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PÓS-SYNODAL ECCLESIA IN AFRICA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS AOS RELIGIOSOS E RELIGIOSAS E A TODOS FIÉIS LEIGOS SOBRE A IGREJA EM ÁFRICA E A SUA MISSÃO EVANGELIZADORA RUMO AO ANO 2000
INTRODUÇÃO
1. A Igreja que está em África, celebrou com alegria e esperança, durante quatro semanas, a sua fé em Cristo ressuscitado, no curso de uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Permanece viva ainda a sua recordação na memória da Comunidade Eclesial inteira. Fiéis à tradição dos primeiros séculos do cristianismo em África, os Pastores deste continente, em comunhão com o Sucessor do apóstolo Pedro e os membros do Colégio Episcopal vindos doutras regiões do mundo, realizaram um Sínodo que se revelou um acontecimento de esperança e de ressurreição, no momento mesmo em que as vicissitudes humanas pareciam antes impelir a África para o desânimo e o desespero. Os Padres Sinodais, assistidos por qualificados representantes do clero, dos religiosos e do laicado, examinaram profunda e realisticamente as luzes e as sombras, os desafios e as perspectivas da evangelização em África ao aproximar-se do terceiro milénio da fé cristã. Os membros da Assembleia Sinodal solicitaram-me que levasse ao conhecimento de toda a Igreja os frutos das suas reflexões e das suas preces, dos seus debates e das suas partilhas.1 Com alegria e gratidão ao Senhor, acolhi esse pedido, e hoje mesmo quando, em comunhão com os Pastores e os fiéis da Igreja Católica no continente africano, abro a fase celebrativa da Assembleia Especial para a África, torno público o texto desta Exortação Apostólica pós-sinodal, fruto de um intenso e prolongado trabalho colegial. Mas, antes de entrar na exposição daquilo que maturou ao longo do Sínodo, julgo oportuno repassar, ainda que rapidamente, as várias fases de um acontecimento de importância tão decisiva para a Igreja em África. O Concílio 2. O Concílio Ecuménico Vaticano II pode certamente considerar-se, do ponto de vista da história da salvação, como a pedra angular deste século, já quase a desembocar no terceiro milénio. No contexto daquele grande acontecimento, a Igreja de Deus que está em África pôde, por sua vez, viver autênticos momentos de graça. Com efeito, a ideia de um encontro de Bispos da África, sob forma a determinar, para discutir acerca da evangelização do Continente, remonta ao período do Concílio. Este acontecimento histórico foi verdadeiramente o cadinho da colegialidade e uma expressão peculiar da comunhão afectiva e efectiva do Episcopado mundial. Nessa ocasião, os Bispos procuraram individuar os instrumentos apropriados para melhor compartilharem e tornarem eficaz a sua solicitude por todas as Igrejas (cf. 2 Cor 11,28) e, com tal finalidade, começaram a propor as estruturas adequadas a nível nacional, regional e continental. O Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar 3. Foi em tal clima que os Bispos de África e Madagáscar, presentes no Concílio, decidiram instituir um Secretariado Geral próprio, com a missão de coordenar as suas intervenções de modo a apresentarem em Aula, quanto possível, um ponto de vista comum. Esta cooperação inicial entre os Bispos da África institucionalizou-se, depois, com a criação em Kampala do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (S.C.E.A.M.). Tal se verificou por ocasião da visita do Papa Paulo VI ao Uganda, nos meses de Julho e Agosto de 1969, primeira visita à África de um Pontífice dos tempos modernos. A convocação da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos 4. As Assembleias Gerais do Sínodo dos Bispos, que se têm sucedido periodicamente desde 1967, ofereceram à Igreja que está em África preciosas ocasiões para fazer ouvir a própria voz no âmbito universal da Igreja. Assim, na segunda Assembleia Geral Ordinária (1971), os Padres Sinodais de África aproveitaram de bom grado a ocasião que se lhes deparava, para pedir maior justiça no mundo. A terceira Assembleia Geral Ordinária sobre a evangelização no mundo contemporâneo (1974) consentiu que fossem examinados de forma particular os problemas da evangelização em África. Foi nessa altura que os Bispos do Continente, presentes no Sínodo, publicaram uma importante mensagem, intitulada « Promoção da evangelização na corresponsabilidade ».2 Pouco tempo depois, durante o Ano Santo de 1975, o S.C.E.A.M. convocou a sua própria Assembleia Plenária, em Roma, para aprofundar o tema da evangelização. 5. Desde 1977 até 1983, vários Bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, teólogos e leigos exprimiram o desejo de um Concílio ou então um Sínodo Africano, cujo objectivo seria a análise do andamento da evangelização em África tendo em vista as grandes opções a realizar para o futuro do Continente. Acolhi favoravelmente e encorajei a iniciativa de uma « deliberação, sob forma a definir », do Episcopado Africano inteiro, « para examinar os problemas religiosos comuns a todo o Continente ».3 Consequentemente o S.C.E.A.M. empenhou-se na procura dos caminhos e meios para levar a bom termo tal projecto de um Encontro continental. Organizou-se uma consulta às Conferências Episcopais e a cada um dos Bispos de África e Madagáscar, após a qual pude convocar a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos. Em 6 de Janeiro de 1989, no contexto da Solenidade da Epifania momento litúrgico durante o qual a Igreja sente uma renovada consciência da universalidade da sua missão e do consequente dever de levar a luz de Cristo a todos os povos , anunciei ter tomado a decisão desta « iniciativa de grande importância para a difusão do Evangelho ». E especifiquei que o fiz, acolhendo a solicitação expressa, muitas vezes e há diverso tempo, pelos Bispos da África, por sacerdotes, teólogos e expoentes do laicado, « para que fosse promovida uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».4 Um acontecimento de graça 6. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi um momento de graça histórico: o Senhor visitou o seu povo que está em África. Com efeito, este Continente vive hoje aquilo que se pode definir um sinal dos tempos, um momento propício, um dia de salvação para a África. Parece chegada uma « hora da África », uma hora favorável que insistentemente convida os mensageiros de Cristo a fazerem-se ao largo e lançarem as redes para a pesca (cf. Lc 5,4). Como nos primórdios do cristianismo, um alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, feliz por ter recebido a fé mediante o Baptismo, prosseguiu o seu caminho tornando-se testemunha de Cristo (cf. Act 8,27-39), assim hoje a Igreja em África, cheia de alegria e gratidão pela fé recebida, deve prosseguir a sua missão evangelizadora, para atrair ao Senhor os povos do Continente, ensinando-lhes a cumprir tudo quanto Ele mandou (cf. Mt 28,20). A partir da solene liturgia eucarística de abertura, a 10 de Abril de 1994, que celebrei na Basílica Vaticana, juntamente com trinta e cinco Cardeais, um Patriarca, trinta e nove Arcebispos, cento e quarenta e seis Bispos e noventa Sacerdotes, a Igreja, Família de Deus,5 povo dos crentes, congregou-se em redor do túmulo de Pedro. A África estava presente com a diversidade dos seus ritos, unida a todo o Povo de Deus: ela dançava na sua alegria, exprimindo a sua fé na vida, ao som do batuque e de outros instrumentos musicais africanos. Nessa ocasião, a África sentiu que era, segundo a expressão de Paulo VI, « uma nova pátria de Cristo »,6 terra amada pelo eterno Pai.7 Eis porque eu próprio saudei aquele momento de graça com as palavras do Salmista: « Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e exultemos nele » (Sal 118117,24). Destinatários da Exortação 7. Com esta Exortação Apostólica pós-sinodal, em comunhão com a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, desejo dirigir-me em primeiro lugar aos Pastores e fiéis católicos, e depois aos irmãos das outras Confissões cristãs, àqueles que professam as grandes religiões monoteístas, em particular aos seguidores da religião tradicional africana, e a todos os homens de boa vontade que, de um modo ou doutro, têm a peito o desenvolvimento espiritual e material da África ou detêm nas suas mãos os destinos deste grande Continente. Em primeiro lugar, como é natural, tenho em mente os próprios Africanos e todos aqueles que habitam no Continente; penso, em particular, aos filhos e filhas da Igreja Católica: Bispos, sacerdotes, diáconos, seminaristas, membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, catequistas e todos aqueles que fazem do serviço aos irmãos o ideal da sua existência. Desejo confirmá-los na fé (cf. Lc 22,32) e exortá-los a perseverar na esperança que dá Cristo ressuscitado, vencendo toda a tentação de desânimo. Plano da Exortação 8. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos examinou a fundo o tema que lhe fora proposto: « A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act 1,8) ». Esta Exortação procurará, consequentemente, seguir de perto o mesmo itinerário. Começará pelo momento histórico, verdadeiro kairós, em que se realizou o Sínodo, examinando os objectivos, a preparação, e o desenvolvimento do mesmo. Deter- -se-á sobre a situação actual da Igreja em África, recordando as diversas fases de empenhamento missionário. Afrontará, depois, os vários aspectos da missão evangelizadora, que reclamam particular atenção da Igreja no momento presente: a evangelização, a inculturação, o diálogo, a justiça e a paz, os meios de comunicação social. A menção das urgências e dos desafios, que interpelam a Igreja em África na vigília já do ano 2000, permitirá esboçar as tarefas da testemunha de Cristo em África, em ordem a um contributo mais eficaz para a edificação do Reino de Deus. Deste modo será possível, no fim, delinear os compromissos da Igreja em África como Igreja missionária: uma Igreja de missão que se torna ela própria missionária. « Vós sereis minhas testemunhas (...) até aos confins do mundo » (Act 1,8). CAPÍTULO I UM HISTÓRICO MOMENTO ECLESIAL 9. « Esta Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos é um acontecimento providencial pelo qual devemos dar graças e glorificar o Pai omnipotente e misericordioso, por seu Filho, no Espírito Santo ».8 Foi com estas palavras, proferidas durante a primeira Congregação Geral, que os Padres abriram solenemente a discussão relativa ao tema do Sínodo. Já numa ocasião anterior, eu mesmo tinha expresso idêntica convicção, reconhecendo que « a Assembleia Especial é um acontecimento eclesial de primária grandeza para a África, um kairós, um momento de graça, no qual Deus manifesta a sua salvação. Toda a Igreja é convidada a viver plenamente este tempo de graça, a aceitar e difundir a Boa Nova. O esforço de preparação para o Sínodo irá beneficiar não apenas a própria celebração sinodal, mas redundará já agora em benefício das Igrejas locais que peregrinam em África, cuja fé e testemunho se reforçam, tornando-se elas cada vez mais maduras ».9 Profissão de fé 10. Este momento de graça concretizou-se, antes de mais, numa solene profissão de fé. Congregados ao redor do Túmulo de Pedro para a inauguração da Assembleia Especial, os Padres do Sínodo proclamaram a sua fé, a fé de Pedro que, retorquindo à pergunta de Cristo « Também vós quereis retirar-vos? », respondeu: « Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna; e nós acreditamos e sabemos que és o Santo de Deus » (Jo 6,67-69). Os Bispos da África, na pessoa dos quais a Igreja Católica encontrava naqueles dias uma singular expressão junto do Túmulo do Apóstolo, reiteraram que criam firmemente que a omnipotência e a misericórdia do único Deus se manifestaram sobretudo na Encarnação redentora do Filho de Deus, Filho que é consubstancial ao Pai na unidade do Espírito Santo, e que, nesta unidade trinitária, recebe em plenitude glória e honra. Esta afirmaram os Padres é a nossa fé, esta é a fé da Igreja, esta é a fé de todas as Igrejas locais que, disseminadas pelo Continente Africano, caminham para a casa de Deus. Esta fé em Jesus Cristo foi manifestada, de modo constante, forte e unânime, nas intervenções dos Padres do Sínodo ao longo de toda a Assembleia Especial. Com a força desta fé, os Bispos da África confiaram o seu Continente a Cristo Senhor, convictos de que só Ele, com o seu Evangelho e com a sua Igreja, pode salvar a África das dificuldades actuais e curá-la dos seus numerosos males.10 11. Ao mesmo tempo, por ocasião da