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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
ECCLESIA IN OCEANIA
DO SANTO PADRE
JOÃO PAULO II
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS
AOS CONSAGRADOS E CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE
JESUS CRISTO E OS POVOS DA OCEÂNIA
SEGUINDO O SEU CAMINHO
PROCLAMANDO A SUA VERDADE
E VIVENDO A SUA VIDA 
    

  

 INTRODUÇÃO

1. A Igreja na Oceânia dá glória a Deus ao alvorecer do terceiro milénio e proclama a sua esperança ao mundo. A sua gratidão a Deus nasce da contemplação dos numerosos dons que recebeu, nomeadamente a sua grande variedade de povos e de culturas e tantas maravilhas da criação, mas sobretudo o dom imenso da fé em Jesus Cristo, « o primogénito de toda a criação » (Col 1, 15). No passado milénio, a Igreja na Oceânia acolheu de bom grado e conservou este dom da fé, tendo-o transmitido fielmente às novas gerações. Por isso, a Igreja inteira louva a Santíssima Trindade. 

Desde os tempos mais antigos, os povos da Oceânia sentiram-se atraídos pela presença divina nas magnificências da natureza e da cultura. Mas foi com a chegada dos missionários estrangeiros, na última metade do segundo milénio, que os nativos ouviram pela primeira vez falar de Jesus Cristo, o Verbo feito carne. Aqueles que emigraram da Europa e doutras partes do mundo levaram consigo a sua fé. Todos encontraram no Evangelho de Jesus Cristo, recebido com fé e vivido na communio da Igreja, resposta superabundante aos anseios mais profundos do coração humano. A esperança da Igreja na Oceânia é grande, porque experimentou a bondade infinita de Deus em Cristo. O tesouro da fé cristã permaneceu, até hoje, imutável no seu dinamismo e nas suas promessas, pois o Espírito de Deus continua a ser duma novidade surpreendente. A Igreja espalhada pelo mundo inteiro partilha com os povos da Oceânia a esperança de que o futuro háde trazer novos e ainda mais maravilhosos dons de graça às terras do Grande Oceano. 

2. Um momento muito particular em que a Igreja na Oceânia pôde falar da sua gratidão e esperança foi a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Oceânia, que decorreu desde 22 de Novembro até 12 de Dezembro de 1998. Tinha sugerido a utilidade da sua realização na carta apostólica Tertio millennio adveniente, propondo-a como uma da série de assembleias continentais destinadas a preparar a Igreja para o novo milénio.(1) Aos bispos da Oceânia vieram juntar-se bispos doutros continentes e responsáveis de dicastérios da Cúria Romana. Participaram ainda outros membros da Igreja, incluindo sacerdotes, fiéis leigos e pessoas consagradas, como também delegados fraternos doutras Igrejas e Comunidades Eclesiais. A Assembleia analisou e debateu a situação actual da Igreja na Oceânia para poder programar mais eficazmente o seu futuro. Além disso, concentrou a atenção da Igreja inteira sobre as esperanças e desafios, as carências e possibilidades, as lágrimas e alegrias do vasto mosaico humano que é a Oceânia. 

O encontro em Roma de tantos bispos, congregados à volta do Sucessor de Pedro, foi uma esplêndida ocasião para celebrar os dons de graça que produziram uma colheita tão abundante entre os povos da Oceânia. A fé em Jesus Cristo constituiu o fundamento e o ponto focal da oração e dos debates dos participantes. Os bispos e todos aqueles que os acompanhavam sentiam-se animados pela mesma e única fé em Cristo. Tudo era inspirado e fortalecido pela communio eclesial que a todos irmanava e que, ao longo dos dias da Assembleia Sinodal, se foi manifestando de forma intensa e sensível como verdadeira unidade na diversidade. 

  

CAPÍTULO I 

JESUS CRISTO E OS POVOS DA OCEÂNIA 

« Caminhando ao longo do mar da Galileia, [Jesus] viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores. Disse-lhes: AVinde após Mim e Eu farei de vós pescadores de homens". E eles imediatamente deixaram as redes e seguiram-n'O » (Mt 4, 18-20). 

A PESSOA DE JESUS 

O chamamento 

3. Durante a Assembleia Sinodal, a Igreja universal pôde observar mais claramente como é o encontro do Senhor Jesus com os vários povos da Oceânia, nas suas terras e numerosas ilhas. Na verdade, o Senhor mesmo pousa sobre eles um olhar de amor que encerra, simultaneamente, um desafio e um chamamento. À semelhança de Simão Pedro e seu irmão André, aqueles povos são convidados a deixar tudo, a converter-se a Ele, que é o Senhor da vida, e a seguí-Lo. Devem abandonar não apenas os caminhos do pecado, mas também os seus modos vãos de pensar e agir, a fim de enveredarem pela senda duma fé cada vez mais profunda e seguirem o Senhor com uma fidelidade sempre maior. 

O Senhor convocou para junto de Si a Igreja na Oceânia: é um chamamento que comporta, como sempre, um envio em missão. A finalidade que tem o estar com Jesus, é partir de Jesus, sempre contando com o seu poder e a sua graça. Agora Cristo chama a Igreja a abraçar a sua missão, com nova energia e criatividade: isto mesmo foi o que o Sínodo viu claramente na vida da Igreja na Oceânia. 

Os bispos exultaram ao constatar como, na vida da Igreja na Oceânia, o Senhor Jesus Se revelou fiel à sua promessa: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28, 20). A certeza desta sua presença dá a força e a coragem de que necessitam os discípulos para se tornarem « pescadores de homens ». Uma tal presença do Senhor era palpável, durante a Assembleia Especial, na oração, na partilha de esperanças e preocupações, e no vínculo da communio eclesial. Esta fé na presença de Jesus no meio do seu povo da Oceânia consentirá sempre novos e maravilhosos encontros com Ele, tornando-se estes, por sua vez, semente duma nova missão. 

Quando caminhamos com o Senhor, deixamos ao cuidado d'Ele tudo o que nos pesa, e isto dá-nos a força para cumprirmos a missão que Ele nos confia. Ele, que toma do que é nosso, por sua vez dá-Se a nós; assume a nossa fraqueza e dá-nos a sua força: este é o grande mistério da vida do discípulo e do apóstolo. É certo que Cristo actua connosco e em nós, quando « nos fazemos ao largo », como agora Ele nos pede para fazer. Quando os tempos são difíceis e pouco prometedores, o próprio Senhor nos incita a « lançar de novo as redes » (cf. Lc 5, 1-11).(2) Não podemos desobedecer. 

Apresentar Jesus Cristo 

4. A preocupação central da Assembleia Sinodal era encontrar caminhos adequados para apresentar hoje, aos povos da Oceânia, Jesus Cristo como Senhor e Salvador. Qual deverá ser então este modo novo de apresentá-Lo, capaz de atrair um maior número de pessoas para se encontrar e acreditar n'Ele? Nas suas intervenções, os Padres Sinodais expuseram os desafios e dificuldades mas também as esperanças e possibilidades que uma tal questão suscita. 

Ao longo da história, graças a extraordinários esforços missionários e pastorais da Igreja, os povos da Oceânia foram encontrando Jesus Cristo, que não cessa de os chamar à fé e de lhes conceder a vida nova. Nos tempos da colonização, o clero católico e os religiosos providenciaram sem demora instituições capazes de ajudar as pessoas chegadas à Austrália e à Nova Zelândia a conservarem e fortalecerem a sua fé. Os missionários levaram o Evangelho aos habitantes autóctones da Oceânia, convidando-os a acreditarem em Cristo e a encontrarem na Igreja a sua verdadeira casa. As pessoas responderam em grande número ao apelo, tornando-se discípulos de Cristo e começando a viver de acordo com a sua palavra. O Sínodo pôde verificar, sem margem para dúvidas, que a Igreja, a communio dos crentes, constitui agora uma realidade palpitante de vida em muitos povos da Oceânia. Hoje Jesus estende de novo o seu olhar amoroso sobre eles, chamando-os a uma fé ainda mais profunda e a uma vida ainda mais rica n'Ele. Por isso, os bispos não podiam deixar de se interrogar: Como pode a Igreja ser um instrumento eficaz da vontade de Jesus Cristo que é encontrar-Se hoje, em novos moldes, com os povos da Oceânia? 

Jesus Cristo: Pastor, Profeta e Sacerdote 

5. No seu amor infinito pelo mundo, Deus deu o seu único Filho para ser Deus-connosco. Despojando-Se a Si mesmo para Se tornar igual a nós, Jesus nasceu da Virgem Maria em condições simples e pobres. E, mesmo completamente pobre e humilhado como aparece na Cruz, Ele é o Filho muito amado de Deus, o Salvador do mundo em toda a sua humilhação e pobreza.(3) Quando veio habitar entre nós, Cristo proclamou a Boa Nova do Reino de Deus que chegou: um Reino de paz, justiça e verdade. Houve muitos, sobretudo pobres, necessitados e marginalizados, que O seguiram, mas a maioria dos poderosos do mundo revoltou-se contra Ele. Condenaram-n'O, pregando-O na Cruz. Esta morte ignominiosa, aceite pelo Pai como um sacrifício de amor pela salvação do mundo, abriu a estrada à ressurreição gloriosa pela força do amor do Pai. E assim Jesus foi estabelecido como Rei do universo, Profeta para todos os povos, e Sumo Sacerdote do santuário eterno. É Profeta, Sacerdote e Rei não só daqueles que O seguem, mas de todos os povos da terra. O Pai oferece-O como Caminho, Verdade e Vida a todos os homens e mulheres, a todas as famílias e comunidades, a todas as nações e a todas as gerações. 

Como Filho de David, Jesus não é apenas Rei mas também Bom Pastor daqueles que ouvem a sua voz. Ele conhece e ama os que O seguem.(4) É o Pastor supremo das nossas almas, o Pastor de todos os povos. Guia a Igreja pelo poder do Espírito Santo que n'Ele habita em plenitude e que Ele, por sua vez, infunde nos seus discípulos (cf. Jo 20, 22). Com a força do amor, o Espírito guia a partir do mais íntimo das pessoas, tocando os corações e as mentes dos povos da Oceânia e tornando-os livres para viverem a vida plena para que foram criados. 

Como Palavra de Deus, Jesus é o Profeta universal, a revelação total de Deus.(5) Ele é a Verdade e convida as pessoas a crerem n'Ele e a partilharem a sua vida. O seu Espírito guia o baptizado na sua peregrinação diária rumo a novas profundezas desta verdade. Movidos pelo Espírito Santo, os Padres Sinodais debateram muitas questões nascidas da sua experiência pastoral e do seu amor pelo povo de Deus. Não foi possível encontrar todas as respostas durante os dias do Sínodo, porque muitas questões requerem mais reflexão, experiência e oração; na sua busca de esclarecimento, porém, os bispos compartilharam e professaram profundamente a convicção de que a verdade da salvação só se pode encontrar em Jesus Cristo, e que o seu Espírito dá conforto e orientação a quantos recorrem a Ele com os seus problemas e responsabilidades. 

O Senhor crucificado e ressuscitado é o Sumo Sacerdote que Se oferece a Si mesmo ao Pai como sacrifício eterno pela vida do mundo. Ele deu a vida por todos, e continua a cumular da sua própria vida os seus discípulos, sobretudo através dos sacramentos. Na sua oração, chegam ao Pai as preces de todos os crentes. Através do Espírito Santo, torna-os capazes de levar uma vida de íntima união com Deus e de caridade mais generosa para com os seus irmãos e irmãs, especialmente pobres e necessitados. Os debates sinodais puseram em evidência que a Igreja, ao apresentar Jesus, deve mostrar a sua amorosa compaixão por um mundo que necessita de cura. Todos os baptizados são chamados a formar o povo sacerdotal de Deus à imagem de Jesus, Sumo Sacerdote, e, como tal, devem ter compaixão de todos, sobretudo dos que estão mais carecidos, afastados, extraviados. Indo ao seu encontro e oferecendo-lhes a vida em nome de Jesus, a Igreja será, na Oceânia actual, sacramento da justiça e da paz de Deus.(6) 

OS POVOS DA OCEÂNIA

Espaço e tempo 

6. O Sínodo não se limitou a reconhecer a especificidade duma vasta área que cobre quase um terço da superfície da terra, mas também a grande variedade de povos indígenas, cuja radiosa aceitação do Evangelho de Jesus Cristo é palpável no entusiasmo com que celebram a mensagem da salvação.(7) Estes povos formam uma porção única da humanidade numa região única do planeta. Geograficamente, a Oceânia compreende o continente da Austrália, uma multidão de ilhas, grandes e pequenas, e imensas extensões de água. O mar e a terra, a água e o solo tocam-se de infinitas maneiras, deixando frequentemente a vista humana deslumbrada com cenários de grande esplendor e beleza. Embora a Oceânia seja geograficamente muito extensa, a sua população é relativamente pouca e distribuída de forma desigual, formada por um grande número de povos indígenas e de imigrantes. Para muitos deles, a terra é importantíssima: o seu solo fértil ou os seus desertos, a sua variedade de plantas e animais, a sua abundância ou escassez. Outros, apesar de viverem sobre a terra firme, dependem mais dos rios e do mar. A água permite-lhes deslocarem-se de uma ilha para outra. A grande variedade de línguas - contam-se 700 só na Papuásia-Nova Guiné -, aliada às distâncias enormes entre ilhas e regiões, torna a comunicação um grande desafio em todo o Continente. Em muitas partes, viajar por mar ou pelo ar é mais importante do que deslocar-se por terra. As comunicações podem ser ainda lentas e difíceis como nas épocas passadas, embora hoje, em muitas áreas, a informação seja já transmitida instantâneamente graças às novas tecnologias electrónicas.(8) 

A maior nação da Oceânia quer pelo tamanho quer pela população é a Austrália, onde habitam os aborígenes há milhares de anos, deslocando-se por enormes extensões de território e vivendo em profunda harmonia com a natureza. Descoberta e colonizada por europeus, que a baptizaram com o nome de Terra Austral do Espírito Santo (Terra Australis de Spiritu Sancto), foi-se ocidentalizando progressivamente nos seus padrões culturais e na sua estrutura social. Tendo acompanhado os progressos científicos, tecnológicos e sociais do Ocidente, ela apresenta-se hoje em grande parte como uma nação urbana, moderna e secularizada, tendo as sucessivas imigrações da Europa e da Ásia concorrido para fazer dela uma sociedade pluricultural. Daí que os australianos sejam « um povo original, fruto do encontro de homens de nações, de línguas e de culturas diversas ».(9) 

A fé cristã foi trazida pelos imigrantes que vieram da Europa. Muitos sacerdotes e religiosos vieram com eles, e o seu zelo pastoral e obra educativa ajudaram-nos a levar uma vida cristã nesta terra nova e estrangeira. Inumeráveis pessoas nascidas na Austrália foram chamadas ao sacerdócio e à vida religiosa e também muitos leigos que deram a sua indispensável contribuição para o crescimento da Igreja e para o cumprimento da sua missão neste país. Conta-se entre elas uma religiosa extraordinária, a Beata Mary MacKillop, morta em 1909, que tive a alegria de beatificar em 1995. Naquela ocasião, lembrei que « a Igreja, ao declará-la "Beata", diz que a santidade invocada pelo Evangelho é australiana como ela era australiana ».(10) O relacionamento da Igreja com os aborígenes e os habitantes das ilhas do Estreito de Torres continua a ser importante mas difícil por causa de injustiças passadas e presentes e das diferenças culturais. Além destes desafios, a Igreja na Austrália enfrenta hoje muitos « desertos » (11) modernos, semelhantes aos doutros países do Ocidente. 

