MENSAGEM DO SANTO PADRE EM
PREPARAÇÃO PARA O XVIII DIA MUNDIAL DO DOENTE
1. O Dia Mundial do Doente, que se há-de realizar em Roma no dia 11 de
Fevereiro do ano 2000, durante o Grande Jubileu, verá a comunidade cristã
comprometida em reconsiderar a realidade da enfermidade e do sofrimento, na
perspectiva do mistério da encarnação do Filho de Deus, para haurir deste
extraordinário evento uma nova luz acerca destas fundamentais experiências
humanas.
No ocaso do segundo milénio da era cristã, enquanto olha com admiração para
o caminho percorrido pela humanidade no cuidado do sofrimento e na promoção da
saúde, a Igreja coloca-se à escuta dos interrogativos que provêm do mundo da
saúde, a fim de definir melhor a sua presença nesse contexto e enfrentar de
maneira adequada os prementes desafios do momento.
No decurso da história, o homem fez frutificar os recursos da inteligência e
do coração para superar os limites inerentes à própria condição e realizou
grandes conquistas em prol da salvaguarda da saúde. Basta pensar na
possibilidade de prolongar a vida e de melhorar a sua qualidade, de aliviar os
sofrimentos e de valorizar as potencialidades das pessoas através da
utilização de remédios de eficácia segura e de tecnologias cada vez mais
avançadas. A estas conquistas devem acrescentar-se as de carácter social, tais
como a difundida consciência do direito aos cuidados e a sua tradução em
termos jurídicos nas várias «Cartas do direito do doente». Além disso, não
se pode esquecer a significativa evolução realizada no sector da assistência,
graças à criação de novas aplicações médicas, de um serviço de
enfermagem cada vez mais qualificado e do fenómeno do voluntariado, que nos
últimos tempos adquiriu significativos níveis de competência.
2. Todavia, no ocaso do segundo milénio não se pode dizer que a humanidade fez
tudo quanto é necessário para aliviar o imenso fardo do sofrimento que ainda
pesa sobre os indivíduos, as famílias e inteiras sociedades.
Pelo contrário, parece que especialmente neste
último século se tenha alargado o rio dos sofrimentos humanos, já grande em
virtude da fragilidade da natureza humana e da ferida do pecado original, com o
acréscimo de sofrimentos infligidos pelas opções negativas das pessoas e dos
Estados: penso nas guerras que ensanguentaram este século, talvez mais do que
qualquer outro da atormentada história da humanidade; penso nas formas de
doença amplamente difundidas na sociedade, como a toxicomania, a sida, as
enfermidades devidas à degradação das grandes cidades e do meio ambiente;
penso no agravamento da pequena e da grande criminalidade, bem como nas
propostas de eutanásia.
Tenho diante dos meus olhos não só os leitos dos
hospitais, onde jazem numerosas pessoas enfermas, mas também os sofrimentos dos
refugiados, das crianças órfãs, das inumeráveis vítimas dos males sociais e
da pobreza.
Ao mesmo tempo, ao eclipse da fé, especialmente no
mundo secularizado, acrescenta-se uma ulterior e grave causa de sofrimento:
aquela de não se saber mais captar o sentido salvífico do sofrimento e o
conforto da esperança escatológica.
3. Partícipe das alegrias e das esperanças, das
tristezas e das angústias dos homens de todos os tempos, a Igreja acompanhou e
apoiou constantemente a humanidade na sua luta contra o sofrimento e no seu
compromisso em favor da promoção da saúde. Ao mesmo tempo, empenhou-se em
desvelar aos homens o significado do sofrimento e as riquezas da Redenção
levada a cabo por Cristo Salvador. A história registra grandiosas figuras de
homens e de mulheres que, orientados pelo desejo de imitar a Cristo mediante um
profundo amor aos irmãos pobres e sofredores, deram vida a inúmeras
iniciativas assistenciais, constelando de bem os últimos dois milénios.
Além de nos Padres da Igreja e nos Fundadores e
Fundadoras dos Institutos religiosos, como deixar de pensar com admirada
surpresa nas numerosas pessoas que, no silêncio e na humildade, despenderam a
própria vida em benefício do próximo enfermo, alcançando em muitos casos os
píncaros do heroísmo (cf. Vita consecrata, 83)? A experiência
quotidiana demonstra que a Igreja, inspirada no Evangelho da caridade, continua
a contribuir com muitas obras, hospitais, estruturas médicas e organizações
de voluntários para o cuidado da saúde e dos doentes, com particular atenção
aos mais desvantajados em todas as partes do mundo, qualquer que seja ou tenha
sido a causa, voluntária ou involuntária do seu sofrimento.