abertura solene da Assembleia Especial, os Bispos da África proclamaram publicamente a sua fé na « única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica ».11 Estes atributos indicam traços essenciais da Igreja e da sua missão. E ela « não os confere a si mesma; é Cristo quem, pelo Espírito Santo, dá à sua Igreja ser una, santa, católica e apostólica, e é ainda Ele quem a chama a realizar cada uma destas qualidades ».12 Todos aqueles que tiveram o privilégio de assistir à celebração da Assembleia Especial para a África, congratularam-se por ver que os católicos africanos estão a assumir cada vez maiores responsabilidades nas suas Igrejas locais e esforçam-se por compreender sempre melhor o que significa ser simultaneamente católico e africano. A celebração da Assembleia Especial manifestou ao mundo inteiro que, na comunhão eclesial, existem legitimamente as Igrejas locais da África, que têm o direito de conservar e desenvolver « tradições próprias, sem detrimento do primado da Cátedra de Pedro, que preside à universal assembleia da caridade, protege as legítimas diversidades e vigia para que as particularidades ajudem a unidade e de forma alguma a prejudiquem ».13 Sínodo de ressurreição, Sínodo de esperança 12. Por singular desígnio da Providência, a solene inauguração da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos teve lugar no segundo Domingo de Páscoa, isto é, na conclusão da Oitava de Páscoa. Os Padres Sinodais, naquele dia reunidos na Basílica Vaticana, estavam bem conscientes do facto de a alegria da sua Igreja brotar do mesmo acontecimento que tinha enchido de júbilo os corações dos Apóstolos no dia de Páscoa: a ressurreição do Senhor Jesus (cf. Lc 24,40-41). Estavam profundamente conscientes da presença do Senhor ressuscitado no seu meio, que lhes dizia como aos Apóstolos: « A paz esteja convosco » (Jo 20,21.26). Eles estavam conscientes da sua promessa de permanecer com a sua Igreja para sempre (cf. Mt 28,20), e, portanto, também durante a realização da Assembleia Sinodal. Este clima pascal em que a Assembleia Especial iniciou os seus trabalhos, com os membros unidos na celebração da sua fé em Cristo ressuscitado, espontaneamente trazia ao meu espírito as palavras dirigidas por Jesus ao apóstolo Tomé: « Bem-aventurados os que, sem terem visto, acreditam! » (Jo 20,29). 13. Foi, realmente, o Sínodo da ressurreição e da esperança, como declararam, com alegria e entusiasmo, os Padres Sinodais nas primeiras frases da sua Mensagem, dirigida ao Povo de Deus. São palavras que de bom grado faço minhas: « Como Maria Madalena na manhã da ressurreição, como os discípulos de Emaús com o coração ardente e a mente esclarecida, a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos proclama: Cristo, nossa esperança, ressuscitou. Ele alcançou-nos, Ele caminhou connosco. Ele comentou-nos a Escritura; eis aqui o que Ele nos disse: "Eu sou o Primeiro e o Último, O que vive; Eu estava morto, mas eis-Me vivo pelos séculos, e Eu detenho as chaves da morte e da região dos mortos" (Ap 1,17-18). (...) E como S. João em Patmos, em tempos particularmente difíceis, recebeu profecias de esperança para o Povo de Deus, nós também anunciamos a esperança. Neste momento mesmo em que tantos ódios fratricidas, provocados por interesses políticos, dilaceram os nossos povos, no momento em que o peso da dívida internacional ou da desvalorização da moeda os oprimem, nós, Bispos da África, juntamente com todos os participantes neste Santo Sínodo, unidos ao Santo Padre e a todos os nossos Irmãos no Episcopado que nos elegeram, queremos pronunciar uma palavra de esperança e de conforto para ti, Família de Deus que estás em África; para ti, Família de Deus espalhada por todo o mundo: Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos! ».14 14. Exorto todo o Povo de Deus em África a acolher, com espírito confiante, a mensagem de esperança que lhes foi dirigida pela Assembleia Sinodal. Durante os seus debates, os Padres do Sínodo, plenamente conscientes de serem portadores das expectativas não só dos católicos africanos, mas de todos os homens e mulheres daquele Continente, afrontaram com clareza os inúmeros males que oprimem a África de hoje. Exploraram, em toda a sua complexidade e extensão, aquilo que a Igreja é chamada a realizar para favorecer a mudança desejada, mas fizeram-no numa atitude livre de pessimismos ou de desespero. Não obstante o panorama prevalentemente negativo que numerosas regiões da África apresentam hoje, e apesar das dolorosas experiências que não poucos países atravessam, a Igreja tem o dever de afirmar vigorosamente que é possível superar estas dificuldades. Ela deve fortalecer, em todos os Africanos, a esperança numa verdadeira libertação. A sua confiança está fundada, em última instância, na certeza da promessa divina que nos assegura que a nossa história não está fechada em si mesma, mas aberta ao Reino de Deus. Eis porque não se podem justificar o desespero nem o pessimismo, quando se pensa no futuro da África ou de qualquer outra parte do mundo. Colegialidade afectiva e efectiva 15. Antes de entrar na explanação dos vários argumentos, queria pôr em relevo como o Sínodo dos Bispos constitui um instrumento verdadeiramente propício para favorecer a comunhão eclesial. Quando, quase no final do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI, de veneranda memória, instituiu o Sínodo, indicou claramente que uma das suas finalidades essenciais haveria de ser a de exprimir e promover, sob a guia do Sucessor de Pedro, a comunhão recíproca dos Bispos dispersos pelo mundo.15 O princípio subjacente à instituição do Sínodo dos Bispos é simples: quanto mais firme for a comunhão dos Bispos entre si, tanto mais rica se revelará a comunhão da própria Igreja no seu conjunto. A Igreja em África é testemunha da verdade destas palavras, porque fez a experiência do entusiasmo e dos resultados concretos que acompanharam os preparativos da Assembleia do Sínodo dos Bispos a ela dedicada. 16. Por ocasião do meu primeiro encontro com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos, que se reunira tendo em vista a Assembleia Especial para a África, indiquei a razão pela qual pareceu oportuno convocar esta Assembleia: a promoção de « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».16 Com esta expressão, pretendia abraçar os intuitos e objectivos principais para os quais se deveria orientar a dita Assembleia. Para esclarecer ainda melhor as minhas expectativas, acrescentei que as reflexões preparatórias da Assembleia deveriam abarcar « todos os aspectos importantes da vida da Igreja em África e, em particular, deveriam abranger a evangelização, a inculturação, o diálogo, a solicitude pastoral no campo social e os meios de comunicação social ».17 17. Durante as minhas visitas pastorais a África, frequentemente me referi à Assembleia Especial e aos principais objectivos para que fora convocada. Quando tomei parte, pela primeira vez em terra africana, numa reunião do Conselho do Sínodo, não deixei de sublinhar a minha convicção de que uma Assembleia Sinodal não pode reduzir-se a uma consulta sobre argumentos práticos. A sua verdadeira razão de ser está no facto de a Igreja não poder crescer senão reforçando a comunhão entre os seus membros, a começar pelos seus Pastores.18 Cada Assembleia Sinodal manifesta e desenvolve a solidariedade entre os responsáveis das Igrejas particulares no cumprimento da sua missão para além dos confins das respectivas dioceses. Como ensinou o Concílio Vaticano II, « os Bispos, como legítimos sucessores dos Apóstolos e membros do colégio episcopal, considerem-se unidos sempre entre si e mostrem-se solícitos de todas as Igrejas, pois cada um, por instituição divina e por exigência do múnus apostólico, é responsável por toda a Igreja, juntamente com os outros Bispos ».19 18. O tema que confiei à Assembleia Especial « A Igreja em África e a sua missão evangelizadora rumo ao ano 2000: "Vós sereis minhas testemunhas" (Act 1,8) » manifesta o meu desejo de que esta Igreja viva o tempo que falta até ao Grande Jubileu como um « novo Advento », tempo de expectativa e de preparação. De facto, considero a preparação para o ano 2000 como uma das chaves de interpretação do meu Pontificado.20 As Assembleias Sinodais que se sucederam neste arco de quase trinta anos as Assembleias Gerais e as Especiais continentais, regionais ou nacionais colocam-se todas nesta perspectiva de preparação do Grande Jubileu. O facto de a evangelização ser o tema de todas estas Assembleias Sinodais indica quão viva seja hoje na Igreja a consciência da missão salvífica recebida de Cristo. Esta tomada de consciência manifesta-se, com singular evidência, nas Exortações Apostólicas pós-sinodais dedicadas à evangelização, à catequese, à família, à penitência e à reconciliação na vida da Igreja e da humanidade inteira, à vocação e missão dos leigos, à formação dos presbíteros. Em plena comunhão com a Igreja Universal 19. Desde o início da preparação da Assembleia Especial que tive bem vivo o desejo, plenamente compartilhado pelo Conselho da Secretaria Geral, de fazer com que este Sínodo fosse autêntica e inequivocamente africano. Mas, simultaneamente, era de importância fundamental que a Assembleia Especial fosse celebrada em plena comunhão com a Igreja Universal. E, de fa- cto, a Assembleia sempre teve em consideração a Igreja Universal. Reciprocamente, quando chegou o momento de publicar os Lineamenta, não deixei de convidar os meus Irmãos no Episcopado e todo o Povo de Deus, espalhado pelo mundo, a recordarem na oração a Assembleia Especial para a África e a sentirem-se implicados nas actividades promovidas em ordem a tal acontecimento. Esta Assembleia, como frequentemente tive ocasião de afirmar, reveste uma notável importância para a Igreja Universal, não só por causa do interesse que a sua convocação suscitou por todo o lado, mas também pela natureza mesma da comunhão eclesial, que transcende qualquer fronteira de tempo e espaço. De facto, a Assembleia Especial inspirou muita oração e boas obras, pelas quais os fiéis e as comunidades da Igreja nos outros continentes acompanharam o desenrolar do Sínodo. E como duvidar de que, no mistério da comunhão eclesial, tenham vindo também em apoio dele as orações dos Santos no Céu? Quando estabeleci que a primeira fase dos trabalhos da Assembleia Especial tivesse lugar em Roma, fi-lo para sublinhar mais eloquentemente ainda a comunhão que liga a Igreja que está em África à Igreja Universal, de modo a evidenciar o empenho de todos os fiéis a favor da África. 20. A solene concelebração eucarística de abertura do Sínodo, que presidi na Basílica de S. Pedro, pôs em relevo de modo maravilhoso e emocionante a universalidade da Igreja. Esta universalidade, « que não é uniformidade, mas comunhão de diferenças compatíveis com o Evangelho »,21 foi vivida por todos os Bispos. Todos eles, enquanto membros do corpo episcopal que sucede ao Colégio Apostólico, tinham consciência de terem sido consagrados não só em benefício duma diocese, mas para a salvação do mundo inteiro.22 Dou graças a Deus Todo-Poderoso pela ocasião que nos deu de experimentar, por meio da Assembleia Especial, o que comporta uma autêntica catolicidade. « Em virtude desta mesma catolicidade, cada uma das partes traz às outras e a toda a Igreja os seus dons particulares ».23 Uma mensagem pertinente e credível 21. Segundo os Padres Sinodais, a questão principal que a Igreja em África deve enfrentar, consiste em descrever, com toda a clareza possível, aquilo que ela tem de ser e realizar em plenitude, para que a sua mensagem seja pertinente e credível.24 Todos os debates na Assembleia fizeram referência a esta exigência, verdadeiramente essencial e fundamental, um autêntico desafio para a Igreja em África. É verdade, sem dúvida, « que o Espírito Santo é o agente principal de evangelização: é Ele que impele a anunciar o Evangelho, como é Ele que, no íntimo das consciências, leva a aceitar a Palavra da salvação ».25 Mas, uma vez reafirmada esta verdade, a Assembleia Especial quis justamente acrescentar que a evangelização é também uma missão que o Senhor Jesus confiou à sua Igreja, sob a guia e a força do Espírito Santo. É necessária a nossa cooperação através da oração fervorosa, duma grande reflexão, de projectos adequados e da mobilização de todos os recursos.26 O debate sinodal sobre o tema da pertinência e credibilidade da mensagem da Igreja em África não podia