Os habitantes originais da Nova Zelândia, um país insular, eram os maoris que chamavam ao seu país Aotearoa, « Terra da Grande Nuvem Branca ». A colonização e, depois, a imigração forjaram a nação numa sociedade bicultural, onde a integração entre maoris e cultura ocidental continua a ser um premente desafio. Ao princípio foram os missionários estrangeiros que proclamaram o Evangelho ao povo maori; depois, quando chegaram os colonos europeus em maior número, vieram também sacerdotes e religiosos que ajudaram a sustentar e desenvolver a Igreja. O progresso moderno tornou a Nova Zelândia uma sociedade mais urbana e secularizada, obrigando a Igreja a enfrentar desafios semelhantes aos da Austrália. Embora se registe entre os católicos uma « crescente consciência de pertencer à Igreja », também é verdade que, em geral, « o sentido de Deus e da sua amorosa providência diminuiu ». Uma tal « sociedade secularizada precisa de ser confrontada de novo com o Evangelho integral da salvação em Jesus Cristo ».(12) 

A Papuásia-Nova Guiné é a mais extensa das nações da Melanésia. É uma sociedade predominantemente cristã com numerosas línguas locais diferentes e uma grande riqueza de culturas. À semelhança doutras nações insulares menores da Melanésia, conquistou a independência política em data bastante recente, tendo a sua história sido marcada desde então pela luta por uma democracia estável, justiça social, progresso equilibrado e integral do seu povo. Ultimamente, estas lutas na Papuásia-Nova Guiné e noutras partes da Melanésia têm-se caracterizado pelo recurso à violência e por movimentos separatistas, causando grandes sofrimentos ao povo e dano às instituições. Os responsáveis da Igreja e muitos cristãos têm trabalhado imenso para se chegar à paz e à reconciliação, e devem continuar a fazêlo porque a situação permanece muito instável. 

As nações insulares da Polinésia e Micronésia são relativamente pequenas, e cada uma delas com a sua própria língua e cultura indígena. Também elas têm de enfrentar as pressões e desafios do mundo moderno que exercem uma poderosa influência sobre a sociedade. Sem perder a sua identidade nem abandonar os seus valores tradicionais, desejam tomar parte no desenvolvimento que resulta duma interacção mais directa e complexa com outros povos e culturas. Isto repercute-se naturalmente sobre o frágil equilíbrio destas sociedade pequenas e vulneráveis, algumas das quais enfrentam um futuro muito incerto não só por causa da emigração em larga escala, mas também pela subida do nível do mar causada pelo aumento das temperaturas da terra. Para elas, as mudanças climáticas significam muito mais do que uma mera questão de carácter económico. 

Missão e cultura 

7. Desde o século XVI, quando os primeiros missionários estrangeiros chegaram à Oceânia, os povos insulares ouviram e acolheram o Evangelho de Jesus Cristo. Entre aqueles que deram início ou continuidade à obra missionária, houve santos e mártires, que constituem não só a maior glória do passado da Igreja na Oceânia, mas também a mais segura fonte de esperança para o futuro. Sobressaem, entre tais testemunhas da fé, São Pedro Chanel, martirizado em 1841 na ilha de Futuna; os Beatos Diogo Luís de San Vítores e Pedro Calungsod, que foram mortos juntos em 1672 em Guam; o Beato João Mazzuconi, martirizado em 1851 na ilha Woodlark; e o Beato Pedro To Rot, morto na Nova Bretanha em 1945, quase no fim da Segunda Guerra Mundial. Juntamente com muitos outros, estes heróis da fé cristã contribuíram, cada um a seu modo, para « implantar» a Igreja nas ilhas da Oceânia. Que a sua memória jamais seja esquecida! Que eles nunca cessem de interceder por estes amados povos por quem derramaram o seu sangue! 

Quando os missionários levaram pela primeira vez o Evangelho aos aborígenes, aos maoris, e restantes nações insulares, encontraram povos que já possuíam um antigo e profundo sentido do sagrado. As práticas e os ritos religiosos constituíam parte integrante da vida quotidiana e permeavam totalmente as suas culturas. Os missionários levaram a verdade do Evangelho que não é alheia a ninguém; mas, por vezes, alguns procuraram impor elementos que eram culturalmente estranhos àqueles povos. Agora há necessidade de um cuidadoso discernimento para ver o que pertence ao Evangelho e aquilo que não lhe pertence, o que é essencial e aquilo que não chega a sê-lo. Uma tal tarefa - há que admiti-lo - tornou-se ainda mais difícil por causa do processo de colonização e modernização que tem ofuscado a fronteira entre o que é autóctone e importado. 

Os povos tradicionais da Oceânia formam um mosaico com muitas culturas diversas: aborígene, melanésia, polinésia e micronésia. Desde o período da colonização, a cultura ocidental passou também a modelar a região. Nos últimos anos, entraram em cena também as culturas asiáticas, sobretudo na Austrália. Cada um dos grupos culturais, diverso em número e poder, tem as suas tradições específicas e a sua própria experiência de integração numa terra nova. E variam desde sociedades com fortes traços tradicionais e comunitários até às que são de cunho predominantemente ocidental e moderno. Na Nova Zelândia e mais ainda na Austrália, as políticas coloniais e pós-coloniais de imigração reduziram as populações indígenas a uma minoria na sua própria terra e a um grupo cultural que, de muitos modos, foi depredado. 

Um dos traços mais nobres dos povos da Oceânia é o seu forte sentido comunitário e solidário em família e na tribo, na aldeia ou na vizinhança. Por isso, as decisões são tomadas por consenso, fruto de um processo frequentemente longo e complexo de diálogo. Tocado pela graça de Deus, o sentido comunitário natural destes povos fê-los receptivos ao mistério da communio oferecida em Cristo. A Igreja na Oceânia manifesta um verdadeiro espírito de cooperação que se estende às várias comunidades cristãs e a todas as pessoas de boa vontade. Também faz parte das culturas tradicionais da Oceânia um profundo respeito pela tradição e a autoridade. Daí o sentido de solidariedade da geração actual com aqueles que a precederam, e a autoridade excepcional reconhecida aos pais e chefes tradicionais. 

A variedade cultural da Oceânia não está imune do processo mundial de modernização com os seus efeitos positivos e negativos. Sem dúvida que os tempos modernos têm dado novo e maior realce a valores humanos positivos como, por exemplo, o respeito pelos direitos inalienáveis da pessoa, a introdução de métodos democráticos na administração e no governo, a recusa da pobreza estrutural como condição imutável, a rejeição do terrorismo, da tortura e da violência como instrumentos de viragem política, o direito à educação, cuidados sanitários e habitação para todos. Tais valores, frequentemente enraizados no cristianismo ainda que não explicitamente, têm exercido uma benéfica influência na Oceânia, e a Igreja não pode deixar de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para favorecê-los. 

Mas a modernização acarreta consigo efeitos negativos também na região, constrangendo as sociedades tradicionais a lutarem pela preservação da sua identidade, quando entram em contacto com sociedades ocidentais mais urbanas e secularizadas e sofrem a crescente influência cultural dos imigrantes asiáticos. Os bispos falaram, por exemplo, da gradual diminuição do sentido religioso natural, que tem desorientado a vida e a consciência moral das pessoas. Uma grande parte da Oceânia, especialmente a Austrália e a Nova Zelândia, entrou numa era caracterizada por maior secularização. Na vida social, a religião - sobretudo o cristianismo - é marginalizada e tende-se a considerá-la como assunto estritamente privado e pouco pertinente para a vida pública: por vezes é negada, às convicções religiosas e conhecimentos da fé, a sua legítima função de formar as consciências das pessoas; de igual modo, a voz da Igreja e doutros organismos religiosos têm reduzido espaço nos assuntos públicos. No mundo actual, a tecnologia de vanguarda, o maior conhecimento da natureza e comportamento humanos, a evolução política e económica mundial colocam também questões novas e difíceis aos povos da Oceânia. Ao apresentar Jesus Cristo como o Caminho, a Verdade e a Vida, a Igreja deve responder, em moldes novos e eficazes, a tais questões morais e sociais, não permitindo de modo algum que a sua voz seja reduzida ao silêncio nem o seu testemunho marginalizado. 

A ASSEMBLEIA ESPECIAL DO SÍNODO 

O tema 

8. Como resultado das sugestões do Conselho Pré-Sinodal que teve em vista as preocupações dos bispos da Oceânia, foi escolhido para a Assembleia Especial da Oceânia o tema seguinte: Jesus Cristo e os povos da Oceânia seguindo o seu caminho, proclamando a sua verdade e vivendo a sua vida. Inspirando-se nas palavras do evangelho de S. João, quando Jesus afirma de Si mesmo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. 14, 6), o tema recorda o convite que Ele estende a todos os povos da Oceânia: estes são convidados a encontrá-Lo, a crer n'Ele e a proclamá-Lo como o Senhor de todos. Lembra também que a Igreja na Oceânia se reúne como Povo de Deus caminhando em peregrinação para o Pai. Através do Espírito Santo, o Pai chama individual e comunitariamente os crentes a seguirem o caminho que Jesus seguiu, a proclamarem a todas as nações a verdade que Jesus revelou, a viverem plenamente a vida que Jesus viveu e continua a partilhar connosco. 

O tema é particularmente apropriado para a Igreja na Oceânia de hoje, porque os povos do Pacífico estão a lutar pela própria unidade e identidade; há neles a preocupação pela paz, a justiça e a salvaguarda da criação; e muitas pessoas andam à procura de significado para a sua vida. Só aceitando Jesus Cristo como Caminho é que os povos da Oceânia poderão encontrar aquilo por que agora aspiram e lutam. O caminho de Cristo não se pode percorrer sem um ardente sentido da missão; e o centro da missão da Igreja é proclamar Jesus Cristo como a Verdade viva - uma verdade revelada, uma verdade explicada, compreendida e acolhida na fé, uma verdade transmitida às novas gerações. A verdade de Jesus é sempre maior que nós mesmos, maior que os nossos corações, porque brota das entranhas da Santíssima Trindade; é uma verdade que incita a Igreja a dar resposta aos problemas e desafios de hoje. À luz do Evangelho, nós descobrimos Jesus como a Vida. A vida de Cristo é oferecida também como graça regeneradora, que leva a humanidade a ser aquilo que o Criador quis que fosse. Viver a vida de Cristo comporta um profundo respeito por cada vida; e implica também uma espiritualidade viva e uma moralidade autêntica, reforçada pela palavra de Deus na Escritura e celebrada nos sacramentos da Igreja. Quando os cristãos vivem a vida de Cristo com uma fé profunda, a sua esperança torna-se mais robusta e a sua caridade mais transbordante. Era este o objectivo do Sínodo, e o mesmo se propõe a nova evangelização para qual o Espírito Santo está convocando a Igreja inteira. 

A experiência 

9. Foi providencial que a Assembleia Sinodal tivesse começado na solenidade de Cristo Rei, quando a Igreja celebra Jesus como o Senhor, por quem o Reino de Deus se estabeleceu em todo o mundo e na história inteira. Durante os dias da Assembleia, pôde ver-se claramente que era Cristo quem abria o caminho e reinava no meio da Assembleia. As liturgias de abertura e encerramento continham sinais e símbolos tomados das culturas das ilhas do Pacífico como expressões de fé e de reverência. Numa harmoniosa junção, estas cerimónias exprimiram a unidade na diversidade da fé e do culto; e mostraram admiravelmente como a fé católica se estende até às costas mais longínquas do Grande Oceano e como todos encontram a sua casa na Igreja de Cristo. Numa simbólica permuta de dons, as liturgias manifestaram a profunda communio que existe entre a Igreja de Roma e as Igrejas particulares da Oceânia. Os bispos trouxeram a sua vasta gama de experiências e de tesouros culturais e foram, por sua vez, fortalecidos no vínculo da communio local e universal, servindo-lhes de grande consolação e estímulo para o futuro. 

