1. "Essa noite [...] será de vigia para todos os filhos de Israel,
de geração em geração, em honra do Senhor" (Ex 12,42).
Celebramos nesta noite santa a Vigília Pascal, a primeira, melhor, "a
mãe" de todas as vigílias do ano litúrgico. Nela, como canta
repetidamente o Precónio, volta-se a percorrer o caminho da humanidade,
desde a criação até o acontecimento culminante da salvação, que é a morte
e a ressurreição de Cristo.
A luz d'Aquele que "ressuscitou dos mortos como primícias dos que
morreram" (1 Cor 15,20) torna "clara como o dia" (cf. Sal
139 [138], 12) esta noite memorável, considerada justamente o "coração"
do ano litúrgico. Nesta noite, a Igreja inteira vigia e torna a percorrer,
meditando, as etapas significativas da intervenção salvífica de Deus no
universo.
2. "Uma noite de vigia em honra do Senhor". Duplo é o significado
da solene Vigília Pascal, tão rica de símbolos acompanhados por uma
extraordinária abundância de textos bíblicos. Por um lado ela é memória
orante das mirabilia Dei, ao relembrar as páginas capitais da Sagrada Escritura,
desde a criação ao sacrifício de Isaac, à passagem do Mar Vermelho, à
promessa da nova Aliança.
Por outro lado, esta sugestiva vigília é expectativa confiante no pleno
cumprimento das antigas promessas. A lembrança da obra de Deus culmina na
ressurreição de Cristo e se projecta no acontecimento escatológico da parusia.
Vislumbramos assim, nesta noite pascoal, o amanhecer do dia que não tem mais
ocaso, o dia de Cristo ressuscitado, que inaugura a vida nova, "os novos
céus e a nova terra" (2 Pdr 3,13; cf. Is 65,17; 66,22; Ap
21,1).
3. Desde os seus inícios, a comunidade cristã situou a celebração do
Baptismo no contexto da Vigília Pascal. Também aqui, nesta noite, alguns
catecúmenos, mergulhados com Jesus na sua morte, com Ele ressuscitarão para a
vida imortal. Deste modo renova-se o prodígio do misterioso renascimento
espiritual, actuado pelo Espírito Santo, que incorpora os neo-baptizados no
povo da nova e definitiva Aliança sancionada pela morte e ressurreição de
Cristo.
A cada um de vós, caros Irmãos e Irmãs que estais para receber os
sacramentos da iniciação cristã, dirijo com afecto uma particular saudação.
Vós provindes da Itália, do Togo e do Japão: a vossa origem manifesta a
universalidade da chamada à salvação e a gratuidade do dom da fé. Convosco,
saúdo os vossos parentes, amigos e os que cuidaram da vossa preparação.
Graças ao Baptismo iniciareis a fazer parte da Igreja, que é um grande povo
peregrino, sem limites de raça, língua e cultura; um povo chamado à fé a
partir de Abraão e destinado a tornar-se uma bênção no meio de todas as
nações da terra (cf. Gn 12,1-3). Sede fiéis Àquele que vos escolheu e
confiai-Lhe, com generoso empenho, toda a vossa existência.
4. Juntamente com os que dentro de pouco serão baptizados, a liturgia
convida a todos nós aqui presentes a renovar as promessas do nosso Baptismo. A
nós o Senhor pede para Lhe renovar a expressão da nossa plena docilidade e
total dedicação ao serviço do seu Evangelho.
Caríssimos Irmãos e Irmãs! Se às vezes esta missão vos aparecer difícil,
recordai as palavras do Ressuscitado: "Eu estarei sempre convosco, até
ao fim do mundo" (Mt 28,20). Assim, na certeza da sua presença,
não temereis qualquer dificuldade nem obstáculo. A sua Palavra vos iluminará;
o seu Corpo e o seu Sangue servirão de alimento e amparo no caminho quotidiano
para a eternidade.
Ao lado de cada um de vós permanecerá sempre Maria, como esteve presente
entre os Apóstolos amedrontados e desconcertados na hora da prova. E, com a sua
fé, Ela vos indicará, para além da noite do mundo, a aurora gloriosa da
ressurreição. Amem.