Queridos jovens cubanos
1. «Jesus olhou para ele com amor» (Mc 10, 21).
Assim o Evangelho nos narra o encontro com o jovem rico. Assim olha o Senhor
para cada homem. Os seus olhos, repletos de ternura, fixam-se também hoje
no rosto da juventude cubana. E eu abraço-vos em seu nome, reconhecendo
em vós a esperança viva da Igreja e da Pátria cubana.
Desejo transmitir-vos a saudação cordial e o afecto sincero
de todos os jovens cristãos dos diferentes países e continentes,
que tive a ocasião de visitar no exercício do ministério de
Sucessor de Pedro. Assim como vós, também eles caminham para o
futuro entre alegrias e esperanças, tristezas e angústias, como
diz o Concílio Vaticano II.
Vim a Cuba, como mensageiro da verdade e da esperança, para vos
trazer a Boa Nova e vos anunciar «o amor de Deus, manifestado em Jesus
Cristo, nosso Senhor» (Rm 8, 39). Só este amor pode
iluminar a noite da solidão humana; só ele é capaz de
confortar a esperança dos homens na busca da felicidade.
Cristo disse-nos que «não existe amor maior do que dar a
vida pelos amigos. Sereis Meus amigos, se fizerdes o que vos mando... chamo-vos
amigos (Jo 15, 13-15). Ele oferece-vos a sua amizade. Deu a sua vida
para que aqueles que desejam responder ao seu chamado sejam efectivamente seus
amigos. Trata-se de uma amizade profunda, sincera, leal e radical, como deve ser
a verdadeira amizade. Esta é a forma própria de se relacionar com
os jovens, dado que sem amizade a juventude empobrece-se e debilita-se.
A amizade cultiva-se com o próprio sacrifício, para servir e amar
verdadeiramente os amigos. Assim, sem sacrifício não existe
amizade sincera, juventude sadia, país com futuro, religião autêntica.
Por isso, escutai a voz de Cristo! Cristo passa na vossa vida e diz-vos: «Segui-Me!».
Não vos fecheis ao seu amor. Não passeis ao largo. Acolhei a sua
palavra. Cada um recebeu d'Ele um chamado. Ele conhece o nome de cada um.
Deixai-vos guiar por Cristo na busca daquilo que vos pode ajudar a realizar-vos
plenamente. Abri as portas do vosso coração e da vossa existência
a Jesus, «o verdadeiro herói, humilde e sábio, o profeta
da verdade e do amor, o companheiro e o amigo dos jovens» (Mensagem do
Concílio Ecuménico Vaticano II aos Jovens).
2. Conheço bem os valores dos jovens cubanos, sinceros nos
seus relacionamentos, autênticos nos seus projectos, hospitaleiros com
todos e amantes da liberdade. Bem sei que, como filhos da exuberante terra
caribenha, sobressaís pela vossa capacidade artística e criativa;
pelo vosso espírito jubiloso e empreendedor, sempre dispostos a assumir
grandes e nobres empresas para a prosperidade do País; pela sã
paixão que pondes nas coisas que vos interessam e pela facilidade com que
superais os reveses e as limitações. Estes valores manifestam-se
com maior nitidez quando encontram espaços de liberdade e motivações
profundas. Além disso, foi com emoção que pude comprovar e
admirar a fidelidade de muitos de vós à fé recebida dos
antepassados, muitas vezes transmitida no regaço das mães e avós,
durante estas últimas décadas em que a voz da Igreja parecia
sufocada.
Todavia, a sombra da assustadora crise actual de valores que agita o mundo
ameaça também a juventude desta luminosa Ilha. Difunde-se uma perniciosa
crise de identidade, que leva os jovens a viver sem sentido, sem rumo nem
projecto para o futuro, asfixiados pelo que é imediato. Impõem-se
o relativismo, a indiferença religiosa e a falta de dimensão
moral, enquanto se sente a tentação de se render aos ídolos
da sociedade de consumo, fascinados pelo seu brilho fugaz. Inclusivamente tudo o
que vem de fora do país parece deslumbrar.