Trata-se de uma presença que deve ser apoiada e
promovida em vantagem do bem precioso da saúde humana e com o olhar atento a
todas as desigualdades e contradições que subsistem no mundo da saúde.
4. Efectivamente, durante os séculos, ao lado das
luzes não faltaram as sombras, que obscureceram e ainda ofuscam o contexto, sob
muitos aspectos maravilhoso, da promoção da saúde. Penso de maneira
particular nas graves desigualdades sociais no que diz respeito ao acesso aos
recursos médicos, que ainda hoje se verificam em vastas áreas do Planeta,
sobretudo nos países do Sul do mundo.
Esta desproporção injusta investe, com crescente
dramaticidade, o sector dos direitos fundamentais da pessoa: inteiras
populações não têm a possibilidade de usufruir nem sequer dos remédios de
primeira e urgente necessidade, enquanto noutras partes as pessoas se abandonam
ao abuso e ao desperdício de medicamentos até mesmo custosos. Depois, o que
dizer do elevadíssimo número de irmãos e irmãs que, devido à escassez do
necessário para saciar a própria fome, são vítimas de todos os géneros de
doenças? Sem que se mencionem as inúmeras guerras que ensanguentam a
humanidade semeando, além das mortes, inclusivamente traumas físicos e
psicológicos de todos os tipos!
5. Diante de tais cenários, é necessário
reconhecer que infelizmente, em não poucos casos, o progresso económico,
científico e técnico não se fez acompanhar de um desenvolvimento autêntico,
centrado na pessoa e na dignidade inviolável de cada ser humano. As próprias
conquistas no campo da genética, fundamentais para o cuidado da saúde e,
sobretudo, para a salvaguarda da vida nascente, se tornam uma ocasião de
selecções inadmissíveis, de manipulações insensatas e de interesses
antitéticos ao desenvolvimento genuíno, com resultados não raro devastantes.
Por um lado, realizam-se esforços ingentes para
prolongar a vida e até mesmo para a procriar de maneira artificial; por outro,
não se permite que nasça quem já foi concebido, e acelera-se a morte daqueles
que não são mais considerados úteis. Além disso, enquanto justamente se
valoriza a saúde multiplicando iniciativas para a promover, chegando-se às
vezes a uma espécie de culto do corpo e à busca hedonista da eficácia
física, ao mesmo tempo há pessoas que se reduzem a considerar a vida como uma
mera mercadoria de consumo, determinando novas marginalizações para os
portadores de deficiência, os idosos e os doentes terminais.
Todas estas contradições e situações paradoxais
são reconduzíveis à falta de harmonização, por um lado, entre a lógica do
bem-estar e da busca do progresso tecnológico, e por outro, a lógica dos
valores éticos fundados sobre a dignidade de cada ser humano.
6. Na véspera do novo milénio, é de- sejável que
também no mundo do sofrimento e da saúde se promova «uma purificação da
memória» que leve a «reconhecer as faltas cometidas por quantos detiveram e
detêm o nome de cristãos» (Incarnationis mysterium, 11; cf. Tertio
millennio adveniente, 33, 37 e 51). Também neste campo a comunidade
eclesial é chamada a acolher o convite à conversão, vinculado à celebração
do Ano Santo.
O processo de conversão e de renova- ção será
facilitado se fixarmos continuamente o olhar n'Aquele, que «encarnou no seio de
Maria vinte séculos atrás, [e] continua a oferecer-Se à humanidade como fonte
de vida divina» (Tertio millennio adveniente, 55).
O mistério da Encarnação exige que a vida seja
compreendida como dádiva de Deus a conservar com responsabilidade e a despender
em vista do bem: por conseguinte, a saúde constitui um atributo positivo da
vida, e deve ser procurada para o bem da pessoa e do próximo. Todavia, a saúde
é um bem «penúltimo» na hierarquia dos valores, que há de ser cultivado e
considerado na óptica do bem total e, portanto, também espiritual da pessoa.
7. Nesta circunstância, é em particular a Cristo
sofredor e ressuscitado que o nosso olhar se dirige. Assumindo a condição
humana, o Filho de Deus aceitou vivê-la em todos os seus aspectos, inclusive o
sofrimento e a morte, completando na sua pessoa as palavras pronunciadas na
última Ceia: «Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos» (Jo
15, 13). Celebrando a Eucaristia, os cristãos anunciam e actualizam o
sacrifício de Cristo, pois «é através dos seus ferimentos que fomos
curados» (cf. 1 Pd 2, 25) e, unindo-se a Ele, «conservam nos
sofrimentos uma especialíssima parcela do infinito tesouro da Redenção do
mundo, e podem compartilhar este tesouro com os outros» (Salvifici doloris,
27).