Atendendo aos traços específicos da Igreja na Oceânia, pareceu oportuno convocá-la numa Assembleia Sinodal aparte. Os bispos da Oceânia estão organizados em quatro Conferências que, por sua vez, se agrupam na Federação das Conferências dos Bispos Católicos da Oceânia (FCBCO). O número total de bispos é relativamente pequeno, pelo que o Sínodo pôde ver reunidos todos os bispos que estão no activo, estando assim presentes todas as Igrejas particulares. Para muitos participantes, foi uma verdadeira descoberta dos dons religiosos, das culturas e da história dos povos da Oceânia. Ficaram mais conscientes das graças, frequentemente escondidas e ignoradas, que o Senhor concedeu à sua Igreja, sendo isto também uma fonte de grande encorajamento. O diálogo e discernimento do Sínodo abriram os olhos do coração e da mente, para descobrir o que se pode fazer para que a fé cristã seja vivida de maneira mais plena e eficaz. E os tesouros descobertos ou avaliados de novo constituem outras tantas razões para louvar e dar graças a Deus. 

Para os bispos, a Assembleia foi uma experiência de fraternidade e communio ao redor da Sé de Pedro. O facto de se ter realizado no Vaticano permitiu a todos os participantes « sentirem-se em casa » com o Bispo de Roma; e, reciprocamente, concedeu ao Bispo de Roma « sentir-se em casa » com eles e ouvir da sua boca quanto apreciaram esta experiência única de universalidade da Igreja. O sentido de unidade e fidelidade fez superar as grandes distâncias geográficas e culturais entre Roma e a Oceânia, sendo esta experiência um dos muitos dons que Cristo, na sua bondade, concedeu durante o Sínodo. 

Os Padres Sinodais experimentaram também um novo e mais forte sentido de identidade e communio de uns com os outros. Muitos deles vivem separados por grandes distâncias, não sendo fácil uma comunicação regular. A diversidade de culturas na Oceânia é um constante desafio para toda a Igreja trabalhar por maior unidade. Os bispos desejam reforçar a sua communio e ajudar os povos da Oceânia a colaborarem mais eficazmente entre si. Enquanto porção única da Igreja universal, as Igrejas particulares nesta região do mundo sabem que podem e devem contribuir com os seus dons específicos para a Igreja inteira. Peço ao Senhor que os bispos da Oceânia possam, como fruto do Sínodo, sentir-se cada vez mais parte uns dos outros e que são, com as suas Igrejas particulares, parte integrante da Igreja universal, à qual proporcionam um especial enriquecimento.(13) 

Foi significativo que a Assembleia Sinodal se tivesse realizado no tempo de imediata preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000. A bula Incarnationis mysterium, que anunciava o Jubileu, foi promulgada durante o período do Sínodo,(14) e a própria Assembleia foi uma oportunidade para a Igreja na Oceânia se preparar para o dom do Ano Santo. Com certeza, a Assembleia ajudou as Igrejas do Pacífico a celebrarem o Jubileu com um renovado empenho na procura da reconciliação e da paz, mais conscientes ainda de que « a Igreja, tendo recebido de Cristo o poder de perdoar em seu nome, é, no mundo, a presença viva do amor de Deus que Se inclina sobre toda a fraqueza humana para a acolher no abraço da sua misericórdia ».(15) Um fruto maravilhoso do Ano Santo há‑de ser a Igreja na Oceânia, revigorada de tantos modos pela experiência do Sínodo, continuar a levar à prática as intuições e apelos do Jubileu, cujas linhas estão sugeridas na carta apostólica Novo millennio ineunte. Tendo proclamado o abismo infinito da misericórdia de Deus revelada em Cristo, o Jubileu gerou novas energias para enfrentar os desafios que o Sínodo identificou e debateu.(16) O Pai, « no amor que perdoa, antecipa os novos céus e a nova terra »: (17) possa esta visão dos novos céus e da nova terra atrair os povos da Oceânia de forma incessante e cada vez mais intensa para esta novidade de vida!

  

CAPÍTULO II 

SEGUINDO O CAMINHO DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA 

 

« Um pouco mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, os quais, com seu pai Zebedeu, compunham as redes dentro do barco. Chamou-os, e eles, deixando no mesmo instante o barco e o pai, seguiram-n'O » (Mt 4, 21-22). 

A IGREJA COMO COMMUNIO

Mistério e dom 

10. Quando caminhava ao longo das margens do mar da Galileia, Jesus chamou alguns a trilharem a via do discipulado: convidou-os a segui-Lo, a caminhar pelos seus passos. « A Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve caminhar pela mesma via de Cristo; e Igreja quer dizer todos nós unidos como um corpo que recebe o seu influxo vital do Senhor Jesus ».(18) O caminho de Jesus é sempre a estrada da missão; Ele convida agora os seus seguidores a proclamarem de novo o Evangelho aos povos da Oceânia para que se possam encontrar, em mútuo enriquecimento, a cultura e a pregação do Evangelho, e a Boa Nova seja mais profundamente ouvida, acreditada e vivida. Esta missão está radicada no mistério da comunhão. 

O Concílio Vaticano II viu a noção de communio como particularmente adequada para exprimir o mistério profundo da Igreja; (19) e a Assembleia Sinodal Extraordinária de 1985 fez-nos tomar maior consciência da communio como o verdadeiro coração da Igreja. Do mesmo modo também os Padres Sinodais declararam que a Igreja é essencialmente mistério de comunhão, povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Esta participação na vida da Santíssima Trindade é « a fonte e a inspiração de todo o relacionamento cristão e das várias formas de comunidade cristã ».(20) Esta concepção foi o pressuposto doutrinal e espiritual de todas as deliberações do Sínodo, tendo sido « completada e ilustrada pela noção da Igreja como povo de Deus e comunidade de discípulos. Enquanto comunhão, a Igreja reconhece a igualdade básica de todo o fiel cristão, seja ele leigo, religioso ou ordenado. A comunhão é modelada e animada pelos dons do Espírito Santo, tanto ministeriais como carismáticos ».(21) 

A communio da Igreja é um dom da Santíssima Trindade, cuja profunda vida íntima é maravilhosamente oferecida à humanidade; aquela é o fruto da iniciativa amorosa de Deus que se realizou no mistério pascal de Cristo, pelo qual a Igreja participa na communio de amor entre o Pai e o Filho no Espírito Santo. « O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido » (Rom 5, 5). No dia de Pentecostes, cumpriu-se plenamente a Páscoa de Cristo com a efusão do Espírito, e com Ele as primícias da nossa herança, a participação na vida do Deus Uno e Trino, que nos permite amar « como Deus nos amou a nós » (1 Jo 4, 11). 

A Igreja particular e universal 

11. Durante a Assembleia Sinodal, os bispos deram espaço de modo particular à noção de Igreja como communio: puseram em relevo os aspectos de pertença e de relação interpessoal fundados na concepção da Igreja como povo de Deus. A communio eclesial é manifestada e vivida de modo especial na Igreja particular congregada à volta do bispo, de cuja missão são colaboradoras as pessoas.(22) Como pastor, cada bispo procura promover esta communio através do seu ministério, que é uma participação no múnus pastoral, profético e sacerdotal de Cristo. O sinal e o efeito desta communio está descrito nos Actos dos Apóstolos: « A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma » (4, 32). Os Padres Sinodais viram uma expressão prática deste espírito na preparação do plano pastoral diocesano em conjunto com os fiéis e as suas organizações. Isto fará com que o plano se alimente da espiritualidade da communio promovida pelo Concílio Vaticano II.(23) 

A communio entre as Igrejas particulares baseia-se na unidade da fé, do baptismo e da eucaristia, e ainda na unidade do episcopado. Aquela engloba todas as Igrejas particulares através dos respectivos bispos, unidos ao Bispo de Roma, cabeça visível da Igreja. « O Colégio Episcopal unido ao Sucessor de Pedro proporciona uma autêntica expressão desta comunhão eclesial ».(24) A unidade do episcopado perpetua-se, no desenrolar dos séculos, através da sucessão apostólica; esta é, em cada época, o fundamento da identidade da Igreja, estabelecida por Cristo sobre Pedro e o colégio dos Apóstolos. O Sucessor de Pedro é, de facto, « o princípio duradouro de unidade e o fundamento visível » da Igreja.(25) O próprio Senhor encarregou Pedro e seus sucessores de confirmar os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32) e apascentar o rebanho de Cristo (cf. Jo 21, 15-17). « Existe entre os bispos um vínculo que exprime de modo pessoal e colegial a comunhão - a koinonia - que caracteriza toda a vida da Igreja. (...) Juntos, no Colégio Episcopal, eles participam no ministério de promover a unidade do povo de Deus na fé e na caridade ».(26) O Sínodo manifestou a esperança de que a ligação entre as Igrejas particulares e a Igreja universal, particularmente a Santa Sé, revele e fortaleça a communio, desenvolvendo-se no devido respeito tanto pelo ministério petrino da unidade como pelas Igrejas particulares.(27) As Igrejas particulares da Oceânia sabem que participam na communio da Igreja universal, considerando-o como um motivo de regozijo: apesar da vastidão de culturas diversas e das grandes distâncias na Oceânia, os bispos locais têm consciência de estar unidos entre si e com o Bispo de Roma, vendo isto também como um grande dom. « Entre o Sucessor de Pedro e os sucessores dos outros Apóstolos existe verdadeiramente um profundo laço espiritual e pastoral: é a nossa colegialidade afectiva e efectiva. Oxalá encontremos sempre as maneiras de nos apoiarmos uns aos outros nos nossos esforços conjuntos para a construção da Igreja e para vivermos esta comunhão no serviço e na fé ».(28) Como irmãos no Colégio dos Bispos, os Padres Sinodais exprimiram o firme desejo de reforçar a sua união com o Bispo de Roma,(29) propósito esse que não podia deixar de comover e animar o Sucessor de Pedro. 

Mútuo enriquecimento 

12. Um sinal e instrumento de colegialidade e comunhão entre os bispos é a Conferência Episcopal, « uma santa colaboração de esforços para bem comum das Igrejas »,(30) que de muitos modos contribui para a realização concreta do espírito de colegialidade. Há numerosas áreas onde a Conferência dos Bispos tem estabelecido frutuosas relações. A permuta de dons é característica de muitas partes da Oceânia, podendo servir como modelo positivo para as relações dos bispos do Continente entre si e com outros. Este modelo encoraja um intercâmbio de dons espirituais que fomente relações de amor, respeito e confiança recíprocos. As bases para instaurar um franco diálogo são a partilha e a consulta enquanto expressões práticas da communio que caracteriza a Igreja. 

As Igrejas Católicas Orientais chegaram à Oceânia em tempos relativamente recentes, tendo-se consolidado como uma rica expressão de catolicidade em várias partes da Oceânia, sobretudo na Austrália. « Com a sua história e tradição únicas, elas dão um significativo testemunho da diversidade e unidade da Igreja universal ».(31) No Sínodo, as Igrejas Católicas Orientais reconheceram ter usufruído da generosidade da Igreja Católica Latina na Oceânia; ao longo dos anos e em circunstâncias frequentemente difíceis, bispos, sacerdotes e paróquias ofereceram-lhes hospitalidade nas igrejas e escolas, e os vínculos de amizade e cooperação perduram a todos os níveis. Contudo estas Igrejas são vulneráveis devido ao número relativamente pequeno de fiéis e às grandes distâncias que as separam da respectiva Igreja-Mãe, podendo os seus membros sentir-se pressionados ou tentados a assimilar-se à Igreja Latina predominante. No Sínodo, porém, os bispos latinos da Oceânia manifestaram claramente o desejo de estimar, compreender e promover as tradições, a liturgia, a disciplina e a teologia das Igrejas Católicas Orientais. Por isso, é importante incrementar entre os católicos latinos o conhecimento e compreensão das riquezas das Igrejas Orientais Católicas. 

O desafio que se apresenta à Igreja na Oceânia é chegar a uma compreensão mais profunda da communio local e universal e a uma maior concretização das suas implicações práticas. O meu predecessor Paulo VI resumiu tal desafio nestes termos: « O primeiro aspecto desta comunhão, desta unidade, é o da fé. A unidade na fé é necessária e fundamental (...). O segundo aspecto da comunhão católica é o da caridade. (...) Devemos praticar uma caridade mais consciente e operosa nos [vários] campos eclesiais ».(32) Os povos da Oceânia instintivamente têm um forte sentido da comunidade; mas é necessária a unidade na fé, se se quer superar o conflito e o ódio com a reconciliação e o amor. Nas culturas mais ocidentalizadas, as instituições sociais sentem-se sob pressão, e as pessoas anelam por uma vida mais digna do ser humano. Perante o individualismo que ameaça corroer o edifício da sociedade humana, a Igreja oferece-se a si mesma como sacramento que cura, como morada de communio que dá resposta às carências mais profundas do coração. Um tal dom é hoje claramente necessário entre os povos da Oceânia. 

COMUNHÃO E MISSÃO

Chamamento à missão 

13. A Igreja na Oceânia recebeu o Evangelho de anteriores gerações de cristãos e de missionários vindos de além-mar. O Sínodo prestou homenagem a tantos missionários C sacerdotes, religiosos e religiosas e leigos também C que gastaram as suas vidas na transmissão do Evangelho neste Continente; (33) o seu sacrifício, por graça de Deus, deu muito fruto. Quando receberam a plenitude da redenção em Cristo, os povos da Oceânia encontraram um símbolo admirável no firmamento estrelado, o Cruzeiro do Sul, que permanece como sinal luminoso da graça e bênção de Deus que a todos abraça.(34) A geração cristã actual é chamada e enviada a realizar uma nova evangelização no meio dos povos da Oceânia, uma nova proclamação daquela verdade duradoura evocada pelo símbolo do Cruzeiro do Sul. Este chamamento à missão coloca grandes desafios, mas abre também novos horizontes, cheios de esperança e até uma sensação de aventura. 