deixar de implicar uma reflexão sobre a credibilidade dos próprios arautos dessa mensagem. Os Padres enfrentaram a questão de modo directo, com profunda sinceridade, sem qualquer indulgência. Disto se ocupara já o Papa Paulo VI que, com palavras memoráveis, recordara: « Ouve-se repetir, com frequência hoje em dia, que este nosso século tem sede de autenticidade. A propósito dos jovens, sobretudo, afirma-se que eles têm horror ao fictício, àquilo que é falso, e que procuram, acima de tudo, a verdade e a transparência. Estes sinais dos tempos deveriam encontrar-nos vigilantes. Tacitamente ou em altos brados, mas sempre com grande vigor, eles fazem-nos a pergunta: acreditais verdadeiramente naquilo que anunciais? Viveis aquilo em que acreditais? Pregais vós verdadeiramente aquilo que viveis? Mais do que nunca, portanto, o testemunho da vida tornou-se uma condição essencial para a eficácia profunda da pregação. Sob este ângulo, somos, até certo ponto, responsáveis pelo avanço do Evangelho que nós proclamamos ».27 Eis porque, referindo-me à missão evangelizadora da Igreja no campo da justiça e da paz, afirmei: « A Igreja está consciente, hoje mais que nunca, de que a sua mensagem social encontrará credibilidade primeiro no testemunho das obras e só depois na sua coerência e lógica interna ».28 22. Como não recordar, aqui, que já a oitava Assembleia Plenária do S.C.E.A.M., realizada em Lagos, na Nigéria, no ano 1987, tinha examinado, com notável clareza, a questão da credibilidade e pertinência da mensagem da Igreja em África?! A referida Assembleia declarara que a credibilidade da Igreja em África dependia de Bispos e sacerdotes capazes de dar testemunho de uma vida exemplar, seguindo as pegadas de Cristo; de religiosos realmente fiéis, autênticas testemunhas pelo seu modo de viver os conselhos evangélicos; de um laicado dinâmico, com pais profundamente crentes, educadores conscientes das suas responsabilidades, dirigentes políticos animados de profundo sentido moral.29 Família de Deus em caminho sinodal 23. No dia 23 de Junho de 1989, dirigindo-me aos membros do Conselho da Secretaria Geral, falei com grande insistência sobre a participação, na preparação da Assembleia Especial, de todo o Povo de Deus, a todos os níveis, especialmente em África. « Se for bem preparada disse , a Assembleia do Sínodo permitirá envolver todos os níveis da comunidade cristã: indivíduos, pequenas comunidades, paróquias, dioceses e organizações locais, nacionais e internacionais ».30 Desde o início do meu Pontificado até à inauguração da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, pude efectuar dez visitas pastorais ao Continente Africano, abrangendo trinta e seis nações. Por ocasião das viagens apostólicas sucessivas à convocação da Assembleia Especial, os temas do Sínodo e da necessidade de todos os fiéis se prepararem para a Assembleia Sinodal sempre estiveram presentes, de forma saliente, nos meus encontros com o Povo de Deus em África. Vali-me também das visitas ad limina dos Bispos daquele Continente para solicitar a colaboração de todos na preparação da Assembleia Especial para a África. Além disso, em três diferentes ocasiões, realizei, junto com o Conselho da Secretaria Geral do Sínodo, sessões de trabalho em terra africana: em Yamoussoukro na Costa do Marfim (1990), na cidade de Luanda em Angola (1992), e em Kampala no Uganda (1993), sempre com o objectivo de convidar os Africanos a tomarem parte activa e unânime na preparação da Assembleia Sinodal. 24. A apresentação dos Lineamenta em Lomé, a 25 de Julho de 1990, por ocasião da nona Assembleia Geral do S.C.E.A.M., constituiu, sem dúvida, uma etapa nova e importante do caminho preparatório para a Assembleia Especial. Pode-se justamente afirmar que a publicação dos Lineamenta desencadeou decididamente os preparativos do Sínodo, em todas as Igrejas particulares da África. A Assembleia do S.C.E.A.M., em Lomé, adoptou uma Oração pela Assembleia Especial e pediu que fosse rezada, publica e privadamente, em todas as paróquias africanas até à celebração do Sínodo. Esta iniciativa do S.C.E.A.M. foi verdadeiramente feliz e não passou despercebida na Igreja Universal. Em seguida, para favorecer a difusão dos Lineamenta, numerosas Conferências Episcopais e dioceses fizeram traduzir o documento nas suas línguas, como, por exemplo, em suaíle, árabe, malgaxe, e outras línguas. « Publicações, conferências e simpósios sobre os temas do Sínodo foram organizados por diversas Conferências Episcopais, Institutos de Teologia e Seminários, Associações de Institutos de Vida Consagrada, dioceses, alguns jornais e periódicos importantes, Bispos e teólogos ».31 25. Elevo fervorosas acções de graças a Deus Omnipotente pelo cuidado singular com que foram redigidos os Lineamenta e o Instrumentum laboris 32 do Sínodo. Foi um trabalho afrontado e realizado por africanos, Bispos e peritos, a começar da Comissão Preliminar do Sínodo, nos meses de Janeiro a Março de 1989. A Comissão seria, depois, revezada pelo Conselho da Secretaria Geral da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, que fora por mim instituído a 20 de Junho de 1989. Estou profundamente grato, ainda, ao grupo de trabalho que tão bem cuidou as liturgias eucarísticas de abertura e encerramento do Sínodo. Contando entre os seus membros, teólogos, liturgistas e peritos em cânticos e instrumentos africanos de expressão litúrgica, o grupo quis, como era desejo meu, fazer com que aquelas cerimónias fossem marcadas por nítido carácter africano. 26. Agora devo acrescentar que a resposta dos Africanos ao meu apelo a participarem na preparação do Sínodo foi verdadeiramente admirável. O acolhimento reservado aos Lineamenta, tanto dentro como fora das comunidades eclesiais africanas, superou largamente toda e qualquer previsão. Muitas Igrejas locais serviram-se dos Lineamenta para mobilizar os fiéis, e podemos, desde já, afirmar com certeza que os frutos do Sínodo começam a manifestar-se num novo compromisso e numa renovada tomada de consciência por parte dos cristãos da África.33 Ao longo das várias fases de preparação da Assembleia Especial, numerosos membros da Igreja em África clero, religiosos, religiosas, leigos inseriram-se de foram exemplar no itinerário sinodal, « caminhando juntos », pondo cada um os próprios talentos ao serviço da Igreja e rezando juntos fervorosamente pelo bom êxito do Sínodo. Mais de uma vez, os Padres do Sínodo assinalaram, ao longo da Assembleia Sinodal, que o seu trabalho fora facilitado precisamente pela « preparação solícita e minuciosa deste Sínodo, realizada com o envolvimento activo da Igreja em África, a todos os níveis ».34 Deus quer salvar a África 27. O Apóstolo dos Gentios diz-nos que Deus « quer que todos os homens se salvem e conheçam a verdade. Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem, que Se deu em resgate por todos » (1 Tim 2,4-6). Uma vez que Deus chama todos os homens a um único e mesmo destino, que é divino, « devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido ».35 O amor redentor de Deus abraça a humanidade inteira: toda a raça, tribo e nação; por conseguinte, abraça também as populações do Continente Africano. A Providência divina quis que a África estivesse presente, durante a Paixão de Cristo, na pessoa de Simão de Cirene, obrigado pelos soldados romanos a ajudar o Senhor a levar a Cruz (cf. Mc 15,21). 28. A liturgia do sexto Domingo de Páscoa de 1994, vivida na solene Celebração Eucarística da conclusão da Fase de Trabalho da Assembleia Especial, proporcionou-me a ocasião de desenvolver uma reflexão sobre o desígnio salvífico de Deus a respeito da África. Uma das leituras bíblicas, tirada dos Actos dos Apóstolos, evocava um acontecimento que pode ser considerado como o primeiro passo na missão da Igreja ao encontro dos pagãos: o relato da visita feita por Pedro, sob o impulso do Espírito Santo, à casa de um pagão, o centurião Cornélio. Até àquele momento, o Evangelho fora proclamado sobretudo aos hebreus. Depois de ter hesitado bastante, Pedro, iluminado pelo Espírito, decidiu ir à casa de um pagão. Chegado lá, teve a alegre surpresa de constatar o facto de que o centurião esperava Cristo e o Baptismo. O livro dos Actos dos Apóstolos assim o narra: « Os fiéis circuncisos que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o dom do Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos, pois ouviam-nos falar em línguas e glorificar a Deus » (10,45-46). Em casa de Cornélio, reproduziu-se de algum modo o milagre do Pentecostes. Pedro disse então: « Reconheço, na verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que qualquer nação que O teme e põe em prática a justiça, Lhe é agradável. (...) Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo como nós? » (Act 10,34-35.47). Começou assim a missão da Igreja ad gentes, da qual Paulo de Tarso se tornará o principal arauto. Os primeiros missionários chegados ao coração de África sentiram seguramente uma admiração semelhante à experimentada pelos cristãos dos tempos apostólicos, perante a efusão do Espírito Santo. 29. O desígnio que Deus tem de salvar a África, está na origem da difusão da Igreja neste Continente. Ora, sendo a Igreja, segundo a vontade de Cristo, por sua natureza missionária, segue- -se daí que a Igreja em África é chamada a assumir ela própria um papel activo ao serviço do projecto salvador de Deus. Por isso, disse que « a Igreja em África é Igreja missionária e em missão ».36 A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos teve a missão de examinar os meios pelos quais os Africanos poderão realizar melhor o mandato que o Senhor ressuscitado deu aos seus discípulos: « Ide, pois, ensinai todas as nações » (Mt 28,19). CAPÍTULO II A IGREJA EM ÁFRICA I. Breve história da evangelização no continente 30. No dia da abertura da Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, primeira assembleia do género na história, os Padres Sinodais recordaram algumas das maravilhas operadas por Deus ao longo da evangelização da África. É uma história que remonta à época do próprio nascimento da Igreja. A difusão do Evangelho deu-se em diversas fases. Os primeiros séculos do cristianismo viram a evangelização do Egipto e da África do Norte. Uma segunda fase, envolvendo as regiões daquele Continente situadas ao sul do Saara, teve lugar nos séculos XV e XVI. Uma terceira fase, caracterizada por um extraordinário esforço missionário, teve início no século XIX. Primeira fase 31. Numa mensagem aos Bispos e a todos os povos da África, em ordem à promoção do bem-estar material e espiritual do Continente, o meu venerado predecessor Paulo VI recordou, com palavras memoráveis, o glorioso esplendor do passado cristão da África: « Pensamos nas Igrejas cristãs de África, cuja origem vem dos tempos apostólicos e está ligada, segundo a tradição, ao nome e ensinamento do evangelista Marcos. Pensamos no coro inumerável de santos, mártires, confessores, virgens, que a elas pertencem. Na realidade, desde o século II ao século IV, a vida cristã, nas regiões setentrionais de África, foi intensíssima e esteve na vanguarda, tanto do estudo teológico como da expressão literária. Saltam-nos à memória os nomes dos grandes doutores e escritores, como Orígenes, Santo Atanásio e S. Cirilo, luminares da Escola Alexandrina; e, na outra extremidade mediterrânica da África, Tertuliano, S. Cipriano, e sobretudo Santo Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. Recordemos os grandes santos do deserto, Paulo, Antão e Pacómio, primeiros fundadores do monaquismo, que depois havia de difundir-se a seu exemplo, no Oriente e no Ocidente. E, entre tantos outros, não podemos deixar de mencionar S. Frumêncio, chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado Bispo por Santo Atanásio, foi o apóstolo da Etiópia ».37 Durante estes primeiros séculos da Igreja em África, também algumas mulheres deram testemunho de Cristo. De entre elas, obrigatória é a menção particular das Santas Felicidade e Perpétua, Santa Mónica, e Santa Tecla. « Estes exemplos luminosos e as figuras dos Santos Papas africanos Vítor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao património comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos da África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento histórico da salvação, à luz da Palavra de Deus. Ao recordar as antigas glórias da África cristã, desejaríamos exprimir o nosso profundo respeito pelas Igrejas, com as