Queridos irmãos e irmãs!
Obrigado pelo vosso afecto. Desejo Bom Ano a todos vós! Esta
primeira Audiência geral do novo ano ainda se realiza no clima de Natal, numa
atmosfera que nos convida à alegria pelo nascimento do Redentor. Ao vir ao
mundo, Jesus distribuiu com abundância entre os homens dons de bondade, de
misericórdia e de amor. Quase interpretando os sentimentos dos homens de todos
os tempos, o apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos
concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus" (1 Jo 3, 1).
Quem se detém a meditar diante do Filho de Deus que jaz inerme no presépio não
pode deixar de se sentir surpreendido por este acontecimento humanamente
incrível; não pode não partilhar a admiração e o abandono humilde da Virgem
Maria, que Deus escolheu como Mãe do Redentor precisamente pela sua humildade.
No Menino de Belém cada homem descobre que é gratuitamente amado por Deus; na
luz do Natal manifesta-se a cada um de nós a bondade infinita de Deus. Em Jesus
Pai celeste inaugurou uma nova relação connosco; tornou-nos "filhos no mesmo
Filho". É precisamente sobre esta realidade que, durante estes dias, São
João nos convida a meditar com a riqueza e a profundidade da sua
palavra, da qual ouvimos um trecho.
O Apóstolo predilecto do Senhor ressalta que nós "somos
realmente" (1 Jo 3, 1) filhos: não somos apenas criaturas, mas filhos;
deste modo Deus está próximo de nós; desta forma atrai-nos para si no momento da
sua encarnação, no seu fazer-se um de nós. Por conseguinte pertencemos
verdadeiramente à família que tem Deus como Pai, porque Jesus, o Filho
Unigénito, veio armar a sua tenda no meio de nós, a tenda da sua carne, para
reunir todos os povos numa única família, família de Deus, pertencente realmente
ao Ser divino, unidos num só povo, numa só família. Veio para nos revelar o
verdadeiro rosto do Pai. E se nós agora usamos a palavra de Deus, já não se
trata de uma realidade conhecida apenas de longe. Nós conhecemos o rosto de
Deus: é o do Filho, que veio para tornar mais próximas de nós, da terra, as
realidades celestes. Anota São João: "É nisto que está o amor: não fomos nós
que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou" (1 Jo 4, 10). No Natal
ressoa no mundo inteiro o anúncio simples e perturbador: "Deus ama-nos".
"Nós amamos diz São João porque Ele nos amou primeiro" (1 Jo
4, 19). Este mistério está-nos confiado para que, experimentando o amor divino,
vivamos propensos para as realidades do céu. E isto, digamos, é também a prática
destes dias: viver realmente propensos para Deus, procurando antes de tudo o
Reino e a sua justiça, na certeza de que o resto, tudo o mais nos será dado por
acréscimo (cf. Mt 6, 33). A crescer nesta consciência ajuda-nos o clima
espiritual do tempo do Natal.
A alegria do Natal não nos faz esquecer o mistério do mal (mysterium
iniquitatis), o poder das trevas que tenta obscurecer o esplendor da luz
divina: e, infelizmente, conhecemos todos os dias este poder das trevas. No
prólogo do seu Evangelho, várias vezes proclamado nestes dias, o evangelista
João escreve: "A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam" (1, 5).
É o drama da recusa de Cristo que, como no passado, se manifesta e se expressa,
infelizmente, também hoje de tantas formas diversas. Talvez mais súbdulas e
perigosas sejam as formas de recusa de Deus na era contemporânea: da total
rejeição à indiferença, do ateísmo cientista à apresentação de um Jesus
considerado modernizado e pós-modernizado. Um Jesus homem, limitado de modos
diversos a um simples homem do seu tempo, privado da sua divindade; ou então um
Jesus tão idealizado que parece a personagem de uma fábula.
Mas Jesus, o verdadeiro Jesus da história, é o verdadeiro Deus e
verdadeiro Homem e não se cansa de propor o seu Evangelho a todos, sabendo que é
"sinal de contradição para que sejam revelados os pensamentos de muitos
corações", como profetizou o velho Simeão (cf. Lc 2, 32-33).
