1. Quando Jesus subiu ao monte e começou a proclamar às multidões que O
circundavam o seu ensinamento que costumamos chamar de Sermão da Montanha,
brotaram de seus lábios antes de tudo as Bem-aventuranças. Oito bem-aventuranças,
a primeira das quais declara: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque
deles é o reino dos céus”(Mt 5,3).
Existe uma só montanha na Galiléia sobre a qual Jesus pronunciou as
suas bem-aventuranças. Contudo, são tantos os lugares de toda a terra, onde
estas mesmas afirmações são anunciadas e escutadas. E são tantos os corações
que não cessam de refletir sobre o significado daquelas palavras pronunciadas
de uma vez por todas. Não cessam de meditá-las. E seu único desejo é, com
todo coração, pô-las em prática. Buscam viver a verdade das oito
bem-aventuranças. Certamente existem em terras brasileiras muitos lugares assim.
E também aqui existiram e existem muitíssimos destes corações.
Quando pensei
de que maneira deveria apresentar-me diante dos habitantes desta terra que
visito pela primeira vez, senti o dever de apresentar-me antes de tudo com o
ensinamento das oito bem-aventuranças. E veio-me o desejo de falar destas
coisas a vocês, moradores do Vidigal. Através de vocês gostaria de falar também
a todos os que no Brasil vivem em condições parecidas com as de vocês. Bem-aventurados
os pobres em espírito.
2 . Entre vocês são muitos os
pobres. E a Igreja em terra brasileira quer ser a Igreja dos pobres. Ela
deseja que neste grande país se realize esta primeira bem-aventurança do Sermão
da Montanha.
Os pobres em espírito
são aqueles que são mais abertos a Deus e às “maravilhas de Deus”
(At 2,11). Pobres porque prontos a aceitar sempre aquele dom do alto, que provém do
próprio Deus. Pobres em espírito - aqueles que vivem na consciência de ter
recebido tudo das mãos de Deus como um dom gratuito, e que dão valor a cada
bem recebido. Constantemente agradecidos, repetem sem cessar: “Tudo é graça!”,
“demos graças ao Senhor nosso Deus”. Deles Jesus diz, ao mesmo tempo, que são
“puros de coração”, “mansos”; são eles os que “têm fome e sede de
justiça”, os que são frequentemente “afligidos”; os que são
“operadores de paz” e “perseguidos por causa da justiça”. São
eles, enfim, os “misericordiosos”(cf. Mt
5,3-10).
De fato, os pobres, os
pobres em espírito são mais misericordiosos. Os corações abertos para Deus são,
por isso mesmo, mais abertos para os homens. Estão prontos para ajudar prestativamente. Prontos a partilhar o que têm. Prontos a acolher em casa uma
viúva ou um órfão abandonados. Encontram sempre ainda um lugar a mais no meio
das estreitezas em que vivem. E assim mesmo encontram sempre um bocado de
alimento, um pedaço de pão em sua pobre mesa.
Pobres, mas generosos.
Pobres, mas magnânimos. Sei que existem muitos destes aqui entre vocês a quem
agora faro, mas também em diversos outros lugares do Brasil.
3. As palavras de Cristo sobre
os pobres em espírito fazem, porventura, esquecer as injustiças? Permitem elas
que deixemos sem solução os diversos problemas que se levantam no conjunto do
assim chamado problema social? Estes problemas que permanecem na história da
humanidade assumem aspectos diversos nas diversas épocas da história e têm
sua intensidade de acordo com a dimensão de cada sociedade em particular,
assumindo ao mesmo tempo a proporção de inteiros continentes e enfim de todo o
mundo. É natural que estes problemas assumam também uma dimensão própria
desta terra, uma dimensão brasileira.
As
palavras de Cristo declarando felizes “os pobres em espírito” não visam
suprimir todos estes problemas. Ao contrário: elas os colocam em evidência,
focalizando-os neste ponto mais essencial que é o homem, que é o coração
inumano, que é cada homem sem excepção. O homem diante de Deus e, ao
mesmo tempo, diante dos outros homens.
Pobre em espírito não significa exatamente “o homem aberto aos
outros”, isto é, a Deus e ao próximo?
Não é verdade que esta bem-aventurança dos “pobres em espírito”,
contém ao mesmo tempo uma advertência e uma acusação? Não é certo que ela
diz aos que não são “pobres em espírito” que eles se encontram fora do
Reino de Deus, que o Reino de Deus não é e não será participado por eles?
Pensando em tais homens que são “ricos”, fechados a Deus e aos homens, sem
misericórdia... não dirá Cristo em outra passagem: “ai de vós?”. “Mas
ai de vós, os ricos, porque recebestes a vossa consolação. Ai de vós, os que
estais agora fartos, porque haveis de ter fome. Ai de vós, os que agora rides,
porque gemereis e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de
vós. Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos
profetas”(Lc 6,24-26).
“Ai de vós” - esta palavra soa severa e ameaçadoramente, sobretudo
na boca deste Cristo que costumava falar com bondade e mansidão e costumava
repetir: “Bem-aventurados”. E contudo dirá também: “Ai de vós”.