A imitação de Jesus, Servo sofredor, levou grandes
santos e simples crentes a fazer da enfermidade e do sofrimento uma fonte de
purificação e de salvação para si mesmos e para os outros. Que grandiosas
perspectivas de santificação pessoal e de cooperação na salvação do mundo
o caminho, traçado por Cristo e por inúmeros dos seus discípulos abre para os
irmãos e as irmãs doentes! Trata-se de um percurso difícil, porque o homem
não encontra por si mesmo o sentido do sofrimento e da morte, e no entanto de
um itinerário sempre possível com a ajuda de Jesus, Mestre e Guia interior
(cf. Salvifici doloris, 26-27).
Assim como a ressurreição transformou as chagas de
Cristo num manancial de purificação e de salvação, assim também para cada
doente a luz de Cristo ressuscitado é uma confirmação de que a vereda da
fidelidade a Deus no dom de si mesmo na Cruz é triunfante, capaz de transformar
a própria enfermidade numa fonte de alegria e de ressurreição. Não é
porventura este o anúncio que ressoa no coração de cada celebração
eucarística, quando a assembleia proclama: «Anunciamos a vossa morte, Senhor,
e proclamamos a vossa ressurreição, enquanto esperamos a vossa vinda»? Os
doentes, também eles enviados como operários para a vinha do Senhor (cf. Christifideles
laici, 53), com o seu exemplo podem oferecer um válido contributo para a
evangelização de uma cultura que tende a remover a experiência do sofrimento,
impedindo a si mesma de captar o seu profundo sentido com os intrínsecos
estímulos para um crescimento humano e cristão.
8. O Jubileu convida-nos outrossim a contemplar o
rosto de Jesus, divino Samaritano das almas e dos corpos. Seguindo o exemplo do
seu divino Fundador, a Igreja «escreve continuamente, de século em século
(...) a parábola evangélica do bom Samaritano, revelando e comunicando o amor
de Jesus Cristo que cura e consola. Fê-lo mediante o testemunho da vida
religiosa consagrada ao serviço dos doentes e mediante a acção incansável de
todos os operadores no campo da saúde» (Christifideles laici, 53). Este
compromisso não brota de particulares conjunturas sociais, nem deve ser
entendido como um acto facultativo ou ocasional, mas constitui uma resposta
inevitável ao mandato de Cristo: «Tendo chamado a si os discípulos, deu-lhes
o poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todos os géneros de
doenças e de enfermidades» (cf. Mt 10, 7-8).
É da Eucaristia que o serviço prestado ao homem
sofredor na alma e no corpo adquire o seu sentido, encontrando nela não só a
sua fonte, mas também a própria norma. Não foi por acaso que Jesus uniu
estreitamente a Eucaristia ao serviço (cf. Jo 13, 2-16), pedindo que os
discípulos perpetuassem em sua memória não só a «fractio panis», mas
também o serviço do «lava-pés».
9. O exemplo de Cristo, bom Samaritano, deve inspirar
a atitude do crente, impelindo-o a fazer-se «próximo» dos irmãos e das
irmãs que sofrem, mediante o respeito, a compreensão, a aceitação, a
ternura, a compaixão e a gratuitidade. Trata-se de lutar contra a indiferença
que leva os indivíduos e os grupos a fecharem-se egoistamente em si mesmos. Com
esta finalidade «a família, a escola, as outras instituições educativas Œ
ainda que seja somente por motivos humanitários Œ devem trabalhar com
perseverança no sentido de despertar e apurar aquela [profunda] sensibilidade
para com o próximo e o seu sofrimento» (Salvifici doloris, 29). Nas
pessoas que crêem, esta sensibilidade humana é assumida no ágape, ou seja, no
amor sobrenatural que leva a amar o próximo por amor a Deus. Com efeito a
Igreja, guiada pela fé, ao circundar de afectuoso cuidado quantos se sentem
afligidos pelo sofrimento humano, reconhece neles a imagem do seu Fundador pobre
e sofredor, e prodigaliza-se em tirá-los da indigência, evocando as Suas
palavras: «Eu estava despido e vestistes-me» (Mt 25, 36).
