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VIAGEM APOSTÓLICA DO SANTO PADRE À IRLANDA ENCONTRO COM OS REPRESENTANTES DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II Convento das Dominicanas de Dublim
Meus queridos irmãos em Cristo Permiti-me que vos saúde no amor do nosso comum Senhor e Salvador, e com as palavras do seu servo e apóstolo Paulo: Graças a vós e paz da parte de Deus, Pai Nosso, e do Senhor Jesus Cristo (Ef 1, 2). Sinto-me feliz par ter a oportunidade de me encontrar convosco no santo nome de Jesus e de rezar convosco. Para todos nós, que hoje estamos aqui, é verdadeiramente encorajante e edificante a grande promessa contida no Evangelho: Porque onde dois ou três estão reunidos no Meu nome, Eu estou no meio deles (Mt 18, 20). E assim experimentamos uma alegria extraordinária ao sabermos que Jesus Cristo está connosco. Sabemos que Ele está perto de nós com a força do seu Mistério Pascal, e que do seu Mistério Pascal nós recebemos luz e força para caminharmos naquela a que São Paulo chama a novidade de vida (Rom 6, 4). Que enorme graça é para todo o mundo cristão o facto de, neste nosso dia, o Espírito Santo suscitar profundamente nos corações humanos um real desejo desta "novidade de vida". E que enorme dom de Deus é o facto de que existe hoje entre os cristãos uma consciência mais profunda da necessidade de estarmos perfeitamente unidos em Cristo e na sua Igreja: de sermos uma coisa só, segundo a recomendação de Cristo, como também são uma só coisa Ele e o Pai (Jo 17, 11). O nosso desejo de unidade dos cristãos nasce de uma necessidade de sermos fiéis à vontade de Deus, revelada por Cristo. A nossa unidade em Cristo, além disso, condiciona a eficácia da nossa evangelização; determina a credibilidade do nosso testemunho perante o mundo. Cristo pediu pela unidade dos seus discípulos, precisamente para que o mundo creia (Jo 17, 21). Hoje foi realmente um dia memorável na minha vida: pude abraçar no amor de Cristo os meus irmãos cristãos separados, e confessar à uma com eles que Jesus Cristo é o Filho de Deus (1 Jo 4, 15); que é o Salvador de todos os homens (1 Tim 5, 10); que é o único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1 Tim 2, 5). De Drogheda lancei esta tarde um apelo para a paz e a reconciliação, segundo a suprema vontade de Cristo, do único que pode unir os corações dos homens na fraternidade e no testemunho comum. Nunca seja posto em dúvida o compromisso da Igreja católica e da Sé Apostólica de Roma para conseguir a unidade dos cristãos. Em Novembro passado, quando me encontrei com os membros do Secretariado para a União dos Cristãos, falei do "intolerável escândalo da divisão entre os cristãos". Disse que o movimento para a unidade não deve parar enquanto não for alcançado o seu objectivo; e exortei os Bispos, os sacerdotes e os leigos católicos a um enérgico compromisso para levarem avante este movimento. Naquela ocasião disse: "A Igreja católica, fiel ao caminho empreendido com o Concílio, não só quer ir avante no caminho que leva ao restabelecimento da unidade, mas está desejosa, com os seus meios e em plena submissão à acção do Espírito Santo..., de reforçar a todos os níveis o seu contributo para este grande movimento de todos os cristãos" (Discurso, 18 de Novembro de 1978). Renovo este compromisso e esta promessa hoje aqui na Irlanda, onde a reconciliação entre os cristãos reveste especial urgência, mas onde ela encontra também particulares recursos na tradição da fé cristã e da fidelidade à religião, características tanto das comunidades católicas como das protestantes. A obra de reconciliação, o caminho para a unidade pode ser longo e difícil. Mas, como no caminho de Emaús, o próprio Senhor está connosco ao andarmos, sempre comportando-se como se tivesse que ir mais longe (Lc 24, 28). Estará connosco até chegar o momento tão esperado em que poderemos alegrar-nos juntos ao reconhecê-lo nas Sagradas Escrituras e no partir do pão (Lc 24, 35). Entretanto, a renovação interior da Igreja católica, em plena fidelidade ao Concílio Vaticano II, à qual dediquei todas as minhas energias no início do meu ministério pontifício, deve continuar com o mesmo vigor. Esta renovação é, de per si, contributo indispensável para a obra da unidade dos cristãos. Enquanto nós, nas nossas respectivas Igrejas, progredimos no aprofundamento das Sagradas Escrituras, na fidelidade à antiga tradição da Igreja cristã e na continuidade com ela, na nossa busca de santidade e de autenticidade de vida cristã, devemos também tornar-nos cada vez mais unidos a Cristo, e por conseguinte mais unidos entre nós em Cristo. Só ele, mediante a acção do Espírito Santo, pode levar as nossas esperanças à realização. Nele depomos toda a nossa confiança: em Jesus Cristo nossa esperança (1 Tim 1, 1). Apesar da nossa fraqueza humana e dos nossos pecados, apesar de todos os obstáculos, nós aceitamos em humildade e com fé o grande princípio enunciado pelo nosso Salvador: Aquilo que é impossível aos homens, é possível a Deus (Lc 18, 27). Oxalá este dia assinale verdadeiramente, para todos nós e para aqueles que nós servimos em Cristo, a ocasião para uma fidelidade ainda maior, em oração e penitência, à causa de Jesus Cristo e à sua mensagem de verdade e amor, de justiça e paz. Oxalá a nossa comum veneração e o nosso amor pela santa e inspirada palavra de Deus nos unam cada vez mais, enquanto continuamos a estudar e a examinar juntos, os importantes assuntos relativos à unidade eclesial em todos os seus aspectos, como também a necessidade de serviço comum a um mundo que precisa dele. A Irlanda, queridos irmãos em Cristo, tem necessidade, de modo particular e com particular urgência, de um serviço comum por parte dos cristãos. Todos os cristãos irlandeses devem colocar-se juntos em defesa dos valores espirituais e morais, contra a pressão do materialismo e do permissivismo moral. Os cristãos devem unir-se para se oporem a toda a violência e a todo o atentado contra a pessoa humana — de onde quer que provenham — e para encontrar respostas cristãs ao grave problema da Irlanda do Norte. Nós devemos ser, todos, ministros de reconciliação. Com o exemplo e com a palavra, devemos procurar levar os cidadãos, as comunidades e os políticos para os caminhos da tolerância, da cooperação e do amor. Nenhum temor de críticas, nenhum risco de ressentimentos deve afastar-nos deste dever. A caridade de Cristo impõe-no-lo. Precisamente porque nós temos um Senhor em comum, Jesus Cristo, devemos aceitar juntos a responsabilidade da vocação que dele recebemos. Queridos irmãos, com uma convicção ligada à nossa fé, advertimos que o destino do mundo está em perigo, porque foi desafiada a credibilidade do Evangelho. Só em perfeita unidade podemos, nós cristãos, dar adequado testemunho à verdade. E assim a nossa fidelidade a Jesus Cristo impele-nos a fazer mais, a rezar mais, a amar mais. Oxalá Cristo, o Bom Pastor, nos consiga mostrar o modo de guiarmos o nosso povo ao longo do caminho do. amor e para a meta da perfeita unidade: em louvor e glória do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amen.
Copyright © 1979 - Libreria Editrice Vaticana
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