quais ainda não estamos em plena comunhão: a Igreja Grega do Patriarcado de Alexandria, a Igreja Copta do Egipto e a Igreja da Etiópia, que têm em comum com a Igreja Católica a origem e a herança doutrinal e espiritual dos grandes santos e Padres da Igreja, não somente da sua terra, mas de toda a Igreja Antiga. Elas trabalharam e sofreram muito para manter vivo o nome cristão na África, através das vicissitudes dos tempos ».38 Essas Igrejas dão ainda hoje o testemunho da vitalidade cristã, que elas recebem das suas raízes apostólicas, particularmente no Egipto e na Etiópia, e, até ao século XVII, na Núbia. No resto do Continente, começava então uma nova etapa de evangelização. Segunda fase 32. Nos séculos XV e XVI, a exploração da costa africana pelos portugueses foi rapidamente acompanhada pela evangelização das regiões da África situadas ao sul do Saara. Tal esforço incluía, entre outras zonas, as regiões do actual Benin, S. Tomé, Angola, Moçambique, e Madagáscar. No dia 7 de Junho de 1992, Domingo de Pentecostes, em Luanda, por ocasião da comemoração dos 500 anos da evangelização de Angola, entre outras coisas, afirmei: « Os Actos dos Apóstolos descrevem nominalmente os habitantes dos sítios que tomaram parte directamente no nascimento da Igreja pelo sopro do Espírito Santo. Eis o que todos diziam: "Ouvimo-los anunciar em nossas línguas as maravilhas de Deus" (Act 2,11). Há quinhentos anos, a este coro de línguas vieram-se juntar os povos de Angola. Naquele instante, na vossa pátria africana, renovou-se o Pentecostes de Jerusalém. Os vossos antepassados ouviram a mensagem da Boa Nova, que é a língua do Espírito. Os seus corações acolheram pela primeira vez esta palavra e inclinaram as suas cabeças nas fontes da água baptismal, onde o homem, por obra do Espírito Santo, morre junto com Cristo crucificado e renasce para uma nova vida na sua ressurreição (...). Foi certamente o mesmo Espírito que impeliu aqueles homens de fé, os primeiros missionários, que em 1491 aportaram à foz do rio Zaire, em Pinda, iniciando uma autêntica epopeia missionária. Foi o Espírito Santo, que age a seu modo no coração de cada homem, que moveu o grande rei do Congo, Nzinga-a-Nkuwu, a pedir missionários para anunciar o Evangelho. Foi o Espírito Santo que animou a vida daqueles quatro primeiros cristãos angolanos que, regressados da Europa, testemunhavam o valor da fé cristã. Depois dos primeiros missionários, muitos outros vieram de Portugal e de outros países da Europa para continuar, ampliar e consolidar a obra começada ».39 Durante esse período, erigiu-se um certo número de sedes episcopais, e uma das primícias deste empenho missionário foi a sagração de D. Henrique filho de D. Afonso I, rei do Congo como bispo titular de Utica, feita em Roma por Leão X, no ano 1518. D. Henrique tornou-se assim o primeiro bispo autóctone da África negra. Foi por aquele tempo, mais concretamente no ano 1622, que o meu predecessor Gregório XV erigiu, de modo estável, a Congregação De Propaganda Fide, com a finalidade de desenvolver e organizar melhor as missões. Por dificuldades de vário género, a segunda fase de evangelização da África terminou no século XVIII com a extinção de quase todas as missões situadas ao sul do Saara. Terceira fase 33. A terceira fase de evangelização sistemática da África começou no século XIX, período caracterizado por um esforço extraordinário, promovido por grandes apóstolos e animadores da missão africana. Foi um período de rápido crescimento, como demonstram claramente as estatísticas apresentadas na Assembleia Sinodal pela Congregação para a Evangelização dos Povos.40 A África respondeu, com grande generosidade, ao chamamento de Cristo. Nestes últimos decénios, numerosos países africanos celebraram o primeiro centenário do início da sua evangelização. O crescimento da Igreja em África, de há cem anos para cá, constitui verdadeiramente um prodígio da graça de Deus. A glória e o esplendor do período contemporâneo da evangelização neste Continente são ilustrados de forma admirável pelos santos que a África moderna deu à Igreja. O Papa Paulo VI pôde exprimir eloquentemente esta realidade, quando canonizou os mártires do Uganda na Basílica de S. Pedro, por ocasião do Dia Mundial das Missões de 1964: « Estes mártires africanos acrescentam ao álbum dos vencedores, chamado Martirológio, uma página ao mesmo tempo trágica e grandiosa, verdadeiramente digna de figurar ao lado das célebres narrações da África Antiga. (...) A África, orvalhada com o sangue destes mártires, que são os primeiros desta nova era (e queira Deus que sejam os últimos tão grande e precioso é o seu holocausto!), a África renasce livre e resgatada ».41 34. A lista dos santos que a África dá à Igreja, lista que é o seu maior título de honra, continua a crescer. Como poderemos deixar de mencionar, entre os mais recentes, Clementina Anwarite, virgem e mártir do Zaire, que beatifiquei em terra africana no ano 1985, Vitória Rasoamanarivo de Madagáscar, e Josefina Bakhita do Sudão, beatificadas também elas durante o meu Pontificado? E como não recordar o Beato Isídoro Bakanja, mártir do Zaire, que tive o privilégio de elevar às honras dos altares durante a Assembleia Especial para a África? « Outras causas vão maturando. A Igreja em África deve providenciar à redacção do seu próprio Martirológio, juntando às magníficas figuras dos primeiros séculos (...) os mártires e os santos das épocas recentes ».42 Defronte ao crescimento admirável da Igreja em África nos últimos cem anos, diante dos frutos de santidade que se obtiveram, não há senão uma explicação possível: tudo isso é dom de Deus, porque nenhum esforço humano teria conseguido realizar semelhante obra, num período relativamente tão breve. Contudo, não há lugar para triunfalismos humanos. Lembrando o glorioso esplendor da Igreja neste Continente, os Padres Sinodais quiseram apenas celebrar as maravilhas operadas por Deus para a libertação e salvação da África. « Tudo isto veio do Senhor, Homenagem aos missionários 35. O crescimento esplendoroso e as realizações da Igreja em África devem-se, em grande parte, à dedicação heróica e desinteressada de gerações de missionários. Isto todos o reconhecem. A terra abençoada da África está literalmente semeada de sepulturas de valorosos arautos do Evangelho. Quando os Bispos da África se encontraram em Roma para a Assembleia Especial, estavam bem conscientes da dívida de gratidão que o Continente tem para com os seus antepassados na fé. No discurso dirigido à primeira Assembleia do S.C.E.A.M., em Kampala, no dia 31 de Julho de 1969, o Papa Paulo VI fez referência a esta dívida de gratidão: « Vós, Africanos, sois já os missionários de vós mesmos. A Igreja de Cristo está verdadeiramente plantada nesta terra abençoada (cf. Decr. Ad gentes, 6). Temos um dever a cumprir: devemos evocar a lembrança daqueles que em África, antes de vós e ainda hoje convosco, pregaram o Evangelho, como nos adverte a Sagrada Escritura: "Lembrai-vos daqueles que vos pregaram a palavra de Deus, considerai o êxito da sua carreira e imitai a sua fé" (Heb 13,7). É uma história que não devemos esquecer, porque confere à Igreja local a nota da sua autenticidade e nobreza a nota "apostólica"; essa história é um drama de caridade, de heroísmo, de sacrifício, que faz grande e santa, desde as origens, a Igreja africana »43 36. A Assembleia Especial satisfez condignamente esta dívida de gratidão, por ocasião da sua primeira Congregação Geral, quando declarou: « Cabe aqui prestar uma vibrante homenagem aos missionários, homens e mulheres de todos os Institutos Religiosos e Seculares, bem como a todos os países que, durante os cerca de 2000 anos de evangelização do Continente Africano, (...) se entregaram devotadamente à transmissão da chama da fé cristã. (...) Eis porque nós, felizes herdeiros dessa aventura maravilhosa, devemos dar graças a Deus, numa circunstância tão solene como esta ».44 Na Mensagem ao Povo de Deus, os Padres Sinodais renovaram com vigor a homenagem aos missionários, sem esquecerem de prestar homenagem também aos filhos e filhas da África, especialmente aos catequistas e aos intérpretes, que colaboraram com eles.45 37. Devido à grande epopeia missionária de que foi palco o Continente Africano, sobretudo durante os últimos dois séculos, é que pudemos encontrar-nos em Roma para celebrar a Assembleia Especial para a África. A semente, que a seu tempo foi lançada, produziu frutos abundantes. Os meus Irmãos no Episcopado, filhos dos povos da África, são disso mesmo um testemunho eloquente. Juntamente com os seus presbíteros, carregam já sobre os ombros grande parte do trabalho de evangelização. Atestam-no também os numerosos filhos e filhas da África, que aderem às antigas Congregações missionárias ou entram nos novos Institutos nascidos em terra africana, recolhendo em suas mãos a chama da consagração total ao serviço de Deus e do Evangelho. Radicação e crescimento da Igreja 38. O facto de o número dos católicos em África, no espaço de quase dois séculos, ter crescido tão rapidamente, constitui por si mesmo um resultado notável sob qualquer ponto de vista. De modo particular, confirmam a consolidação da Igreja no Continente elementos como o sensível e rápido aumento do número das circunscrições eclesiásticas, o crescimento do clero autóctone, dos seminaristas e dos candidatos nos Institutos de Vida Consagrada, a progressiva extensão da rede dos catequistas, cujo contributo para a difusão do Evangelho entre as populações africanas é bem conhecido de todos. Fundamental relevo tem, enfim, a alta percentagem de Bispos nativos que compõem já a Hierarquia no Continente. Os Padres Sinodais registaram numerosos e significativos passos, realizados pela Igreja em África nos campos da inculturação e do diálogo ecuménico.46 As notáveis e meritórias realizações no campo da educação são universalmente reconhecidas. Embora os católicos representem apenas catorze por cento da população africana, as instituições católicas no campo da saúde representam dezassete por cento do total das estruturas sanitárias de todo o Continente. As iniciativas, corajosamente empreendidas pelas jovens Igrejas da África para levar o Evangelho « até aos confins do mundo » (Act 1,8), são seguramente dignas de realce. Os Institutos missionários surgidos em África têm crescido numericamente e começaram já a fornecer pessoal não só para os países do Continente, mas ainda para outras regiões da terra. Sacerdotes diocesanos de África, cujo número está lentamente a crescer, começam a ficar disponíveis por períodos limitados, como presbíteros fidei donum que vão trabalhar noutras dioceses pobres de pessoal, na própria nação ou fora. As províncias africanas dos Institutos Religiosos de direito pontifício, tanto masculinos como femininos, viram também elas aumentar os seus membros. Deste modo, a Igreja coloca-se ao serviço dos povos africanos; além disso, ela aceita entrar no « intercâmbio de dons » com outras Igrejas particulares no âmbito alargado do Povo de Deus. Tudo isto manifesta, de modo tangível, a maturidade alcançada pela Igreja em África: foi isto que tornou possível a celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos. Como se apresenta a África? 