutares vantagens desta prática.
21. Eis aí a esperança que nos sorri. É ela que,
no meio de tantas calamidades públicas, nos guia e profundamente nos consola.
Digne-se Maria, Mãe de Deus e dos homens, inspiradora e mestra do santo Rosário,
de realizar plenamente esta esperança, acolhendo as preces comuns.
Nós, ó Veneráveis Irmãos, temos confiança de
que, pelo zelo de cada um de vós, os vossos ensinamentos e os Nossos votos
produzirão toda espécie de bem, e contribuirão, em particular, para a
prosperidade das famílias e para a paz dos povos.
Enquanto isso, em penhor dos favores celestes e
em testemunho da Nossa benevolência, no Senhor concedemos a cada um de vós, ao
vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.
Dado em Roma, junto a S. Pedro,
a 8 de Setembro de 1893, décimo sexto ano do Nosso Pontificado.
LEÃO XIII PAPA