Tal chamamento é dirigido a cada membro da Igreja. « Toda a Igreja é missionária, porque a actividade missionária (...) é uma parte integrante da sua vocação ».35 Alguns membros da Igreja são enviados a povos que nunca ouviram falar de Jesus Cristo, e a sua missão permanece vital hoje como sempre; mas muitos mais são enviados a evangelizar o seu próprio ambiente, tendo os Padres Sinodais sublinhado repetidamente a missão dos fiéis leigos: na família, no emprego, na escola, nas actividades públicas, todos os cristãos podem ajudar a levar a Boa Nova ao mundo onde vivem. 

Uma comunidade cristã não deve pensar simplesmente em ser um lugar confortável para os seus membros; os Padres Sinodais animaram as comunidades locais a olharem para além dos seus interesses imediatos interessando-se pelos outros. A paróquia enquanto comunidade não pode isolar-se das realidades que a circundam; pelo contrário, deve estar atenta aos problemas de justiça social e à fome espiritual da sociedade. O que Jesus oferece aos seus seguidores deve ser partilhado com todos os povos da Oceânia em qualquer situação que se encontrem, porque só n'Ele existe a plenitude da vida. 

Desafios 

14. Os Padres Sinodais manifestaram ardentemente o desejo de ver Jesus Cristo escutado e compreendido pelas pessoas confiadas aos seus cuidados e por muitos mais; concluíram que há necessidade de ir ao encontro daqueles que vivem com suas esperanças e anseios insatisfeitos, dos cristãos só de nome, e de quantos se afastaram da Igreja devido talvez a experiências negativas. Dever-se-ia fazer todo o esforço possível por sarar tais feridas e fazer voltar ao aprisco a ovelha perdida. 

E sobretudo os Padres Sinodais quiseram tocar os corações dos jovens, sabendo que muitos deles andam à procura de verdade e felicidade; nesta busca, podem abandonar-se aos atractivos e apelos do mundo actual, alguns dos quais são francamente nocivos. Isto acaba por gerar neles a confusão, privados como estão do conhecimento dos autênticos valores e onde encontrar a verdadeira felicidade. O grande desafio e oportunidade é oferecer-lhes os dons de Jesus Cristo na Igreja, os únicos capazes de satisfazer os seus anelos. Mas, esta apresentação de Cristo deve ser feita de forma apropriada à nova geração que se ressente das rápidas mudanças da cultura ambiental. 

Às vezes a Igreja Católica é considerada portadora duma mensagem irrelevante, que não atrai nem convence; jamais poderemos deixar que tais vozes minem a nossa confiança, porque nós encontrámos a pérola de grande valor (cf. Mt13, 46). Mas não foi para a guardarmos só para nós; a Igreja é desafiada a traduzir a Boa Nova para os povos da Oceânia segundo as suas urgências e condições actuais: temos de apresentar Cristo ao mundo de modo a dar esperança a tantos que sofrem a desolação, a injustiça, a pobreza. De facto, Ele é um mistério de vida nova para todos os que passam necessidade ou vivem na amargura, para as famílias desfeitas ou pessoas sem emprego, marginalizadas, feridas na alma ou no corpo, doentes ou escravas da droga, e para quantos se extraviaram. Este mistério de graça, mysterium pietatis, é o verdadeiro coração da Igreja e da sua missão. 

Uma Igreja participativa 

15. Nas comunidades católicas da Oceânia, vai crescendo a convicção do muito que têm para oferecer à Igreja universal, a qual, por sua vez, rejubila com os dons especiais destas comunidades. Muitas delas estão empenhadas na expansão missionária quer na Oceânia quer fora, nas ilhas do Pacífico e Papuásia-Nova Guiné, no sudeste asiático e em regiões da terra ainda mais distantes. Igrejas particulares, fundadas por missionários, começam por sua vez a enviar missionários, e isto é um sinal inequívoco de maturidade. Assumiram aquela mensagem que o Papa Paulo VI enviou, com o povo de Samoa, aos católicos do mundo inteiro: « Atendei o apelo que fazemos para vos tornardes arautos da Boa Nova da salvação ».(36) Cumpriu-se o voto que formulei aos bispos da Conferência Episcopal do Pacífico, quando visitei Suva no ano 1986: « As Igrejas instituídas por missionários possam por sua vez enviar muitos missionários a outras nações ».(37) É verdade que algumas dioceses da Oceânia estão ainda dependentes da solidariedade doutras Igrejas particulares, mas a falta de recursos não deveria ser motivo para refrearem a própria generosidade no cumprimento da sua missão. A partilha de recursos para o bem de todos é uma grave obrigação da vida do cristão e às vezes uma urgente necessidade da missão cristã. 

Em muitas ilhas da Oceânia, os catequistas estão a ajudar os sacerdotes no seu trabalho missionário ou pastoral. Na Austrália e Nova Zelândia, os catequistas ensinam as verdades da fé na comunidade local, sobretudo às crianças e aos catecúmenos, e « são (...) testemunhas directas, evangelizadores insubstituíveis, que representam a força basilar das comunidades cristãs ».(38) Muitas vezes estes obreiros leigos são de grande validade, porque vivem e trabalham junto das pessoas na sua vida de todos os dias, e « eles deram e continuam a dar um contributo verdadeiramente insubstituível para a vida e missão da Igreja ».(39) Em muitas ilhas, os catequistas são preparados não só para ensinar mas também para dirigir a comunidade em oração e evangelizar para além dos confins da comunidade católica. Nas culturas tradicionais, muitas vezes a doutrina é comunicada melhor oralmente através de narração de histórias, de pregação, de oração feita de palavras, música e dança; para orientar e promover este tipo de actividade, são necessários cursos, programas e retiros especiais. Urge agora apresentar Jesus Cristo àqueles cuja fé se debilitou sob a pressão da secularização e do consumismo e que tendem a considerar a Igreja apenas como uma das muitas instituições da sociedade moderna que influenciam o pensamento e o comportamento das pessoas. Em tal situação, a Igreja precisa de dirigentes e teólogos bem preparados para apresentarem Jesus Cristo de forma persuasiva aos povos da Oceânia. 

Foi maravilhoso ouvir, durante a Assembleia, muitos bispos falarem dos programas de renovação cristã nas suas dioceses e do aprofundamento da fé que os mesmos oferecem aos seus fiéis. Um dos traços salientes de tais programas é a numerosa participação dos leigos. Estamos todos agradecidos a Deus pelos vários dons que concedeu aos leigos, homens e mulheres, para cumprirem a sua missão, tendo eles recebido um chamamento não só à acção e ao serviço, mas também à oração.(40) Eles e seus pastores são encorajados a prosseguirem com vigoroso ardor, proclamando Jesus Cristo ao seu povo com renovada convicção. As comunidades católicas na Oceânia fazem já grandes esforços para irem ao encontro dos outros, proclamando e vivendo a Boa Nova; os Padres Sinodais manifestaram profundo apreço por estes esforços e um forte apoio a quantos estão prontos a oferecer-se para trabalhar na missão da Igreja. A eles me associo rezando por estes trabalhadores da vinha do Senhor para que possam encontrar satisfação e alegria no trabalho a que o próprio Deus os chamou. 

Muitos outros desafios se apresentam aos membros da Igreja, sobretudo aos que têm a seu cargo responsabilidades pastorais. Cientes das limitações de todo o esforço humano, os Padres Sinodais não se deixaram abater, mas fizeram apelo à certeza simples e forte que lhes deu o Senhor ressuscitado; de facto, quando enviou os Apóstolos a pregar a Boa Nova a todas as nações, Ele disse: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28, 20). Desta promessa divina, brotou uma esperança nova para os bispos, a braços com os numerosos desafios que têm de enfrentar para pregar Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida; e convidaram todos os católicos da Oceânia a unirem-se a eles nesta esperança. 

O EVANGELHO E A CULTURA

Inculturação 

16. Os Padres Sinodais puseram muitas vezes em realce a importância que tem a inculturação para uma autêntica vida cristã na Oceânia. O processo de inculturação é o itinerário gradual pelo qual o Evangelho se encarna nas várias culturas. Por um lado, há alguns valores culturais que devem ser transformados e purificados, se se deseja que encontrem lugar numa cultura genuinamente cristã; por outro, há valores cristãos que facilmente criam raízes nas várias culturas. A inculturação nasce do respeito tanto pelo Evangelho como pela cultura onde é proclamado e acolhido. O processo de inculturação começou na Oceânia quando os imigrantes ali chegaram com a fé cristã da sua pátria. Para os povos indígenas da Oceânia, a inculturação significou um novo diálogo entre o mundo que tinham conhecido e a fé que abraçaram. Em consequência disso, a Oceânia oferece muitos exemplos de expressões culturais específicas nas áreas da teologia e liturgia e no uso de símbolos religiosos.(41) Os Padres Sinodais viram uma maior inculturação da fé cristã como o caminho principal para a plenitude da communio eclesial. 

A autêntica inculturação da fé cristã funda-se no mistério da Encarnação.(42) « Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único » (Jo 3, 16); foi num tempo e lugar determinado que o Filho de Deus encarnou, « nascido de mulher » (Gal 4, 4). Com a finalidade de preparar este importante acontecimento, Deus escolheu um povo com uma cultura específica e guiou a sua história rumo à Encarnação. O que Deus fez no meio do seu povo eleito mostra aquilo que Ele tenciona fazer pela humanidade inteira, por cada povo e cada cultura. A Sagrada Escritura narra-nos a história de Deus que actua no meio do seu povo; sobretudo conta-nos a história de Jesus Cristo, no qual Deus em pessoa entrou no mundo e nas suas múltiplas culturas. Em tudo o que disse e fez, mas especialmente na sua morte e ressurreição, Jesus revelou o amor divino pela humanidade. Do mais fundo da história humana, a existência de Jesus fala ao povo não só do seu tempo e cultura mas de todos os tempos e culturas. Ele é para sempre o Verbo que Se fez carne em favor de todo o mundo; é o Evangelho que foi levado à Oceânia e que deve ser novamente proclamado agora. 

O Verbo feito carne não é estranho à cultura e deve ser anunciado a todas as culturas. Este « processo de encontro e comparação com as culturas é uma experiência que a Igreja vive desde os começos da pregação do Evangelho ».(43) Tal como o Verbo feito carne entrou na história e habitou entre nós, assim também o seu Evangelho penetra profundamente na vida e cultura daqueles que o ouvem, aderem e acreditam. A inculturação, a « encarnação » do Evangelho nas diversas culturas, condiciona o próprio modo de proclamar, compreender e viver o Evangelho.(44) A Igreja ensina a verdade imutável de Deus enquadrada na história e cultura dum povo concreto. Por isso, a fé cristã será vivida duma forma específica em cada cultura. Os Padres Sinodais tinham a certeza de que a Igreja, nos seus esforços por apresentar eficazmente Jesus Cristo aos povos da Oceânia, tem de respeitar cada cultura sem nunca pedir à gente que renuncie a ela. Na verdade, ela convida todos os povos a exprimirem a palavra viva de Jesus em fórmulas capazes de falar à sua mente e coração.(45) « O Evangelho não é contrário a esta ou àquela cultura como se quisesse, ao encontrar-se com ela, privá-la daquilo que lhe pertence, e a obrigasse a assumir formas extrínsecas que lhe são estranhas ».(46) É vital que a Igreja penetre completamente numa cultura e, a partir de dentro, realize o processo de purificação e transformação.(47) 

Uma autêntica inculturação do Evangelho possui um duplo aspecto: por um lado, cada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e vivido; por outro, o Evangelho desafia as culturas exigindo-lhes a mudança de alguns valores e formas.(48) Tal como o Filho de Deus Se fez semelhante a nós em tudo excepto no pecado (cf. Heb 4, 15), assim a fé cristã acolhe e promove tudo o que é genuinamente humano, ao mesmo tempo que rejeita tudo o que for pecado. O processo de inculturação envolve Evangelho e cultura « num diálogo, que inclui a identificação do que é de Cristo e do que não o é ».(49) Cada cultura necessita de ser purificada e transformada pelos valores revelados no mistério pascal de Cristo.(50) Deste modo, as formas e valores positivos que se encontram nas culturas da Oceânia hão-de enriquecer o modo como o Evangelho é pregado, compreendido e vivido.(51) O Evangelho « é uma forma real de libertação de toda a desordem introduzida pelo pecado e, simultaneamente, uma chamada à verdade plena. Neste encontro, as culturas não são privadas de nada, antes são estimuladas a abrirem-se à novidade da verdade evangélica, de que recebem impulso para novos progressos ».(52) Transformadas pelo Espírito de Cristo, estas culturas alcançam aquela plenitude de vida para a qual sempre apontaram os seus valores mais profundos e pela qual sempre ansiou o seu povo. Sem Cristo, de facto, não há cultura humana que possa tornar-se naquilo que é verdadeiramente. 