O exemplo de Jesus, bom Samaritano, impele não só a
assistir o doente, mas também a fazer o possível para o reinserir na
sociedade. De facto, para Cristo, curar significa ao mesmo tempo reintegrar:
assim como a doença exclui da comunidade, assim também a cura deve levar o
homem a reencontrar o seu lugar no seio da família, da Igreja e da sociedade.
A quantos estão, profissionalmente ou por escolha
voluntária, empenhados no mundo da saúde, dirijo uma calorosa exortação a
fixar o olhar no divino Samaritano, a fim de que o seu serviço se possa tornar
prefiguração da salvação definitiva e anúncio dos novos céus e da nova
terra, «onde habitará a justiça» (2 Pd 3, 13).
10. Jesus não só purificou e curou os enfermos, mas
foi também um incansável promotor da saúde através da sua presença
salvífica, do ensinamento e da acção. O seu amor pelo homem traduzia-se em
relações repletas de humanidade, que O conduziam a compreender, a demonstrar
compaixão e a proporcionar alívio, unindo harmonicamente ternura e força. Ele
comovia-se diante da beleza da natureza, sensibilizava-se diante do sofrimento
dos homens e combatia o mal e a injustiça. Enfrentava os aspectos negativos da
experiência com coragem e sem ignorar o seu peso, comunicando a certeza de um
mundo novo. N'Ele a condição humana mostrava o rosto remido, e as aspirações
humanas mais profundas encontravam a própria realização.
Ele quer comunicar esta harmoniosa plenitude de vida
aos homens de hoje. A sua acção salvífica tem em vista não só colmar a
indigência do homem, vítima dos próprios limites e erros, mas sustentar a
tensão rumo à completa realização pessoal. Ele abre perante o homem a
perspectiva da mesma vida divina: «Vim para que tenham vida, e a tenham em
abundância» (Jo 10, 10).
Chamada a dar continuidade à missão de Jesus, a
Igreja deve fazer-se promotora de vida ordenada e completa para todos.
11. No âmbito da promoção da saúde e de uma
qualidade de vida rectamente entendida, o cristão deve prestar particular
atenção a dois deveres.
Em primeiro lugar, a defesa da vida. No mundo
contemporâneo, muitos homens e mulheres se prodigalizam por uma melhor
qualidade de vida, no respeito da mesma vida, e reflectem sobre a ética da vida
para dissipar a confusão dos valores, às vezes presente na cultura hodierna.
Como eu recordava na Encíclica Evangelium vitae, «significativo é o
despertar da reflexão ética acerca da vida: a aparição e o desenvolvimento
cada vez maior da bioética favoreceu a reflexão e o diálogo Œ entre crentes
e não crentes, como também entre crentes de diversas religiões Œ sobre
problemas éticos, mesmo fundamentais, que dizem respeito à vida do homem» (n.
27). Todavia, ao lado destes não faltam aqueles que infelizmente cooperam para
a formação de uma preocupante cultura de morte, com a sua difusão de uma
mentalidade impregnada de egoísmo e de materialismo hedonista, e com o
favorecimento social e legal à supressão da vida.
Com frequência, na origem desta cultura existe uma
atitude prometéica do homem, que se ilude de «poder apropriar-se da vida e da
morte para decidir delas, quando na realidade acaba derrotado e esmagado por uma
morte irremediavelmente fechada a qualquer perspectiva de sentido e a qualquer
esperança» (Evangelium vitae, 15). Quando a ciência e a arte médica
correm o risco de tresmalhar a sua originária dimensão ética, os mesmos
profissionistas do mundo da saúde «às vezes podem ser fortemente tentados a
transformar-se em fautores de manipulação da vida, ou até mesmo em agentes de
morte» (Ibid., 89).
12. Neste contexto, os crentes são chamados a
desenvolver um olhar de fé sobre o sublime e misterioso valor da vida, também
quando esta se apresenta frágil e vulnerável. «Este olhar não se deixa cair
em desânimo à vista daquele que se encontra enfermo, atribulado,
marginalizado, ou às portas da morte; mas deixa-se interpelar por todas estas
situações procurando nelas um sentido, sendo precisamente em tais
circunstâncias que se apresenta disponível para ler de novo no rosto de cada
pessoa um apelo ao entendimento, ao diálogo e à solidariedade» (Ibid., 83).