4. A Igreja em todo o mundo quer ser a Igreja dos pobres. A Igreja em terras
brasileiras quer também ser a Igreja dos pobres - isto é, quer extrair toda a
verdade contida nas bem-aventuranças de Cristo e sobretudo nesta primeira -
“bem-aventurados os pobres em espírito...”. Quer ensinar esta verdade e
quer pô-la em prática, assim como Jesus veio fazer e ensinar.
A Igreja deseja, pois, extrair do ensinamento das oito bem-aventuranças
tudo aquilo que nelas se refere a cada homem: àquele que é pobre, que vive na
miséria, àquele que vive em abundância e bem-estar e, enfim, àquele que
possui excessivamente e que tem de sobra. A mesma verdade da primeira
bem-aventurança refere-se a cada um de modo diverso.
Aos pobres - àqueles que
vivem na miséria - ela diz que estão particularmente próximos de Deus e de
Seu reino. Mas, ao mesmo tempo, diz que não lhes é permitido - como não é
permitido a ninguém - reduzirem-se arbitrariamente à miséria a si próprios e
às suas famílias: é necessário fazer tudo aquilo que é lícito para
assegurar a si e aos seus tudo aquilo que é necessário à vida e à manutenção.
Na pobreza é necessário conservar sobretudo a dignidade humana, e também
aquela magnanimidade, aquela abertura do coração para com os outros, a
disponibilidade pela qual se distinguem exatamente os pobres - os pobres em
espírito.
Àqueles que vivem na abundância
ou ao menos em um relativo bem-estar, para a qual têm o necessário (ainda que
talvez não lhes sobre grande coisa!), a Igreja, que quer ser a Igreja dos
pobres, diz: Usufruí os frutos do vosso trabalho e de uma lícita industriosidade, mas, em nome das palavras de Cristo, em nome da fraternidade
inumana e da solidariedade social, não vos fecheis em vós mesmos! Pensai nos
mais pobres! Pensai naqueles que não têm o suficiente, que vivem na miséria crônica, que sofrem fome! E partilhai com eles! Partilhai de modo
programático e sistemático. A abundância material não vos prive dos frutos
espirituais do Sermão da Montanha, não vos separe das bem-aventuranças dos
pobres em espírito.
E a Igreja dos pobres diz o mesmo, com maior força, àqueles que têm de
sobra, que vivem na abundância, que vivem no luxo. Diz-lhes: Olhai um pouco ao
redor! Não vos dói o coração? Não sentis remorso na consciência por causa
de vossa riqueza e abundância? Se não - se quereis somente “ter” sempre
mais, se o vosso ídolo são o lucro e prazer - recordai que o valor do homem não
é medido segundo aquilo que ele “têm”, mas segundo aquilo que ele “é”.
Portanto, aquele que acumulou multo e acha que tudo se resume nisto, lembre-se
de que pode valer (no seu íntimo e aos olhos de Deus) muito menos do que algum
daqueles pobres e desconhecidos - que talvez possa “ser muito menos homem”
do que ele.
A medida das riquezas, do dinheiro e do luxo não é equivalente à
medica da verdadeira dignidade do homem.
Portanto, àqueles que têm em superabundância evitem o fechar-se em si
mesmos, o apego à própria riqueza, a cegueira espiritual. Evitem
tudo isto com todas as forças. Não cesse de acompanhá-los toda a verdade do
Evangelho e sobretudo a verdade contida nestas palavras:
“Bem-aventurados os
pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus...”(Mt 5,3).
Que esta verdade os inquiete.
Seja para eles uma admoestação contínua e um desafio.
Não lhes permita nem ao menos por um minuto tornarem-se cegos pelo egoísmo
e pela satisfação dos próprios desejos.
Se tens muito, se tens tanto, recorda-te que deves dar muito, que há
tanto que dar. E deves pensar como der, como organizar toda a vida sócio-econômica
e cada um dos seus setores, a fim de que esta vida tenda à igualdade entre os
homens e não a um ateísmo entre eles.
Se conheces muito e estás colocado no alto da hierarquia social, não te
deves esquecer, nem sequer por um segundo, de que, quanto mais alto alguém está,
mais deve servir! Servir aos
outros. De outra forma encontrar-te-ás em perigo de afastar a ti e tua vida do
campo das bem-aventuranças e em particular da primeira delas:
“Bem-aventurados os pobres em espírito”. São “pobres em espírito”
também os “ricos” que, à medica da própria riqueza, não cessam de
“der-se a si mesmos” e de “servir aos outros”.