A situação actual 

17. Nos tempos recentes, a Igreja tem fomentado vigorosamente a inculturação da fé cristã. A tal respeito, o Papa Paulo VI, quando visitou a Oceânia, reafirmou que o catolicismo « não só não sufoca tudo o que existe de bom e de original em cada uma das formas da cultura humana, mas acolhe, respeita e valoriza as características de cada povo, revestindo assim de variedade e de beleza a única veste inconsútil da Igreja de Cristo ».(53) Fiz-me eco destas palavras, quando encontrei os aborígenes da Austrália: « O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo fala todas as línguas. Estima e abraça todas as culturas. Apoia-as em tudo o que é humano e, quando necessário, purifica-as. O Evangelho exalta e enriquece sempre e em toda a parte as culturas com a mensagem revelada de um Deus amoroso e misericordioso ».(54) Os Padres Sinodais pediram que a Igreja na Oceânia desenvolva uma compreensão e exposição da verdade de Cristo partindo das tradições e culturas locais. Em terras de missão, todos os missionários são instados a trabalhar de harmonia com os cristãos indígenas para garantir que a doutrina e a vida da Igreja sejam expressas em formas legítimas e apropriadas a cada cultura.(55) 

Desde quando chegaram os primeiros imigrantes e missionários, a Igreja na Oceânia esteve inevitavelmente envolvida num processo de inculturação no seio das numerosas culturas da região, que frequentemente existem lado a lado. Atentos aos sinais dos tempos, os Padres Sinodais « reconheceram que as numerosas culturas, cada uma a seu modo, fornecem perspectivas que ajudam a Igreja a compreender e exprimir melhor o Evangelho de Jesus Cristo ».(56) 

Na condução deste processo, exige-se fidelidade a Cristo e à Tradição autêntica da Igreja. Uma genuína inculturação da fé cristã deve verificar-se sempre sob a orientação da Igreja universal. Permanecendo inteiramente fiéis ao espírito da communio, as Igrejas particulares deveriam procurar exprimir a fé e a vida da Igreja em formas legítimas e apropriadas às culturas indígenas.(57) As expressões e formas novas devem ser examinadas e aprovadas pelas autoridades competentes. Uma vez aprovadas, estas formas autênticas de inculturação permitirão aos povos da Oceânia experimentar, mais facilmente e de forma peculiar, a vida abundante oferecida por Jesus Cristo.(58) 

Os Padres Sinodais manifestaram o desejo de que os futuros sacerdotes, diáconos e catequistas adquiram plena familiaridade com a cultura das pessoas a que prestam serviço. Para se tornarem bons guias cristãos, eles deverão ser educados em condições que não os separem do contexto em que vive a gente comum, porque são chamados a um serviço de evangelização inculturada, mediante um delicado trabalho pastoral que permita à comunidade cristã acolher, viver e transmitir a fé na sua própria cultura, de harmonia com o Evangelho e na comunhão da Igreja universal.(59) 

Como perspectiva futura, os Padres Sinodais evocaram o ideal das numerosas culturas da Oceânia que formam uma civilização rica e característica, inspirada pela fé em Jesus Cristo. Com eles, rezo ardentemente para que todos os povos da Oceânia descubram o amor de Cristo, Caminho, Verdade e Vida, a fim de experimentarem e construírem juntos a civilização do amor e da paz que o mundo do Pacífico sempre desejou. 

  

CAPÍTULO III 

PROCLAMANDO A VERDADE DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA 

« Achando-Se Jesus junto ao lago de Genesaré e comprimindo-se sobre Ele a multidão para escutar a palavra de Deus, viu duas barcas estacionadas à beira do lago. Os pescadores que delas haviam descido lavavam as redes. Entrou numa das barcas, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar, da barca, a multidão » (Lc 5, 1-3). 

UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO 

Evangelização na Oceânia 

18. A evangelização é a missão que a Igreja tem de proclamar ao mundo a verdade de Deus revelada em Jesus Cristo. Os Padres Sinodais acharam por bem escolher a communio como tema e meta da evangelização na Oceânia (60) e base de toda a planificação pastoral. Na evangelização, a Igreja manifesta a sua comunhão íntima e age como um único corpo, esforçando-se por levar a humanidade inteira à unidade com Deus através de Cristo. Cada baptizado tem a obrigação de proclamar, por palavras e obras, o Evangelho ao mundo onde vive.(61) O Evangelho deve ser ouvido na Oceânia por todos: crentes e não crentes, nativos e imigrantes, ricos e pobres, jovens e idosos; todos têm o direito de ouvir a Boa Nova, pelo que os cristãos têm a obrigação grave de comunicá-la. Hoje é necessária uma nova evangelização, para que cada um possa ouvir, compreender e acreditar na misericórdia de Deus oferecida, em Jesus Cristo, a todos os povos. 

Durante a Assembleia Especial, os bispos puseram em comum o rico tesouro de experiências pastorais deles e das pessoas com quem trabalham mais estreitamente; e individuaram assim conjuntamente novas perspectivas para o futuro da Igreja na Oceânia. Muitos deles falaram da dificuldade do isolamento, da necessidade de atravessar distâncias enormes e da vida em ambientes inóspitos. Mas relataram também experiências muito positivas que atestam o vigor da fé e da communio, quando as pessoas acolhem o Evangelho e descobrem o amor de Deus. Os Padres Sinodais falaram ainda das esperanças e medos, dos sucessos e desilusões, do crescimento e declínio das Igrejas particulares na Oceânia. A alguns pareceu que a Igreja na Oceânia se encontra numa encruzilhada, o que requer importantes decisões para o futuro. À vista dos grandes desafios colocados pelas novas circunstâncias no Continente, todos concordaram que chegou o tempo de apresentar novamente o Evangelho aos povos do Pacífico, permitindo-lhes ouvir a palavra de Deus com renovada fé e encontrar uma vida mais abundante em Cristo; mas, para isso, há necessidade de novos caminhos e métodos de evangelização, inspirados por uma fé, esperança e caridade mais profundas no Senhor Jesus. 

Como primeiro passo para a necessária « renovação da mente » (cf. Rom 12, 2), os bispos apregoaram os numerosos esforços para aplicar as orientações do Concílio Vaticano II, sublinhando que estas estão a ser gradualmente actuadas e que há necessidade doutras iniciativas para reforçar a fé daqueles que a deixaram enfraquecer e para apresentá-la de forma mais persuasiva à sociedade em geral. O convite à renovação é um chamamento para proclamar ao mundo a verdade de Jesus Cristo, dando testemunho d'Ele até ao sacrifício supremo do martírio. A isto mesmo é chamada hoje a Igreja na Oceânia, sendo essa também a razão fundamental que motivou a celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos.(62) 

Mas é fácil que este chamamento de Deus não chegue a ser ouvido, por causa da transformação global que está a afectar a identidade cultural e as instituições sociais da região. Alguns temem que as mudanças possam minar os alicerces da fé, deixando-se cair no abatimento de espírito e no desânimo. Perante isto, precisamos de recordar que o Senhor nos dá a força necessária para superar tais tentações; a fé n'Ele é como uma casa construída sobre a rocha: « Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não ruiu, porque estava fundada sobre a rocha » (Mt 7, 25). Com a força do Espírito Santo, a Igreja na Oceânia está a preparar-se para uma nova evangelização de povos que hoje têm fome de Cristo. « É este o tempo favorável; este é o dia da salvação » (2 Cor 6, 2). 

Muitos Padres Sinodais mostraram-se preocupados pelo reduzido peso público da fé cristã na Oceânia, observando que tem diminuído a sua influência em âmbitos relacionados com o bem comum, a moralidade pública e administração da justiça, o estatuto do matrimónio e da família, ou mesmo o direito à vida. Alguns bispos assinalaram que a doutrina da Igreja por vezes é posta em questão pelos próprios católicos; quando isto é verdade, não deve surpreender que a voz da Igreja seja menos influente na vida pública. 

Os desafios da modernidade e pós-modernidade, embora sentidos por todas as Igrejas particulares da Oceânia, são experimentados com maior intensidade por aquelas que vivem em sociedades mais afectadas pela secularização, pelo individualismo e pelo consumismo. Numerosos bispos puderam constatar sinais de diminuição da fé e da prática católica na vida das pessoas, quando estas aceitaram como norma de discernimento e conduta uma visão completamente secularizada. A este propósito, já o Papa Paulo VI acautelava os crentes, fazendo notar « o perigo que há de se reduzir tudo a um certo humanismo puramente terrestre, em que se esquece a dimensão moral e espiritual da vida e já não se cuida da necessária relação do homem com o Criador ».(63) A Igreja vê-se obrigada a cumprir a sua missão evangelizadora num mundo cada vez mais secularizado: o sentido de Deus e da sua amorosa providência diminuiu em muitas pessoas e até em sectores inteiros da sociedade, e o indiferentismo prático em relação às verdades e valores religiosos ofusca o rosto do amor divino. Por isso, « entre as prioridades de um renovado empenho de evangelização, conta-se a de promover um retorno ao sentido do sagrado, a uma consciência da centralidade de Deus na globalidade da experiência humana ».(64) A nova evangelização é uma prioridade para a Igreja na Oceânia. De certo modo, a sua missão é simples e clara: propor uma vez mais à sociedade humana o Evangelho integral da salvação em Jesus Cristo. É enviada ao mundo actual, aos homens e mulheres do nosso tempo, « a pregar o Evangelho, (...) a fim de se não desvirtuar a Cruz de Cristo. Porque a linguagem da Cruz (...) é poder de Deus » (1 Cor 1, 17-18).(65) 

Os agentes da evangelização 

19. À semelhança dos Apóstolos, os bispos são enviados às suas dioceses como primeiras testemunhas de Cristo ressuscitado. Unidos ao Sucessor de Pedro, formam um colégio responsável pela difusão do Evangelho no mundo. Durante a Assembleia Especial da Oceânia, os bispos reconheceram-se como os primeiros chamados a uma renovação da vida e testemunho cristão. Um maior estudo da Escritura e da Tradição, alimentado pela oração, conduzi-los-á a um conhecimento e amor mais profundo da fé. Poderão assim, como pastores do seu povo, contribuir ainda mais eficazmente para o trabalho da nova evangelização.(66) Como se vê claramente nos Actos dos Apóstolos, a característica peculiar da missão apostólica apoiada pelo Espírito Santo é a coragem de proclamar « a palavra de Deus com desassombro » (4, 31). Esta coragem foi-lhes dada como resposta à oração de toda a comunidade: « E agora, Senhor, (...) concede aos teus servos poderem anunciar a tua palavra com todo o desassombro » (4, 29). O mesmo Espírito torna, hoje também, os bispos capazes de falar clara e corajosamente diante duma sociedade que precisa de ouvir o anúncio da verdade cristã. Os católicos da Oceânia continuem a rezar fervorosamente pelos seus pastores para que sejam, como os Apóstolos, testemunhas audazes de Cristo; e o Sucessor de Pedro associa-se a eles numa tal súplica. 

Com os bispos, são chamados a proclamar o Evangelho todos os fiéis cristãos: sacerdotes, consagrados e leigos. A sua communio exprime-se num espírito de cooperação, sendo isto mesmo já um forte testemunho do Evangelho. Os sacerdotes são os colaboradores mais estreitos dos bispos e constituem para eles o maior auxílio na obra da evangelização, sobretudo nas comunidades paroquiais confiadas aos seus cuidados.(67) Oferecem o sacrifício de Cristo pelas necessidades da comunidade, reconciliam os pecadores com Deus e com a comunidade, fortificam os doentes na sua peregrinação para a vida eterna,(68) permitindo assim à comunidade inteira dar testemunho do Evangelho em todos os momentos da vida e na morte. Os homens e mulheres de vida consagrada são sinais vivos do Evangelho. Os votos de pobreza evangélica, castidade e obediência constituem itinerário seguro para um conhecimento e amor mais profundo a Cristo, e desta intimidade com o Senhor brota o seu serviço de consagração na Igreja, que assim se tem demonstrado uma graça maravilhosa na Oceânia.(69) Os leigos, por sua vez, têm como função específica consagrar o mundo a Deus; e muitos deles estão a adquirir um sentido mais profundo de quanto seja indispensável o seu papel na missão evangelizadora da Igreja.(70) Na sua actividade no mundo onde quer que seja, através do testemunho de amor no sacramento do matrimónio ou da generosa dedicação de pessoas chamadas à vida celibatária, os leigos podem e devem ser verdadeiro fermento em cada ângulo da sociedade na Oceânia. Disto mesmo depende em larga medida o êxito da nova evangelização. 

A nova proclamação de Cristo deve brotar duma renovação interior da Igreja e, vice-versa, toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial. Cada aspecto da missão da Igreja no mundo deve partir duma renovação que derive da contemplação do rosto de Cristo.(71) Esta renovação, por sua vez, faz surgir novas estratégias pastorais. A tal respeito, a Assembleia Especial convidou as comunidades locais a contribuírem para a nova evangelização, cultivando um espírito de fraternidade nas suas liturgias e nas suas actividades sociais e apostólicas, abeirando-se dos católicos não praticantes ou afastados, reforçando a identidade das escolas católicas, oferecendo aos adultos oportunidades de crescer na fé através de programas de estudo e formação, ensinando e explicando de maneira eficaz a doutrina católica àqueles que estão fora da comunidade cristã, e procurando que a doutrina social da Igreja influa sobre a vida pública da Oceânia.(72) Em consequência destas e doutras iniciativas, o Evangelho poderá ser apresentado com maior convicção à sociedade e influenciar mais profundamente a sua cultura. 

Os primeiros cristãos foram impelidos pelo Espírito Santo a crerem em Cristo, proclamando-O como o único Salvador do mundo enviado pelo Pai. Em todo o tempo, o verdadeiro agente da renovação e evangelização é o Espírito Santo, que seguramente não deixará de ajudar a Igreja a encontrar agora, numa sociedade em rápida mutação, as energias evangelizadoras e os meios necessários. E a nova evangelização há-de proporcionar aos povos da Oceânia os mesmos frutos maravilhosos do Espírito Santo que saborearam os primeiros cristãos, quando encontraram o Senhor ressuscitado e receberam o dom do seu amor, que é ainda mais forte do que a morte. 