39. Há pouco menos de trinta anos, vários países africanos tornavam-se independentes das potências coloniais. Isto suscitou grandes expectativas no que respeita ao progresso político, económico, social e cultural daqueles povos. Apesar de, « nalguns países, a situação interna não se ter ainda infelizmente consolidado e a violência ter tido muitas vezes o predomínio, não se pode admitir uma condenação geral que envolva todo um povo ou toda uma nação, pior ainda, todo um continente ».47 40. Mas qual é, hoje, a situação real do Continente Africano no seu todo, sobretudo do ponto de vista da missão evangelizadora da Igreja? A este propósito, os Padres Sinodais começaram por colocar uma pergunta: « Num continente saturado de más notícias, como poderá a mensagem cristã ser "Boa Nova" para o nosso povo? No meio do desespero que tudo invade, onde estão a esperança e o optimismo que o Evangelho oferece? A evangelização promove muitos dos valores essenciais que tanta falta fazem ao nosso continente: esperança, paz, alegria, harmonia, amor e unidade ».48 Depois de terem justamente sublinhado que a África é um imenso continente com situações muito diversas, pelo que é preciso evitar generalizações tanto na avaliação dos problemas como ao sugerir soluções, a Assembleia Sinodal, com pena, teve de constatar: « Uma situação comum é, sem dúvida, o facto da África estar saturada de problemas: em quase todas as nossas nações existem condições de miséria espantosa, má administração dos poucos recursos disponíveis, instabilidade política e desorientação social. O resultado está à vista: desolação, guerras e desespero. Num mundo controlado pelas nações ricas e poderosas, a África tornou-se praticamente um apêndice sem importância, muitas vezes esquecida e abandonada por todos ».49 41. Segundo muitos Padres Sinodais, a África actual pode ser comparada àquele homem que descia de Jerusalém para Jericó; ele cai nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancada, o abandonaram, deixando-o meio morto (cf. Lc 10,30-37). A África é um continente onde inumeráveis seres humanos homens e mulheres, crianças e jovens jazem, de algum modo, prostrados à margem da estrada, doentes, feridos, indefesos, marginalizados e abandonados. Têm extrema necessidade de bons Samaritanos que venham em sua ajuda. Eu faço votos de que a Igreja continue paciente e incansavelmente a sua obra de bom Samaritano. Na verdade, regimes, hoje desaparecidos, sujeitaram, durante um longo período, os Africanos a dura prova, enfraquecendo a sua capacidade de reacção: o homem ferido deve recobrar todos os recursos da sua humanidade. Os filhos e filhas de África têm necessidade de presença respeitadora e de solicitude pastoral, que os ajude a retomarem as suas próprias energias para colocá-las ao serviço do bem comum. Valores positivos da cultura africana 42. Apesar das suas grandes riquezas naturais, a África permanece numa situação económica de pobreza. Possui, todavia, uma rica variedade de valores culturais e de inestimáveis qualidades humanas, que pode oferecer às Igrejas e à humanidade inteira. Os Padres Sinodais puseram em evidência alguns desses valores culturais, que constituem seguramente uma preparação providencial à transmissão do Evangelho; são valores que podem favorecer uma evolução positiva na dramática situação do Continente, e dar início àquela reanimação global de que depende o desejado progresso das diversas nações. Os Africanos têm um profundo sentido religioso, o sentido do sagrado, o sentido da existência de Deus criador e de um mundo espiritual. A realidade do pecado, nas suas formas individuais e sociais, é bem percebida pela consciência daqueles povos, como sentida é também a necessidade de ritos de purificação e expiação. 43. Na cultura e na tradição africana, o papel da família é considerado por todo o lado como fundamental. Aberto a este sentido da família, do amor e respeito pela vida, o africano ama os filhos, que são recebidos alegremente como um dom de Deus. « Os filhos e filhas de África amam a vida. É precisamente o amor pela vida que os leva a atribuir tão grande importância à veneração dos antepassados. Eles crêem instintivamente que os mortos continuam a viver e permanecem em comunhão com eles. Não é isto, de algum modo, uma preparação à fé na comunhão dos Santos?! Os povos da África respeitam a vida desde que é concebida até nascer. Alegram-se com esta vida. Rejeitam a ideia de que ela possa ser aniquilada, mesmo quando a isso quereriam induzi-los as chamadas "civilizações avançadas". E as práticas hostis à vida são-lhes impostas por meio de sistemas económicos ao serviço do egoísmo dos ricos ».50 Os Africanos demonstram respeito pela vida até ao seu termo natural, e reservam um lugar no seio da família para os anciãos e os parentes. As culturas africanas têm um sentido muito vivo da solidariedade e da vida comunitária. Em África, não se concebe uma festa que não seja compartilhada por toda a povoação. De facto, a vida comunitária nas sociedades africanas é expressão da família alargada. Com votos ardentes, rezo e peço para rezarem a fim de que a África conserve sempre esta preciosa herança cultural e para que não sucumba nunca à tentação do individualismo, tão estranho às suas melhores tradições. Algumas opções dos povos africanos 44. Sem minimizar de forma alguma os aspectos trágicos da situação africana, atrás evocados, vale a pena lembrar aqui algumas realizações positivas dos povos do Continente, que merecem ser louvadas e encorajadas. Na sua Mensagem ao Povo de Deus, os Padres Sinodais recordaram com alegria, por exemplo, a instauração do processo democrático em muitos países africanos, e fizeram votos de que tal se consolide, e sejam rapidamente afastados os obstáculos e resistências ao Estado de direito, graças à colaboração de todos os protagonistas e ao seu sentido do bem comum.51 Os « ventos de mudança » sopram vigorosamente em muitos lugares do Continente, e o povo pede, com insistência cada vez maior, o reconhecimento e a promoção dos direitos e liberdades do homem. A tal propósito, assinalo com satisfação que a Igreja em África, fiel à sua vocação, se coloca decididamente ao lado dos oprimidos, dos povos sem voz e marginalizados. Encorajo-a firmemente a que continue a prestar tal testemunho. A opção preferencial pelos pobres é « uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a tradição da Igreja. (...) A estimulante preocupação pelos pobres os quais, segundo a fórmula significativa, são "os pobres do Senhor" deve traduzir-se, a todos os níveis, em actos concretos até chegar decididamente a uma série de reformas necessárias ».52 45. Não obstante a sua pobreza e os poucos meios de que dispõe, a Igreja em África reveste um papel de primeiro plano no que respeita ao desenvolvimento humano integral; as suas notáveis realizações neste campo gozam frequentemente do reconhecimento dos Governos e dos peritos internacionais. A Assembleia Especial para a África exprimiu profunda gratidão a « todos os cristãos e a todos os homens de boa vontade que trabalham, nos campos da assistência e da promoção, com a nossa Cáritas ou as nossas organizações de desenvolvimento ».53 A assistência que eles, como bons Samaritanos, dão às vítimas africanas das guerras e catástrofes, aos refugiados e deslocados, merece admiração, reconhecimento e apoio da parte de todos. Por fim, tenho de exprimir viva gratidão à Igreja em África pelo papel que ela desempenhou, ao longo dos anos, a favor da paz e da reconciliação, em numerosas situações de conflito, perturbação política ou guerra civil. II. Problemas actuais da Igreja em África 46. Os Bispos da África têm pela frente duas questões essenciais: como há-de a Igreja levar por diante a sua missão evangelizadora neste aproximar-se do ano 2000? Como poderão os cristãos africanos tornar-se testemunhas cada vez mais fiéis do Senhor Jesus? Para oferecer respostas adequadas a tais questões, os Bispos, antes e durante a Assembleia Especial, passaram em revista os principais desafios que a comunidade eclesial africana tem hoje de enfrentar. Evangelização em profundidade 47. O primeiro e fundamental dado, posto em evidência pelos Padres Sinodais, é a sede de Deus dos povos africanos. Para não desiludirem semelhante expectativa, os membros da Igreja devem, antes de mais nada, aprofundar a sua fé.54 Com efeito, a Igreja, precisamente porque é evangelizadora, deve « começar por se evangelizar a si mesma ».55 Importa que ela assuma o desafio contido neste « mesmo tema: a Igreja que se evangeliza por uma conversão e uma renovação constante, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade ».56 O Sínodo assinalou a urgência de proclamar a Boa Nova, na África, a milhões de pessoas ainda não evangelizadas. Certamente a Igreja respeita e estima as religiões não cristãs, professadas por tantas e tantas pessoas no Continente Africano, pois elas constituem a expressão viva da alma de largos sectores da população; todavia « nem o respeito e a estima para com essas religiões, nem a complexidade dos problemas levantados são para a Igreja um motivo para ela calar, diante dos não cristãos, o anúncio de Jesus Cristo. Pelo contrário, ela pensa que essas multidões têm o direito de conhecer as riquezas do mistério de Cristo (cf. Ef 3,8), nas quais nós acreditamos que toda a humanidade pode encontrar, numa plenitude inimaginável, tudo aquilo que ela às apalpadelas procura a respeito de Deus, do homem, do seu destino, da vida e da morte, da verdade ».57 48. Com razão, afirmam os Padres Sinodais que « o profundo interesse por uma inculturação verdadeira e equilibrada do Evangelho se torna necessário para evitar a confusão e a alienação na nossa sociedade, a braços com uma rápida evolução ».58 Durante a visita ao Malawi, eu mesmo tive ocasião de dizer: « Proponho-vos hoje um desafio o desafio a rejeitardes um modo de viver que não corresponda às vossas melhores tradições locais e à vossa fé cristã. Muitos na África olham para além da África, para a chamada "liberdade do modo moderno de viver". Hoje exorto-vos calorosamente a olhar para vós mesmos. Vede as riquezas das vossas tradições, olhai a fé que celebramos nesta Assembleia. Haveis de encontrar aqui a liberdade genuína; aqui encontrareis Cristo que vos guiará para a verdade ».59 Superação das divisões 49. Outro desafio, evidenciado pelos Padres Sinodais, refere-se às diversas formas de divisão, que se hão-de resolver com a prática sincera do diálogo.60 Justamente foi assinalado que a coexistência de grupos étnicos, tradições, línguas e mesmo religiões diversas, dentro das fronteiras herdadas das potências coloniais, encontra frequentemente obstáculos, devido a graves hostilidades recíprocas. « As oposições tribais põem por vezes em perigo se não a paz, pelo menos a consecução do bem comum da sociedade no seu conjunto, e criam também dificuldades para a vida das Igrejas e o acolhimento dos Pastores de outras etnias ».61 Eis porque a Igreja em África se sente interpelada pelo preciso dever de reduzir tais fracturas. Também sob este ponto de vista, a Assembleia Especial sublinhou a importância do diálogo ecuménico com as outras Igrejas e comunidades eclesiais, e ainda do diálogo com a religião tradicional africana e com o islamismo. Os Padres interrogaram-se, ainda, sobre os meios possíveis para alcançar essa meta. Matrimónio e vocações 50. Um desafio importante, sublinhado quase unanimamente pelas Conferências Episcopais da África nas respostas aos Lineamenta, concerne ao matrimónio cristão e à vida familiar.62 A importância do valor em causa é altíssima: de facto, « o futuro do mundo e da Igreja passa através da família ».63 Outra tarefa fundamental, que a Assembleia Especial pôs em evidência, é o cuidado pelas vocações ao sacerdócio e à vida consagrada: importa discerni-las com sabedoria, fazê-las acompanhar por formadores capazes, controlar a qualidade da formação oferecida. Da solicitude empregue na solução deste problema, depende a realização da esperança de um florescimento de vocações missionárias africanas, à medida das exigências do anúncio do Evangelho em toda a parte do Continente e ainda para além dos seus confins. Dificuldades sócio-políticas 51. « Na África, a necessidade de aplicar o Evangelho à vida concreta é muito sentida. Como se poderia anunciar Cristo naquele imenso continente, esquecendo que é uma das áreas mais pobres do mundo? Como se poderia deixar de ter em consideração a história feita de sofrimentos de uma terra, onde muitas nações se debatem ainda hoje com a fome, a guerra, as tensões raciais e tribais, a instabilidade política e a violação dos direitos humanos? Tudo isto constitui um desafio para a evangelização ».64 Todos os documentos preparatórios, bem como os debates no decorrer da Assembleia, puseram largamente em evidência o facto de fazerem parte dos desafios fundamentais examinados pelo Sínodo questões como o aumento da pobreza em África, a urbanização, a dívida internacional, o comércio das armas, o problema dos refugiados e deslocados, os problemas demográficos e as ameaças que pesam sobre a família, a emancipação das mulheres, a propagação da SIDA, a sobrevivência em alguns lugares da prática da escravatura, o etnocentrismo e as oposições tribais. Intromissão dos mass-media 52. Por fim, a Assembleia Especial ocupou-se dos meios de comunicação social questão de enorme importância, dado que se trata simultaneamente de instrumentos de evangelização e de meios de difusão de uma nova cultura que precisa de ser evangelizada.65 Os Padres Sinodais constataram a triste realidade de que « os países em vias de desenvolvimento, em vez de se transformarem em nações autónomas, preocupadas com a própria caminhada para a justa participação nos bens e nos serviços destinados a todos, tornam-se peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca. Isto verifica-se com frequência também no domínio dos meios de comunicação social, os quais, sendo na sua maior parte geridos por centros situados na parte norte do mundo, nem sempre têm na devida conta as prioridades e os problemas próprios desses países e não respeitam a sua fisionomia cultural; e não é raro eles imporem, pelo contrário, uma visão deformada da vida e do homem, deixando assim de corresponderem às exigências do verdadeiro desenvolvimento ».66 III. Formação dos obreiros da evangelização 53. Com que recursos conseguirá a Igreja em África responder aos desafios agora mencionados? « O mais importante recurso, depois da graça de Cristo, é o seu povo. O Povo de Deus tomado no sentido teológico da Lumen gentium, um povo que abrange os membros do Corpo de Cristo na sua totalidade recebeu o mandato, que é ao mesmo tempo uma honra e um dever, de proclamar a mensagem evangélica. (...) A comunidade inteira precisa de ser preparada, motivada e reforçada em ordem à evangelização, cada qual segundo a sua função específica no seio da Igreja ».67 Por isso, o Sínodo pôs fortemente a tónica sobre a formação dos obreiros da evangelização em África. Lembrei já a necessidade da formação condigna dos candidatos ao sacerdócio e de quantos são chamados à vida consagrada. A Assembleia prestou a devida atenção também à formação dos fiéis leigos, reconhecendo o seu papel insubstituível na evangelização da África. Em particular e justamente, acentuou-se a formação dos catequistas leigos. 