5. Assim, pois, a Igreja dos pobres fala primeiro e acima de tudo ao homem.
A cada homem e por isto a todos os homens. É a Igreja universal. A Igreja do
Mistério da Incarnação. Não é
a Igreja de uma classe ou de uma só casta. E fala em nome da própria
verdade. Esta verdade é realista. Tenhamos em conta cada realidade inumana,
cada injustiça, cada tensão, cada luta. A
Igreja dos pobres não quer servir àquilo que causa as tensões e fez explodir
a luta entre os homens. A única luta, a única batalha a que a Igreja
quer servir é a nobre luta pela verdade e pela justiça e a batalha pelo bem
verdadeiro, a batalha na qual a Igreja é solidária com cada homem. Nesta
estrada, a Igreja luta com a “espada da palavra”, não poupando os
encorajamentos, mas também as admoestações, às vezes multo severas (tal como
Cristo o fez). Muitas vezes até ameaçando e demonstrando as consequências da
falsidade e do mal. Nesta sua luta evangélica, a Igreja dos pobres não quer
servir a fins imediatos políticos, às lutas pelo poder, e ao mesmo tempo
procura com grande diligência que suas palavras e ações não sejam usadas
para tal fim, que sejam “instrumentalizadas”.
A Igreja dos pobres fala, pois, ao “homem”: a cada homem e a todos.
Ao mesmo tempo fala às sociedades, às sociedades na sua globalidade e às
diversas camadas sociais, aos grupos e profissões diversas. Fala igualmente aos
sistemas e às estruturas sociais, sócio-econômicas e sócio-políticas. Fala
a língua do Evangelho, explicando-o também à luz do progresso da ciência
inumana, mas sem introduzir elementos estranhos, heterodoxos, contrários ao seu
espírito. Fala a todos em nome de Cristo, e fala também em nome do homem
(particularmente àqueles aos quais o nome de Cristo não diz tudo, não exprime
toda a verdade sobre o homem que este nome contém).
A Igreja dos pobres fala, pois, assim: Fazei tudo, Vós, particularmente,
que tendes poder de decisão, Vós dos quais depende a situação do mundo,
fazei tudo para que a vida de cada homem, na vossa terra, se torne “mais
humana”, mais digna do homem!
Fazei tudo a fim de que desapareça, ao menos gradativamente, aquele
abismo que separa os “excessivamente ricos”, pouco numerosos, das grandes
multidões dos pobres, daqueles que vivem na miséria. Fazei tudo para que este
abismo não aumente mas diminua, para que se tenda à igualdade social. A fim
de que a distribuição injusta dos bens ceda o lugar a uma distribuição mais
justa...
Fazei-o por consideração a cada homem que é o vosso próximo e vosso
concidadão. Fazei-o por consideração ao bem comum de todos. E fazei-o por
consideração a vós mesmos. Só tem razão de ser a sociedade socialmente
justa, que se esforça por ser sempre mais justa. Somente tal sociedade tem
diante de si o futuro. A sociedade que não é socialmente justa e não
ambiciona tornar-se tal, põe em perigo o seu futuro. Pensai, pois, no passado e
olhai para o dia de hoje, e projetai o futuro melhor da vossa inteira sociedade!
Tudo isto se inclui no que disse Cristo no Sermão da Montanha. No conteúdo
desta única frase: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o
reino dos céus”.
Queridos irmãos e irmãs:
Com esta mensagem, renovo meus sentimentos de profundo afeto, e em penhor
de abundantes graças de Deus para vocês e suas famílias, deixo-lhe a minha Bênção
Apostólica.
Desejei visitar em vocês do Vidigal, todos os favelados onde quer que se
encontrem, no dileto Brasil, que agora percorro em peregrinação apostólica.
Ao vir aqui, interessai-me, como Pai e Pastor, preocupado pela sorte de filhos
multo amados, e perguntei sobre todos e sobre tudo aqui nesta favela.
Falaram-me de vocês e como no meio de carências, lutas e agruras, há
solidariedade e ajuda mútua entre todos, graças a Deus. Falaram-me também do
“mutirão”, graças ao qual ficou pronta a capela que daqui a pouco vou
benzer. É sempre lindo e importante que as pessoas todas se unam, se dêem as mãos,
somem esforços e, juntas, consigam o que sozinhas não podem alcançar.
Regozijo-me com quantos, direta ou indiretamente, na área desta favela,
conseguiram resolver, de modo justo e pacífico, questões que, arrumadas, não
deixarão de contribuir para fazer a vida de todos mais inumana e para tornar
esta cidade maravilhosa sempre mais cidade de irmãos.
Vim aqui, não por curiosidade, mas porque amo vocês e lhes quero bem e
desejaria dizer, com São Paulo: “Pela afeição que sentíamos por vós,
desejávamos compartilhar convosco, não só o Evangelho, mas a própria
vida”(cf. 1Ts 2,8). Junto com vocês, com um
“coração puro” de maus sentimentos, quereria dizer sempre não á
indiferença, ao desinteresse, e a todas as formas de desamor; e sim à
solidariedade, à fraternidade e ao amor porque “Deus é amor”(1Jo
4,16).
E assim, saúdo vocês, as suas famílias, em especial os jovens e crianças,
e a todos aqui do Vidigal, dizendo que penso e rezo por vocês, para a divina
Providência ser secundada pelas providências humanas, para que vocês melhorem
sua vida.
E agora, vou abençoar a todos.