O primado da proclamação 

20. O kerygma é a palavra de Deus proclamada com o objectivo de pôr a humanidade numa justa relação com Deus através da fé em Cristo. Vemos a força do kerygma em acção na primeira comunidade de Jerusalém: « Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações » (Act 2, 42). Tal é a essência da vida cristã, o fruto da primeira evangelização. A adesão a Cristo manifesta-se através da fé na sua palavra proclamada pela Igreja. S. Paulo interroga-se: « E como pregarão se não forem enviados? » (Rom 10, 15); na verdade, Cristo enviou os seus Apóstolos, cuja voz « ressoou por toda a terra, e a sua mensagem até aos confins do mundo » (Sal 1918, 5). Como « testemunhas da verdade divina e católica »,(73) os missionários na Oceânia viajaram por terra e mar, atravessaram desertos e paludes, enfrentaram grandes dificuldades culturais no cumprimento da sua obra excepcional. Inspirados pela história do nascimento da Igreja na Oceânia, os Padres Sinodais sentiram a necessidade duma nova e corajosa pregação do Evangelho em nossos dias. 

A Igreja, ao querer proclamar o Evangelho na Oceânia, enfrenta um duplo desafio: por um lado as religiões e culturas tradicionais, e por outro o actual processo de secularização. Em ambos os casos, « a primeira e mais urgente missão é o anúncio de Cristo ressuscitado, que há-de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do baptismo ».(74) Quer se encontre com as religiões tradicionais quer com uma requintada filosofia, a Igreja proclama por palavras e obras « a verdade que existe em Jesus » (Ef 4, 21; cf. Col 1, 15-20). À luz desta verdade, ela oferece o seu contributo para a discussão sobre os valores e princípios éticos que concorrem para a felicidade da vida humana e a paz da sociedade. A fé deve apresentar-se sempre de forma racionalmente coerente, favorecendo assim a sua penetração em campos cada vez mais vastos da experiência humana. De facto, a fé tem em si mesma a força de plasmar a cultura, permeando até ao núcleo essencial as suas motivações. Alertadas tanto pela tradição cristã como pelas mudanças culturais contemporâneas, a palavra da fé e a da razão devem caminhar de mãos dadas com o testemunho de vida para que a evangelização produza fruto; mas sobretudo há necessidade duma proclamação intrépida de Cristo, há necessidade do « desassombro (parresia) da fé ».(75) 

Evangelização e mass-media 

21. No mundo actual, os meios de comunicação social são cada vez mais poderosos como agentes da modernização, mesmo nas partes mais remotas da Oceânia. Têm um grande impacto na vida das pessoas, na sua cultura, pensamento moral e comportamento religioso, pelo que, se usados indiscriminadamente, podem ter um efeito nocivo sobre as culturas tradicionais. Os Padres Sinodais apelaram para uma maior consciência do poder dos mass-media, que « oferecem à Igreja uma oportunidade extraordinária de evangelizar, ser uma voz profética na sociedade, construir comunidade e solidariedade » (76) e para criar elos novos entre as pessoas. De facto, muitas vezes os mass-media proporcionam o único contacto que a Igreja tem com os católicos não praticantes ou mais afastados da comunidade, devendo por conseguinte ser utilizados de forma criativa e responsável.(77) 

Onde for possível, a Igreja forme um plano pastoral para as comunicações sociais a nível nacional, diocesano e paroquial. É necessária uma coordenação dos esforços eclesiais para garantir melhor a preparação daqueles que representam a Igreja nos mass-media,(78) e encorajar leigos de fé comprovada a entrarem profissionalmente nos meios de comunicação social como resposta a uma vocação. É um sinal de esperança o facto de haver cristãos empenhados nos mass-media que mostram o seu compromisso com os valores cristãos. Com a sua assistência, podem ser produzidos profissionalmente materiais e programas religiosos que transmitam os valores humanos e morais, ainda que o financiamento de tais actividades constitua muitas vezes um problema. Um centro católico de meios de comunicação para toda a Oceânia poderia ser uma válida ajuda para a utilização dos mass-media no campo da evangelização. Os bispos afirmaram a sua preocupação pelos critérios de honestidade nos meios de comunicação públicos e denunciaram o alto nível de violência que neles se verifica.(79) Os responsáveis eclesiais devem colaborar para a redacção dum código de comportamentos éticos nos mass-media.(80) Também as famílias e os jovens precisam de assistência para avaliarem criticamente o conteúdo dos programas; daí que as instituições educativas católicas tenham uma função vital nesta obra de ajudar as pessoas, sobretudo jovens, a fazerem uma análise crítica dos mass-media. A fé cristã desafia-nos a ser ouvintes, telespectadores e leitores que sabem escolher.(81) 

Os bispos mostraram-se preocupados também com a utilização da publicidade nos mass-media, realçando a grande influência que ela tem como estímulo tanto para o bem como para o mal. O processo de globalização e a crescente situação de monopólio nos mass-media conferiram-lhe ainda maior poder sobre as pessoas. Com a força sugestiva das imagens, a publicidade propaga muitas vezes uma cultura consumista, que reduz a pessoa àquilo que possui ou que pode comprar. Isto leva-a a pensar que não há mais nada para além do que uma economia de consumo pode dar. « A maior preocupação com o seu poder provém do facto de que ela, na sua maioria, propaga incessantemente uma ideologia que é nitidamente contrária à visão da fé católica ».(82) É importante, pois, que os fiéis, sobretudo os jovens, sejam preparados para adoptarem uma atitude crítica perante a publicidade, realidade omnipresente na vida de hoje; para isso, têm de ser formados com um sentido claro e forte dos valores humanos e cristãos que estão na base da visão católica da vida. 

O ACTUAL DESAFIO DA FÉ  

Catequese 

22. Na sua missão de « proclamar a verdade de Jesus Cristo » na Oceânia de hoje, a Igreja é chamada a renovar a sua catequese, o ensino e a formação da fé. O impacto dos mass-media na vida das pessoas ilustra bem como uma nova realidade social exige formas inovadoras de apresentar a fé. O objectivo da catequese é educar as crianças, os jovens e os adultos na fé; isto comporta sobretudo « um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de os iniciar na plenitude da vida cristã ».(83) Os Padres Sinodais propuseram um maior investimento de meios económicos e de pessoas para se alcançar mesmo os sujeitos que mais facilmente ficam ignorados. A necessidade de cursos completos para adultos e crianças com especiais limitações, que não frequentam escolas católicas, reclama uma atenção particular e planificação sistemática. Basilar entre todos os direitos humanos é a liberdade de religião, que inclui o direito de ser instruído na fé.(84) « Todos os baptizados, pelo facto mesmo do seu baptismo, possuem o direito de receber da Igreja um ensino e uma formação que lhes permitam chegar a ter uma verdadeira vida cristã ».(85) Isto exige que os governos e os responsáveis escolares garantam o respeito efectivo deste direito. « Quando há uma autêntica colaboração entre o governo e a Igreja relativamente à instituição e funcionamento das escolas, a educação das crianças e jovens da nação é imensamente promovida ».(86) Religiosos e religiosas, leigos e sacerdotes têm trabalhado para conseguir este objectivo, frequentemente com prodigiosos esforços e muitos sacrifícios. O seu trabalho deve ser consolidado e ampliado para que todos os baptizados cresçam na fé e na compreensão da verdade de Cristo. 

Ecumenismo 

23. Os Padres Sinodais consideraram a separação dos cristãos como um grande obstáculo à credibilidade do testemunho da Igreja, tendo expresso o desejo ardente de que cesse o escândalo da divisão e sejam feitos novos esforços de reconciliação e diálogo, para que o esplendor do Evangelho possa irradiar mais claramente. 

Em muitas regiões missionárias da Oceânia, as diferenças entre Igrejas e Comunidades Eclesiais conduziram, no passado, ao antagonismo e à contraposição. Nos tempos recentes, porém, o relacionamento tem sido mais positivo e fraterno. A Igreja na Oceânia tem dado grande prioridade ao ecumenismo, revestindo-se de novidade e abertura as actividades ecuménicas; estas são acolhidas favoravelmente como oportunidade para « um diálogo de salvação »,(87) que tem em vista uma maior compreensão e mútuo enriquecimento. O ardente desejo da unidade na fé e no culto é um dos dons do Espírito Santo à Oceânia,(88) e a cooperação nas áreas da assistência caritativa e da justiça social é um sinal claro de fraternidade cristã. O ecumenismo encontrou na Oceânia um terreno fértil onde lançar raízes, porque, em muitos lados, as comunidades locais sentem-se intimamente unidas. Um desejo ainda mais intenso de unidade na fé ajudará a conservar unidas estas comunidades. Este anseio duma comunhão mais profunda em Cristo estava simbolizado, no Sínodo, pela presença de delegados fraternos doutras Igrejas e Comunidades Eclesiais. As suas contribuições foram estimulantes e proveitosas para avançar rumo à unidade querida por Cristo. 

No trabalho ecuménico, é essencial que os católicos estejam bem preparados no conhecimento da doutrina, tradição e história da Igreja, para que, compreendendo mais profundamente a sua fé, saibam empenhar-se melhor no diálogo e colaboração ecuménica. Além disso, há necessidade de um « ecumenismo espiritual », ou seja, o ecumenismo de oração e conversão do coração. A oração ecuménica frutificará na partilha de vida e de serviços, de modo que os cristãos realizem juntos tudo o que for possível nas circunstâncias actuais. Um « ecumenismo espiritual » pode levar também ao diálogo doutrinal ou, onde este já exista, à sua consolidação. Os Padres Sinodais consideraram muito útil haver, para uso conjunto, edições da Sagrada Escritura e orações ecumenicamente aceites. Esperam ver dada maior atenção às necessidades pastorais das famílias cujos membros pertencem a comunidades cristãs diferentes. Encorajaram também as comissões eclesiais a partilharem, se possível, os serviços sociais com outras comunidades cristãs. É bom que os responsáveis cristãos ajam de comum acordo e façam declarações comuns sobre questões religiosas e sociais, quando tais declarações forem necessárias e oportunas.(89) 

Grupos fundamentalistas 

24. Há que distinguir o ecumenismo da aproximação eclesial a grupos ou movimentos religiosos fundamentalistas, alguns dos quais são de inspiração cristã. Nalgumas regiões missionárias, os bispos estão preocupados com a influência que eles têm sobre a comunidade católica. Alguns grupos fundamentam as suas ideias numa leitura da Bíblia que usa frequentemente imagens apocalípticas, ameaças de um futuro negro para o mundo, e promessas de recompensas económicas para os seus sequazes. Enquanto alguns destes grupos são abertamente hostis à Igreja, outros desejariam entrar em diálogo. Nas sociedades mais desenvolvidas e secularizadas, cresce a preocupação com grupos cristãos fundamentalistas que arrastam a juventude para longe da Igreja e até das suas famílias. Muitos movimentos diversos oferecem uma espécie de espiritualidade como suposto remédio para os efeitos nocivos duma cultura tecnológica alienante, contra a qual muitas vezes as pessoas se sentem impotentes. A presença e actividade de tais grupos e movimentos são um desafio para a Igreja, obrigando-a a revitalizar o seu serviço pastoral e a ser mais acolhedora para com os jovens e quantos vivem em grave carência espiritual ou material.(90) É uma situação que clama também por melhor catequese bíblica e sacramental e uma formação espiritual e litúrgica apropriada. Há necessidade ainda duma nova apologética, de acordo com as palavras de S. Pedro: « Estai sempre prontos a responder (...) a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança » (1 Ped 3, 15). Deste modo, os fiéis estarão mais seguros na sua fé católica e menos expostos à sedução destes grupos e movimentos que, muitas vezes, acabam por dar precisamente o contrário do que prometem. 

Diálogo inter-religioso 

25. Maiores oportunidades de viajar e possibilidades mais acessíveis de migração deram como resultado um encontro sem precedentes entre as culturas do mundo, explicando-se assim a presença na Oceânia das grandes religiões não cristãs. Algumas cidades têm comunidades hebraicas, compostas por um número considerável de sobreviventes do Holocausto, podendo elas desempenhar uma função importante nas relações entre hebreus e cristãos. Em certos lugares, encontram-se também estabelecidas há muito tempo comunidades muçulmanas; noutros, há comunidades de hindus; e noutros ainda, têm-se fundado centros budistas. É importante que os católicos conheçam melhor tais religiões, as suas doutrinas, modos de vida e culto. Quando pais pertencentes a estas religiões inscrevem os filhos em escolas católicas, a Igreja tem uma missão especialmente delicada. 

A Igreja na Oceânia deve estudar mais cuidadosamente as religiões tradicionais das populações indígenas, para entrar com maior eficácia no diálogo que o anúncio cristão requer. « O anúncio e o diálogo, cada um no próprio âmbito, são ambos considerados elementos componentes e formas autênticas da única missão evangelizadora da Igreja. Ambos são orientados para a comunicação da verdade salvífica ».(91) Para prosseguir um diálogo frutuoso com estas religiões, a Igreja precisa de peritos em filosofia, antropologia, religiões comparadas, ciências sociais e sobretudo em teologia. 