54. Impõe-se aqui uma última pergunta: a Igreja em África formou suficientemente os leigos para assumirem, com competência, as suas responsabilidades civis e para considerarem os problemas de ordem sócio-política à luz do Evangelho e da fé em Deus? Este é seguramente um dever que interpela os cristãos: exercer sobre o tecido social uma influência que leve a transformar não só as mentalidades, mas também as próprias estruturas da sociedade, de modo que aí se espelhem melhor os desígnios de Deus acerca da família humana. Por isso mesmo, invoquei para os leigos uma formação completa que os ajude a levar uma vida plenamente coerente. A fé, a esperança e a caridade não podem deixar de orientar o comportamento do autêntico discípulo de Cristo, em toda a sua actividade, situação e responsabilidade. Visto que evangelizar significa « levar a Boa Nova a todas as parcelas da humanidade, em qualquer meio e latitude, e pelo seu influxo transformá-las a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade »,68 os cristãos devem ser formados para viver as implicações sociais do Evangelho, de tal modo que o seu testemunho se torne um desafio profético perante tudo aquilo que lese o verdadeiro bem dos homens e mulheres da África ou de qualquer outro continente. CAPÍTULO III EVANGELIZAÇÃO E INCULTURAÇÃO Missão da Igreja 55. « Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura » (Mc 16,15): tal é o mandato que Jesus ressuscitado, antes de subir ao Pai, deixou aos Apóstolos. « E eles, partindo, foram pregar por toda a parte » (Mc 16,20). « A tarefa de evangelizar todos os homens constitui a missão essencial da Igreja. (...) Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar ».69 Nascida da acção evangelizadora de Jesus e dos Doze, a Igreja é, por sua vez, « depositária da Boa Nova que há-de ser anunciada (...). A Igreja começa por se evangelizar a si mesma ». Depois, « a própria Igreja envia evangelizadores. É ela que coloca em seus lábios a Palavra que salva ».70 Como o Apóstolo dos Gentios, a Igreja pode dizer: « Se anuncio o Evangelho (...), é uma obrigação que me foi imposta: ai de mim se não evangelizar! » (1 Cor 9,16). A Igreja anuncia a Boa Nova não só através da proclamação da palavra que recebeu do Senhor, mas também mediante o testemunho de vida, pelo qual os discípulos de Cristo dão razão da fé, da esperança e do amor que neles existe (cf. 1 Ped 3,15). Este testemunho que o cristão presta a Cristo e ao Evangelho pode ir até ao sacrifício supremo: o martírio (cf. Mc 8,35). Na verdade, a Igreja e o cristão anunciam Aquele que é « sinal de contradição » (Lc 2,34). Proclamam « Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios » (1 Cor 1,23). Como já disse atrás, para além dos mártires ilustres dos primeiros séculos, a África pode gloriar-se dos seus mártires e santos da época moderna. A evangelização tem como finalidade « transformar a partir de dentro e tornar nova a própria humanidade ».71 No Filho Unigénito e por meio d'Ele, serão renovadas as relações dos homens com Deus, com os outros homens, e com toda a criação. Por isso, o anúncio do Evangelho pode contribuir para a transformação interior de todas as pessoas de boa vontade, que têm o coração aberto à acção do Espírito Santo. 56. Testemunhar o Evangelho com a palavra e as obras: eis a incumbência que a Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos recebeu e que agora transmite à Igreja do Continente. « Vós sereis minhas testemunhas » (Act 1,8): o que está em jogo é isto; e estes hão-de ser os frutos do Sínodo em cada âmbito da vida humana em África. Nascida da pregação de corajosos Bispos e sacerdotes missionários, eficazmente ajudados pelos catequistas « esse exército com tantos méritos na obra das missões entre pagãos »72 , a Igreja em África, terra que se tornou « nova pátria de Cristo »,73 é já responsável pela missão no Continente e no mundo: « Africanos, vós sois já missionários de vós mesmos » disse em Kampala o meu predecessor Paulo VI.74 Dado que a grande maioria dos habitantes do Continente Africano não recebeu ainda o anúncio da Boa Nova da salvação, o Sínodo recomenda que sejam estimuladas as vocações missionárias e pede que seja favorecida e activamente apoiada a oferta de orações, sacrifícios e ajudas concretas a favor do trabalho missionário da Igreja.75 Anúncio 57. « O Sínodo recorda que evangelizar é anunciar, pela palavra e pela vida, a Boa Nova de Jesus Cristo, crucificado, morto e ressuscitado, caminho, verdade e vida ».76 À África oprimida por todo o lado por gérmens de ódio e violência, por conflitos e guerras, os evangelizadores devem proclamar a esperança da vida, radicada no mistério pascal. Precisamente quando a sua vida parecia, humanamente falando, condenada à derrota, é que Jesus instituiu a Eucaristia, « penhor da futura glória »,77 para perpetuar no tempo e no espaço a sua vitória sobre a morte. Por isso mesmo, a Assembleia Especial para a África, neste período em que o Continente Africano, sob determinados aspectos, se encontra em condições críticas, quis apresentar-se como « Sínodo da ressurreição, Sínodo da esperança (...): Cristo, nossa Esperança, está vivo, nós viveremos! ».78 A África não está votada à morte, mas destinada à vida! É necessário, portanto, « que a nova evangelização seja centrada no encontro com a pessoa viva de Cristo ».79 « O primeiro anúncio deve ter como meta levar a fazer a experiência inquietante e encantadora de Jesus Cristo, que chama e arrasta atrás de Si numa aventura de fé ».80 Tarefa esta, singularmente facilitada pelo facto de que « o Africano crê em Deus criador a partir da sua vida e da sua religião tradicional. E assim está aberto também à plena e definitiva revelação de Deus em Jesus Cristo, o Deus-connosco, a Palavra feita carne. Jesus, a Boa Nova, é Deus que salva o Africano (...) da opressão e da escravatura ».81 A evangelização deve atingir « o homem e a sociedade em todos os níveis da sua existência. Aquela exprime-se, portanto, em actividades diversas, nomeadamente nas que foram tomadas especificamente em consideração pelo Sínodo: anúncio, inculturação, diálogo, justiça e paz, meios de comunicação social ».82 Para que esta missão tenha êxito pleno, é preciso fazer com que, « na evangelização, seja persistente o recurso ao Espírito Santo, de forma que se realize um contínuo Pentecostes, onde Maria, como no primeiro Pentecostes, tenha o seu lugar ».83 Com efeito, a força do Espírito Santo guia a Igreja para a verdade total (cf. Jo 16,13), e fá-la ir ao encontro do mundo para testemunhar Cristo com resoluta firmeza. 58. A palavra que sai da boca de Deus é viva e eficaz, e nunca volta a Ele sem ter produzido o seu efeito (cf. Is 55,11; Heb 4,12-13). Portanto, é preciso proclamá-la sem cessar, insistir « oportuna e inoportunamente (...), com bondade e doutrina » (2 Tim 4,2). Confiada primariamente à Igreja, a Palavra de Deus escrita « não é de interpretação particular » (2 Ped 1,20); compete à Igreja oferecer a sua autêntica interpretação.84 Para fazer com que a Palavra de Deus seja conhecida, amada, meditada e conservada no coração dos fiéis (cf. Lc 2,19.51), é necessário intensificar os esforços para facilitar o acesso à Sagrada Escritura, sobretudo através de traduções integrais ou parciais da Bíblia, feitas na medida do possível em colaboração com as outras Igrejas e Comunidades eclesiais e acompanhadas por indicações de leituras para a oração, o estudo em família ou em comunidade. Além disso, há que promover a formação bíblica dos membros do clero, dos religiosos, dos catequistas, e dos próprios leigos em geral; predispor adequadas Celebrações da Palavra; favorecer o apostolado bíblico, com a ajuda do Centro Bíblico para a África e Madagáscar e de outras estruturas idênticas que hão-de ser encorajadas a todo o nível. Em resumo, dever-se-á procurar colocar a Sagrada Escritura na mão de todos os fiéis, logo desde a sua infância.85 Urgência e necessidade da inculturação 59. Os Padres Sinodais sublinharam, mais de uma vez, a importância particular que reveste para a evangelização a inculturação, ou seja, aquele processo pelo qual « o ensinamento catequético "se encarna" nas diferentes culturas ».86 A inculturação compreende uma dupla dimensão: por um lado, « a íntima transformação dos valores culturais autênticos pela sua integração no cristianismo » e, por outro, « o enraizamento do cristianismo nas várias culturas ».87 O Sínodo considera a inculturação uma prioridade e uma urgência na vida das Igrejas particulares, para a real radicação do Evangelho em África,88 « uma exigência da evangelização »,89 « uma caminhada rumo a uma plena evangelização »,90 um dos maiores desafios para a Igreja no Continente ao avizinhar-se do terceiro milénio.91 Fundamentos teológicos 60. « Ao chegar a plenitude dos tempos » (Gal 4,4), o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Filho unigénito de Deus, « encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem ».92 É o sublime mistério da Encarnação do Verbo, um mistério que teve lugar na história: em circunstâncias de tempo e lugar bem definidas, no seio de um povo com a sua própria cultura, que Deus tinha escolhido e acompanhado ao longo da história da salvação com o fim de mostrar naquilo que por ele realizava, quanto pretendia fazer por todo o género humano. Prova evidente do amor de Deus pelos homens (cf. Rm 5,8), Jesus Cristo, com a sua vida, com a Boa Nova anunciada aos pobres, com a paixão, morte e gloriosa ressurreição, realizou a remissão dos nossos pecados e a nossa reconciliação com Deus, seu Pai e, graças a Ele, nosso Pai. A Palavra que a Igreja anuncia, é precisamente o Verbo de Deus feito homem, Ele mesmo sujeito e objecto dessa Palavra. A Boa Nova é Jesus Cristo. Tal como « o Verbo Se fez carne e veio habitar entre nós » (Jo 1,14), assim também a Boa Nova, a palavra de Jesus Cristo anunciada às nações, deve entranhar-se no ambiente de vida dos seus ouvintes. A inculturação é precisamente esta inserção da mensagem evangélica nas culturas.93 Com efeito, a encarnação do Filho de Deus, exactamente porque integral e concreta,94 foi também encarnação numa cultura específica. 