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MENSAGEM URBI ET ORBI
DO PAPA JOÃO PAULO II PARA A PÁSCOA DE 1982
1. Victimae paschali laudes immolent Christiani — Os cristãos entoem
louvores ao (seu) Cordeiro Pascal.
Cristãos da Urbe e do Orbe:
Nesta hora solene, faço-vos um apelo e convido-vos — onde quer que vos
encontreis — a render homenagem de veneração a Cristo Ressuscitado: a Vítima
Pascal da Igreja e do mundo!
Que todas as comunidades do Povo de Deus se unam neste acto de culto, do
nascer do sol até ao crepúsculo; e que estejam connosco todos os homens de boa
vontade! Este dia é, de facto, o dia que o Senhor fez!
Agnus redemit oves... — o Cordeiro (Cristo) remiu as ovelhas...
2. É este o dia em que se decidiu a eterna batalha:
mors et vita duello conflixere mirando! (a morte e a vida travaram um
combate singular!).
Desde o princípio, entre a vida e a morte trava-se uma luta; trava-se no
mundo uma batalha entre o bem e o mal. Hoje a balança pende a favor de uma
parte: a Vida leva vantagem; o Bem leva vantagem. Cristo crucificado ressuscitou
do túmulo; fez pender a balança a favor da Vida. Enxertou novamente a vida no
terreno das almas humanas. A morte tem as suas limitações. Cristo abriu um
horizonte de grande esperança: a esperança da Vida, para além da esfera da
morte.
Dux vitae mortuus regnat vivus! (O Senhor da vida morre; mas ei-lo vivo, a
reinar).
3. Passam os anos, passam os séculos. Está-se no ano de 1982. O Cordeiro
Pascal continua a ser como a videira enxertada no terreno da humanidade. No
mundo continuam a lutar o bem e o mal. Lutam a vida e a morte; lutam o pecado e
a graça.
É o ano de 1982. Devemos pensar, com inquietude, no rumo para o qual se vai
dirigindo o mundo contemporâneo: Tendo lançado raízes profundamente na
humanidade dos nossos tempos, as estruturas do pecado — uma como que vasta
ramificação do mal — parecem querer ofuscar o horizonte do Bem.
Elas parecem até ameaçar a destruição do homem e da terra.
Quão dolorosamente sofrem os homens: pessoas individualmente, famílias, a
sociedade inteira! Mors et vita duello conflixere mirando! (A morte e vida
travam um combate singular!).
Neste dia do Sacrifício Pascal não nos é permitido esquecer nenhum daqueles
que sofrem.
Também para eles é dia de Páscoa!
Todas as vítimas da injustiça, da crueldade humana e da violência, da
exploração e do egoísmo se encontram no próprio coração do Cordeiro Pascal.
Todos os milhões e milhões de seres humanos ameaçados pelo flagelo da fome,
que poderia ser afastado ou diminuído, se a humanidade se dispusesse a
renunciar, mesmo que fosse a uma parte somente dos recursos que loucamente
despende nos armamentos.
Também para eles é dia de Páscoa!
4. Cordeiro Pascal! Vós que conheceis todos os nomes do mal muito melhor do
que qualquer pessoa que os possa designar ou elencar: abraçai todas as vítimas
contra o vosso coração!
Cordeiro Pascal, Cordeiro crucificado! Redentor! Agnus redemit oves.
Ainda que — na história do homem, dos indivíduos, das famílias, da sociedade
e, por fim, da humanidade inteira — o mal se tivesse desenvolvido de uma forma
descomunal, chegando mesmo a ofuscar o horizonte do bem, ainda assim, ele jamais
Vos superaria!
Não mais vos atingirá a morte!
Cristo ressuscitado já não morre!
É mesmo que na história do homem — e nos tempos em que nos é dado viver — se
potencializasse o mal; mesmo que humanamente se deixasse de vislumbrar a via de
retorno a um mundo onde o homem viva em paz e na justiça — ao mundo do amor
social,
— ainda que humanamente não se visse a passagem,
— ainda que se enfurecessem os poderes das trevas e as forças do mal, Vós,
Vítima pascal. Vós, Cordeiro sem mancha, Redentor,
Vós já alcançastes a vitória! A vossa Páscoa é passagem!
Vós já alcançastes a vitória! E dela fizestes a nossa vitória! O conteúdo
pascal da vida do vosso Povo.
5. Agnus redemit oves. (O Cordeiro — Cristo — remiu as ovelhas).
Christus innocens Patri reconciliavit peccatores. (Cristo, inocente,
reconciliou com o Pai os pecadores).
O mal nunca se reconciliará com o bem. Mas os homens, os homens pecadores, os
homens atingidos pelo mal — e, por vezes, mesmo profundamente macerados pelo mal
— esses reconciliou-os Cristo com o Pai.
Hoje festejamos a Ressurreição! Hoje festejamos a Reconciliação.
O mistério da Ressurreição permanece no próprio coração de cada morte humana.
O mistério da Ressurreição permanece no coração das multidões, no coração de
multidões inumeráveis: das Nações, das diversas línguas, raças, culturas e
religiões. O Mistério Pascal da Reconciliação permanece na profundidade do mundo
humano. E de lá ninguém o arrancará!
6. A alegria pascal continua a estar perturbada por situações de tensão ou de
conflito nalgumas partes do mundo; primeira dentre todas a guerra desgastante
que de há tempos se encanzina entre o Iraque e o Irão e que já acarretou tantos
sofrimentos aos dois Povos nela envolvidos. Ultimamente, veio juntar-se a grave
tensão entre duas Nações de tradição cristã, a Argentina e a Grã-Bretanha, com
perda de vidas humanas e com a ameaça de um conflito armado e com terríveis
repercussões internacionais.
Faço ardentes votos e um apelo particularmente premente às partes em causa,
para que procurem, com empenho responsável e com toda a boa vontade, as vias
para uma composição pacífica e honrosa da contenda, enquanto ainda é tempo para
prevenir um choque sanguinolento.
Paz! Paz na justiça, paz no respeito pelos princípios fundamentais
universalmente reconhecidos e afirmados pelo direito internacional, na
compreensão mútua! Que as orações de todos suscitem e apoiem o esforço que se
impõe por parte dos responsáveis de ambos os directamente implicados e de
quantos houverem de interpor os seus amigáveis auxílios para se chegar à
desejada pacificação.
7. Irmãos e Irmãs!
De todas as Nações e Povos, línguas, raças, culturas e religiões, Países e
continentes!
O nosso mundo humano acha-se impregnado pela Ressurreição! O nosso mundo
humano acha-se transformado pela Reconciliação: Agnus redemit oves (O Cordeiro —
Cristo — remiu as ovelhas).
Dirijo-me a todos. Convido a todos a adorarem juntamente com o Servo dos
Servos de Deus a Vítima Pascal! A encontrarem a luz nas trevas! A esperança por
entre os sofrimentos!
Surrexit Dominus vere! (O Senhor ressuscitou verdadeiramente).
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