ESPERANÇA PARA A SOCIEDADE

A doutrina social da Igreja 

26. A Igreja considera o apostolado social como parte integrante da sua missão evangelizadora para dirigir uma palavra de esperança ao mundo; e o seu compromisso nesta linha é visível na contribuição que dá para o progresso humano, na promoção dos direitos humanos, na defesa da vida e dignidade humana, justiça social e na protecção do ambiente. Profundamente solidários com o seu povo, os Padres Sinodais reafirmaram a sua determinação de actuar contra as injustiças, a corrupção, as ameaças à vida e as novas formas de pobreza.(92) 

Nos fins do século XIX, quando a sociedade industrial e consumista dava os seus primeiros passos, a Igreja na Oceânia acolheu favoravelmente a doutrina social do Papa sobre os direitos dos trabalhadores ao emprego e a um justo salário. Nos países da Oceânia em vias de desenvolvimento, a doutrina social da Igreja tem sido bem recebida, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, e os bispos locais têm-na ensinado de forma eficaz e aplicada às questões sociais emergentes. As declarações feitas pela Federação das Conferências dos Bispos Católicos da Oceânia, pelas diversas Conferências Episcopais e pelos bispos individualmente tocam todos os âmbitos do ensinamento social da Igreja e mostram como esta tem procurado promover a causa dos indígenas e os direitos das nações mais pequenas, e ainda robustecer os vínculos da solidariedade internacional; tem também ajudado a desenvolver formas democráticas de governo que respeitem os direitos humanos, o estado de direito e a sua justa aplicação. 

Este empenho pela justiça social e a paz é, sem dúvida, uma parte integrante da missão da Igreja no mundo; (93) mas a sua missão não está subordinada a um poder político. « A Igreja preocupa-se com os aspectos temporais do bem comum em razão da sua ordenação ao Bem soberano, nosso fim último ».(94) A doutrina social da Igreja deve ser ensinada e actuada ainda mais eficazmente na Oceânia, sobretudo através de estruturas como as Comissões de Justiça e Paz. A referida doutrina há-de ser « apresentada claramente aos crentes em termos facilmente inteligíveis, e testemunhada por um estilo de vida simples ».(95) É necessária uma análise mais incisiva das injustiças económicas e da corrupção para que se possam propor medidas adequadas para vencê-las. Encorajem-se as organizações católicas consagradas à acção em prol da justiça para permanecerem atentas às novas formas de pobreza e injustiça e ajudarem a eliminar as suas causas. 

Direitos humanos 

27. Os Padres Sinodais fizeram votos de que os povos da Oceânia se tornem ainda mais conscientes da dignidade humana, baseada no facto de todos terem sido criados à imagem de Deus (cf. Gen 1, 26). O respeito da pessoa humana comporta a defesa dos direitos invioláveis que derivam precisamente da sua dignidade de pessoa. Todos os direitos básicos são anteriores à sociedade e como tal devem ser reconhecidos.(96) A falta de respeito pela dignidade ou pelos direitos da pessoa é contrária ao Evangelho e atenta contra a sociedade humana. A Igreja encoraja jovens e adultos a responder de modo eficaz à injustiça e à violação dos direitos humanos, alguns dos quais se encontram ameaçados ou necessitam de ser melhor respeitados na Oceânia. 

Entre eles, conta-se o direito ao trabalho e ao emprego que permite à pessoa sustentar-se, criar e educar uma família. O desemprego dos jovens é uma grave preocupação, que em alguns países aumenta a incidência do suicídio entre a juventude. Os sindicatos têm um papel insubstituível a realizar na defesa dos direitos dos trabalhadores. Para serem fiéis às suas obrigações, os políticos, os governantes e a polícia devem ser honestos e evitar a corrupção em todas as suas formas, porque é sempre uma grave injustiça aos cidadãos. Os responsáveis eclesiais, cooperando com os políticos, os homens de negócios e os chefes da sociedade, podem dar uma válida ajuda para se formular directrizes éticas nas questões que tocam o bem comum e garantir que sejam postas em prática. 

Sem a pretensão de serem peritos neste campo, os pastores precisam de estar bem informados sobre os problemas económicos e o seu impacto na sociedade. Os Padres Sinodais lembraram que « uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da actividade económica é moralmente inaceitável »; (97) o chamado « racionalismo económico » (98) é um princípio que tende a dividir cada vez mais as nações, as comunidades e os indivíduos em ricos e pobres. As nações mais pequenas da Oceânia são particularmente vulneráveis às políticas económicas baseadas numa filosofia social deste tipo, que tem um escasso sentido de justiça distributiva e pouco se preocupa em assegurar a cada um as necessárias condições de vida e um desenvolvimento humano integral. O facto de serem as famílias que padecem com tais políticas económicas é particularmente inquietante. Os bispos assinalaram outro fenómeno destrutivo na Oceânia que é a difusão do jogo de azar, sobretudo nos casinos, que promete uma solução rápida e espectacular das dificuldades económicas quando, na realidade, precipitam as pessoas numa situação ainda pior. 

Os povos indígenas 

28. As políticas económicas injustas são especialmente danosas para os povos indígenas, as nações jovens e as suas culturas tradicionais; é missão da Igreja ajudar as culturas indígenas a preservarem a sua identidade e manterem as suas tradições. O Sínodo animou a Santa Sé a prosseguir na tutela da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.(99) 

Um caso especial são os aborígenes australianos, cuja cultura luta pela sobrevivência. Durante milénios e milénios, procuraram viver em harmonia com o ambiente, muitas vezes agreste, do seu « grande país »; mas agora a sua identidade e cultura estão gravemente ameaçadas. Ultimamente, porém, os seus esforços conjuntos para garantirem a sobrevivência e obterem justiça começaram a dar fruto. Na Aula Sinodal, foi referido um provérbio próprio da vida nas florestas da Austrália: « Se permanecerdes intimamente unidos, vós sereis como uma árvore de pé no meio de um incêndio que queima a madeira na floresta. As folhas estão a arder e a casca robusta seca-se e é queimada; mas dentro da árvore a linfa continua a correr, e debaixo da terra as raízes estão ainda robustas. Como aquela árvore, vós sobrevivestes às chamas e tendes ainda a força para renascer. O tempo para este renascer é agora ».(100) A Igreja sempre apoiará a causa dos povos indígenas que pedem um justo e equitativo reconhecimento da sua identidade e dos seus direitos.(101) Os Padres Sinodais exprimiram o seu apoio às aspirações do povo indígena por uma solução justa para a complicada questão da alienação das suas terras.(102) 

Às vezes a verdade foi sufocada por governos e suas instituições ou ainda por comunidades cristãs; é necessário que as injustiças feitas aos indígenas sejam honestamente reconhecidas; o Sínodo apoiou a instituição de « Comissões pela Verdade »,(103) sempre que possam ajudar a resolver injustiças históricas e promover a reconciliação no seio da sociedade mais alargada ou da nação. O passado não pode ser desfeito, mas um reconhecimento honesto das injustiças passadas pode originar medidas e atitudes que ajudem a corrigir os efeitos nocivos quer para a comunidade indígena quer para a sociedade inteira. A Igreja exprime profundo pesar e pede perdão pelos seus filhos que foram ou são ainda cúmplices destes agravos. Conscientes das vergonhosas injustiças feitas aos povos indígenas da Oceânia, os Padres Sinodais pediram incondicionalmente desculpa pela parte que nelas tiveram membros da Igreja, sobretudo no caso de crianças separadas à força das suas famílias.(104) Os governos são convidados a fomentar com maior vigor programas que melhorem as condições e o nível de vida dos grupos indígenas nas áreas vitais da saúde, educação, emprego e habitação. 

Ajuda ao desenvolvimento 

29. Como, na Igreja primitiva, cada comunidade cristã estava ligada às outras pela hospitalidade oferecida aos peregrinos, pela ajuda recíproca e pela partilha de recursos materiais e humanos, assim a solidariedade prática entre as Igrejas particulares na Oceânia torna patente ao mundo a communio. Muitas economias nacionais da Oceânia estão ainda dependentes da ajuda internacional e necessitam de contínuo apoio económico para o desenvolvimento. Enquanto a ajuda é generosamente oferecida pelas instituições internacionais para o desenvolvimento sócio-económico, a Igreja tem dificuldade em obter ajuda directa para os seus projectos pastorais, apesar de muitos deles se estenderem para além dos confins da comunidade católica. Por isso, o Sínodo recomendou que as instituições de apoio ligadas à Igreja revejam os seus critérios, para abrir os seus recursos às obras apostólicas que são um pré-requisito para o desenvolvimento social que há-de melhorar o nível de vida.(105) 

Os Padres Sinodais pediram também que a Igreja presente nas regiões mais ricas da Oceânia « partilhe os seus recursos com as diversas Igrejas particulares do Pacífico e as ajude a estabelecer contactos com organismos financiadores ».(106) E a Igreja na Oceânia também não pode ficar indiferente ao destino das Igrejas mais pobres da vizinha Ásia, sempre que se encontram necessitadas da sua ajuda e dos seus serviços. O Sínodo reconhece com gratidão as generosas contribuições em dinheiro e recursos dadas pelos católicos para programas de ajuda, e de modo especial a obra do laicado empenhado, em situações por vezes muito difíceis, a melhorar as condições humanas na Oceânia. 

A sacralidade da vida 

30. Nas sociedades mais secularizadas e ricas da Oceânia, o direito à vida é um dos mais ameaçados. Verifica-se aqui uma profunda contradição, porque frequentemente são sociedades que falam, com muita insistência, dos direitos humanos e ao mesmo tempo negam o mais básico de todos. Não disse porventura o próprio Cristo: « Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo10, 10)? De facto, « o Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus ».(107) Na luta actual entre uma « cultura da vida » e uma « cultura da morte », a Igreja tem de defender o direito à vida desde o momento da concepção até à morte natural, com todas as fases do seu desenvolvimento. Os valores morais e sociais que deveriam plasmar a sociedade estão baseados na sacralidade da vida criada por Deus. A apresentação duma visão clara da origem da humanidade em Deus criador e do seu destino eterno ajudará muitas pessoas a intuírem o verdadeiro valor da vida. Não é que a Igreja queira impor a sua moralidade aos outros; deseja simplesmente ser fiel à sua missão de partilhar a verdade inteira acerca da vida, como lhe foi ensinada por Jesus Cristo. A exaltação da sacralidade da vida é uma consequência da visão cristã da existência humana. Esta verdade deve ser ensinada pela Igreja não só no âmbito da comunidade católica, mas igualmente, de modo profético, à sociedade inteira, para anunciar a força e a beleza do Evangelho da vida. 

Para isso, é essencial tanto o testemunho das instituições sanitárias católicas como o dos mass-media na promoção do valor da vida. Para apresentarem à opinião pública, de modo claro e fiel, a posição da Igreja em questões bioéticas e sanitárias, os bispos, sacerdotes e profissionais de leis e de saúde precisam de ser adequadamente preparados.(108) A vida deve ser promovida e a sua sacralidade defendida contra qualquer ameaça de violência nas suas múltiplas formas, sobretudo violência contra os mais débeis que são os idosos, os moribundos, as mulheres, as crianças, os deficientes e os nascituros. 

O meio ambiente 

31. A Oceânia é uma parte do mundo com grande beleza natural, tendo conseguido guardar áreas que permanecem intactas. Ainda hoje a região oferece aos povos indígenas um lugar para viverem em harmonia com a natureza e uns com os outros.(109) Dado que a criação foi confiada à gestão do homem, o mundo natural não é simplesmente um conjunto de recursos para desfrutar, mas também uma realidade que deve ser respeitada e venerada como dom que lhe foi confiado por Deus. É tarefa do ser humano cuidar, preservar e cultivar os tesouros da criação. Os Padres Sinodais pediram aos povos da Oceânia para se alegrarem sempre com a glória da criação num espírito de acção de graças ao Criador. 

Mas, a beleza natural da Oceânia não escapou aos estragos da incúria e avidez humanas. Os Padres Sinodais encorajaram os governos e os povos da Oceânia a proteger este ambiente precioso para as gerações presentes e futuras.(110) Uma especial responsabilidade deles é assumir, em nome da humanidade inteira, a gestão do Oceano Pacífico, que reúne mais de metade das reservas hídricas da terra. A boa conservação deste e dos outros oceanos é crucial para o bem-estar dos povos não só na Oceânia mas por toda a parte do mundo. 

Os recursos naturais da Oceânia devem ser protegidos contra as políticas nocivas de algumas nações industrializadas e de multinacionais cada vez mais poderosas, que podem levar ao desflorestamento, à expropriação da terra, à poluição de rios com actividades mineiras, à pesca desenfreada de espécies lucrativas, ou à contaminação dos fundos marinhos com escórias industriais e nucleares; o depósito destas últimas na região constitui um perigo mais para a saúde da população indígena. Contudo é importante também reconhecer que a indústria pode trazer grandes benefícios, quando opera no devido respeito pelos direitos e cultura da população local e pela integridade do meio ambiente. 

A ACTIVIDADE SÓCIO-CARITATIVA

Instituições católicas 

32. A história da Igreja na Oceânia não pode ser narrada sem mencionar as contribuições excepcionais da Igreja no campo da educação, da saúde e da assistência social. As instituições católicas permitem que a luz do Evangelho penetre nas culturas e sociedades, evangelizando-as, por assim dizer, a partir de dentro. Graças ao trabalho dos missionários cristãos, antigas formas de violência têm cedido o lugar a práticas inspiradas no direito e na justiça. Através da educação, têm sido formados dirigentes cristãos e cidadãos responsáveis, e os valores morais cristãos têm forjado a sociedade. Nos seus programas de educação, a Igreja procura a formação integral da pessoa humana, vendo no próprio Cristo a humanidade em plenitude. O apostolado sócio-caritativo testemunha, por palavras e acções, a plenitude do amor cristão. Um tal testemunho de amor leva as pessoas a interrogarem-se sobre a sua origem e perguntarem-se porque é que os cristãos são diferentes nos seus valores e comportamento.(111) E, deste modo, Cristo toca a vida dos outros, encaminhando-os para uma maior percepção do que significa falar de « civilização do amor » (112) e empenhar-se na sua edificação. 