61. Dada a estreita e orgânica relação que existe entre Jesus Cristo e a palavra que a Igreja anuncia, a inculturação da mensagem revelada não poderá deixar de seguir a « lógica » própria do mistério da Redenção. Com efeito, a Encarnação do Verbo não constitui um momento isolado, mas tende para « a Hora » de Jesus e o mistério pascal: « Se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto » (Jo 12,24). « Eu disse Jesus quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim » (Jo 12,32). Este auto-despojamento, esta kenosi que é necessária para a exaltação itinerário de Jesus e de cada um dos seus discípulos (cf. Flp 2,6-9) é esclarecedora para o encontro das culturas com Cristo e o seu Evangelho. « Cada cultura tem necessidade de ser transfigurada pelos valores do Evangelho à luz do mistério da Páscoa ».95 À luz do mistério da Encarnação e da Redenção é que se deve realizar o discernimento dos valores e contra-valores das culturas. Tal como o Verbo de Deus Se tornou semelhante a nós em tudo, excepto no pecado, assim a inculturação da Boa Nova assume todos os valores humanos autênticos, purificando-os do pecado e restituindo-os ao seu significado pleno. A inculturação mantém ainda laços profundos com o mistério do Pentecostes. Graças à efusão e à acção do Espírito que unifica dons e talentos, todos os povos da terra, ao entrarem na Igreja, vivem um novo Pentecostes, professam em sua língua a única fé em Jesus Cristo e proclamam as maravilhas que o Senhor neles operou. O Espírito, que já no plano natural é fonte originária da sabedoria dos povos, guia com uma iluminação sobrenatural a Igreja para o conhecimento da Verdade total. Por sua vez, a Igreja, assumindo os valores das diversas culturas, torna-se sponsa ornata monilibus suis, a noiva que se adorna com suas jóias (cf. Is 61,10). Critérios e âmbitos da inculturação 62. Trata-se de uma tarefa difícil e delicada, porque está em causa a fidelidade da Igreja ao Evangelho e à Tradição Apostólica, na evolução constante das culturas. Por isso, justamente observaram os Padres Sinodais: « Perante as rápidas transformações culturais, sociais, económicas e políticas, as nossas Igrejas locais deverão trabalhar num processo de inculturação sempre renovado, respeitando os dois critérios seguintes: a compatibilidade com a mensagem cristã e a comunhão com a Igreja Universal. (...) Em todo o caso, ter-se-á o cuidado de evitar qualquer sincretismo ».96 « Enquanto caminhada rumo a uma plena evangelização, a inculturação quer colocar o homem em condições de acolher Jesus Cristo na integridade do próprio ser pessoal, cultural, económico e político, de maneira que ele possa viver uma vida santa, em total união com Deus Pai, sob a acção do Espírito Santo ».97 Ao dar graças a Deus pelos frutos que os esforços de inculturação já trouxeram à vida das Igrejas do Continente, particularmente às antigas Igrejas Orientais de África, o Sínodo recomendou « aos Bispos e às Conferências Episcopais terem presente que a inculturação engloba todos os domínios da vida da Igreja e da evangelização: teologia, liturgia, vida e estruturas da Igreja. Tudo isto realça a necessidade da investigação no domínio das culturas africanas em toda a sua complexidade ». Por isso mesmo, o Sínodo convidou os Pastores « a explorarem ao máximo as inúmeras possibilidades que a disciplina actual da Igreja já oferece a este propósito ».98 Igreja como Família de Deus 63. O Sínodo não se limitou a falar da inculturação, mas aplicou-a concretamente também, assumindo como ideia-chave para a evangelização da África, a noção de Igreja como Família de Deus.99 Nela reconheceram os Padres Sinodais uma expressão da natureza da Igreja, particularmente apropriada para a África. Com efeito, a imagem acentua a atenção pelo outro, a solidariedade, as calorosas relações de acolhimento, de diálogo e de mútua confiança.100 A nova evangelização tenderá, portanto, a edificar a Igreja como família, excluindo todo o etnocentrismo e excessivo particularismo, procurando, pelo contrário, promover a reconciliação e uma verdadeira comunhão entre as diversas etnias, favorecendo a solidariedade e a partilha de recursos e pessoas entre as Igrejas particulares, sem indevidas considerações de ordem étnica.101 « Deseja-se vivamente que os teólogos elaborem a teologia da Igreja-Família com toda a riqueza que nesse conceito se encerra, mostrando a sua complementaridade com outras imagens da Igreja ».102 Isto supõe uma reflexão profunda sobre o património bíblico e tradicional que o Concílio Vaticano II recolheu na Constituição dogmática Lumen gentium. Este admirável documento expõe a doutrina sobre a Igreja, recorrendo a imagens extraídas da Sagrada Escritura, tais como Corpo Místico, povo de Deus, templo do Espírito, rebanho e redil, casa onde Deus habita com os homens. Segundo o Concílio, a Igreja é esposa de Cristo e mãe nossa, cidade santa e primícia do Reino futuro. É necessário ter em conta estas sugestivas imagens ao desenvolver, por proposta do Sínodo, uma eclesiologia centrada no conceito de Igreja-Família de Deus.103 Poder-se-á então apreciar, em toda a sua riqueza e densidade, a afirmação que serve de ponto de partida à Constituição conciliar: « A Igreja, em Cristo, é como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano ».104 Campos de aplicação 64. Na prática, sem prejuízo algum para as tradições próprias de cada Igreja, Latina ou Oriental, « deverá ser continuada a inculturação da liturgia, sob a condição de nada modificar nos elementos essenciais desta, para que o povo fiel possa compreender e viver melhor as celebrações litúrgicas ».105 O Sínodo reafirmou também o princípio de que, mesmo no caso de a doutrina se apresentar dificilmente assimilável não obstante um período longo de evangelização, ou então quando a sua prática puser sérios problemas pastorais sobretudo na vida sacramental, é necessário permanecer fiel ao ensinamento da Igreja e, simultaneamente, respeitar as pessoas na justiça e com verdadeira caridade pastoral. Suposto isto, o Sínodo fez votos de que as Conferências Episcopais, em colaboração com as Universidades e os Institutos Católicos, criem comissões de estudo, sobretudo no que se refere ao Matrimónio, à veneração dos antepassados e ao mundo dos espíritos, com o objectivo de examinar profundamente todos os aspectos culturais dos problemas que se levantem do ponto de vista teológico, sacramental, ritual e canónico.106 Diálogo 65. « A atitude de diálogo é o modo de ser do cristão tanto na comunidade, como com os outros crentes e com os homens e mulheres de boa vontade ».107 O diálogo há-de ser praticado, antes de mais, no seio da Igreja-família, a todos os níveis: entre Bispos, Conferências Episcopais ou Assembleias da Hierarquia e Sé Apostólica, entre as Conferências ou Assembleias Episcopais das várias nações do próprio Continente e as dos outros continentes, e, em cada Igreja particular, entre o Bispo, o presbitério, as pessoas consagradas, os obreiros pastorais e os fiéis leigos; e bem assim entre os diferentes ritos, no seio da própria Igreja. Será preocupação do S.C.E.A.M. dotar-se « de estruturas e meios que assegurem o exercício deste diálogo »,108 especialmente para favorecer uma solidariedade pastoral orgânica. « Unidos a Cristo no seu testemunho em África, os católicos são convidados a desenvolver um diálogo ecuménico com todos os irmãos baptizados das outras Confissões cristãs, a fim de que se realize a unidade pela qual Cristo rezou, de maneira que o seu serviço às populações do Continente torne o Evangelho mais credível aos olhos daqueles e daquelas que procuram a Deus ».109 Esse diálogo poder-se-á concretizar em iniciativas como a tradução ecuménica da Bíblia, o aprofundamento teológico de um ou outro aspecto da fé cristã, ou ainda oferecendo juntos um testemunho evangélico em prol da justiça, da paz e do respeito da dignidade humana. Por isso, procurar-se-á criar comissões nacionais e diocesanas para o ecumenismo.110 Os cristãos são conjuntamente responsáveis pelo testemunho a prestar ao Evangelho no Continente. Os progressos ecuménicos têm também como objectivo dar maior eficácia a esse testemunho. 66. « Este esforço do diálogo deve abranger igualmente todos os muçulmanos de boa vontade. Os cristãos não devem esquecer-se de que muitos muçulmanos procuram imitar a fé de Abraão e viver as exigências do Decálogo ».111 A este propósito, a Mensagem do Sínodo sublinha que o Deus vivo, Criador do céu e da terra e Senhor da história, é o Pai da grande família humana, que formamos. Como tal, Ele quer que Lhe prestemos testemunho no respeito dos valores e das tradições religiosas próprias de cada um, trabalhando juntos pela promoção humana e pelo desenvolvimento a todos os níveis. Longe de pretender ser Alguém em nome do qual se matam outros homens, Ele empenha os crentes a pôrem-se juntos ao serviço da vida, na justiça e na paz.112 Particular atenção, pois, há-de ser dada ao diálogo islâmico-cristão para que respeite, de uma parte e doutra, o exercício da liberdade religiosa com tudo o que isso comporta, nomeadamente as manifestações exteriores e públicas da fé.113 Cristãos e muçulmanos são chamados a empenharem-se na promoção de um diálogo imune dos riscos causados por um falso irenismo ou um fundamentalismo militante, e a levantarem a sua voz contra políticas e práticas desleais, como também contra qualquer falta de reciprocidade no que toca à liberdade religiosa.114 67. Quanto à religião tradicional africana, um diálogo sereno e prudente poderá, por um lado, proteger de influências negativas que, frequentemente, condicionam o modo de viver de muitos católicos, e, por outro, assegurar a assimilação de valores positivos, como a crença num Ser Supremo, Eterno, Criador, Providente e Justo Juiz, que se harmonizam bem com o conteúdo da fé. Podem mesmo ser considerados como uma preparação ao Evangelho, porque contêm preciosas semina Verbi [sementes do Verbo], capazes de levar, como já sucedeu no passado, um grande número de pessoas a « abrir-se à plenitude da Revelação em Jesus Cristo, através da proclamação do Evangelho ».115 Portanto há que olhar com grande respeito e estima quantos seguem a religião tradicional, evitando qualquer palavra inadequada ou irreverente. Com essa finalidade, nas casas de formação sacerdotal e religiosa, hão-de ser dadas oportunas elucidações sobre a religião tradicional.116 Desenvolvimento humano integral 68. O desenvolvimento humano integral desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, especialmente de quem é mais pobre e marginalizado na comunidade tem a ver com o âmago da evangelização. « Entre evangelização e promoção humana, desenvolvimento e libertação, existem, de facto, laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem que há-de ser evangelizado não é um ser abstracto mas antes um ser condicionado pelo conjunto dos problemas sociais e económicos; laços de ordem teológica, porque não se pode nunca dissociar o plano da Criação do plano da Redenção, onde se apontam, para além do mais, situações bem concretas de injustiça que há-de ser combatida, e de justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente evangélica qual é a ordem da caridade: como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo do amor sem promover, na justiça e na paz, o verdadeiro, autêntico desenvolvimento do homem? ».117 Assim, quando inaugurou o ministério público na sinagoga de Nazaré, o Senhor Jesus, para ilustrar a sua missão, escolheu o texto messiânico do livro de Isaías: « O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça do Senhor » (Lc 4,18-19; cf. Is 61,1-2). O Senhor, portanto, considera-Se enviado a aliviar a miséria dos homens e a combater toda a forma de marginalização. Veio libertar o homem; veio assumir as nossas enfermidades e carregar os nossos males: de facto, « todo o ministério de Jesus está ligado à atenção a todos os que, à sua volta, eram afectados pelo sofrimento: pessoas enlutadas, paralíticos, leprosos, cegos, surdos, mudos... (cf. Mt 8,17) ».118 « É impossível aceitar que a obra de evangelização possa ou deva negligenciar os problemas extremamente graves, debatidos sobremaneira hoje em dia, relativos à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo »:119 a libertação, que a evangelização anuncia, « não pode ser limitada à simples e restrita dimensão económica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, o próprio Absoluto de Deus ».120 Justamente afirma o Concílio Vaticano II: « Procurando o seu fim salvífico, a Igreja não se limita a comunicar ao homem a vida divina; mas espalha sobre todo o mundo os reflexos da sua luz, sobretudo enquanto cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a coesão da sociedade e dá um sentido mais profundo à actividade quotidiana dos homens. A Igreja pensa, assim, que, por meio de cada um dos seus membros e por toda a sua comunidade, muito pode ajudar para tornar mais humana a família dos homens e a sua história ».121 A Igreja anuncia e começa a actuar o Reino de Deus seguindo os passos de Jesus, uma vez que « a natureza do Reino é