Na realidade, só o Menino que jaz no presépio possui o
verdadeiro segredo da vida. Por isso pede para ser acolhido, que se lhe conceda
um espaço em nós, nos nossos corações, nas nossas casas, nas nossas cidades e
nas nossas sociedades. Ressoam no coração e na mente as palavras do prólogo de
João: "A quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus" (1, 12). Procuremos estar entre quantos o recebem.
Diante dele não se pode permanecer indiferente. Também nós, queridos amigos,
devemos tomar continuamente posição.
Qual será então a nossa resposta? Com que atitude o acolhemos?
Vêm em nossa ajuda a simplicidade dos pastores e a busca dos Magos que, através
da estrela, perscrutam os sinais de Deus; servem-nos de exemplo a docilidade de
Maria e a sábia prudência de José. Os mais de dois mil anos de história cristã
estão cheios de exemplos de homens e mulheres, de jovens e adultos, de crianças
e idosos que acreditaram no Mistério do Natal, abriram os braços ao Emanuel
tornando-se com a sua vida faróis de luz e de esperança. O amor que Jesus,
nascendo em Belém, trouxe ao mundo, liga a si quantos o acolhem numa relação
duradoura de amizade e de fraternidade. São João da Cruz afirma: "Deus, ao
dar-nos tudo, isto é, o seu Filho, n'Ele disse tudo. Fixa o olhar unicamente
n'Ele... e encontrarás também mais de quanto pedes e desejas" (Subida ao
monte Carmelo, Livro I, Ep. 22, 4-5).
Queridos irmãos e irmãs, no início deste novo ano reavivemos em
nós o compromisso de abrir a Cristo a mente e o coração, manifestando-lhe
sinceramente a vontade de viver como seus verdadeiros amigos. Assim
tornar-nos-emos colaboradores do seu projecto de salvação e testemunhas daquela
alegria que Ele nos doa para que a difundamos em abundância à nossa volta.
Ajude-nos Maria a abrir o coração ao Emanuel, que assumiu a
nossa pobre e frágil carne para partilhar juntamente connosco o cansativo
caminho da vida terrena. Contudo, em companhia de Jesus, neste caminho de
alegria. Vamos juntamente com Jesus, caminhemos com Ele, e assim o ano novo será
um ano feliz e bom.
Saudações
Saúdo os peregrinos e visitantes de língua inglesa, incluindo as
peregrinações provenientes de Singapura e da América do Norte, de modo especial
os seminaristas de Saint Meinrad School of Theology. Dou especiais boas-vindas
ao grupo proveniente do Colégio Americano de Louvain, que vieram celebrar o 150º
aniversário da sua fundação. Que a paz do Rei recém-nascido encha os vossos
corações, fazendo de vós suas testemunhas no mundo, que Deus vos abençoe
abundantemente ao longo de 2007.
Saúdo com alegria todos os peregrinos e visitantes de língua
alemã. No seu Filho Deus deu-nos tudo. Percorramos juntamente com ele este ano
deixando que a sua amizade e orientação guiem a nossa vida! Desejo a todos vós
bom Ano Novo e boa permanência na cidade de Roma.
Na jubilosa atmosfera de Natal, saúdo cordialmente todos os
Polacos aqui presentes. Com a minha oração abraço o Novo Ano, pedindo a Deus que
seja um tempo de salvação para a Igreja e para o mundo. Maria, Mãe de Deus, nos
ensine a abrir os corações a Jesus, a unir-nos a Ele e a amá-lo todos os dias
sempre mais. Neste Novo Ano abençoo-vos de coração, assim como a todos os vossos
familiares.
Dirijo cordiais boas-vindas aos peregrinos de língua italiana.
Em particular, saúdo as Capitulares da União Santa Catarina de Sena das
Missionárias da Escola, que celebram nestes dias o seu capítulo geral.
Queridas irmãs, o mistério da Encarnação, que meditámos neste tempo litúrgico,
vos conduza a uma fidelidade cada vez mais sólida à vossa missão na Igreja.
Por fim, dirijo-me aos jovens, aos doentes e aos
novos casais. A vós, queridos jovens, desejo que saibais
considerar cada dia como um precioso dom de Deus. O novo ano traga a vós,
queridos doentes, conforto e alívio no corpo e no espírito. E vós,
queridos novos casais, imitando a Sagrada Família de Nazaré, esforçai-vos
por construir todos os dias uma autêntica comunhão de amor.
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Editrice Vaticana