A Igreja serve-se da liberdade religiosa na sociedade para proclamar Cristo publicamente e partilhar com abundância o seu amor através da criação de instituições nele inspiradas. O direito de a Igreja fundar instituições educativas, sanitárias e de assistência social baseia-se precisamente em tal liberdade. O apostolado social destas instituições pode ser mais eficaz quando os governos não se limitam a tolerar mas cooperam nesta área com as autoridades eclesiais, no respeito inequívoco pela função e competência de cada um. 

Educação católica 

33. Os pais são os primeiros educadores dos filhos quanto aos valores humanos e à fé cristã; e têm o direito fundamental de escolher a educação idónea para eles. As escolas assistem os pais no exercício deste direito, ajudando os estudantes a desenvolver-se como devem. Nalgumas situações, a escola católica é o único contacto que os pais têm com a comunidade eclesial. 

A escola católica possui uma identidade eclesial, porque é parte da missão evangelizadora da Igreja.(113) Um dos traços distintivos da educação católica é que está aberta a todos, especialmente aos pobres e aos mais débeis da sociedade.(114) É vital a colaboração entre a escola e a paróquia, e que aquela esteja integrada no programa pastoral paroquial, sobretudo no que se refere aos sacramentos da confirmação, penitência e eucaristia. 

Na escola primária, os professores desenvolvem nas crianças aquele potencial de fé e de compreensão que há-de florescer plenamente nos anos seguintes. A escola secundária representa um meio privilegiado para « a comunidade católica proporcionar aos estudantes uma formação intelectual, profissional e religiosa »; (115) durante estes anos, os estudantes normalmente chegam a um maior discernimento acerca da fé e da vida moral, baseando-as num conhecimento mais pessoal de Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Uma tal fé, nutrida em família, na escola e na paróquia através da oração e dos sacramentos, manifesta-se por meio duma sólida e recta vida moral. Numa sociedade cada vez mais secularizada, o grande desafio para as escolas católicas é apresentar a mensagem cristã de modo persuasivo e sistemático, tendo presente que « a catequese corre o risco de ficar estéril, se uma comunidade de fé e de vida cristã não acolher os que estão a ser formados ».(116) Por isso, os jovens devem ser verdadeiramente integrados na vida e actividade da comunidade. 

Os Padres Sinodais quiseram agradecer a obra dos religiosos e religiosas e dos leigos que tão generosamente têm trabalhado no campo da educação católica,(117) fundando e dotando de pessoal as escolas católicas, afrontando muitas vezes grandes dificuldades com enorme sacrifício. A sua contribuição para a Igreja e a sociedade civil na Oceânia tem sido incalculável. No contexto actual da educação, as congregações religiosas, os institutos e as sociedades de vida apostólica têm toda a razão para estimar a sua vocação. Mulheres e homens consagrados fazem falta nas instituições educativas para dar um testemunho radical dos valores evangélicos e, desse modo, inspirá-los a outros. Recentemente, a generosa resposta dos leigos às necessidades de hoje abriu novas perspectivas para a educação católica. Para os leigos empenhados no ensino, este, mais do que profissão, é visto como uma vocação para formar estudantes, um serviço laical amplamente difuso e indispensável na Igreja. Ensinar é sempre um desafio, mas com a colaboração e o estímulo de pais, sacerdotes e religiosos, a participação dos leigos no campo da educação católica pode ser um valioso serviço ao Evangelho e um caminho de santificação cristã tanto para o professor como para os alunos. 

A identidade e o sucesso da educação católica estão inseparavelmente ligados ao testemunho de vida dado pelo corpo docente. Por isso, os bispos recomendaram, a « quem é responsável pelo recrutamento dos professores e administradores para as nossas escolas católicas, que tenha em conta a vida de fé daqueles que são assumidos ».(118) Os professores que vivem profundamente a sua fé serão agentes duma nova evangelização, criando um clima positivo para o crescimento da fé cristã e alimentando espiritualmente os estudantes confiados aos seus cuidados. Gozam de particular influência, quando são católicos praticantes, comprometidos na sua comunidade paroquial e leais para com a Igreja e a sua doutrina. 

Hoje, a Igreja na Oceânia está a ampliar o seu empenho no campo educativo. Leigos católicos diplomados recebem grande ajuda de institutos superiores católicos, de colégios e universidades, que os alimentam intelectualmente, educam profissionalmente e apoiam a sua fé, para poderem ocupar o seu lugar na missão da Igreja no mundo. Esta aventura ao nível superior da educação está ainda a começar na Oceânia e exige especiais dons de sensatez e discernimento na sua evolução. As universidades católicas são comunidades que reúnem professores dos vários ramos do saber humano; dedicam-se à pesquisa, ao ensino e a outros serviços de acordo com a sua missão cultural. É, para elas, uma honra e uma responsabilidade consagrarem-se sem reservas à causa da verdade.(119) Pede-se-lhes que observem os mais altos parâmetros da pesquisa e ensino académico como um serviço à comunidade local, nacional e internacional. Têm assim uma função vital na sociedade e na Igreja que é preparar futuros profissionais e dirigentes capazes de tomarem a sério as suas responsabilidades cristãs. Os bispos consideraram essencial manter um contacto pessoal com os universitários e promover qualidades de liderança naqueles que labutam no nível superior da educação. 

A pesquisa e o ensino nas instituições universitárias devem levar os valores cristãos ao mundo das artes e das ciências. A Igreja necessita de peritos em filosofia, ética e teologia moral, para que os valores humanos sejam adequadamente compreendidos no contexto duma sociedade tecnológica cada vez mais complexa; e a unidade de conhecimento não estará completa enquanto não for permitido à teologia iluminar todo o campo da investigação. Há que ter particular cuidado com a selecção e formação de professores para trabalhar na área da teologia. « A constituição apostólica Ex corde Ecclesiæ determina que a maioria dos professores nas universidades católicas e noutros institutos superiores católicos devem ser católicos activos. Os responsáveis pelo recrutamento de pessoal escolham cuidadosamente professores que sejam não apenas competentes no âmbito da sua especialidade, mas possam também servir de modelo para os jovens ».(120) A presença de católicos activos nas instituições académicas superiores é vital e constitui um verdadeiro serviço à Igreja e à sociedade. 

Assistência sanitária 

34. Jesus curou os doentes e consolou os aflitos. Depois de ressuscitado, continua o seu ministério de cura e consolação através daqueles que levam a misericórdia divina aos débeis e doentes. Este ministério da Igreja na Oceânia constitui, para muitas pessoas, a prova mais saliente e tangível do amor de Deus. A missão messiânica da misericórdia,(121) feita de cura e perdão, deve ser continuada sem parcimónia e segundo modalidades novas que correspondam às necessidades actuais. 

A história da assistência sanitária na Oceânia demonstra a sua estreita ligação com a missão da Igreja e como engloba os vários âmbitos sanitários, incluindo o fornecimento dos mais elementares serviços médicos às zonas mais remotas. A Igreja foi das primeiras instituições a ocupar-se daqueles que eram segregados pela sociedade como, por exemplo, os leprosos e os doentes da SIDA. Além disso, administra escolas hospitalares, onde os profissionais da saúde são excelentemente preparados. Devido à crise actual que atravessa a prestação e o financiamento dos cuidados médicos na Oceânia, algumas instituições estão a passar sérias dificuldades, mas não se pode permitir que isso comprometa o empenho fundamental da Igreja nesta área. 

O ensinamento da Igreja sobre a dignidade da pessoa humana e a sacralidade da vida deve ser exposto aos responsáveis das leis e das decisões judiciárias, sobretudo quando as suas posições têm consequências sobre a saúde, a administração dos hospitais e a prestação dos serviços médicos. Hoje os hospitais e as instituições sanitárias católicas estão na vanguarda da luta que a Igreja trava pela vida humana, desde o momento da concepção até à sua morte natural. Os Padres Sinodais reconheceram o zelo das congregações religiosas que fundaram o sistema sanitário católico na Oceânia. A Igreja e a sociedade inteira têm para com elas uma dívida imensa de gratidão. A sua presença nos hospitais deve continuar, juntamente com leigos preparados para trabalhar com os diversos institutos de vida consagrada segundo o espírito do seu carisma. Estas pessoas fazem com que o Evangelho da vida seja proclamado sem ambiguidades numa sociedade que muitas vezes se sente confusa relativamente aos valores morais. Para se neutralizar a influência duma « cultura da morte », os Padres Sinodais recomendaram que se incitem todos os cristãos a darem a sua ajuda para que a grande herança do serviço sanitário católico não seja comprometida.(122) 

As universidades católicas têm uma função mestra a desempenhar na educação de profissionais da saúde capazes de aplicar a doutrina católica aos novos desafios que incessantemente se levantam no campo médico. De toda a forma possível, devem ser promovidas e, onde não existam, instituídas as associações de médicos católicos, de enfermeiros e de agentes sanitários. Os administradores e o pessoal das instituições católicas precisam de formação para aplicar os princípios morais católicos na sua vida profissional. Esta é uma tarefa delicada, quando alguns dos que trabalham em hospitais católicos não estão familiarizados com estes princípios ou não concordam com eles; mas, se a doutrina for apresentada de forma apropriada, tais pessoas acabam muitas vezes por sentir a paz que deriva de viver em harmonia com a verdade e cooperam de boa vontade. 

A fé na cruz redentora de Cristo dá novo significado à doença, ao sofrimento e à morte. Os Padres Sinodais apontaram a necessidade de apoiar aqueles que possuem ou administram estruturas para testemunhar a compaixão de Cristo a quantos sofrem, de modo particular a pessoas inválidas, aos doentes da SIDA, aos idosos, aos moribundos, aos povos indígenas e aos que vivem em áreas isoladas.(123) Uma particular atenção reservaram os bispos a quantos prestam tais serviços nas áreas mais remotas, como a selva, ilhas pequenas ou o sertão australiano. Muitas vezes dispondo de escassos recursos e pouco apoio económico, eles oferecem, com o seu zelo, um poderoso testemunho do amor de Deus pelo pobre, o doente e o abandonado. Quer trabalhem em hospitais, quer cuidem dos idosos, quer prestem outras formas de assistência sanitária ao mais pequeno dos seus irmãos e irmãs (cf. Mt 25, 40), saibam que a Igreja aprecia imenso a sua dedicação e generosidade e agradece-lhes por estarem na vanguarda da caridade cristã. 

Serviços sociais 

35. Jesus, ao longo da sua vida na terra, era sensível a toda a fraqueza e aflição humana. « No centro do seu ensino pôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal ».(124) Seguindo os passos do Senhor, a missão caritativa da Igreja estende-se aos mais necessitados: os órfãos, os pobres, as pessoas sem abrigo, os abandonados e excluídos. Uma tal missão é cumprida por quem cuida dos necessitados através de iniciativas pessoais ou mediante instituições criadas para acorrer às várias necessidades a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional. 

Não há lugar aqui para um elenco exaustivo dos serviços sociais prestados pela Igreja na Oceânia; de alguns, porém, foi feita menção especial na Aula Sinodal. A Igreja oferece serviços de consultoria a sujeitos com dificuldades pessoais ou sociais procurando reforçar as famílias, a fim de prevenir separações matrimoniais e divórcios ou tratar as suas dolorosas consequências. Dar alimento aos pobres, instituir centros de assistência para várias categorias de pessoas, ajudar os que não têm abrigo e os « meninos de rua » são apenas uma pequena parte do apostolado social da Igreja na Oceânia. De forma silenciosa e reservada, alguns grupos paroquiais e associações apostólicas trabalham para remediar as feridas frequentemente encobertas causadas pela pobreza nos subúrbios ou nas áreas rurais. Grupos há que ajudam a levar a paz e a reconciliação entre clãs, tribos ou outros grupos em conflito. As mulheres, sobretudo mães, gozam duma eficácia extraordinária na promoção de meios pacíficos para resolver conflitos.(125) A solicitude da Igreja estende-se também às pessoas dependentes do álcool, das drogas, do jogo de azar, e às vítimas de abuso sexual. Os Padres Sinodais mencionaram também os refugiados e quantos procuram asilo: o seu número está a crescer e a sua dignidade humana reclama que sejam acolhidos e tratados com os devidos cuidados. Dado que as nações da Oceânia dependem dos oceanos e dos mares, os Padres Sinodais preocuparam-se também dos marinheiros, que trabalham muitas vezes em duras condições e vivem sujeitos a muitas provações

É frequente haver voluntários que oferecem o seu tempo, energias e serviços profissionais a estas formas de apostolado, sem qualquer remuneração. É que quantos escolheram, como modo de vida, amar sacrificando-se a si próprios, não o fizeram à espera de agradecimento ou recompensa humana, nem haveria uma adequada; toda a sua preocupação é desempenhar a parte que lhes cabe na missão eclesial de proclamar a verdade de Jesus Cristo, seguir o seu caminho e viver a sua vida. Estas pessoas são de importância fundamental em qualquer planificação para uma nova evangelização dos povos da Oceânia. A fé é despertada pela pregação da palavra de Deus, e a esperança é alimentada pela promessa do seu Reino, mas a caridade é infundida pelo Espírito Santo, « Senhor que dá a vida ». 

  

CAPÍTULO IV 

VIVENDO A VIDA DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA 

« Quando Jesus acabou de falar, disse a Simão: "Faz-te ao largo; e vós lançai as redes para a pesca". Simão respondeu: "Mestre, trabalhámos durante toda a noite e nada apanhámos, mas, porque Tu o dizes, lançarei as redes". Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe. As redes estavam a romper-se e eles fizer