Diante disto, as estruturas públicas para a educação, a
criação artística, literária e humanista, a
investigação científica e tecnológica, assim como a
proliferação de escolas e mestres, têm procurado contribuir
para despertar uma notável solicitude pela busca da verdade, pela
defesa da beleza e pela salvação da bondade; porém,
suscitaram também as perguntas de muitos de vós: por que a abundância
de instrumentos e instituições não consegue corresponder
plenamente ao fim almejado?
Não se deve buscar a resposta somente nas estruturas, nos
instrumentos e nas instituições, no sistema político ou nos
embargos económicos, que são sempre condenáveis porque
lesam os mais necessitados. Estas causas são apenas uma parte da
resposta, mas não chegam ao fundo do problema.
3. O que vos posso dizer, jovens cubanos, que viveis em condições
materiais com frequência difíceis, por vezes frustrados nos vossos
próprios e legítimos projectos e, por isso, às vezes de
certa forma privados até mesmo da própria esperança?
Orientados pelo Espírito, combatei com a força de Cristo
ressuscitado, para não cairdes na tentação das várias
formas de fuga do mundo e da sociedade; para não sucumbirdes perante a
ausência de aspirações, que leva à autodestruição
da própria personalidade mediante o alcoolismo, a droga, os abusos
sexuais e a prostituição, a busca contínua de novas sensações
e o refúgio em seitas, cultos espiritualistas alienantes ou grupos
totalmente alheios à cultura e à tradição da vossa Pátria.
«Sede vigilantes, permanecei firmes na fé... sede fortes.
Fazei tudo com amor» (1 Cor 16, 13-14). Porém, o que
significa ser forte? Quer dizer vencer o mal nas suas múltiplas formas. O
pior dos males é o pecado, que causa inumeráveis sofrimentos e
pode estar também dentro de nós, influenciando de maneira negativa
o nosso comportamento. Portanto, se é justo empenhar-se na luta contra o
mal nas suas manifestações públicas e sociais, para os
crentes é um dever procurar derrotar em primeiro lugar o pecado, raiz
de todas as formas de mal que podem abrigar-se no coração
humano, resistindo às suas seduções com a ajuda de Deus.
Tende a certeza de que Deus não limita a vossa juventude, nem quer
para os jovens uma vida desprovida de alegria. Pelo contrário! O seu
poder é um dinamismo que leva ao desenvolvimento de toda a pessoa: ao
crescimento do corpo, da mente e da afectividade; ao desenvolvimento da fé;
à expansão do amor efectivo por vós mesmos, pelo próximo
e pelas realidades terrestres e espirituais. Se souberdes abrir-vos à
iniciativa divina, haveis de experimentar em vós a força do «grande
Vivente, Cristo, eternamente jovem» (Mensagem do Concílio Ecuménico
Vaticano II aos Jovens).
Jesus deseja que tenhais vida e a tenhais em abundância (cf. Jo
10, 10). A vida que se nos revela em Deus, embora às vezes possa parecer
difícil, orienta e dá sentido ao desenvolvimento do homem. As
tradições da Igreja, a prática dos sacramentos e o recurso
constante à oração não são obrigações
e ritos que se devem cumprir mas, ao contrário, constituem inesgotáveis
mananciais de graça que alimentam a juventude, tornando-a fecunda para o
desenvolvimento da virtude, a audácia apostólica e a verdadeira
esperança.