a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus ».122 Deste modo, « o Reino é fonte de libertação plena e de salvação total para os homens: com estes, portanto, a Igreja caminha e vive real e intimamente solidária com a sua história ».123 69. A história dos homens assume o seu sentido mais autêntico na Encarnação do Verbo de Deus, que é o fundamento da dignidade humana recuperada. Por Cristo, « imagem do Deus invisível e primogénito de toda a criação » (Col 1,15), é que o homem foi redimido; melhor, « pela sua Encarnação, o Filho de Deus, uniu-Se de certo modo a cada homem ».124 Como não clamar com S. Leão Magno: « Reconhece, ó cristão, a tua dignidade »?125 Anunciar Cristo é, pois, revelar ao homem a sua dignidade inalienável, que Deus resgatou através da encarnação do seu Filho unigénito. Assim prossegue o Concílio Vaticano II: « Tendo a Igreja, por sua parte, a missão de manifestar o mistério de Deus, último fim do homem, ela descobre ao mesmo tempo ao homem o sentido da sua existência, a verdade profunda acerca dele mesmo ».126 Dotado de uma dignidade tão incomparável, o homem não pode viver em condições infra-humanas de vida social, económica, cultural e política. Está aqui o fundamento teológico da luta pela defesa da dignidade pessoal, pela justiça e a paz social, pela promoção humana, a libertação e o desenvolvimento do homem todo e de todo o homem. E aqui está também a razão pela qual, tendo em conta esta dignidade, o progresso dos povos no âmbito de cada nação e nas relações internacionais deverá realizar-se de maneira solidária, como justamente observava o meu predecessor Paulo VI.127 Nesta perspectiva, ele pôde sentenciar: « O desenvolvimento é o novo nome da paz ».128 Assim, pode-se dizer com justa razão que « o desenvolvimento integral supõe o respeito da dignidade humana, que só pode realizar-se na justiça e na paz ».129 Fazer-se voz dos sem voz 70. Fortalecidos pela fé e a esperança na força salvadora de Jesus, os Padres do Sínodo concluíram os trabalhos, renovando o compromisso de assumirem o desafio de ser instrumentos da salvação nos diversos âmbitos da vida dos povos africanos. « A Igreja declararam deve continuar a cumprir a sua missão profética, e ser voz dos sem voz »,130 a fim de que, por toda a parte, a dignidade humana seja reconhecida a toda a pessoa, e o homem esteja sempre no centro de todos os programas governamentais. O Sínodo « interpela a consciência dos Chefes de Estado e dos responsáveis pela vida pública, para que garantam sempre mais a libertação e o desenvolvimento dos seus povos ».131 Só por tal preço se constrói a paz entre as nações. A evangelização deve promover todas as iniciativas que contribuam para desenvolver e nobilitar o homem na sua existência espiritual e material. Trata-se do desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, considerado não só isoladamente, mas também e de modo especial no horizonte de um progresso solidário e harmonioso de todos os membros de uma nação e de todos os povos da terra.132 Em suma, a evangelização deve denunciar e combater tudo quanto degrada e destrói o homem. « O exercício do ministério da evangelização no campo social, que é um aspecto do múnus profético da Igreja, compreende também a denúncia dos males e das injustiças. Mas convém esclarecer que o anúncio é sempre mais importante do que a denúncia; e esta não pode prescindir daquele, pois é isso que lhe dá a verdadeira solidez e a força da sua motivação mais alta ».133 Meios de comunicação social 71. « Desde sempre, Deus Se caracteriza pelo seu desejo de comunicar. E fá-lo de diversas maneiras. Comunica o ser a toda a criatura, animada ou inanimada. De modo particular com o homem, estabelece relações privilegiadas. "Depois de ter, em diversas ocasiões e de muitas maneiras, falado outrora aos nossos pais pelos profetas, Deus, nestes tempos que são os últimos, falou-nos pelo Filho" (Heb 1,1-2) ».134 O Verbo de Deus é, por sua natureza, palavra, diálogo e comunicação. Ele veio restaurar, por um lado, a comunicação e as relações entre Deus e os homens, e, por outro, as relações dos homens entre si. Os mass-media foram considerados pelo Sínodo sob dois aspectos importantes e complementares: como um universo cultural novo e em expansão, e como um conjunto de meios ao serviço da comunicação. Fundamentalmente eles constituem uma nova cultura que tem a sua linguagem própria e, sobretudo, os seus valores e contra-valores específicos. Por este motivo, têm necessidade, como todas as culturas, de ser evangelizados.135 De facto, em nossos dias, os mass-media constituem por si mesmos não só um mundo à parte, mas uma cultura e uma civilização diversa. E a Igreja é convidada a levar a Boa Nova da salvação também a esse mundo. Os arautos do Evangelho devem, pois, entrar aí para se deixarem permear por essa nova civilização e cultura, com o objectivo de saberem servir-se convenientemente dela. « O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a como se costuma dizer numa "aldeia global". Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais ».136 A formação no uso dos mass-media é, portanto, uma necessidade, não só para quem anuncia o Evangelho, que deve, para além do mais, possuir o estilo da comunicação, mas também para o leitor, o receptor e o telespectador que, preparados para compreenderem o género da comunicação, hão-de saber acolher os dados fornecidos, com discernimento e espírito crítico. Na África, onde a transmissão oral é uma das características da sua cultura, tal formação reveste importância capital. Precisamente este tipo de comunicação deve recordar aos Pastores, especialmente aos Bispos e aos sacerdotes, que a Igreja é enviada para falar, para pregar o Evangelho por palavras e gestos. Por isso, ela não pode calar sob risco de faltar à sua missão, a não ser que, em certas circunstâncias, o próprio silêncio seja já um modo de falar e testemunhar. Portanto, devemos anunciar sempre e em toda a ocasião, oportuna e inoportunamente (cf. 2 Tim 4,2), com o fim de edificar na caridade e na verdade. CAPÍTULO IV NA PERSPECTIVA DO TERCEIRO MILÉNIO CRISTÃO I. Os desafios actuais 72. A Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos foi convocada para dar ocasião à Igreja de Deus, espalhada pelo Continente, de reflectir sobre a sua missão evangelizadora na perspectiva do terceiro milénio e predispor, como tive o cuidado de lembrar, « uma orgânica solidariedade pastoral em todo o território africano e nas ilhas contíguas ».137 Como foi já assinalado, tal missão comporta urgências e desafios, resultantes das profundas e rápidas mudanças nas sociedades africanas e das consequências da consolidação de uma civilização à escala mundial. A necessidade do Baptismo 73. A primeira urgência é, naturalmente, a evangelização. Por um lado, a Igreja deve assimilar e viver cada vez melhor a mensagem de que foi constituída depositária pelo Senhor. Por outro, deve testemunhar e anunciar esta mensagem a quantos ainda não conhecem Jesus Cristo. De facto, foi a pensar neles que o Senhor disse aos Apóstolos: « Ide, pois, ensinai todas as nações » (Mt 28,19). Como sucedeu no Pentecostes, a pregação do querigma tem como finalidade natural levar o ouvinte à metanoia e ao Baptismo: « O anúncio da Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao Evangelho, mediante a fé ».138 Por outro lado, a conversão a Cristo « está conexa com o Baptismo: está-o não só por ser práxis comum da Igreja, mas por vontade de Cristo, que enviou a sua Igreja a fazer discípulos em todas as nações e a baptizá-los (cf. Mt 28,19); está-o ainda por intrínseca exigência da recepção em plenitude da vida nova n'Ele: "Em verdade, em verdade, te digo ensina Jesus a Nicodemos quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3,5). O Baptismo, de facto, regenera-nos para a vida de filhos de Deus; une-nos a Jesus Cristo e unge-nos no Espírito Santo: aquele não é um simples selo da conversão, uma espécie de sinal exterior que a comprova e atesta; mas é o sacramento que significa e opera este novo nascimento do Espírito, instaura vínculos reais e indivisíveis com a Trindade, torna-nos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja ».139 Portanto, um itinerário de conversão que não chegasse ao Baptismo, ter-se-ia detido a meio da estrada. Na verdade, os homens de boa vontade que, sem culpa alguma da sua parte, não são alcançados pelo anúncio evangélico, mas vivem de harmonia com a sua consciência segundo a lei de Deus, serão salvos por Cristo e em Cristo. Para todo o ser humano, de facto, existe sempre em acto o chamamento de Deus, que aguarda ser identificado e acolhido (cf. 1 Tim 2,4). É precisamente para favorecer esse acolhimento que é pedido aos discípulos de Cristo que não se dêem paz enquanto não for levado a todos o feliz anúncio da salvação. Urgência da evangelização 74. Com efeito, está estabelecido que o Nome de Jesus Cristo é o único no qual podemos ser salvos (cf. Act 4,12). Visto que, na África, há milhões de pessoas ainda não evangelizadas, a Igreja encontra-se perante a tarefa, necessária e urgente, de proclamar a Boa Nova a todos, e de levar os que a escutam até ao Baptismo e à vida cristã. « A urgência da actividade missionária deriva da radical novidade de vida, trazida por Cristo e vivida pelos seus discípulos. Esta nova vida é dom de Deus, sendo pedido ao homem que a acolha e desenvolva, se quiser realizar-se segundo a sua vocação integral em conformidade com Cristo ».140 Esta vida nova, na originalidade radical do Evangelho, comporta também rupturas relativamente aos costumes e à cultura de qualquer povo da terra, visto que o Evangelho não será nunca um produto interno de determinado país, mas sempre vem « de fora », vem do Alto. Para os baptizados, o grande desafio permanecerá sempre a coerência de uma existência cristã conforme aos compromissos do Baptismo, que significa morte ao pecado e ressurreição quotidiana para uma vida nova (cf. Rm 6,4-5). Sem tal coerência, dificilmente os discípulos de Cristo poderão ser « sal da terra » e « luz do mundo » (Mt 5,13.14). Se a Igreja em África se empenhar, vigorosa e decididamente, por este caminho, a Cruz poderá ser plantada em toda a parte do Continente para a salvação dos povos que não tenham medo de abrir as portas ao Redentor. Importância da formação 75. Em todos os sectores da vida eclesial, tem capital importância a formação. De facto, ninguém poderá conhecer realmente as verdades de fé que nunca teve oportunidade de aprender, nem será capaz de realizar actos para os quais nunca foi iniciado. Eis porque « a comunidade inteira precisa de ser preparada, motivada e reforçada em vista da evangelização, cada qual segundo a sua função específica no seio da Igreja ».141 Isto aplica-se aos Bispos, aos presbíteros, aos membros dos Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica, aos membros dos Institutos Seculares, e a todos os fiéis leigos. A formação missionária não pode deixar de ocupar um lugar privilegiado. Ela é « obra da Igreja local, com a ajuda dos missionários e dos seus Institutos, bem como dos cristãos das jovens Igrejas. Este trabalho não deve ser visto como marginal, mas sim central na vida cristã ».142 O programa de formação há-de incluir, de modo particular, a preparação dos leigos para desempenharem plenamente o seu papel de animação cristã da ordem temporal (política, cultural, económica, social), que é empenho característico da vocação secular do laicado. A tal propósito, não se há-de deixar de encorajar leigos competentes e motivados a empenharem-se na acção política,143 onde poderão, através de um digno exercício dos cargos públicos, « atender ao bem comum e, ao mesmo tempo, abrir caminho ao Evangelho ».144 Aprofundar a fé 76. A Igreja em África, para ser evangelizadora, deve « começar por se evangelizar a si mesma. (...) Tem necessidade de ouvir sem cessar aquilo que ela deve acreditar, as razões da sua esperança e o mandamento novo do amor. Povo de Deus imerso no mundo, e não raro tentado pelos ídolos, a Igreja precisa de ouvir, incessantemente, proclamar as grandes obras de Deus ».145 Em África, hoje, « a formação da fé (...) fica- -se, muitas vezes, pela fase elementar, e as seitas facilmente se aproveitam desta ignorância ».146 Torna-se, assim, urgente um sério aprofundamento da fé, porque a rápida evolução da sociedade fez surgir novos desafios, ligados particularmente com os fenómenos de desenraizamento familiar, urbanização, desemprego, e ainda com as múltiplas sedu |