Trata-se de uma tarefa que investe particularmente os
agentes no campo da saúde: médicos, farmacêuticos, enfermeiros, capelães,
religiosos, religiosas, administradores e voluntários que, em virtude da sua
profissão e a título especial, são chamados a constituir guardiães da vida
humana. Todavia, é uma tarefa que chama em causa inclusivamente todos os outros
seres humanos, a começar pelos familiares da pessoa enferma. Eles sabem que «a
súplica que brota do coração do homem no confronto supremo com o sofrimento e
a morte, especialmente quando é tentado a fechar-se no desespero e como que a
aniquilar-se nele, é sobretudo uma petição de companhia, solidariedade e
apoio na prova. É um pedido de ajuda para continuar a esperar, quando falham
todas as esperanças humanas» (Ibid., 67).
13. O segundo dever, ao qual os cristãos não podem
subtrair-se, concerne à promoção de uma saúde digna do homem. Na nossa
sociedade existe o perigo de fazer da saúde um ídolo ao qual se submetem todos
os outros valores. A visão cristã do homem contrasta com uma noção de saúde
reduzida à pura vitalidade exuberante, satisfeita com a própria eficácia
física e absolutamente fechada a qualquer consideração positiva do
sofrimento. Esta visão, transcurando as dimensões espirituais e sociais da
pessoa, termina por prejudicar o seu verdadeiro bem. Precisamente porque a
saúde não se limita à perfeição biológica, também a vida vivida no
sofrimento oferece espaços de crescimento e de auto-realização, abrindo
caminhos rumo à descoberta de novos valores.
Esta visão da saúde, fundada sobre uma antropologia
respeitosa da pessoa na sua integridade, longe de se identificar com a simples
ausência de enfermidades, coloca-se como tensão rumo a uma mais plena harmonia
e a um sadio equilíbrio a nível físico, psíquico, espiritual e social. Nesta
perspectiva, a pessoa mesma é chamada a mobilizar todas as energias
disponíveis para realizar a sua vocação e o bem do próximo.
14. Este modelo de saúde compromete a Igreja e
a sociedade na criação de uma ecologia digna do homem. Com efeito, o meio
ambiente tem uma relação com a saúde do homem e das populações: ele
constitui a «casa» do ser humano e o conjunto dos recursos confiados à sua
tutela e administração, «o jardim a guardar e o campo a cultivar». Porém,
à ecologia externa à pessoa deve vincular-se uma ecologia interior e moral, a
única que é adequada para um recto conceito de saúde.
Considerada na sua integridade, a saúde do homem
torna-se desta forma um atributo da vida, um recurso para o serviço ao próximo
e uma abertura ao acolhimento da salvação.
15. No ano da graça do Jubileu Œ «ano de
remissão dos pecados e das penas pelos pecados, ano de reconciliação entre os
desavindos, ano de múltiplas conversões e de penitência sacramental e
extra-sacramental» (Tertio millennio adveniente, 14) Œ convido
pastores, sacerdotes, religiosos, religiosas, fiéis e homens de boa vontade a
enfrentarem com coragem os desafios que se apresentam no mundo do sofrimento e
da saúde.
O Congresso Eucarístico Internacional,
que será celebrado em Roma no ano 2000, se torne o centro ideal do qual se
hão-de irradiar orações e iniciativas aptas para tornar viva e concreta a
presença do divino Samaritano no mundo da saúde.
Formulo cordiais votos por que, graças à
contribuição dos irmãos e das irmãs de todas as Igrejas cristãs, a
celebração do Jubileu do Ano 2000 possa caracterizar o desenvolvimento de uma
colaboração ecuménica no serviço amoroso às pessoas doentes, de forma a dar
um testemunho da busca da unidade, compreensível a todos, ao longo das veredas
concretas da caridade.
Dirijo um apelo específico aos Organismos
internacionais políticos, sociais e médicos, a fim de que em todas as partes
do mundo se tornem convencidos promotores de projectos concretos para a luta
contra tudo quanto atenta à dignidade e à saúde da pessoa.
No caminho da participação activa nas experiências
dos irmãos e das irmãs doentes, acompanhe-nos a Virgem Mãe que, aos pés da
Cruz, (cf. Jo 19, 25), compartilhou as dores do Filho e, tendo-se tornado
perita em sofrimento, exerce a sua constante e amorosa protecção sobre quantos
vivem no corpo e no espírito as limitações e as feridas da condição humana.
A ti, Saúde dos enfermos e Rainha da paz, confio os
doentes e quantos lhes estão próximos, para que os ajude com materna
intercessão a ser propagadores da civilização do amor.
Com estes bons votos, concedo a todos uma especial
Bênção Apostólica.
Castel Galdolfo, 6 de Agosto de 1999,
Transfiguração do Senhor.
|