4. A virtude é a força interior que impele a sacrificar-se por
amor do bem, permitindo à pessoa não só realizar boas acções,
mas também dar o melhor de si. Com jovens virtuosos, um país
torna-se grande. Por isso, e dado que o futuro de Cuba depende de vós, do
modo em que formardes o vosso carácter e viverdes a vossa vontade de
compromisso na transformação da realidade, digo-vos: enfrentai os
grandiosos desafios do presente com fortaleza, temperança, justiça
e prudência; regressai às raízes cubanas e cristãs,
realizando tudo quanto estiver ao vosso alcance para construirdes um futuro
cada vez mais digno e livre! Não vos esqueçais de que a
responsabilidade faz parte da liberdade. Mais ainda, a pessoa define-se
principalmente pela sua responsabilidade para com os demais e perante a história
(cf. Constituição pastoral Gaudium et spes, 55).
Ninguém deve eximir-se do desafio da época em que lhe cabe
viver. Ocupai o lugar que vos corresponde na grande família dos povos
deste continente e do mundo inteiro, não como os últimos que pedem
para ser aceites, mas como aqueles que, a pleno título, trazem consigo
uma tradição rica e grande, cujas origens estão no
cristianismo.
Desejo falar-vos também de compromisso. O compromisso é a
resposta corajosa de quem não deseja desperdiçar a própria
vida, mas quer ser protagonista da história pessoal e social. Exorto-vos
a assumir um compromisso concreto, ainda que seja humilde e simples mas que,
empreendido com perseverança, se transforme numa grandiosa prova de amor
e no caminho seguro para a própria santificação. Assumi um
compromisso responsável no seio das vossas famílias, na vida das
vossas comunidades, no tecido da sociedade civil e também, a seu tempo,
nas estruturas decisórias da Nação.
Não há verdadeiro compromisso com a Pátria sem o
cumprimento dos próprios deveres e obrigações na família,
na universidade, na fábrica ou no campo, no mundo da cultura e no
desporto, nos diversos ambientes em que a nação se torna realidade
e a sociedade civil entretece a progressiva criatividade da pessoa humana. Não
pode existir compromisso com a fé sem uma presença activa e audaz
em todos os ambientes da sociedade em que Cristo e a Igreja se encarnam. Os
cristãos devem passar da simples presença à animação
destes ambientes a partir de dentro, com a força renovadora do Espírito
Santo.
A melhor herança que se pode comunicar às futuras gerações
é a transmissão dos valores superiores do espírito. Não
se trata apenas de salvar alguns deles, mas de favorecer uma educação
ética e cívica que ajude a assumir novos valores, a reconstruir o
próprio carácter e a alma social sobre a base de uma educação
para a liberdade, a justiça social e a responsabilidade. Neste caminho a
Igreja, que é «perita em humanidade», oferece-se para
acompanhar os jovens, auxiliando-os a escolher com liberdade e maturidade o rumo
da sua própria vida e oferecendo-lhes as ajudas necessárias para
abrirem o coração e a alma à transcendência.
A abertura ao mistério do sobrenatural fará com que descubram a
bondade infinita, a beleza incomparável e a verdade suprema; em
definitivo, a imagem que Deus quis gravar em cada homem.
5. Detenho-me agora num tema vital para o futuro. A Igreja na vossa nação
deseja estar ao serviço não só dos católicos, mas de
todos os cubanos. Para poder servir melhor, tem necessidade urgente de
sacerdotes que sejam filhos deste povo e sigam as pegadas dos Apóstolos,
anunciando o Evangelho e tornando os seus irmãos partícipes dos
frutos da redenção; tem também necessidade de homens e
mulheres que, consagrando as suas próprias vidas a Cristo, se dediquem
com generosidade ao serviço da caridade; precisa ainda de almas
contemplativas que implorem a graça e a misericórdia de Deus para
o seu povo. É responsabilidade de todos acolher cada dia a exortação
persuasiva, dócil e exigente de Jesus, que nos convida a pedir ao senhor
da messe que envie mais trabalhadores para a sua messe (cf. Mt 9, 38). É
responsabilidade dos que são chamados, responder com liberdade e em espírito
de profunda oblação pessoal à voz humilde e penetrante de
Cristo que diz, tanto hoje como ontem e sempre: «Vem e segue-Me!».
Jovens cubanos, ao encarnar no lar de Maria e José, Jesus manifesta e
consagra a família como santuário da vida e célula
fundamental da sociedade. Santifica-a com o sacramento do matrimónio,
constituindo-a como «centro e coração da civilização
do amor» (Carta às Famílias Gratissimam sane, 13). A
maior parte de vós é chamada a formar uma família. Quantas
situações de mal-estar pessoal e social têm a sua origem nas
dificuldades, crises e rupturas familiares! Preparai-vos bem para ser no futuro
os construtores de lares sadios e tranquilos, onde se viva o clima tonificador
da concórdia mediante o diálogo aberto e a compreensão recíproca.
O divórcio jamais é uma solução, mas um fracasso que
se deve evitar. Por conseguinte, fomentai tudo que favorece a santidade, a
unidade e a estabilidade da família, fundamentada sobre o matrimónio
indissolúvel e aberta com generosidade ao precioso dom da vida.
«O amor é paciente, o amor é prestativo; não é
invejoso, não se ostenta, não se enche de orgulho... não
procura o seu próprio interesse, não se irrita... Tudo desculpa,
tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 4-5.7). O
amor verdadeiro, ao qual o Apóstolo Paulo dedicou um hino na primeira
Carta aos Coríntios, é exigente. A sua beleza está
precisamente na sua exigência. Somente quem sabe ser exigente consigo
mesmo, em nome do amor, pode exigir o amor do próximo. É preciso
que os jovens de hoje descubram este amor, porque é neste que se encontra
o fundamento autenticamente sólido da família. Rejeitai com
determinação qualquer um dos seus sucedâneos, como o chamado
«amor livre»! Quantas famílias foram destruídas por sua
causa! Não vos esqueçais de que seguir cegamente o impulso
afectivo muitas vezes significa ser escravo das próprias paixões.
6. Permiti-me falar-vos também de Maria, a jovem que realizou em si
mesma a adesão mais completa à vontade de Deus e, precisamente por
este motivo, se transformou em modelo da máxima perfeição
cristã. Teve confiança em Deus: «Bem-aventurada aquela
que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu!» (Lc
1, 45). Robustecida pela palavra recebida de Deus e conservada no seu coração
(cf. Lc 2, 9), venceu o egoísmo e derrotou o mal. O amor
preparou-a para o serviço humilde e concreto do próximo. A Ela
dirige-se hoje também a Igreja, invocando-a incessantemente como auxílio
e modelo de caridade generosa. A Ela dirige o seu olhar a juventude de Cuba,
para encontrar um exemplo de defesa e promoção da vida, de
ternura, de fortaleza no sofrimento, de pureza na vida e de alegria sadia.
Confiai os vossos corações a Maria, queridos jovens e queridas
jovens, vós que sois o presente e o futuro destas comunidades cristãs,
tão provadas ao longo destes anos. Jamais vos separeis de Maria e
caminhai juntamente com Ela. Assim sereis santos porque, reflectindo-vos n'Ela e
confortados pelo seu auxílio, acolhereis a palavra da promessa,
guardando-a ciosamente no vosso interior, e sereis os arautos da nova evangelização
também para uma sociedade nova, a Cuba da reconciliação e
do amor.
Queridos jovens, a Igreja confia em vós e conta convosco. À
luz da vida dos santos e de outras testemunhas do Evangelho e guiados pela atenção
pastoral dos vossos Bispos, ajudai-vos uns aos outros a fortalecer a própria
fé e a ser os apóstolos do ano 2000, anunciando ao mundo
que Cristo nos convida a ser alegres e que a verdadeira felicidade consiste em
dar-se por amor dos irmãos. O Senhor continue a derramar abundantes dádivas
de paz e entusiasmo sobre todos os jovens filhos e filhas da amada nação
cubana. Isto é o que o Papa vos deseja com viva esperança. Abençoo-vos
de coração!
Camagüey, 23 de Janeiro de 1998.